Thursday, February 21, 2019

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade

Imagem: https://www.wikiart.org/en/zdislav-beksinski, consultado 10 Junho, 2018

Wednesday, February 20, 2019

O Silêncio dos Inocentes



Exactamente! É melhor estar calada… ou recorrer ao meu diário de papel. Prepara-te, querido diário: com sorte, sobreviverás à minha raiva. Com falta de sorte, eu sobreviverei também!

Saturday, February 16, 2019

A Madrinha Rosa



… que nao chegou a ser. Era uma pessoa afavel, contida, delicada. E assim que a recordo. Foi assim que sempre a vi. Na ultima vez que estive com ela, pareceu-me um pouco descuidada, ou menos cuidada, na forma de se apresentar. Pensando bem, aconteceu a todas ou pelo menos a maioria das pessoas da aldeia. E o ritmo proprio das coisas invisiveis, daquilo que fica la longe, meio esquecido e, por isso, nao importa a aparencia.  A voz dela, porem, sempre cuidada, baixinha, bem diferente do vozear tipico das gentes das terras paradas em sitio nenhum.
Hoje morreu, descansou finalmente, depois de um longo tempo de arrastamento por hospitais e casas de saude, esses sitios que sao sempre tao humanizados, quando ha que discutir assuntos como o da morte boa. Era a grande amiga da minha mae. Amiga dos tempos antigos, da juventude. Foi a noticia que me acordou do meu sono de sabado. E aqui estou sem fazer nada. Belo pretexto para a imobilidade. Era para ser um dia de muitos afazeres, mas nada farei… E a minha maneira de dizer adeus a madrinha Rosa.



https://www.jooomshaper.com/WDF-336499.html, 12 FEVEREIRO, 2019

Wednesday, February 13, 2019

Sensibilidade e Bom Senso



Uma brincadeira. Era para rir. Não adoeças. Se ficares de atestado. Eu fico também. Mas acha que eu ia "meter" atestado. Disparate! Quem disse isso? Eu acredito em si. Sei que é uma pessoa verdadeira. Nem me lembrava! Está a interpretar mal. Interpretar? Você não gostaria que eu interpretasse. Está a dizer que eu me estou a aproveitar. Não coloque palavras, que eu não disse, na minha boca. Isso não tem qualquer sentido. Melhor. Não aproveitar. Aquilo do outro dia era falta de educação. A falta de educação deixa-a furiosa. A brincalhona furiosa. Abençoada! Pergunto. É ingenuidade? É dissimulação? É parvoíce? É falta de sensibilidade e bom senso. Será isso. E outras coisas também.
Bad days...

Friday, February 08, 2019

Da inutilidade


Todos os dias a fazer a excêntricos. O paradoxal é a declaração vir de quem vem. Por uma vez, senti alívio. Primeiro, porque a génese da coisa já é velha. Segundo, porque tive a oportunidade de dizer o que se impunha cara a cara. O lado positivo de tudo isto é ter recuperado a minha independência. Começava a ser difícil manter um ar de normalidade. Entretanto, continua-se a parasitar ad nauseam aquilo que eu escrevi e, em má hora, decidi partilhar. Copy paste. Pode dizer-se que eu contribuí para a minha própria obsolescência. Pode também dizer-se que foi desta que aprendi. Seria mentira. Não aprendi. Mas isso já não me afecta. Já não me diz nada.

«O anjo era o único que não participava do seu próprio acontecimento.»

GG Marquez, Um homem muito velho com asas muito grandes


Saturday, February 02, 2019

A Chuva na Janela





Um Homem Que Dorme, Georges Perec. Nunca esque ci este livro. Mas tinha-o perdido nas minhas estantes. Todos os homens e mulheres que dormem sabem que dormem assim: não importa nada. Não existe nada. Fica-se na cama, de olhos fechados, à espera. Mas é sabido que ninguém vai chegar. Isso é bom. Faz parte do sono, do torpor absoluto. Depois, sabendo que estamos sozinhos, irremediavelmente sozinhos, começamos a pensar se vale a pena levantar. Mudar o pijama, tomar banho… Logo se vê. Hoje abri a janela. De olhos fechados, é certo, mas abri a janela… 



"Tu as vingt-cinq ans et vingt-neuf dents, trois chemises et huit chaussettes, quelques livres que tu ne lis plus, quelques disques que tu n'écoutes plus. Tu n'as pas envie de te souvenir d'autre chose, ni de ta famille, ni de tes études, ni de tes amours, ni de tes amis, ni de tes vacances, ni de tes projets. Tu as voyagé et tu n'as rien rapporté de tes voyages. Tu es assis et tu ne veux qu'attendre, attendre seulement jusqu'à ce qu'il n'y ait plus rien à attendre : que vienne la nuit, que sonnent les heures, que les jours s'en aillent, que les souvenirs s'estompent."

C'est en ces termes que le narrateur s'adresse à lui-même, "un homme qui dort", qui va se laisser envahir par la torpeur et faire l'expérience de l'indifférence absolue.



https://www.amazon.com/homme-dort-Folio-2197-French-ebook/dp/B01MT626Q6/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1549146124&sr=8-1&keywords=georges+perec+un+homme+qui+dort, consultado 2 de Fevereiro, 2019