Rest in Peace
Sunday, February 15, 2026
Golden Brown
Ainda assim, um abraço longo e apertado a essa gente ...
Thursday, January 08, 2026
8 de Janeiro, 2026
Era uma tarde
alegre e eu estava alegre também. Não gosto de estar alegre. Gosto de estar
feliz. Eu ia com um grupo de pessoas todas elas alegres também, gesticulando
muito, falando alto. Rindo. Ao meu lado, com grande intimidade, seguia um homem
de camisa totalmente aberta, muito simpático, mostrando o peito e as mãos
grandes e eu achando-o simpático e com as mãos grandes. O grupo de pessoas,
entretanto, não parava de aumentar. Éramos uma mancha compacta em movimento por
entre duas filas de árvores gigantescas, cobertas de flores coloridas. Eu fui a
primeira a dizer adeus a todos. Apertei a mão grande do homem da camisa
totalmente aberta e continuei sozinha. Estava feliz. Algures, havia alguém à
minha espera. E eu queria ver esse homem e seguir com ele numa viagem. Estava
com um vestido às flores, pelo joelho. Era um vestido antiquado que já ninguém
usa. Queria ser eu mesma, com a minha roupa. Mas aquele vestido antiquado
agarrou-me dentro dele. Não havia como fugir-lhe.
Concentrei-me,
então, no homem que estava à minha espera e, quando se fez noite, ele chegou.
Muito alto, muito lindo, muito frio. Corri para o abraçar e ele afastou-se. As
minhas roupas, entretanto, tinham mudado. Eram as minhas roupas, o meu perfume,
o meu batom. À distância, onde ele me tinha colocado, perguntei-lhe:
- "Onde
vamos?"
E ele:
- "Nós?
Vamos?"
E eu disse:
- "Sim. Vamos."
E ele disse:
- "Eu vou e
tu vais."
E eu calei-me e
ele disse:
- "Posso
transportar-te para onde fores."
E virou-me as
costas. Dirigiu-se para um carro branco na noite escura. Eu segui-o. Ele
entrou. O lugar ao lado dele estava ocupado. Era uma mulher linda e muito
elegante. Juntos, lado a lado, eram todo um universo de beleza e harmonia.
Virei-me e fui embora.
Tudo era ermo,
escuro, longe. Havia também uma estrada incongruente que se encheu dum trânsito
caótico e ruidoso assim que decidi atravessá-la. Finda a travessia, caiu
novamente o silêncio mais absoluto. Eu estava num descampado. Ao longe, havia
um aglomerado de luzes amarelas, como pirilampos. Encaminhei-me para lá. De
repente, junto a uma árvore como se fosse uma ilha, surgiu um grupo de homens
muito altos, com máscaras brancas. Dançavam cada um consigo próprio,
lentamente. Fugi deles, cheia de medo e maus presságios. Só parei junto do
sítio das luzes amarelas. Era uma aldeia, embora não fosse visível uma única
casa. Era noite de festa. Havia música de festa e as pessoas vestiam roupa
antiquada, de festa. Perguntei a alguém onde havia um telefone. Eram pessoas
muito simpáticas e muito impressionadas com a minha aparição. Indicaram-me um
bar feito de caixas de madeira. Sobre o balcão estreitíssimo, depois de uma
fila interminável de garrafas de cerveja, havia uma fila interminável de
telefones. Queria chamar um táxi, para sair dali. Fui tentando, exausta, os
telefones todos. Mas nenhum funcionava, limitavam-se a emitir uma música
clássica, belíssima. Perguntei:
- "Onde
posso encontrar um táxi?"
- "Não há."
- "Um
carro?"
- "Não há."
- "Como é
que se sai daqui?"
- "De
comboio"
"Onde?"
- "Do outro
lado do monte."
Corri pelo meio
da vegetação seca até ver as linhas de aço paralelas reluzindo, fracamente, na
noite.
A estação tinha
apenas uma parede alta e um banco comprido junto à linha de caminho-de-ferro.
Tentei procurar a bilheteira. Em vão. Quanto mais procurava na parede grande,
maior ela se tornava. Desisti, com medo de que tudo desaparecesse. Sentei-me,
então, no banco comprido à espera. Olhei em redor e avistei os bailarinos de
máscara branca a aproximarem-se de mim, na sua dança lenta. Ia ter companheiros
de viagem. De repente, ouviu-se um barulho enorme, como uma explosão. Era o
comboio que passava veloz à minha frente. Levantei-me agitada, gritei e fiz
gestos para que parasse. Era um comboio interminável, cheio de rostos de olhos
cintilantes colados às janelas. E passava, com os vidros e os olhos reluzentes.
Uma linha contínua, ruidosa e cheia de pontos minúsculos de luz. E eu
agitava-me a implorar que parasse. A deslocação do ar fazia rodopiar tudo à sua
volta. Era um redemoinho de coisas vivas em movimento. Calei-me. Fui ficando
calma. Esperava apenas que o comboio parasse. Mas ele seguiu rápido, perturbando
a noite. Não parou. Ainda bem. Eu também já não queria ir-me embora.
PS: Este foi o presente que me ofereci, para comemorar o dia mais importante da minha vida: 8 de Janeiro, dia em que defendi a minha tese de doutoramento.
Wednesday, December 31, 2025
Tuesday, December 30, 2025
Viagem
Eu ia adormecida no banco de um comboio em andamento. Era a única passageira embora, por vezes, se sentisse a agitação de inúmeras pessoas em debandada, arrastando malas pesadíssimas. Sentia-me bem naquele comboio escuro, viajando no silêncio da noite. Tinha os olhos fechados, o que não me impedia de ver os assentos austeros e vazios, o corredor trespassado de sombras, os rectângulos transparentes das janelas e as linhas de aço estendidas no chão, a perder de vista. Obriguei-me, no entanto, a dormir sentada, para melhor sentir a viagem e o banco, amável, ajeitou-se para me acolher, como um colo.
Por vezes,
passávamos por estações vazias, outras vezes, por estações cheias de gente em
movimento frenético, atropelando-se e produzindo um barulho aterrador. O
comboio, porém, seguia em frente, veloz, transportando-me simplesmente a mim,
sua única passageira. De repente, a noite encheu-se de um nevoeiro doce e
transparente, com reflexos de verde. Abri os olhos. Seguíamos numa linha
invisível, à beira mar. Por vezes, as ondas entravam pelas janelas fechadas,
deixando um rasto suave de humidade. Levantei-me. Ao longe, via-se uma
estrutura gigantesca sem volume. Poderia ser a parede de uma casa assombrada ou
de um palácio em ruínas. Tinha portas enormes e janelas de vidros partidos, das
quais pendiam cortinas transparentes ou teias de aranhas, ou ambas. Tinha
também um enorme terraço, meio enterrado na areia branca e fina, pura como a
seda. Por todo o lado, em volta da casa, cresciam flores minúsculas de cor
indefinida. Depois, apareceram outras casas mais pequenas, mas com janelas
enormes e outras ainda que o nevoeiro encobria e não deixava ver. Eu sentia-as,
como se estivesse dentro delas, habitando-as a todas em simultâneo. Colei-me
aos vidros do comboio. Tentei abrir as portas, as janelas. Queria sair.
Permanecer para sempre naquele mar, naquele nevoeiro. Em vão. Eu era a única
passageira de uma viagem que ainda não tinha terminado. Apoderou-se de mim uma
angústia indizível, à medida que todas as casas, da mais pequena ao palácio
imponente e sem volume, foram desaparecendo na distância. Sentei-me. Tínhamos voltado
à noite e às sombras. De repente, um túnel horrorizado com a penetração
eminente desintegrou-se em milhões de pássaros esvoaçantes. Ri-me, então, bem
alto, espantado as aves ainda mais. Fiquei feliz. Voltei a adormecer. A viagem
terminaria apenas quando a noite terminasse também. Ao primeiro vislumbre de
luz solar, desapareceria tudo. Como sempre.
Friday, December 26, 2025
Why?'???
