Monday, November 15, 2021

Mamãe, quero bala!

O DN fez uma reportagem sobre o impacto da exposição pandémica, por parte das crianças, a youtubers brasileiros. Os pimpolhos, para horror dos pais - que aliás se horrorizam com tudo:  com as aulas online, com a disciplina de Cidadania, com os confinamentos, as zaragatoas, as vacinas, enfim, tudo -, para horror dos pais, repito, desataram a falar uma língua inexistente: o brasileiro! O brasileiro, senhores! A ignorância conhece sobretudo coisas que não existem, posto que têm horror à realidade. E o que é o brasileiro? Segundo as asininas criaturas, é a língua que se fala no Brasil, uma espécie de português cheio de erros e pronúncia assaz patusca. Alguns pais estão, inclusive, a levar a prole à terapia da fala, não vão as crianças ficar com lesões crónicas no aparelho fonador. Claro que uma professora de linguística, se não estou em erro, pôs o assunto em perspectiva, mas o que ficou foi o horror, o choque e o pânico por parte dos progenitores. E, do outro lado do Atlântico, passo o lugar-comum, alguns youtubers atiraram-se ávidos às canelas dos portugueses e encheram-nos de nomes e reivindicações:

- Xenófobos

- O único país onde sofri de xenofobia e não foi pouca

- São uns preconceituosos

- Têm a mania que são os melhores. Uma tia minha, portuguesa, estava sempre a dizer, o nosso vinho é o melhor. Claro, bem pode gabar o vinho, não produzem mais nada....

- Eles é que falam mal o português

- Kkkkkkkkkk, tomem, colonização ao contrário

- Vamos mas é chamar brasileiro à nossa língua, e deixá-los a eles a falar português, para serem como os búlgaros. Ninguém mais fala a língua deles. Saem logo do mapa.

- Eles sabem de tudo o que se passa aqui, deve ser porque pensam « o Brasil é nosso, temos que ver o que lá se passa... »

- Uma professora de História que tive dizia sempre: fomos colonizados pelo país mais "fudido" da Europa

- Ainda se tem sido a Espanha, a Inglaterra ou a Holanda a descobrirem-nos

- Para eles, os brasileiros são putas, veados ou ladrões

- Devolvam o nosso ouro!!

- E o nosso ouro?

- Queremos o nosso ouro de volta!

- São uns antiquados

- Se os filhos falassem inglês já não se importavam 

etc., etc. Também houve quem tivesse falado de forma assisada e usado argumentos válidos. Mas isso agora não interessa nada, como dizia a outra.

O que é que eu penso? Compreendo que os pais corrijam os filhos, que são novos, e lhes expliquem que há duas normas de português, devendo eles aprender a norma europeia. Sem pânico! Deus sabe o que eu gosto de dizer que o X é muito "espaçoso",  e que me quer "tirar uma casquinha". Eu própria tirei uma casquinha a um colega afro, no mestrado, para lhe ensinar o que é tirar uma casquinha. Mais, é verdade que para muitos portugueses o "brasileiro" não é português correcto, o que me irrita solenemente.  É de uma ignorância linguística atroz. Mas daí a pintarem-nos como um povo xenófobo e que vê os brasileiros como pessoas de segunda ou, pior, como "putas, veados e ladrões"!!!! 

Resta-me dizer o que me disse uma vez um energúmeno: ponham mais tabaco naquilo que andam a fumar!!

E, para não deixar os créditos por mãos alheias, acrescento ainda o que se segue. Razão tinha Umberto Eco: a Internet veio dar voz aos tontinhos da aldeia. Ora, os tontinhos da aldeia deviam estar a fazer o seu espalhafato na tasca, enquanto apanham, pinguços que são, borracheiras épicas. Ou como dizem os lisboetas, enquanto apanham bubas. Grandes bubas!

Para os menos letrados, esclareço que buba é a forma curta de "bubadeira", segundo me explicaram.


imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7HOuPB-nXWPNdUHEDo93Pk4NioHuu3AzH7b_aEqWwKkJns8DreM3Jk-MTvItzQakDMGIvDCQVvRV1efj-gNxI3OnmHBoFS-_d3lpQGuJfsVrH6iYlI8hSrd0iqBhAx8LMoYGD/s700/depression.jpg

Bom dia, ...


 É desta forma que a indigência mental inicia os emails que dirige, claro, ao dia. Especialmente grave é que emails vindos de universidades o façam também. Na UBI, se me escreviam dos serviços administrativos, vinha o encantador bom dia, ou boa tarde, conforme. Quando vinha de outras instâncias, vinha o Dra. e, depois do doutoramento, o Doutora com todas as letras. Claro que os amantes do tu cá tu lá, categoria repelente na qual não me incluo, ficarão estarrecidos e enojados é com a utilização de títulos académicos. Tá bem, abelha!

 Mas este bom dia que me leva a escrever não é sequer dirigido a mim, é à direção de uma instituição, que mereceria outo respeito e formalidade. O conteúdo, como expectável, conduz com o bom dia: pobreza franciscana. 

Há uns tempos o Miguel Esteves Cardoso escrevia uma coisa também a este propósito. No caso, vindo de mestrandos ou doutorandos a pedir colaboração no preenchimento de inquéritos. E concluía que, com tal sem cerimónia, apetecia era mandar os ditos para aulas de decoro e polimento. As palavras são minhas.  De facto, como dizia Vasco Pulido Valente, o mundo está um lugar perigoso.