Rest in Peace

Sunday, October 15, 2017

Nighttrain to Lisbon





A insónia levou-me a procurar um filme já perto da madrugada. Acabei por deparar-me com este. Nem sabia que existia. Já tinha lido o livro no qual se baseia há algum tempo. Mas também já o tinha esquecido. A noite nunca, quase, me desaponta, até na insónia.

Que belo filme! Que bom rever o querido Nicolau Breyner e todos os outros excelentes actores portugueses. E que bom ver Jeremy Irons deambular por Lisboa, belíssima também.

Mais um filme para a lista dos inesquecíveis!

Friday, October 06, 2017

Kazuo Ishiguro, The Remains of the Day


Este ano a Academia deu o prémio a um escritor, como deveria ter feito sempre. Mas a escolha foi tão boa, a meu ver, que se conseguiu redimir das asneiras de anos anteriores.
" Os Despojos do Dia". Conhecia o nome deste romance, que associava apenas ao filme. Quanto ao nome do escritor, não o saberia escrever. Acontece-me também o mesmo com Akira Murakami, se não estou em erro. Mas o nome deste último era-me bem mais familiar. Eu, porém, não tenho grande apetência por escritores que não escrevam em português, inglês, francês ou alemão. Claro que não sabia que Ishiguro é britânico, embora tenha nascido no Japão, e que a sua obra está escrita em inglês. Tudo isto aprendi ontem, posto que fiquei curiosa para saber a quem tinha este ano atribuído a Academia o Nobel. E eis quando me deparo com o título The Remains of the Day. Comprei-o de imediato na Amazon e de imediato o li. Ainda não consegui sair de uma espécie de encantamento em que entrei a partir aí da quarta ou quinta página. É tudo tão bom, de tão bom gosto, tão bem escrito, tão bem estruturado, que parece escrita fácil. A Literatura é isto. É assim que é um romance literário.
Por vezes, quando agarramos num escritor canónico ou respeitado pela crítica académica, temos a sensação de estar em presença de um livro que só é aceite por ser tão intragável. Não vou dar exemplos. Mas posso falar daquela coisa de não haver necessidade de contar uma história, pois só a linguagem importa. Não concordo. Eu quero uma história. E em The Remains of the Day conta-se uma história, uma grandiosa história. Está lá tudo: personagens, tempo, espaço, etc. Quanto à linguagem, é de uma simplicidade que impressiona: não há tiradas retóricas, junção de palavras de grande efeito, enfim, malabarismos linguísticos Há tão somente simplicidade, palavras adequadas para relatar/descrever o que interessa para o desenrolar da acção. Mais nada! Por outro lado, apesar da carga emotiva inerente àquilo que é contado, na primeira pessoa, não se pode "culpar" a escolha de vocabulário específico para emocionar. Tão pouco se pode apontar o dedo ao narrador, que é quase esfíngico.
O que vai tomando conta do leitor é um eco da humana incapacidade de alguns de nós - ou muitos de nós - de agarrar o dia, de criar laços, de deitar a mão àquilo que se nos oferece e agarrar com força, para não deixar fugir. É a omnipresente solidão de tudo aquilo. É a viagem ao encontro de alguém que já não está ao nosso alcance, para dizer adeus, um adeus definitivo, numa tarde de chuva, numa paragem de autocarro, com o guarda-chuva aberto. E depois regressar ao ponto de partida, à casa, quase vazia, a única referência de que algo aconteceu, de que algo foi vivido, apesar de tudo.
Num dos artigos que li sobre este escritor, diz-se que duas das suas referências literárias são Kafka e Jane Austen. Claro que lerei mais livros seus e tentarei procurar neles estas duas referências. Para já, em The Remains, é fácil encontrar Kafka na solidão extrema, quase sem sentido, da personagem principal. Quanto a Jane Austen, está bem patente na elegância da escrita. E na casa, grandiosa, que quase poderia ser Pemberley.    

Imagem: 



Wednesday, September 20, 2017

Leon: The Professional (1994) TRAILER

Leon





Dia indescritível! Mas já acabou. Já posso esquecer tudo - o gozo reiterado, o desrespeito endémico - olhando uma e outra e outra vez Leon e Mathilda.

Tuesday, September 19, 2017

Leon, The Professional




Hoje foi um dia muito longo. Estive sete horas seguidas no meu local de trabalho. Sem comer, claro! Já cheguei há uma hora. Já comi qualquer coisa, já bebi chá. Já deveria estar na cama. Mas não consigo esquecer o filme que descobri acidentalmente no YouTube, e que é um dos meus filmes preferidos. Talvez porque há muito não via ou lia nada que verdadeiramente me entusiasmasse. Com este filme foi diferente. Aliás, os comentários são unânimes: não há como não ficar fascinado.
Foi o que me aconteceu. Já há muito não me emocionava tanto com uma coisa boa. Habituei-me a andar anestesiada, a fazer as coisas de forma rotineira, mecânica, porque tem de ser, a fingir boa disposição, simpatia (eu tento, juro que tento, embora já me tenha esforçado mais), enfim… aquelas coisas indispensáveis à passagem pelo dia e pelos outros. Estava desabituada de me deixar levar por uma história, ou histórias, de deixar que todos os sentimentos viessem ao de cima. Não resisti à relação de afecto entre dois náufragos, um homem e uma menina, à  mistura de violência (muita) e ingenuidade. Não resisti sobretudo ao desempenho notável de todos os actores. Penso que a história por si só não se aguentaria sem Jean Reno – belíssimo, que eu não conhecia -, Natalie Portman – que só conhecia de nome - e Gary Oldman.
O filme durou mais de duas horas, durante as quais me foi impossível desviar os olhos do ecrã. Uma coisa mágica, hipnótica. Perto do fim, antecipando já o final, o espectador está a tentar conter-se, a tentar ser forte, a fazer tudo para não ceder mais ainda do aquilo que já cedeu, posto que está de rastos, com a respiração difícil, a garganta apertada, e então o que acontece, na última cena, na derradeira cena? Como se não bastasse o que se pode ver, começa a ouvir-se devagarinho, baixinho, e depois mais alto e mais nítido,  Shape of My Heart: a canção belíssima de Sting. Não há nada a fazer. É fechar os olhos e deixar acontecer. É exorcizar tudo. Lavar a alma, os olhos, exorcizar as pequenas mas terríveis histórias que nos derrubam todos os dias, apesar do tempo que passou.
Leon e Mathilda: inesquecíveis!

Wednesday, September 13, 2017

Gatos





Não é lindo?

Coisas da noite


Levanto-me diariamente ansiando pela hora de voltar para a minha caminha, para o meu quarto. Nos dias mais agrestes, entro em casa e vou de imediato para o quarto. Antes, claro, tenho de retirar da minha pessoa todo o lixo que se colou a mim durante a triste passagem pelo dia. Difícil é limpar as imagens dentro da cabeça, e a sensação desagradável que vagueia pelo meu corpo. O peito oprimido, a dificuldade de respirar.
Preparo um tabuleiro com alguma coisa boa, um chocolate quente, um chá, uma fatia de bolo, pão com manteiga. Por vezes, não raro, as coisas boas ficam ali, a enfeitar, dada a impossibilidade... enfim, a impossibilidade. Levo também um livro, o computador, o kindle, seja o que for, para esquecer, para me aturdir, para me entorpecer.
Hoje, foi um dia "sui generis", mas banal. Não faz sentido, eu sei. Tudo, porém, se tornou normal nos tempos que correm. Por outro lado, eu já tinha dito que a criatura tinha muita falta de chá. Mas, confesso, não imaginava que fosse possível uma coisa assim, apesar de tudo: a grandessíssima besta! Foram ultrapassados todos os limites do razoável. Da próxima vez, quem sabe, espera-nos um pau de vassoura  pela cabeça abaixo, ou mesmo um clássico de tempos idos: sermos cobertos de alcatrão e penas de galinha. Depois, veio Julieta e Julieta, enfim sós! Que par...
Como, no fundo, não houve novidade, posto que a telenovela mexicana decorreu como era suposto, dada a escassa qualidade das personagens e a falta de novidade do enredo, basta um leitinho e o computador para ver vídeos de gatinhos, gatinhos mesmo, entenda-se, de quatro patas, que é um hábito recente, que espero me passe depressa. É tudo.

Tuesday, September 12, 2017

Santa Apolónia


Dia cheio... de trabalho e tédio. Rever aqueles que me repelem "beyond expression". Sempre as mesmas frases, os mesmos enganos, as caras sérias, sabendo que nada vai acontecer como "previsto", porque nada está previsto, porque é gente que não sabe prever, nem agir, nem decidir. O destino e o tempo colocarão tudo no seu lugar: o lugar errado, ou não, concedo. O acaso encarregar-se-á de tudo encadear dia após dia, mês após mês, até ao novo fim e ao novo recomeço. Vómito!
Final de tarde, anúncio do regresso a casa. Antes, o convívio com aqueles que penso que gostam de mim - surpresa -, que apreciam a minha companhia: obrigada. Contámos histórias, eu recontei coisas, reciclei, ri-me e fiz rir. Por vezes, no entanto, apeteceu-me, em vez de rir, fazer o que é suposto, com as histórias tristes que me assombram.
Estou finalmente em casa. Amanhã, o dia será de novo muito preenchido e muito vazio também. É o último dia antes de tudo começar à séria. Esta será também a última noite menos inquieta, apesar de tudo. Há, antes, que retirar todo o lixo que ficou agarrado a mim, à minha roupa, à minha alma. Depois, espero conseguir dormir o suficiente para poder sonhar. Se tiver sorte, irei à cidade de Santa Apolónia, aquela cidade deserta com uma enorme avenida, a perder de vista, tão larga, que parte está permanentemente sob grande escuridão. O sol não chega lá. Andarei por entre as ruas, à noite, na noite, procurarei um restaurante no qual não conseguirei engolir nada, e terminarei num  quarto de pensão, numa cama gigante deitada lado a lado com uma multidão que não para nunca de entrar, despir e deitar. Foi isso pelo menos que aconteceu da última vez que lá estive. E foi tão bom!
Com sorte, até conseguirei voar, para espreitar pelas janelas das casas silenciosas.