Thursday, May 05, 2011

A Oeste Nada de Novo


Ontem percorri um caminho curioso. Por onde quer que olhasse, havia peles de cobra ocas. Como sou uma mulher do campo, soube logo que uma família de víboras tinha passado no local para a mudança de pele. Mas uma delas deixou também os olhos: negros, maquilhados, malévolos, sinistros. E eu, que nem costumava desgostar de cobras, agora odeio-as, mas apenas às que têm olhos negros, maquilhados, sinitros e enganadores. Porém... pensando melhor...nada de novo!

Sunday, April 03, 2011

A Noite Passada


Foi uma bela noite, a que passou. Todas as noites são belas. Mas a noite passada, embora bela, não me trouxe ninguém. Ninguém veio assombrá-la. Tornarei a ver a senhora alta e velha - era velha, eu podia vê-lo, apesar da escuridão - coberta de rendas negras, parada em frente à minha cama, como uma estátua, segurando nas mãos um ramo de flores brancas, resplandescentes? Que saudades dela e das suas flores nocturnas e irreais.
Há dias, ou melhor, há noites, vagueava eu por uma cidade decadente, quando me deparei, por três vezes, com um cortejo de oito mulheres, umas altas, outras baixas, todas vestidas de preto, com a cabeça coberta por véus espessos. Lá iam como estátuas, fazendo silêncio, interrompendo o meu deambular pela cidade velha, decrépita e decadente. Depois de desaparecerem, procurei-as, em correrias imensas, pisando lama e cacos velhos. Em vão. Não tornei a vê-las. Depois veio o dia e, como se sabe, é impossível encontrar o que quer que seja de belo e inesperado de dia. O dia horrível, impertinente e feio. Espero pelas noites passadas, presentes e futuras. Porque, como já referi, todas as noites são belas!

( A fotografia é minha, não a roubei da net)

Saturday, March 26, 2011

The Walking Dead


« A solidão é essa morte imensa
onde os mortos não cessam de viver»

Echevarria qualquer coisa, sorry, "O Livro dos Mortos"
!

The Walking Dead: a utopia de um mundo distópico



Esta foi a melhor série televisiva que me lembro de ver. E a melhor obra sobre zombies, ou mortos vivos, ou "mortos que caminham". Mas isto deve-se, talvez, ao facto de eu não ver nestas personagens algo do mundo da ficção. Pelo contrário: assim somos nós, ou eu, pessoas mortas que deambulam às ordens de quem manda e cujo único sinal de "vida" é o instinto de sobreviência que nos leva, como the walking dead, a procurar alimento. Pois se estamos mortos, paralisados por um mundo dito democrático, mas que nos quer inertes e passivos, pois se temos as capacidades de raciocínio, mentais, anestesiadas, que podemos fazer senão comer, comer como animais, andar e comer para nos agarrarmos à vida, porque a morte é tabu. Verdade: a morte é um tabu absurdo. Não nos deixam viver, mas não nos deixam morrer: suicídio? É uma coisa proscrita! Eutanásia? Proscrita! Há que viver, viver sempre...apesar do desprezo com que nos tratam, os senhores que mandam no mundo! Nunca viram "mortos a caminhar"? É certamente porque não se viram ao espelho. É certamente porque não olham para os outros. É certamente porque não se perguntam porque é que para um país estar rico, as pessoas têm de estar pobres. É certamente porque não se questionam sobre os paradigmas económicos que se bastam a si próprios, não servindo as pessoas (ou só algumas), mas servindo-se delas. Exemplos de mortos que caminham?
- os pobres
- os miseráveis
- os que não têm abrigo
- os que procuram emprego
- os que frequentam as escolas para de lá sairem embrutecidos e ignorantes
- os bodes expiatórios
- os privilegiados(= têm emprego, ainda)que são submetidos a avaliações insanas, para se darem conta da sua menoridade
- os que vivem em barracas
- os boçais
- os lambe-botas
- os paus mandados
- os que "apenas" obedecem a ordens
- etc.

Voltando à série. Houve quem dissesse que não tinha gostado do fim, porque não se sabia o que acontecia. Claro que não se sabia, mas é possível saber-se e nem é um exercício muito difícil. Primeiro, não há apenas um fim em aberto, tudo na série fica em aberto, no que toca aos humanos: o homem e o filho que ajudam o xerife, morreram? O racista que ficou algemado a uma barra de ferro, morreu? O infectado pala doença dos mortos que caminham, deixado sozinho, a seu pedido, morreu? E os mortos vivos, será que vão viver, ou caminhar para sempre? Mesmo quando se lhes acabarem os vivos, seu alimento? Bem. Certo é que a ciência falha: morre o cientista e explode o centro de pesquisas avançadas. Os sistemas de comunicação falham, os rádios, os telemóveis ficam sem rede. Os carros amontoam-se sem combustível. Ou seja, não se procure na tecnologia e na ciência resposta para os problemas da humanidade: pois se a ciência não conseguiu sequer evitar a eclosão da doença dos mortos vivos!! O que sobra, neste mundo distópico? Mortos ambulantes, cidades arrasadas, paralisia e um grupo de vivos aparentemente, mas só aparentemente, repito, unidos, que tenta escapar ao caos a bordo de uma camioneta cujo depósito de gasolina não é ilimitado. É um final infeliz? Triste? Negativo? Não, pelo contrário. A série termina, acho eu, com uma bela utopia: um punhado de humanos, com contas para acertar, fugindo numa camioneta frágil, pelo meio de uma cidade destruída e perseguidos por mortos que só querem comê-los. Não é lindo?
!

Saturday, March 12, 2011

Japão


Faz pensar. Põe as coisas em perspectiva. Faz-me sentir mesquinha. Sem palavras.

Sessenta segundos de silêncio pela catástrofe no Japão.

(............................................................)
!
!

Thursday, March 10, 2011

O regresso de Ulan Bator


Regressei ontem, ou hoje, não sei. O tempo altera-se sempre que venho de Ulan Bator. O tempo cronológico e o outro. Em Ulan Bator o tempo é ausência de horas e neve. Fiquei estacionada numa daquelas casas redondas, sujas, apreciando tudo, a beleza, e bebendo chá temperado com banha oxidada. Invadida de frio até à alma. A alma aliás ficou por lá, à minha espera. À espera da próxima viagem, da próxima fuga. Saudade! Saudade de andar pela montanha, sozinha, mas com a minha alma, apreciando a paisagem, o frio, a sujidade, a pobreza, o eco dos meninos do esgoto, a beleza de pesadelo em Ulan Bator.

Saturday, February 19, 2011

Eco


Acabou o dia, cheio de ecos...! Tive de voltar a ligar o computador. Preparar um chá, bolo. Aquietar-me. Tapar os ouvidos. Voltar à minha noite linda e calma. Sem vozes. Sem nada. Duas da manhã. Se o sono for bom para mim, vai deixar-me acordada dentro de um sonho lindo.

Monday, February 14, 2011

Monotonia



Olho em redor e vejo viciados em monotonia, em fotocópia, burocracia. Os viciados no mesmo. Pessoas que apenas seguem pelo caminho já aberto, sinalizado...pateado. Pessoas medrosas de ousar, que olham em redor e fazem a coisa segura, repetida, copiada: extensa. É um batalhão de monótonos de cabelo branco e barriga obesa...até ao vómito.
Salva-me o sonho...nocturno: magnífico! Ontem subi uma montanha de casas - o morro. Lá fui, sempre a subir e a cruzar-me com homens maus, muito altos, de músculos fortes. E eu sempre a subir, pelo meio dos homens maus e dos prédios altos de formas e cores diferentes. Havia uma casa revestida de pêlo longo, permanentemente excitado pelo vento. Tudo cores, subida, casas alucinantes, homens maus com muitos músculos e eu só a olhar e a encher-me de felicidade e excitação. A subida terminou, noite dentro e noite escura, lá bem no alto, com uma feira e carrosséis à beira mar. Terminou numa paisagem de luzes reflectidas nas ondas a espumar na praia: por todo o lado era roupa, mobiliário, bolos, anéis, pernas de frango assado, rissóis, perfumes, maçãs, laranjas, cadeiras de palha, queijos, feirantes transpirados (que eu já conhecia de outros sonhos)e carrosséis de alta tecnologia, enormes, monstruosos, emitindo ruídos mecânicos muito acima do barulho das ondas do mar!
A minha monotonia são os sonhos nocturnos...com muita cor e muito mar...!

imagem: https://www.facebook.com/photo/?fbid=825793139725970&set=a.336597598645529, consultado em 20 de setembro, 2024

Wednesday, February 02, 2011

Requiem...!


Cá estou eu...que exacro manifestações, a dar a cara (enfim, é a que tenho) contra o sistema de avaliação BUROCRÁTICO, moroso, feito por pares, ou seja, fomentador de um péssimo anbiente entre colegas. A escola morreu! O professor que pensa por si próprio agoniza! Mas crescem aqueles que se agarram a minúsculas migalhas de poder! Razão tinham os intelectuais do fim do século XIX. Quem os leu não se surpreende com o que está a acontecer...mas nem por isso deixa de sofrer!

Sunday, January 09, 2011

A perfeição


Quero agradecer ao autor desconhecido da imagem do texto anterior. É uma imagem bela, pefeita. É uma obra de arte. Quero ainda agradecer a todos os homens belos que se deixam fotografar, para que o dia seja mais leve e luminoso. Agradeço, muito, a beleza imensa...!

Morte em Nova Iorque


A morte violenta ainda continua a chocar, a fascinar. A ficção quotidiana surpreende. Era uma vez um homem velho e homossexual e baixo e sem charme, mas simpático.Era uma vez um homem novo, belo, alto, com charme e, parece, heterossexual. Simpático, também. E modelo. Encontram-se, por qualquer motivo que desconheço. Tornam-se namorados, ao que dizem os amigos de um. Não, não se tornam namorados, dizem os amigos do outro, pois ele é heterossexual. Dizem as notícias que foram para Nova Iorque em lua-de-mel. Que estavam muito felizes. Um, o mais velho, adora N.I., quer que as suas cinzas sejam espalhadas sobre a cidade. Mas, dizia eu, estavam felizes, o homem velho e homossexual e o homem novo e heterossexual, a viver a sua improvável e espantosa lua-de-mel na cidade grande, quase capital do mundo. Lua-de-mel num hotel de luxo e intercontinental. Ontem, porém, a TSF dá-me a notícia da morte assassinada do homem velho e sem charme: agredido e mutilado. O outro, o modelo alto, esbelto e, parece, heterosexual, vestiu-se bem e disse que o outro não tornaria a descer do quarto do hotel. Pouco depois, a TSF disse-me que o homem hetero tinha sido hospitalizado e estava sob controlo policial. Tinha os pulsos cortados. O homem, não a polícia. Assim termina esta história de amor improvável, de um homem que amava um jovem belo, que o abandonou num quaro de hotel agredido e mutilado, possivelmente por ele mesmo. Não se sabe. Não se sabe quem é o assassino. Só se sabe quem é o presumível assassino: o jovem belo e hetero, ao que parece. Consta também que a cidade, bela e branca de neve, continua acordada pela noite dentro, como de costume, indiferente às histórias de amor e morte que a escolhem como cenário.
Descansa em paz, Carlos Castro!

PS: que a história não se centre na "orientação sexual" de cada um. Que não se queira que sejam só os heterossexuais a julgar ter licença e legitimidade para viverem as suas histórias de amor.

Monday, November 29, 2010

Evolução Silenciosa


Evolução Silenciosa é como se chama uma exposição de estátuas submersas...no México.

A Ilha das Bonecas


Gosto do México. É o país em que se festeja a morte. Agora é também o país da Ilha das Bonecas. A história é simples: Um homem decide isolar-se numa ilha. Porém é assombrado pelo fantasma de uma menina que ali morreu afogada. Para acalmar o seu fantasma, o homem oferece-lhe todas as bonecas que consegue encontrar. Oferece-lhe também bocados de bonecas. Tudo o que tenha a ver com bonecas. E vai colocando os presentes ao fantasma da menina afogada por todo o lado: árvores, cordas, portas de cabanas na ilha. Pouco a pouco cobriu a ilha de bonecas. Um dia, também ele morreu...afogado.

Saturday, November 20, 2010

Adeus


Morreu o Senhor Do Adeus. Aquele senhor que iluminava a noite de Lisboa, e a quem a luz de Lisboa iluminava também!

Wednesday, November 10, 2010

Poema aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes -
(rsrsrs ahahah ihih)

Tuesday, September 28, 2010

Casa à beira do abismo


As casas! Há coisa melhor que uma casa? Um sítio com paredes, que nos acolhe, nos esconde, nos protege. Esta é a casa mais bonita de um bairro de prédios altos e varandas projectadas para o ar. É uma casa junto à linha de caminho-de-ferro. Uma casa isolada, atípica. Uma casa em ruínas no meio de casas novas e imponentes. Um dia destes desaparece e fica apenas o abismo. Na impossibilidade de trazer a casa comigo, trago a sua representação. Para recordar. Sempre.

Tuesday, September 21, 2010

Beethoven Fur Elise



Esta é uma das músicas favoritas do meu pai. Espero que ele possa vir aqui ouvi-la. Beijo, paizinho.

Monday, September 13, 2010

Inquietação


Tédio! Um tédio tão grande, uma insatisfação, um desafecto...mas, sobretudo, inquietação. Não sei o que me inquieta, mas sinto inquietação. Tenho sonhado muito, única coisa boa, aliás, excelente. Hoje mesmo, sonhei com uma cidade meio decadente. A minha avó, que já morreu, acompanhava-me. Como sempre, eu dirigia-me para uma escola, por um caminho insólito, e a minha avó fazia equilibrismo sobre umas rochas pontiagudas. Eu, entretanto, já tinha passado a parte das rochas e encontrava-me com água pela cintura e rodeada de animais antigos, mas de cores vivas. Da escola, nem uma parede, um tijolo, uma indicação. Nada! Mas eu sabia que estava a sonhar. Por outro lado, na terra decadente, já tinha o meu quarto à minha espera. O meu refúgio, o meu lugar. E a minha avó estava tão divertida, e feliz por me fazer companhia...! De noite, há os sonhos para me ampararem. Mas, de dia, à luz do sol, no meio das pessoas reais, há só inquietação!

Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos

Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas — um livro fechado
Em cada ataúde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"

Lindo!! Obrigada, Romi

Tuesday, August 17, 2010

Banda sonora de A Single Man de Abel Korzeniowski. Clock Tick


Pode haver mais beleza? Mais perfeição? ... Música perfeita, para um filme perfeito, para actores perfeitos e para um realizador perfeito. Obrigada!

Saturday, August 14, 2010

Sunday, August 01, 2010

Os Veneráveis Mortos

Morreu António Feio. Não há muito tempo morreu também José Saramago, o escritor, e Beto, o cantor.
José Saramago viveu uma vida longa e linda. Encontrou o amor numa idade em que já não se costuma encontrar nada. Como o invejo! Eu já nem procuro. Ainda espero, no entanto, que o acaso me traga alguém...E não sou passiva. Porém, a última vez que me pus em campo, activamente, só desaguaram pessoas fechadas, de uma forma ou outra, uma espécie de enigmas, fósseis, estátuas. Também vieram pessoas com janelas e portas abertas, porém medonhas. Não quis acolher-me nos seus braços vulgares e nada confortáveis. Piores mesmo, foram os de "boca escancarada", boçais, aterradores! Depois, vieram os complicados, os quezilentos, etc... uma galeria desconcertante de figuras rígidas que não amam nem se deixam amar. Voltando a Saramago, ele continuaria a escrever e bem. Mas morreu junto ao seu amor, na sua casa, no país onde decidiu viver.
Beto não era um cantor que me agradasse particularmente, mas era um artista muito profissional, que não escolhia o caminho mais fácil, as melodias mais na moda. Tinha um estilo, um público...e tanta esperança de vida ainda! Custou-me vê-lo partir. No fundo, ele vivia na minha parte não consciente. E apreciava-o.
O António Feio era um actor excelente. Daqueles que fazem brilhar tudo aquilo em que se metem. Pena os textos, os argumentos, em Portugal, deixarem a desejar. Mas ele conseguia sempre ser brilhante. Era versátil também. Drama ou comédia, ele estava à altura (Como o genial Nicolau Breyner).Para além do mais, era simpático! Tinha manias? Mau feitio? Não sei, nem me importa. Aliás, o defeito de muitos actores portugueses é não as terem. Não têm "star quality". Vestem mal, de forma desadequada para a idade e com assaz mau gosto. Hélasssss!!
Com o risco de fazer uma triste figura, pois não compreendo o belíssimo poema de H. Helder, não consigo descodificar os seus "signos", ir além da superfície, vou utilizar, no entanto, as imagens desconcertantes desse poema. Também, que importa fazer triste figura no meu cemitério? :)

Olha...junto à linha do caminho-de-ferro...Saramago, Beto e o António Feio...descalços, roendo maçãs!

Monday, July 26, 2010

A Single Man


Passei ontem o dia com Colin Firth, vi repetidamente o filme A Single Man. É hipnótico. Tudo nele é belo, a começar pelo romance do qual foi adaptado. Todas as personagens são lindas, a casa de vidro é linda, o banho, de noite, no mar é lindo. A história é linda...e inspiradora...!

Saturday, May 15, 2010

Os mortos com sapatos leves roendo maças...



Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:

e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar ladravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas -
para dentro – eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas -
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias -
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.

De Herberto Helder


Sem comentários!!! Lindo de morrer!

Solidão: um poema

ATROPELAMENTO E FUGA

Era preciso mais do que o silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar, mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura, no lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!),olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto.

de Manuel António Pina

...(Lindo!)

Monday, May 03, 2010

Loneliness II


Mas também encontrei esta. Já sonhei com um sítio assim. Gostei. Amanhã vou procurar solidão. Só para saber como é em português.

Loneliness


Depois procurei loneliness. Encontrei esta. Gostei.

La Solitude


Fui procurar imagens para la solitude. Encontrei esta. Gostei dela.

Wednesday, April 28, 2010

Plágios!!

Os plágios estão vivos e de boa saúde. Não há coveiros que os queiram enterrar, padres que lhes dêem a extrema unção, enfim, alguém que os mande desta para melhor. Não há, é como quem diz. Há eu!!! Mas sozinha não dou conta de tanta cópia, tanta frase mal disfarçada, de autoria alheia, tanta farsa, tanto faz de conta. Tanta burrice. Também muito saudável, a senhora dona burrice, claro! Enfim. Não há subprime para o Plágio e a Burrice! Nem défice, nem nada. Pelo contrário. Há quem goste e há até quem goste muito e quem goste e faça de conta que não. Há de tudo... Eu é que para além de ser morbida, sou esquisita.

Friday, March 12, 2010

Poema


a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se preparar para
me engolir

Valter Hugo Mãe
(lindo!)

Frágil


O i noticia o suicídio de um professor de música. Ao que consta, não controlava os alunos. Consta também que não tinha já muito cabelo. E os alunos lebravam-no disso. Eu sei como é. Alguns dos meus alunos também me lembram que o meu nariz tem milímetros a mais. Coisas de "crianças", são tão pândegas! Não é por mal. As reacções à morte anunciada do professor são as do costume: o professor tinha "fragilidades psicilógicas", os alunos apontados como tendo contribuído ALEGADAMENTE para o suicídio do professor vão ter apoio psicológico, os pais desses alunos estão indignados por os associarem a tal acto, etc.. Dentro de dois ou três dias o caso sai da agenda mediática e morre.
Morto está, sem dúvida, o colega frágil. Já não tem que assistir às notícias sobre a sua morte. Mas, se tivesse, muito provavelmente, dirigia-se novamente para a ponte 25 de Abril e mergulharia no Tejo. Na escola, na sociedade e no mundo, não há espaço para quem é frágil!

Sunday, March 07, 2010

Ah! A vida...


Passadas duas semanas, é como se não tivesse acontecido. Desde o dia do acontecimento insólito, que ando para escrever, para relatar o sucedido, a história. Já tentei, na minha mente, várias abordagens: a trágica, a de choque, a da indiferença, a barroca, etc. Agora, aqui a escrever, finalmente, sem a sensação de peso nos ombros e de aperto na garganta, é como se nada, repito, tivesse acontecido. Recorro, então, à abordagem objectiva. A história, o sucedido, conta-se em três tempos. Eu, que não saio nos fins de semana, para evitar, claro, encontros, contactos com o resto da humanidade, pelo menos da que se encontra na minha zona, mas, beneficiando, também, essa humanidade com a minha ausência, eu, dizia, saí nesse fim-de-semana. Para comprar a revista Sábado, que é um concentrado de humanidade de papel, de que eu não prescindo. Lá, em papel e letras, está um amigo que eu não dispenso, embora por vezes o ache muito irritante. Impunha-se, por isso, que fosse comprar a revista, é que as saudades dele apertavam! Saí, a correr, deixando a mesa posta, pois não disporia de mais tempo para estar com o meu amigo de papel e letras, senão a hora da refeição. Chegada ao Centro Comercial, pensei, aproveito e compro laranjas, mas, felizmente, a frutaria estava fechada. Que bom, pensei, menos tempo perco. Mas, de repente, ouvi, "então, hoje estás atrasado, Nuno? já aqui passei". Bem, afinal a frutaria ia abrir no momento, e eu estava ali... entrei, ia levar as laranjas. Não tinha passado tempo nenhum, ou, pronto, um bocadinho de tempo, quando ouvi... "então, caiu?". Não liguei. Não tenho curiosidade sobre o que se passa à minha volta. Depois ouvi um roçar de roupa, e novamente, "magoou-se?". Virei-me. O dono da loja estava debruçado sobre alguém. Só podia ser a outra cliente. Aproximei-me para prestar auxílio. Estava uma senhora no chão, na zona da entrada. Respirava de forma audível, arranhada. Ajoeilhei-me no chão, peguei nas mãos da senhora, amparei-lhe a cabeça com a minha mala e disse ao rapaz que chamasse a ambulância. A senhora estava imóvel, só expelia o ar de forma arranhada. Depois o rapaz disse-me, que o INEM estava a caminho e que devíamos virar a senhora para o lado esquerdo. Foi o que fiz. Era um corpo pesado. Tirei o meu casaco para aconchegar a senhora e fui falando com ela, e apertando-lhe as mãos. Entretanto foram surgindo outras pessoas, também querendo ajudar, mas eu não arredei pé, tomada, que estava, da certeza que a senhora estava a morrer ali à minha frente. Pus-lhe a mão no pescoço para tentar sentir os batimentos cardíacos, mas nada. Era um corpo sem vibração. Depois veio a equipa do INEM, e um bombeiro, e eu à espera do meu casaco e da minha mala. A mala obtive-a após o médico tapar a senhora por completo com um plástico (?). O casaco, que estava debaixo do corpo da senhora, que só depois da vinda da GNR podia ser levantado, não tornei a vê-lo. Foram sendo contados episódios da vida da senhora. À pergunta "o que aconteceu?", a resposta era "estava bem e, de repente, caiu". De facto, foi mais ao menos isso. Há no entanto, uma correcção a fazer. A senhora não caiu. Cair é algo que fazem os vivos, porque tropeçam, escorregam, perdem o equilíbrio ou têm uma tontura, por exemplo. Ou seja, para cair tem de se estar vivo, e a senhora não estava. Logo, não caiu, foi derrubada pelo ímpeto da vida a fugir-lhe. Cedeu à força da gravidade. Abateu-se no chão. Imobilizou-se. Perdeu a vibração. Precipitou-se. Partiu. Não conseguiu voar. Não conseguiu pairar. Estatelou-se no chão, com um barulho sussurrado de roupas. Não teve como manter-se de pé. Não pode evitar precipitar-se para baixo. Tudo. Mas cair não. Cair é coisa daqueles que ainda vivem.

Tuesday, February 09, 2010

Let's sit upon the ground...

...and tell sad stories about the death of kings.

Sem tempo, sem vontade, mas com muito tédio e com a sensação de que tudo é uma grande mentira e eu, embora não alegremente, faço parte dela... o que é muito triste... e também com uma grande falta de paciência para certa gente ...sei lá...transcrevo um poema que faz parte de uma grande antologia de poemas, aliás «a maior antologia jamais feita em Portugal», poema cujo título é, muito apropriadamente, "Vamos Morrer". (Bora lá! Bute!).

Vamos Morrer

vamos morrer, mas somos sensatos,
e à noite, debaixo da cama,
deixamos simétricos e exactos,
o medo e os sapatos.

Pronto. Acabou mais um dia cinzento, vi uma série de burgessos e fui vista por eles também como burgessa, certamete! Certamente, mas erradamente. Eu sou talvez a única pessoa do grande e largo mundo a quem a palavra burgesso não se aplica. É a minha opinião. Agora vou para a cama, onde rebolarei insone, verei pela quinquelhésima vez um qualquer filme em DVD, pelas quatro, cinco horas, estarei acordada, altura em que verei novamente esse filme e dormitarei mais um bocadinho. Depois chegará a insuportável manhã, ou seja, a luz, o dia e eu ajudarei a erguer mais um muro de coisas pouco sólidas. Antes, porém, como a noite está instalada e eu estou gratamente sozinha, não deixarei de colocar simétricos e exactos, sob a cama, o medo e os sapatos!!

Thursday, December 03, 2009

poema à duração

os teus cabelos tomaram a cor vermelha
e enloureceram

as tuas cicatrizes multiplicaram-se
e ficaram depois impossiveis de encontrar.

A tua voz foi estremecendo
tornou-se mais firme, sussurrou, tremeu
transformou-se numa melopeia
era o único som na noite de todo o mundo
por fim calou-se, a meu lado

os teus cabelos lisos encresparam-se
os teus olhos claros escureceram
os teus dentes grandes ficaram pequenos
a pele bem esticada dos teus lábios
adquiriu o aspecto de um desenho suave, delicado e macio

no teu queixo sempre liso
descobriram os meus dedos uma depressão que nunca lá estivera

e os nossos corpos em vez de um ao outro fazerem doer
uniram-se fácilmente num só

enquanto na parede do quarto
à luz da lanterna vinda da rua

se moviam as sombras das arbustos dos jardins da europa
as sombras das árvores da américa
as sombras das aves nocturnas de toda a parte.

PETER HANDKE

(M., obrigada por me teres enviado este poema. É lindo!)

Friday, October 09, 2009

BREATHLESS!

De cortar a respiração. A preto e branco. Sábado, pp. 116, 117. O homem de olhos claros está sentado numa cadeira. Tem um lenço no pescoço, a cabeça está levemente inclinada e encostada à cadeira. A pose é de abandono. Os olhos claros, límpidos, olham-nos fixamente. Dois jovens, lado a lado. Ela hirta, como um manequim numa loja. Ele não o está menos, mas os olhos dele são mais expressivos. Um homem de barba, com dois cães junto de si, está sentado numa cadeira, tem os olhos entreabertos, a cabeça está inclinada e encostada à cadeira. Parece levemente embriegado e sorri, muito levemente. Uma família: o pai sentado, a mãe sentada, a filha de pé, os olhos abertos fixamente, as mãos, rígidas, pousadas sobre a mãe e o pai. Três jovens, irmãs, a do meio, muito direita, com as mãos no colo, olhos entreabertos, conserva um semblante rígido. Depois, uma criança, rapaz, sentado numa larga cadeira. Grande de mais para o seu corpinho, vestido com um fato, à homem. Inexpressivo, os olhos são dois pontos que se destacam na cara, não se vê se estão abertos ou fechados. Tem uma mão presa no braço da cadeira. A outra, em cima da perna, segura uma flor. Depois, ainda, mais uma criança, rapariga, dorme, sentada sobre uma cadeira. Em seu redor, bonecas: quatro.
Quase todos estão mortos. Posam uma última vez para a fotografia, aquela mesma fotografia que servirá para que aqueles que os amam os possam recordar, ainda vivos (embora mortos),com os seus cães, família, mãe e pai, irmãs, bonecas e uma flor. Enfim, aquelas coisas que os mortos não têm, lá no sítio,chamado terra dos mortos, para onde vão.
Podia, mas não coloco as imagens. No meu cemitério, respeitam-se aqueles que partiram e, embora estes mortos estejam lindos de morrer, não serão aqui exibidos. Que descansem em paz!

Friday, September 11, 2009

Das Parfum : The Girl with the Plums

Raramente um filme consegue ultrapassar um livro, mas este...! Há neste filme momentos de perfeição. A realização é brilhante. A representação é brilhante! O ambiente...a música, a música chega a parecer irreal. É sublime! Jean Baptiste Grenouille é perfeito! Isolar uma cena é difícil, mas esta mulher morta...inerte... estática...bela ...é a melhor! O Perfume - História de um Assassino. Romance, filme, música: GENIAL!! Daqueles filmes que se vêem mil vezes - no mínimo - sempre de garganta apertada, contendo a respiração e admirando, uma e outra vez, a beleza... a imensa beleza!

Tuesday, September 01, 2009

Oh, a vida, outra vez!


Acabou o mês de Agosto! Há coisa mais triste?

Sunday, August 09, 2009

NÃO TENHAS MEDO DO ESCURO


Claro que não. Não tenho medo do escuro. Tivesse eu medo do escuro, do vazio (ninguém me liga!), da noite, e até dos ladrões, e estava bem arranjada! Por outro lado, não gostasse eu de falar sozinha, dançar sozinha e de fazer grandes orgias livrescas e...estava bem arranjada! Ou seja, começo a falar deste livro, agradecendo as palavras bem intencionadas do título!

Que livro! About death all over! Que surpresa! É um livro que começa com chave de diamante e fecha com chave de diamante. Pelo meio, há portas cujas chaves são de prata, também há bronze...e ouro, também: a chapadona na tromba do homem que era um poema vivo foi uma porta aberta com chave de ouro. Foi de mestre. Deus sabe que ele estava a pedi-las!

Comecei a leitura com algumas ideias sobre o que ia encontrar. Uma obra literária escrita por um professor de Literatura e que, ainda por cima, é meu co-orientador de tese, é dose!! Esperava muito do que está escrito sob o ponto de vista de Edite. Esperava encontrar uma Edite: professora; amante de poesia; culta; bem nascida; doente - não tanto, mas também, a proximidade da morte deve deixar-nos pensativos, sensíveis e atentos. Esperava encontrar aquele ambiente: de cultura; de grande música; de grande poesia. Etc. Mas não esperava, de modo algum, aquilo que faz deste romance algo de único que é... deixa-me cá ver... a sua essência (estou a ser choninhas) . Seja, a sua essência: e qual é ela? A irrealidade!? A ambiguidade!? A paradoxicalidade (?)!? Vejamos, o livro é uma tragédia ou uma comédia? Qual é a mensagem? (OK, parece que já não se usa ver qual é a mensagem) Eu, para ser sincera, depois de o ler e de parar de rir, e de recuperar o fôlego, e de me recompor, cheguei à seguinte conclusão: "Deus afinal parece que existe e morrer é bom!!" Nada que eu não tivesse já intuído. Isto quanto à mensagem! E as personagens? Estão vivas? Estão mortas? Estão delirantes? Estão embriagadas? - Aquele tio bebe e come de mais, e não são só papos de anjo!!- São reais? São imaginárias? Há no mínimo uma que é completamente irreal, ou mesmo surreal: a auxiliar de acção educativa da Escola Secundária de Amarante. Todos os professores do secundário concordarão comigo, ao lerem esta passagem:

« - Venha comigo, senhora doutora, venha comigo. Vou levá-la ao Conselho Executivo: é por aqui, por favor. Por aqui...» (p. 166)

Que tal? Já foram encaminhados assim por alguém? Isto, recordo, quanto a personagens irreais. Claro que há pessoas muito vivaças a passearem-se por aqui e por ali, isto após o seu passamento. Mas isto não sabemos se é da ordem do irreal ou não. Só o saberemos após o nosso próprio passamento! Mas, dizia eu, este romance pretende o quê? Divertir-nos? Consegue fazê-lo. Diz-se na contracapa que «é um romance de mistério, uma homenagem à poesia portuguesa e uma reflexão sobre o valor da vida e o poder da arte.» Mistério, sem dúvida. Todo ele é um mistério! A homenagem à poesia, também. Mais que isso, é uma chamada de atenção para o que é, de facto, poesia, que não tem nada a ver com algumas garatujas que aparecem amiúde como tal. Poesia não é um empilhar de palavras enigmáticas na vertical, nem, tão pouco, uns versos toscos daqueles que fazem sempre rimar mão com coração e tia com melancia. Irritante, a ideia de que todos sabem escrever poesia!! Da última vez que li, no Jornal de Letras, os poemas das novas promessas "do sector", fiquei com os cabelos em pé durante uma semana! Mas, em frente. O poder da arte, concordo. Mas, quanto ao valor da vida, já tenho algumas dúvidas. Não podia ser de outro modo, tendo falado, lá atrás, em ambiguidade. De que valores se fala neste romance? O que acontece verdadeiramente neste romance? Qual é a história? Uma professora que está doente e....(omito informação, não posso dizer tudo),... mas será que ela está mesmo doente, ou está tão doente como o senhor de barbas está... (omito, quem leu sabe o que falta nos espaços!).. ou está tão doente e morreu tanto como a japoneira/ cameleira está fixa no seu lugar, como é próprio das japoneiras! (aqui não omito, porque já se sabe, através da contracapa, que a japoneira andou em bolandas, assim como se sabe que a defunta desapareceu!) Quem estudar o livro vai ter que me contar a história, porque eu li e não a sei contar. ´

Agora para uma coisa totalmente diferente. Eu não esperava um livro cujo tema principal (e único?) fosse a morte! Eu não esperava aqueles incidentes do Pórtico e da Cúpula, ou seja, a primeira e última partes do romance respectivamente. Não esperava aquela agilidade humorística da linguagem, não esperava aquelas personagens excêntricas. A própria Edite, depois de ..., estava tão mais animadinha! Há depois uma série de frases e situações memoráveis... absolutamente do outro mundo. Termino com uma delas.

Começo por esclarecer que, como é dito na contracapa, «um cadáver desaparece». Mas, claro, torna a aparecer. Esse cadáver é o de Edite e o seu tio e irmão esperam-no para lhe fazerem o enterro. A passagem que transcrevo dá conta do estado de espírito do tio e do irmão ao saberem que o corpo foi encontrado:

«Ria-se baixinho, o tio Henrique:
- A Edite voltou da pândega - dizia ele.
E ria-se de novo. Depois assobiava.
Eu acabei por comentar:
_ Se calhar, era melhor não ter voltado.
Pensava eu no caixão - nesse caixão onde ela devia estar: ia dar de caras pela primeira vez com o cadáver da minha irmã. E isso inquietava-me. Talvez por este motivo conduzia eu agora devagar - não com a pressa do início da viagem.
Entretanto, o tio Henrique olhou para mim, antes de declarar:
- Ó Maurício, deixa-a cumprir com os seus deveres de morta, coitada...» (p. 56)

Excelente!

(Magalhães, Gabriel, Não tenhas medo do escuro, Lisboa, Difel, 2009)

Sunday, July 19, 2009

Metrópolis (Fritz Lang; música: Michael Nyman, Time Lapse)

Assim somos, assim nos fazem, assim nos fazemos. Boa matáfora dos tempos que correm, em que, preferencialmente , para nos manipularem, nos despojam de toda a individualidade. Porém, também nós nos aquartelamos no nosso orgulho, no nosso enorme ego, separando-nos por isso dos outros. Fazemos a nossa caminhada cabisbaixos, sós e, pior, sem rumo! A morte, no entanto, aguarda. Ela,e só ela , dará um sentido e porá um fim ao nosso desatino.

Friday, June 26, 2009

Michael Jackson


Estranho, como a notícia da sua morte me abalou. A dele e a de outros. Lembro a morte do vocalista dos Queen. Fui-me abaixo!! Mesmo. Dá para acreditar? No fundo, os chamados amigos, familiares, amados, amantes, aqueles que conhecemos e com quem contactamos ao vivo e a cores, aqueles que tantas vezes enchem a nossa vida de algo parecido a felicidade, são também os que nos desiludem e magoam. Faltam-nos quando precisamos deles e abandonam-nos sem dizer ADEUS! Um belo dia, o dia da nossa angústia e desalento, o dia em que estamos fragilizados, tristes, a gritar AJUDEM-ME!, eles não estão lá, os nossos amigos, familiares, amados, amantes! Mas estão lá os discos, as músicas, os livros, as personagens, os escritores, os filmes, os nossos actores favoritos, as telenovelas, os actores, a televisão, o jornalista que gostamos de ouvir.
Estão lá o Garfield, o Sinhozinho Malta, o José Rodrigues dos Santos, o Peninha, O Jeff Goldbloom, a viúva Porcina, O Carlos da Maia, o Ega, o Zé Carioca, Ravelstein, Mr. Ripley, Gabriel Garcia Marquez, Johnny Depp, Astérix, Berlioz, O conde de Abranhos, Mira Pireza, Tom Jobim, Queen, Hugh Grant, Mr. Bean, o rato Mickey, etc., etc, etc. Estava lá também Michael Jackson, e continuará a estar. Todos eles fazendo-nos companhia com o seu trabalho e com a história das suas próprias vidas. Tudo para nos distrair! Para nos ajudar a passar o tempo. Quando um deles morre, é verdadeiramente o nosso verdadeiro amigo, familiar, amado, amante que morre. É assim que sinto. Por isso, hoje, faço luto. Estou triste. Sinto saudade!
I love you! Rest in Peace :'(

[Clip] Michael Jackson - Leave Me alone

He's dead!
Thank you MJ for your songs, for your voice, for your message.
Thank you for being black! Thank you for being white!
I'm happy you're DEAD( I weep as I write this )! No more decay! No nothing!
REST IN PEACE!!! I love you!

Monday, May 18, 2009

A boa poesia satírica que nos ajuda a carregar a vida!

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.
Compreende-se.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,

será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

António Gedeão…

Saturday, May 02, 2009

Porque hoje é sábado


O sábado é o meu dia preferido. Marca a saída da semana - o barulho imenso e incómodo - e está separado de uma outra semana pelo domingo. O sábado é uma barreira, um parêntesis, uma trincheira, um abrigo. Porém, há sábados com as janelas abertas sobre os outros dias. Detesto janelas abertas. Deixam entrar a realidade...

Friday, May 01, 2009

Cockney Rebel..Sebastian..Graphics by raYTurner

lá lá lá láá lá lá lááá....!
Sebastian, - Sebastião o símbolo do saudosismo português. Encontrei-te, não no nevoeiro, mas no grande espaço da Internet. Que saudade, que saudade imensa! I'm haunted, I'm gratefully sad and lonely...!

«...your lips rubi blue never speak a sound...!»
Rubi blue... azuis como um rubi... ! Lindo! Lindo!

Velvet Goldmine - Sebastian

« ...his eyes rubi blue don't speak a sound...»

Thursday, April 23, 2009

Dia dos Livros


Não poderia deixar de escrever daqueles que são a minha companhia silenciosa e dócil. Aqueles que me dizem palavras sempre que delas preciso. Os meus livros. Aqueles - os únicos - que enchem a minha vida de colorido. Aqueles que contêm as pessoas amáveis que me contam histórias, partilham a sua vida, as suas emoções o seu espaço. Agora também como investigadora! Mas prefiro apenas ler...!
O Perfume.
História de um assassino!
Para quê o subtítulo? Ele não sabe o significado do verbo assassinar. Ele apenas vive no mundo dos aromas, dos odores e quer apenas uma coisa: ser amado! O mesmo procuro eu. E na impossibilidade, procuro conforto, algum esquecimento... e muito riso!

Wednesday, March 25, 2009

Deus Lhe Pague - Chico Buarque

Deus Lhe Pague
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague



Monday, March 23, 2009

Beethoven - Moonlight sonata (Luz de luna)

Uma obra que traduz toda a beleza calma da noite, quando as luzes pintam quadros na fachada dos prédios! Quando o ruído baixou para níveis humanos, quando os corpos procuram a cama, os olhos se fecham...quando não há vozes, gritos, ordens para cumprir. Quando os raios tórridos do sol dão lugar à luz fria da lua. Quando só há paz.... o próprio...quando os sonhos se perfilam para encher o sono dos que dormem...
A beleza...a beleza... imensa....!

Sunday, March 08, 2009

A origem do mundo 2 - cont.


Por norma, tendo a não colocar no meu blogue imagens com pessoas mortas. Tenho algum material, não é difícil cologi-lo a partir dos jornais. Mas para mim a morte é o conceito de morte, a sua inevitabilidade.
Aqui, porém, trata-se de um enterro, um enterramento, solitário. Para mim, é uma imagem de uma beleza incomparável. Reparem na ausência de gente, na paisagem, na mulher extremamente magra, no corpo da criança envolto num pano branco...Reparem também na ausência do sentimento de tragédia... no despojamento quase total...
Por esta criança, colocarei um ramo de flores, quando for inaugurada a Igreja aqui ao lado da minha casa.
Descansa em paz, meu amor!!!

A origem do mundo


Resumo, a mais não me atrevo. Feira do livro. Página de livro: mulher nua. Gustave Courbet. Alarido: «Ai Jesus, as partes pudibundas de uma mulher. Tapem os olhos às crianças.» Cruz, credo, etc. Vem a PSP: «Retirar que é pornográfico!» Estes são os factos (mais ou menos). Depois as opiniões:
«Ai que horror, a ignorância do povo!»
«Estamos no século 21!»
«O povo tem razão. As crianças a verem a ...a ...a coisa ...de uma mulher? Isso é certo?»
Etc.
Depois vêm os jornais e os articulistas:
Miguel S Tavares (argh!): «O povo tem razão! Aquilo não se devia colocar à vista das crianças!»
Depois vêm os bloguistas:
«Se uma criança vê a ...a ...a....coisa de uma senhora, explica-se à criança que aquilo é a ...a...a ...coisa de uma senhora.»
«E se fosse isto que a criança visse na capa de um livro?» - o isto são fotografias -ESPLENDOROSAS - de nu frontal masculino!
«Explicava-se à criança que "isto" é o....o ...o... coiso dos senhores.»
«Eu já levei outras obras de Courbet, como o seu quadro o funeral de....»
Aqui entro eu:
« O Courbet tem pinturas de funerais? Oh, meu Deus... funerais (e babo-me, ligeiramente)»

De facto, tem uma obra, BURIAL AT ORNANS, que representa um funeral. De reparar: o número de pessoas, o ar delas, as cores escuras, a ausência de luz, a cova aberta, etc.

Talvez daí, alguém se tenha lembrado de introduzir uma série de fotografias - e não pinturas - que retratam morte e violência extrema e tenha perguntado: « o que é mais aceitável como capa de um livro, o nu ou a morte, a violência?» A pergunta é pertinente. Eu reflectiria sobre o tema, se estivesse com cabeça para tal. Não estou, infelizmente. Porém, entre as fotografias de violência e morte estava uma que me hipnotizou, pelo seu despojamento, a beleza...tudo! Mas essa será objecto de um outro "post".

Saturday, February 28, 2009

Pictures of Mickey Rourke

I came for you...lá..lá...lá...lá..lá..lá...lá...lá... I came for you...

Mickey Rourke

Mickey Rourke! Afinal não morreu como actor, nem como homem. Está vivo e LINDO! Tem um rosto que mudou, que registou mudanças, que contou histórias vividas. Mas continua lindo! Sexy! Atraente! Para mim, ele é verdadeiramente o vencedor do òscar de Melhor Actor.
« I LOVE YOU!!»

Tuesday, February 10, 2009

A morte segundo Alberto Pimenta: POEMA

artur hipólito morreu com 62 an
os, 20 anos após ter feito 42, mas
na altura quem diria?

heitor fragoso morreu atropelado.
foi levado para o hospital, mas es
queceram-se duma parte do corpo
no local do acidente.

manuel testa morreu sem se ter c
onseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.

arnaldo rodrigues caiu a um bur
aco da canalização e nunca mais
foi visto.

jeremias cabral pôs termo à exist
ência por motivos desconhecidos.
zeca gomes morreu em defesa da
pátria mas a pensar noutra coisa.

antónio de oliveira morreu igual
a si mesmo: triste sinal dos te
mpos!

bernardo leite pôs-se a pensar na
morte e não conseguiu voltar a
trás.

ivo gouveia tinha uma agência f
unerária e escolheu para si um
caixão representativo.

guilherme silva fechou-se no sót
ão, para morrer num lugar eleva
do.

luís dimas respirava saúde, agora
respira um hálito de eternidade.

antónio garcia, o coveiro, teve u
ma síncope e caiu dentro da cov
a que estava a abrir.

bento nogueira engasgou-se com
um pedaço de carne e desapare
ceu do nosso convívio.

paiva de jesus enforcou-se.
joão baptista viu o cunhado lev
antar-se do caixão e teve uma sí
ncope.

lourenço pinheiro estava a ver a
trovoada e um relâmpago entrou
lhe por um olho e saiu-lhe pelo
outro.

jorge velez de castro finou-se
após uma longa vida de sacrifí
cios, toda dedicada ao bem-comu
m. e foi assim: depois de ter inge
rido o seu sumo de laranja, foi c
onduzido para a cadeira de rep
ouso pelo enfermeiro de confian
ça. nela se conservou, de boca en
treaberta e olhos fechados, até
às onze horas. às onze horas, o e
nfermeiro de confiança aproxim
ou-se com a intenção de o condu
zir ao banho. pondo delicadamen
te a mão nas costas da cadeira,
disse: são horas do banho, senhor
director. como este não desse si
nal de ter ouvido, o enfermeiro
de confiança, com a costumada jo
vialidade, debruçou-se e repetiu:
são horas do banho, senhor direc
tor. posto isto, empurrou a cadei
ra até ao balneário, passou um br
aço pelos rins outro por baixo d
os joelhos do director, e assim o
levou para a água, só então se da
ndo conta de que ele já não vivia.

zé maria, o peidolas, foi expulso
da vida pela autoridade compet
ente.

joão gaspar foi um nobre e val
oroso homem que morreu heroi
camente no campo da honra. p
az à sua alma.

raul santos deitou-se um dia e p
or mais que o sacudissem nunca
mais se levantou.

alfredo penha caiu tão desastrada
mente da cama que nem é possív
el dar pormenores da sua morte.

joaquim perestrelo morreu no me
io da missa, qual quê! ainda a m
issa não ia a metade!

sousa dias morreu de pé, mas en
terraram-no deitado, como toda a
gente.

Wednesday, February 04, 2009

Eu


Esta sou eu, no dia em que decidi não procurar mais novas "amizades"! É um facto, as pessoas não me fazem "companhia", falam em abstracto...aborrecem-me. Acabou! Fico com as minhas histórias e as minhas memórias!
Vasco Pulido Valente disse recentemente que preferia estar morto a continuar a aturar o país e as suas gentes.No século passado, Evelyn Waugh, por sua vez, ficou impávido e sereno perante a possibilidade de coisas como a bomba atómica porem em risco a sobrevivência da própria humanidade. Muito falavam os intelectuais na passagem do sec. 19 para o sec. 20 sobre a desumanização do mundo massificado. Curiosamente, falavam caro, para o indivíduo comum, ignaro, preocupado com a vidinha, não os compreender. Hoje, os tiques intelectualóides de carácter abstracto enjoam. Há os "cultos" (!) de telejornal e os "cultos" dos debates - excelentíssimos (sic., ou sick! arghh!)da TVE. Ninguém quer falar de si. É banal! Na viragem do sec. 20 para o sec. 21 começa a falar-se na inteligência emocional, na base biológica das emoções, na importância, portanto, das emoções. Pois bem, o Homem Comum, retrógado e intupido de uma espécie de horror àquilo que não é ideia, intelecto, continua avesso ao progresso, ao verdadeiro progresso do seu tempo, que vai no sentido não da "inteligência" toda poderosa, mas da inteligência emocional. São pessoas paradas na chamada Modernidade cultural, pomposa e avessa ao comum, pessoas que não se aperceberam que o paradigma racional entrou em falência e que vivemos não a Modernidade, mas a Pós-Modernidade. Este horror à vidinha, que O'Neill tanto desprezava, está fora de moda! Não é à toa que os portugueses não cultivam a biografia e menos ainda a autobiografia. Têm horror a si próprios! Aqui, há que fazer justiça a Maria Filomena Mónica, prestigiada investigadora (elitista) portuguesa, que não teve problema em escrever a sua biografia. Curiosamente, ou talvez não, houve quem tivesse ficado desgostoso com o facto dela não ter procedido a um enquadramento histórico mais rigoroso. Lá está! A Professora a escrever sobre ELA e a cáfila intelectualóide preocupada com os enquadramentos!! Prefiro, mil vezes, as mensagens tontas escritas em "linguagem sms" dos jovens, naquela altura em que ainda têm algo de humano para contar, do que as da maioria das pessoas da minha idade, no que têm de "pensamento" pretensamente profundo! Elas, aliás, também se horrorizam com a minha toleima quotidiana e prosa crua e sem enfeites. OK! So what?
Deixei este texto por publicar, devido a uma espécie de pudor, de medo de que fosse lido e pudesse ofender! Como se alguém viesse ler e como se eu não tivesse direito a dizer o que sinto, aqui no meu blogue, no meu diário virtual! Acaso as minhas palavas não são contestadas, cara a cara, com violência? Acaso alguém se importa comigo, e com as prováveis ofensas que me possa dirigir? Quem aqui lê o que escrevo é porque, de algum modo, tem curiosidade acerca de mim. Nem que seja para irritar, faço falta a quem vem ler o que aqui escrevo. Pois bem, lerá a realidade sem politicamente correcto! Por falar, detesto o politicamente correcto, o faz de conta, as palavrinhas mansas. Não sou pela deselegância ou falta de respeito, de todo! Sou pela verdade, pelo menos, o mais possível! Quando o X me disse: «Estou a falar-te do essencial, e tu perguntas-me como estou?» Do essencial? O que é o essencial, segundo este visionário? A importância das relações sexuais na saúde física e mental do ser humano!!! Ah, e quantas vezes já me falou destas essencialidades?? Desde que nos conhecemos e já lá vão muitos anos. O problema é que as outras pessoas que tenho conhecido também só querem falar "do essencial"! IRRA! QUE TÉDIO!

Monday, February 02, 2009

The Who, Roger Daltrey - I am free.

So I am... Forever and ever...! And...that? NO MORE...!

Sunday, February 01, 2009

Problema de Expressão (Clã)

Desistimos das palavras. Somos tão expressivos como defuntos. Cada um na sua sepultura cuida apenas de manter as flores arranjadas. Já nem gestos fazemos. Assim somos....

Sunday, January 25, 2009

Psycho 1960 (opening)

Eu e a minha irmã na Net e ao telemóvel. No You Tube. Psycho, a banda sonora, para comemorar. A minha irmã também gosta das coisas de que eu gosto! Mais ou menos...!

Thursday, January 22, 2009

Neve


Já nevou outra vez. E, como previ, dos três só eu resto. Fez ontem, terça-feira, uma semana que viajei de noite para uma última despedida. Ali estava quem me transportou tantas vezes completamente inerte. É assim a morte, a ausência de movimento visível. A viagem, pela noite adentro, fria e cheia de nevoeiro e, por isso mesmo, lenta, não decorreu sem história para contar. Já de regresso, na parte pior da estrada, estrada antiga e estreita, ocorreu algo de sublime! Sou coleccionadora de histórias! Na ida, naquele troço, tínhamos encontrado um nevoeiro baixo, rente à estrada. Porém, no regresso, o nevoeiro tinha subido, como se tivesse ido espreitar à janela do primeiro andar. Então, quando o carro passava, ele fazia uma tangente e como que se desfazia, mal-humorado. De repente, começámos a ver, ao longe, que havia alguma coisa na estrada, começámos a desacelerar, e os vultos foram tomando contornos. Seriam cães? Eram três. Dois recuados, um de cabeça erguida, na estrada. Estáticos. Três carneiros. Duas da manhã. Nevoeiro alto. Eu quase olhos nos olhos com o animal na estrada. Nem se moveu. Possivelmente, fugiram ao dono. Mas eu prefiro acreditar na mitologia da minha aldeia: os carneiros são a encarnação do espírito maligno da noite. Mensageiros do diabo...
Agora insiro a imagem. Lagoa comprida, Serra da Estrela. A paisagem mais sublime da Beira Interior!
Descansa em paz, meu amigo!

Monday, January 19, 2009

Eyes Wide Shut - Masked Ball

A beleza da noite, das máscaras, do FEIO...!? Como gostaria de ser heroína numa cena parecida, ao som de uma melodia parecida. Como tudo é banal!!
Agora o sol despontou, no meio deste Inverno radioso e frio. Vou tapar as janelas. Preciso de ausência de luz...!

Friday, January 09, 2009

Neva na Covilhã

A neve é o único tom de branco que suporto!
Hoje nevou na Covilhã. Neve mesmo, daquela que cobre tudo. Iniciou ao cair da tarde e, ao anoitecer e pela noite dentro, foi-se tornando mais intenso. Andei uma hora à neve, à noite, sem destino. Passavam por mim carros lentos. Não se via ninguém. Que bom! Lembro-me do último nevão, num dia de regresso a casa, trazida por alguém que, neste momento em que escrevo, poderá ter já partido para nunca mais voltar. Como são as coisas! Quando me falaram da sua viagem eminente, lembrei-me dessa viagem sob a neve e sobre a neve. A minha avó também vinha. Ele tem estado na minha mente, é das poucas pessoas por quem tenho afecto e GRATIDÃO! É Inverno, claro, há frio polar. Dizem! Para mim, este nevão só tem isto de nostálgico, é lembrar-me do outro e dessa viagem que fizemos juntos: eu, ele e a minha avó. A neve é cada vez mais rara na cidade, muito provavelmente, da próxima vez que nevar, só já estarei eu dos três. Talvez!
Amanhã volto, para inserir uma imagem.

Saturday, December 20, 2008

creepy music - ghost graveyard

Recomendaram-me esta música, os meus amigos que, como eu, gostam de cemitérios e encaram a morte, apenas, como o último dia da nossa vida! Oxalá morrer seja algo com esta música como acompanhamento!

Wednesday, December 03, 2008

Os que ressuscitam


Detesto os que ressuscitam! Não há nada pior do que um morto recalcitrante, um morto que quer subverter as leis do silêncio a que está obrigado. Silenciar é morrer, não existir, desistir. Há um tempo para tudo. Quando advém o silêncio, mandam as regras não estabelecidas, que se faça o luto, missa de sétimo dia e, depois, a deposição de flores no túmulo em datas previamente referenciadas para tal. Ressuscitar é, no fundo, desperdiçar as flores que se depositaram em memória do defunto. É deselegante, é desconcertante.

«olá. muito frio? blá, blá, blá. beijinhos com muita saudade.»

Frio? Os mortos devem estar frios, falar do frio aos que estão vivos? Que despropósito. Saudades? Os vivos é que devem ter saudades. Está tudo ao contrário. É um mundo de zombies, de mortos vivos, de gente que o não sabe ser. Por isso eu digo, impaciente, aos que ressuscitam: à tumba, meus senhores! À sepultura! Dormi em silêncio pela eternidade! Não perturbeis os dias dos que ainda vivem!

Dito isto, bebo café e desligo o telemóvel, dizendo NÃO ao desconcerto do mundo!

Saturday, October 18, 2008

Requiem For A Dream/Lord Of The Rings remix

Só a música agora, sem mais nada...

Requiem for a Dream - Song by Clint Mansell

Os sonhos são pesadelos com banda sonora. Como esta: Requiem For a Dream. Os pesadelos são mais longos. Os sonhos mais intensos. Esta música é hipnótica. É demasiado bela, demasiado intensa, demasiado etérea. Levanta-me e derruba-me simultaneamente. Faz-me viver mil anos, faz-me desejar morrer assim que acaba.

Friday, October 17, 2008

Xasthur-Cemetery of shattered Masks

Tudo é relativo. Enviaram-me um vídeo com a apologia do branco. E se eu tiver medo do branco? E se eu enviasse este vídeo? Afinal, quem é que não se sente calmo ao vê-lo, ao ouvi-lo??!

Wednesday, October 08, 2008

Mortinha para dizer o que me faz feliz...

Há dias de todas as cores. Eu prefiro os cinzentos! Mas não as pessoas cinzentas. Definitivamente. De regresso a mim, entro num dia amarelo, opaco, para poder ver só esse dia. O primeiro de outros, igualmente amarelos e iluminados. Voltei à lucidez. Posso partilhar que estou no princípio da concretização do meu sonho maior. Ainda me parece impossível, mas já é tão real que é quase palpável. Ou seja, voltei às coisas - e essas apenas - de que realmente gosto. Este meu cemitério, sítio íntimo e de intimidade é uma delas. Há quem o ache tétrico. Mas essas pessoas quando falam demonstram um défice de referente. As pessoas...as vivas, claro...que medo! São de fugir!
Avó Maria, avó Soledad, tia Maria, tio Bernardino, PAIZINHO, tio Ângelo, e todos os outros com quem já estive e não estarei jamais intercedam por mim.
Descansem em paz!

Saturday, October 04, 2008

GOTHIC ART - very scary illustration and music in background

Uma música fúnebre da Eslovénia. Não gosto dos motivos de mutilação e erotismo macabro do gótico. Mas tudo o resto fascina-me. Dá-me paz!!

Sunday, September 28, 2008

Jacques Brel - Ne Me Quitte Pas

I want to share with you here in my space and yours how I feel. I have no one else to talk to. I'm afraid I have no one... on the other hand...

Serge Lama - Je suis malade

Vraiment!

Missing by Evanescence - video

Someone misses me!? Does someone say: «I miss you!!» ? Really?? I may not be dead, but I'm scared of being alive.
Missing. Missing you!!

Friday, September 05, 2008

Samara part 3

Seven days...

Samara´s Song

Round we go
the world is spinning
When it stops
it's just beginning

Sun comes up
we laugh and we cry
sun goes down
and we all die

Missing

Estou fascinada. Foi assim quando li o livro. É assim agora com o filme...! Missing...!

Thursday, August 21, 2008

Anna Karenina, a morte de um sonho

Anna K. de Leo Tolstoi é uma das mais belas histórias de amor. Aliás: A MAIS BELA! O livro é mil vezes melhor do que o filme ou filmes, pois há mais que um. Mas este, protagonizado por Sean Bean, homem lindíssimo, e pela belíssima actriz (não sei o nome dela), belíssima e sublime, é absolutamente ... arrebatador! Tudo é lindo neste filme: o espaço, a música, os actores e actrizes, os diálogos, o guarda-roupa, é tudo de uma elegância que não voltará jamais. Pude confirmar que Anna K. morre de amor, ou melhor, amando, mas morre para se libertar. Já não há nada a fazer. Vronsky ama-a, mas já não conseguem comunicar. Amar é pouco, muito pouco, para um homem e uma mulher permanecerem unidos. A morte é redentora. Através da morte, Anna inscreve-se definitivamente na vida daqueles que começavam a ignorá-la, a esquecê-la. A coragem... a determinação com que se atira para a linha do comboio... o desespero de Vronsky. A morte, belíssima e libertadora!

Friday, August 15, 2008

anna karenina - requiem for a dream

Lindo...!

Anna Karenina trailer

O livro é mil vezes mais belo. Mas o filme é belo também. http://www.youtube.com/watch0pinjO68

anna karenina - gravity of love

Vi hoje o filme. É lindo...!

Thursday, July 31, 2008

Dia Enevoado


Encontro um poema improvável num livro de Wittgenstein. É de Frida Schanz:

Dia enevoado.
O cinzento Outono visita-nos;
o mundo está tão silencioso
como se tivesse morrido ontem à noite.
Na sebe vermelho-dourada
amadurecem os monstros da névoa;
e o dia jaz adormecido.
O dia não voltará a nascer.

«o mundo está tão silencioso/ como se tivesse morrido ontem à noite».
... !

Wednesday, July 30, 2008

The Ring


As minhas férias começaram, finalmente. Não fiz nada. Fiquei a habituar-me apenas ao silêncio. Também não me apetecia fazer nada. Procurei um filme para me fazer companhia: The Ring - um eco de coisas que já não voltam. O M. deu-mo. Nunca quis vê-lo verdadeiramente. Hoje vi os dois filmes quatro vezes. Gostei. Imenso!Poderia ainda ser melhor. Tem tudo para ser ainda melhor.
A imagem da menina dos cabelos longos, a escorrer água, a própria água, a árvore em chamas. A cabana 12. Queria estar na cabana 12. De bom grado faria o percurso até à escarpa e depois faria o percurso para o mar.

_ "Quanto tempo se sobrevive num poço escuro?"
_ "Sete dias."
Seven days!

Wednesday, April 09, 2008

Os dias que passam



Pergunto-me, muitas vezes, o porquê de não desistirmos... de tudo. Continuar, para quê? A cada dia, um novo obstáculo penoso de ultrapassar. Além do mais, numa fase descendente da vida. Vamos envelhecer, vamos interessando cada vez menos. A partir de certa altura, a vida assemelha-se, tão somente, à gestão agónica dum quotidiano problemático. Para quê...??

Tuesday, March 25, 2008

É a vida


Era Agosto. O meu pai morreria em Setembro. Agosto é o mês das festas nas aldeias. O meu pai estava doente, vegetava...literalmente. Havia festa na aldeia: música, foguetes, agitação. Eu detesto festas e detestei esta particularmente. Nada podíamos fazer para impedir que a aparente alegria dos outros nos entrasse pela casa dentro. Do lado de cá da porta, esperava-se a morte e o barulho dos que viviam e tinham esperança era chocante. Insuportável. O barulho exterior mais não fazia que sublinhar o silêncio de quem já não tinha o que dizer. Ali estávamos apenas, esperando...
Assim acontece tantas outras vezes na vida. Estamos sós e queremos estar sós. Não queremos de todo saber do que é feita a vida dos que já nada nos dizem. Mas eles afadigam-se em fazer-nos chegar os ecos da imensa festa que é a sua vida. Ou parece ser. Porque não se limitam a viver? Porque é que querem um público? Eu estou a viver a minha própria festa. Não quero convidar ninguém para ela, menos ainda ser convidada em festa alheia. O mês de Agosto é longo, mas também tem um fim! Espero por ele!

Thursday, December 20, 2007

Maria José



A morte ronda os que amamos: família, amigos, colegas. Não sou pessoa de festas, comemoração de dias feriados, casamentos, baptismos e outros pretextos para as pessoas se juntarem. Sou uma espécie de corvo. Fico perto das pessoas nos momentos de ... dor. Sou pessoa de velórios, enterros e missas de sétimo dia.
Recentemente morreu uma colega, a Maria José. Não era minha amiga particular, nem pessoa da qual estivesse muito próxima. Era, no entanto, uma pessoa que me merecia todo o respeito pela sua discrição e simpatia. Há muito pouco tempo antes da sua morte, tinhamos estado sentadas lado a lado, a trocar impressões sobre a escola de hoje. Banalidades!? É possível que sim, porém foi um momento em que estivemos juntas, pela derradeira vez, falámos e estabelecemos laços. Será um momento que sempre recordarei. Por motivos - outras mortes, embora simbólicas - de que não falarei não estive presente para um último adeus. Mas fá-lo-ei, se não morrer antes, claro.
Deixo, por isso, aqui umas flores para ti, minha amiga. Espero poder brevemente poder oferecer-te outras, verdadeiras, com cor, volume e aroma. Descansa em paz!

Monday, December 10, 2007

Tomorrow Never Dies

Unless we die...then... who cares? Beautiful song! It makes me feel so desperately alone...

Sunday, October 14, 2007

Morrer

A revista Sábado de de 27 de Setembro, trazia um artigo sobre o suicídio: DOUTOR SUICÍDIO. Nele se fala de Ton Vink, professor de Filosofia, holandês, que é conselheiro da eutanásia. Vink prefere a palavra "auto-eutanásia" à palavra suicídio. Que faz este senhor? Dá conselhos sobre como morrer bem, àqueles que não aguentam ou não querem viver mais.
Todos os dias alguém nos mata um pouco com uma palavra assassina, usada para aniquilar. Mas se a vida nos pesa, ninguém nos pode aliviar. É crime. A vida é sagrada. Vink e outros dão aconselhamento sobre métodos para ter uma morte doce. Aconselhar não é crime. Ainda bem!

Sunday, September 02, 2007

Drop Dead Gorgeous





É este o nome da colecção de fotografias de Daniela Edburg. A fotógrafa quer aliar o "glamour" à morte. Tendo por ideia base os alimentos e outros produtos de consumo que podem levar-nos à morte, Daniela fez uma série de fotos em que recria quadros e cenas famosas de certos filmes aos quais adiciona o tal produto.
A revista Sábado mostra-nos as seguintes obras da colecção: Morte por algodão doce, Morte por bolo, Morte por gomas, Morte por Canderel, Morte por tupperware, Morte por Oreos e Morte por bananas.
É essa morte que aqui deixo como ilustração. A fotografia recria uma cena do filme "Os Pássaros" de Alfred Hitchcock. Acho-a, bem como as outras, absolutamente genial!
A propósito, não sabia que as bananas podem matar... A morte pode, afinal, ser tão doce.

(Revista SÁBADO, Nº.174, p.94)

Imagem:https://themorningnews.org/drop-dead-gorgeous/, consultado em 27 de Maio, 2007