As eminências pardas estavam
todas devidamente sentadas, à espera que vocência falasse. E ele falou:
- Não fazem o trabalho de casa e depois
queixam-se que as sessões são muito grandes!
- Mas eu só recebi isto às duas
da manhã…
- Cedíssimo, minha cara.
Cedíssimo. E vamos lá ao trabalho. Tenho tudo pronto, é só assinarem!
E fez cara de poucos amigos, para
que ninguém mais ousasse reclamar. Posto isto, todos afocinharam nos papéis de
caneta em acção. Entretanto, diz alguém:
- Mas estes papéis têm a data de
há cinco anos…
- Impossível!
- Julho de 2021!
A formiga - mas pouco, com grande propensão para
cigarra, aliás – ficou vermelhusca, se bem que estar vermelhusca não é de todo
raro. Com efeito, a sua tromba asinina pende sempre um bocadinho para o
escarlate.
- Tenho que ir buscar novos
papéis… Esperem um bocadinho.
De rabo entre as pernas, lá se
dirigiu para os serviços de cópia. Os outros olhavam-se, zurzindo-o com o olhar e com não poucos trejeitos labiais
e acenos de cabeça. Mas nem um pio. Passado um bom bocado, aparece o tarata,
muito esbaforido, com a papelada na mão. Segue-se mais uma ronda de
assinaturas. Só se ouvia risc risc. Porém, alguém exclama:
- Os nomes estão errados!
- Impossível!
- Beltrano…
- Beltrano? Não está lá sicrano?
- Não.
O dito cujo levantou-se muito
contrariado, agarrou na papelada, deitou-a ao lixo e disse:
- É só mais um bocadinho…
- Mas eu t…
- Peço desculpa. Fartei-me de
trabalhar. Toda a noite a preparar os papéis…
- Quais papéis? Estes que estão todos
sem ponta p…
- Não lhe admito! Quem achar que
faz melhor do que eu, pode vir substituir-me!
- Fazer melhor??? Mas isto não
está nada bem feito!
E ouve-se um coro: Ó colegas,
acalmem-se lá. Isto é muito complexo, é muito trabalho. Deixem o chefe
trabalhar, que ele tem que regressar à secção de cópia pela segunda vez.
- Terceira, se faz favor, que ele
mal pôs os olhos nos papéis, assim que aqui chegou, viu logo que se tinha
esquecido de pôr o cabeçalho!!
- Sabe quem é que nunca se
engana??? Quem não faz nada!
- De acordo. Mas bom seria que
tivesse feito E BEM…
Coro: Ó colegas, ó colegas… Nunca
mais daqui saímos. Deixem o homem trabalhar. Deixem-no ir às fotocópias…
E ele foi, de olhos escancarados,
a boca à banda e os braços a abanar com ímpeto.
- Olha-me este q…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
Finalmente reaparece o taralhoco,
com cara de quem é sempre incompreendido, não obstante o excelente – digamos assim
– trabalho.
Papelada de novo em cima da mesa,
canetas, risc risc; risc, risc.
- Então, agora parece que está
bem! Não dizem nada? Se houvesse mais algum erro, aqui-d'el-rei . mas como está tudo bem, nada.
Nunca se elogia o bom trabalho. Mas apontar os erros…
- O bom trabalho? Já estamos com
hora e meia de atraso…
- Olhe que eu não lhe a…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
E assim foi. Levantámo-nos,
agarrámos nas nossas malas e saímos cabisbaixos, comme d'habitude.
