Rest in Peace
Thursday, December 03, 2009
poema à duração
e enloureceram
as tuas cicatrizes multiplicaram-se
e ficaram depois impossiveis de encontrar.
A tua voz foi estremecendo
tornou-se mais firme, sussurrou, tremeu
transformou-se numa melopeia
era o único som na noite de todo o mundo
por fim calou-se, a meu lado
os teus cabelos lisos encresparam-se
os teus olhos claros escureceram
os teus dentes grandes ficaram pequenos
a pele bem esticada dos teus lábios
adquiriu o aspecto de um desenho suave, delicado e macio
no teu queixo sempre liso
descobriram os meus dedos uma depressão que nunca lá estivera
e os nossos corpos em vez de um ao outro fazerem doer
uniram-se fácilmente num só
enquanto na parede do quarto
à luz da lanterna vinda da rua
se moviam as sombras das arbustos dos jardins da europa
as sombras das árvores da américa
as sombras das aves nocturnas de toda a parte.
PETER HANDKE
(M., obrigada por me teres enviado este poema. É lindo!)
Friday, October 09, 2009
BREATHLESS!
Quase todos estão mortos. Posam uma última vez para a fotografia, aquela mesma fotografia que servirá para que aqueles que os amam os possam recordar, ainda vivos (embora mortos),com os seus cães, família, mãe e pai, irmãs, bonecas e uma flor. Enfim, aquelas coisas que os mortos não têm, lá no sítio,chamado terra dos mortos, para onde vão.
Podia, mas não coloco as imagens. No meu cemitério, respeitam-se aqueles que partiram e, embora estes mortos estejam lindos de morrer, não serão aqui exibidos. Que descansem em paz!
Friday, September 11, 2009
Das Parfum : The Girl with the Plums
Raramente um filme consegue ultrapassar um livro, mas este...! Há neste filme momentos de perfeição. A realização é brilhante. A representação é brilhante! O ambiente...a música, a música chega a parecer irreal. É sublime! Jean Baptiste Grenouille é perfeito! Isolar uma cena é difícil, mas esta mulher morta...inerte... estática...bela ...é a melhor! O Perfume - História de um Assassino. Romance, filme, música: GENIAL!! Daqueles filmes que se vêem mil vezes - no mínimo - sempre de garganta apertada, contendo a respiração e admirando, uma e outra vez, a beleza... a imensa beleza!
Tuesday, September 01, 2009
Sunday, August 09, 2009
NÃO TENHAS MEDO DO ESCURO

Claro que não. Não tenho medo do escuro. Tivesse eu medo do escuro, do vazio (ninguém me liga!), da noite, e até dos ladrões, e estava bem arranjada! Por outro lado, não gostasse eu de falar sozinha, dançar sozinha e de fazer grandes orgias livrescas e...estava bem arranjada! Ou seja, começo a falar deste livro, agradecendo as palavras bem intencionadas do título!
Que livro! About death all over! Que surpresa! É um livro que começa com chave de diamante e fecha com chave de diamante. Pelo meio, há portas cujas chaves são de prata, também há bronze...e ouro, também: a chapadona na tromba do homem que era um poema vivo foi uma porta aberta com chave de ouro. Foi de mestre. Deus sabe que ele estava a pedi-las!
Comecei a leitura com algumas ideias sobre o que ia encontrar. Uma obra literária escrita por um professor de Literatura e que, ainda por cima, é meu co-orientador de tese, é dose!! Esperava muito do que está escrito sob o ponto de vista de Edite. Esperava encontrar uma Edite: professora; amante de poesia; culta; bem nascida; doente - não tanto, mas também, a proximidade da morte deve deixar-nos pensativos, sensíveis e atentos. Esperava encontrar aquele ambiente: de cultura; de grande música; de grande poesia. Etc. Mas não esperava, de modo algum, aquilo que faz deste romance algo de único que é... deixa-me cá ver... a sua essência (estou a ser choninhas) . Seja, a sua essência: e qual é ela? A irrealidade!? A ambiguidade!? A paradoxicalidade (?)!? Vejamos, o livro é uma tragédia ou uma comédia? Qual é a mensagem? (OK, parece que já não se usa ver qual é a mensagem) Eu, para ser sincera, depois de o ler e de parar de rir, e de recuperar o fôlego, e de me recompor, cheguei à seguinte conclusão: "Deus afinal parece que existe e morrer é bom!!" Nada que eu não tivesse já intuído. Isto quanto à mensagem! E as personagens? Estão vivas? Estão mortas? Estão delirantes? Estão embriagadas? - Aquele tio bebe e come de mais, e não são só papos de anjo!!- São reais? São imaginárias? Há no mínimo uma que é completamente irreal, ou mesmo surreal: a auxiliar de acção educativa da Escola Secundária de Amarante. Todos os professores do secundário concordarão comigo, ao lerem esta passagem:
« - Venha comigo, senhora doutora, venha comigo. Vou levá-la ao Conselho Executivo: é por aqui, por favor. Por aqui...» (p. 166)
Que tal? Já foram encaminhados assim por alguém? Isto, recordo, quanto a personagens irreais. Claro que há pessoas muito vivaças a passearem-se por aqui e por ali, isto após o seu passamento. Mas isto não sabemos se é da ordem do irreal ou não. Só o saberemos após o nosso próprio passamento! Mas, dizia eu, este romance pretende o quê? Divertir-nos? Consegue fazê-lo. Diz-se na contracapa que «é um romance de mistério, uma homenagem à poesia portuguesa e uma reflexão sobre o valor da vida e o poder da arte.» Mistério, sem dúvida. Todo ele é um mistério! A homenagem à poesia, também. Mais que isso, é uma chamada de atenção para o que é, de facto, poesia, que não tem nada a ver com algumas garatujas que aparecem amiúde como tal. Poesia não é um empilhar de palavras enigmáticas na vertical, nem, tão pouco, uns versos toscos daqueles que fazem sempre rimar mão com coração e tia com melancia. Irritante, a ideia de que todos sabem escrever poesia!! Da última vez que li, no Jornal de Letras, os poemas das novas promessas "do sector", fiquei com os cabelos em pé durante uma semana! Mas, em frente. O poder da arte, concordo. Mas, quanto ao valor da vida, já tenho algumas dúvidas. Não podia ser de outro modo, tendo falado, lá atrás, em ambiguidade. De que valores se fala neste romance? O que acontece verdadeiramente neste romance? Qual é a história? Uma professora que está doente e....(omito informação, não posso dizer tudo),... mas será que ela está mesmo doente, ou está tão doente como o senhor de barbas está... (omito, quem leu sabe o que falta nos espaços!).. ou está tão doente e morreu tanto como a japoneira/ cameleira está fixa no seu lugar, como é próprio das japoneiras! (aqui não omito, porque já se sabe, através da contracapa, que a japoneira andou em bolandas, assim como se sabe que a defunta desapareceu!) Quem estudar o livro vai ter que me contar a história, porque eu li e não a sei contar. ´
Agora para uma coisa totalmente diferente. Eu não esperava um livro cujo tema principal (e único?) fosse a morte! Eu não esperava aqueles incidentes do Pórtico e da Cúpula, ou seja, a primeira e última partes do romance respectivamente. Não esperava aquela agilidade humorística da linguagem, não esperava aquelas personagens excêntricas. A própria Edite, depois de ..., estava tão mais animadinha! Há depois uma série de frases e situações memoráveis... absolutamente do outro mundo. Termino com uma delas.
Começo por esclarecer que, como é dito na contracapa, «um cadáver desaparece». Mas, claro, torna a aparecer. Esse cadáver é o de Edite e o seu tio e irmão esperam-no para lhe fazerem o enterro. A passagem que transcrevo dá conta do estado de espírito do tio e do irmão ao saberem que o corpo foi encontrado:
«Ria-se baixinho, o tio Henrique:
- A Edite voltou da pândega - dizia ele.
E ria-se de novo. Depois assobiava.
Eu acabei por comentar:
_ Se calhar, era melhor não ter voltado.
Pensava eu no caixão - nesse caixão onde ela devia estar: ia dar de caras pela primeira vez com o cadáver da minha irmã. E isso inquietava-me. Talvez por este motivo conduzia eu agora devagar - não com a pressa do início da viagem.
Entretanto, o tio Henrique olhou para mim, antes de declarar:
- Ó Maurício, deixa-a cumprir com os seus deveres de morta, coitada...» (p. 56)
Excelente!
(Magalhães, Gabriel, Não tenhas medo do escuro, Lisboa, Difel, 2009)
Sunday, July 19, 2009
Metrópolis (Fritz Lang; música: Michael Nyman, Time Lapse)
Assim somos, assim nos fazem, assim nos fazemos. Boa matáfora dos tempos que correm, em que, preferencialmente , para nos manipularem, nos despojam de toda a individualidade. Porém, também nós nos aquartelamos no nosso orgulho, no nosso enorme ego, separando-nos por isso dos outros. Fazemos a nossa caminhada cabisbaixos, sós e, pior, sem rumo! A morte, no entanto, aguarda. Ela,e só ela , dará um sentido e porá um fim ao nosso desatino.
Friday, June 26, 2009
Michael Jackson

Estranho, como a notícia da sua morte me abalou. A dele e a de outros. Lembro a morte do vocalista dos Queen. Fui-me abaixo!! Mesmo. Dá para acreditar? No fundo, os chamados amigos, familiares, amados, amantes, aqueles que conhecemos e com quem contactamos ao vivo e a cores, aqueles que tantas vezes enchem a nossa vida de algo parecido a felicidade, são também os que nos desiludem e magoam. Faltam-nos quando precisamos deles e abandonam-nos sem dizer ADEUS! Um belo dia, o dia da nossa angústia e desalento, o dia em que estamos fragilizados, tristes, a gritar AJUDEM-ME!, eles não estão lá, os nossos amigos, familiares, amados, amantes! Mas estão lá os discos, as músicas, os livros, as personagens, os escritores, os filmes, os nossos actores favoritos, as telenovelas, os actores, a televisão, o jornalista que gostamos de ouvir.
Estão lá o Garfield, o Sinhozinho Malta, o José Rodrigues dos Santos, o Peninha, O Jeff Goldbloom, a viúva Porcina, O Carlos da Maia, o Ega, o Zé Carioca, Ravelstein, Mr. Ripley, Gabriel Garcia Marquez, Johnny Depp, Astérix, Berlioz, O conde de Abranhos, Mira Pireza, Tom Jobim, Queen, Hugh Grant, Mr. Bean, o rato Mickey, etc., etc, etc. Estava lá também Michael Jackson, e continuará a estar. Todos eles fazendo-nos companhia com o seu trabalho e com a história das suas próprias vidas. Tudo para nos distrair! Para nos ajudar a passar o tempo. Quando um deles morre, é verdadeiramente o nosso verdadeiro amigo, familiar, amado, amante que morre. É assim que sinto. Por isso, hoje, faço luto. Estou triste. Sinto saudade!
I love you! Rest in Peace :'(
[Clip] Michael Jackson - Leave Me alone
He's dead!
Thank you MJ for your songs, for your voice, for your message.
Thank you for being black! Thank you for being white!
I'm happy you're DEAD( I weep as I write this )! No more decay! No nothing!
REST IN PEACE!!! I love you!

