Eu ia adormecida no banco de um comboio em andamento. Era a única passageira embora, por vezes, se sentisse a agitação de inúmeras pessoas em debandada, arrastando malas pesadíssimas. Sentia-me bem naquele comboio escuro, viajando no silêncio da noite. Tinha os olhos fechados, o que não me impedia de ver os assentos austeros e vazios, o corredor trespassado de sombras, os rectângulos transparentes das janelas e as linhas de aço estendidas no chão, a perder de vista. Obriguei-me, no entanto, a dormir sentada, para melhor sentir a viagem e o banco, amável, ajeitou-se para me acolher, como um colo.
Por vezes,
passávamos por estações vazias, outras vezes, por estações cheias de gente em
movimento frenético, atropelando-se e produzindo um barulho aterrador. O
comboio, porém, seguia em frente, veloz, transportando-me simplesmente a mim,
sua única passageira. De repente, a noite encheu-se de um nevoeiro doce e
transparente, com reflexos de verde. Abri os olhos. Seguíamos numa linha
invisível, à beira mar. Por vezes, as ondas entravam pelas janelas fechadas,
deixando um rasto suave de humidade. Levantei-me. Ao longe, via-se uma
estrutura gigantesca sem volume. Poderia ser a parede de uma casa assombrada ou
de um palácio em ruínas. Tinha portas enormes e janelas de vidros partidos, das
quais pendiam cortinas transparentes ou teias de aranhas, ou ambas. Tinha
também um enorme terraço, meio enterrado na areia branca e fina, pura como a
seda. Por todo o lado, em volta da casa, cresciam flores minúsculas de cor
indefinida. Depois, apareceram outras casas mais pequenas, mas com janelas
enormes e outras ainda que o nevoeiro encobria e não deixava ver. Eu sentia-as,
como se estivesse dentro delas, habitando-as a todas em simultâneo. Colei-me
aos vidros do comboio. Tentei abrir as portas, as janelas. Queria sair.
Permanecer para sempre naquele mar, naquele nevoeiro. Em vão. Eu era a única
passageira de uma viagem que ainda não tinha terminado. Apoderou-se de mim uma
angústia indizível, à medida que todas as casas, da mais pequena ao palácio
imponente e sem volume, foram desaparecendo na distância. Sentei-me. Tínhamos voltado
à noite e às sombras. De repente, um túnel horrorizado com a penetração
eminente desintegrou-se em milhões de pássaros esvoaçantes. Ri-me, então, bem
alto, espantado as aves ainda mais. Fiquei feliz. Voltei a adormecer. A viagem
terminaria apenas quando a noite terminasse também. Ao primeiro vislumbre de
luz solar, desapareceria tudo. Como sempre.

2 comments:
Minha querida sra Dra, desejo-lhe um santo e feliz ano novo com muita saùde e que nunca deixe de ser quem é. Gosto muito de si e do seu trabalho. Um beijo.
Bom ano, meu querido. Peço, ao novo ano, que não me abandone nunca! Beijo.
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