Rest in Peace

Saturday, October 03, 2026

Friday, October 02, 2026

Elis 😢

 

O algoritmo por vezes, interpretando mal os meus interesses, traz-me temas e vídeos de que eu não gosto. Doenças, por exemplo, ou vídeos de extração de todo o tipo de imundície da pele das pessoas. De imediato, assinalo o meu desinteresse por tais temas e tudo vai bem. Há talvez um mês, não mais, traz-me um vídeo  - shorts - de duas meninas, muito novinhas ainda, com progéria. Passei-o rapidamente. Pouco depois, apareceram as meninas novamente. Olho de relance para os comentários e leio: lindas! Passei e disse para mim, porquê dizer "lindas", as meninas não são lindas, isto é ser condescendente. Pode amar-se uma pessoa sem que ela seja linda. Eu detesto condescendência. Aquele tipo de pessoa que me diz: «não envelhece. Está sempre na mesma. Sempre linda. Os anos não passam por ela.» E outras coisas mais... Com uma agravante. Isto do estar sempre linda e jovem, que para além do mais é preconceituoso, é uma forma de tentar ser agradável. Mas há outras formas de condescendência, que, de tão descaradas, até podemos ver o filme na cabeça da pessoa, a rir-se e a pensar «olha o estafermo». Eu tive durante anos uma pessoa condescendente deste tipo em cima de mim: desdenhava de mim, pensando que eu não percebia - tá bem abelha! - enquanto me enchia de encómios (que eu não comia, claro).
Voltando ao algoritmo. Aquelas meninas punham-me tensa. Só o facto de eu não ser do tipo de me pôr a ver bebés e a babar-me com a sua graciosidade me contentava: por que razão hei-de ver estas meninas com esta síndrome, se eu não sou daquelas mulheres que se perdem por bebés? Triste é dize-lo, mas eu passo, sim, é horas a fio a ver gatinhos (de quatro patas, note-se). Mas estas meninas eram doentes, tinham uma doença rara, que eu tinha estudado para falar sobre o tema do envelhecimento. Eu até tinha seguido a vida de Sammy Basso, que conseguiu viver muito para além da esperança de vida que estas pessoas normalmente têm. É muito triste ver crianças com todas as características dos idosos, e com mais problemas de locomoção, por exemplo, do que os próprios velhos. Claro que não tive coragem de marcar o vídeo como não sendo do meu interesse. E como as meninas não deixaram de aparecer, eu dei por mim a vê-las, a apreciá-las, a procurar vídeos delas, a segui-las, a adorá-las e a achá-las, sem condescendência nenhuma, LINDAS. As crianças mais maravilhosas, mais queridas, que já tinha visto na minha vida. 
Elis e Eloá são/eram duas gémeas idênticas nascidas no Brasil, no seio de uma família pobre e cuja mãe já tinha oito filhos. Ora, não há registo de gémeas com progéria. Elas serão as únicas. O pai terá abandonado o barco... E é um irmão de 20 anos, na altura do seu nascimento, que assume o papel de "pai", irmão, cuidador e companheiro incansável da mãe, nas idas aos hospitais, aqui e ali, e nos cuidados com as pequeninas. A mãe, uma mulher ainda nova, talvez nos quarentas, com grandes olhos cheios de amor, tristeza e cansaço, é daquelas mulheres com uma dedicação única em relação às suas meninas. Diz-se que, ainda antes de  se descobrir o que havia de anormal com elas, pois por volta dos três meses começaram a perder o cabelo, a ficar com a cabeça cheia de veias salientes e a pele fininha e algo enrugada, aconteceu o seguinte: a mãe estava com as meninas no supermercado e alguém disse, «Olha, dois monstrinhos». Aliás, como reação ao «Que lindas», não faltavam comentários do género «Lindas?? Podem ser tudo, mas são bem feias.», ou «Lindas? Só se for num pesadelo.», ou ainda «Parecem vampiros», e também «Parecem dois marcianos». Quanto à mãe, havia quem a criticasse, dizendo que tinha um canal no YouTube, mas não para mostrar as filhas. Era, sim, para se mostrar a ela.» 
O certo é que, através do YouTube e outras redes, conseguiram arranjar dinheiro para fazer melhorias na casa, bastante pobre, bem como dinheiro para as despesas das crianças. Conseguiram também visibilidade que permitiu que elas sejam/fossem seguidas por especialistas nos Estados Unidos e tenham inclusive beneficiado da toma de um novo medicamento que retardará os efeitos mais nefastos do envelhecimento precoce. 
Esta doença rara, porém, é implacável e devido à debilidade, ora uma partia um bracinho e ia para o hospital, ora tinha uma gripe e seguia para o hospital, e outras situações semelhantes. A Elis, porém, era a que tinha uma maior propensão para problemas mais graves: problemas cardiorrespiratórios. Há um ano, devido a um desses problemas, teve que fazer uma traqueostomia: é muito triste ver uma criancinha com aquele tubo na garganta, com dificuldade em respirar e em falar. Mas, mesmo assim, logo que melhorou, desatou a fazer as tropelias e as birras do costume. Há semanas, porém, voltou a ter uma paragem, esteve no hospital e, quando teve alta, regressou a casa letárgica, com tubos, sempre deitadinha no colo da mãe, sorrindo apenas com o carinho da família. Eloá, com as suas mãozinhas minúsculas, mas semelhantes às mãos artríticas dos idosos, ficava também ao pé dela, agarrando-lhe nas mãos, fazendo-lhe festinhas e, por vezes, limpando as próprias lágrimas da sua carinha linda de cinco anos apenas. 
Entretanto, começaram a vir vídeos repetidos e nada de novo acerca da Elis, nem respostas às perguntas acerca do estado de saúde dela. No dia 30 de Setembro, no entanto, apareceu o irmão para dar a notícia: a Elis morreu. O enterro foi ontem: um cortejo de familiares, a Eloá no colo de um tio, a mãe devastada, o caixão minúsculo cheio de flores. 
É por estas coisas que eu não gosto que o algoritmo me recomende estes vídeos. Não há como não passar por tudo isto como se se fosse apenas alguém de longe que observa. Assiste-se à morte desta criança como se fosse da nossa criança. E agora fica-se a aguardar a reacção da Eloá, a irmã gémea que vai ficar sozinha, sem a sua companheira... 
Elis, nunca me custou tanto uma morte... Gostava, sinceramente, de não te ter conhecido. Eloá, ainda bem que és gémea da Elis. Vou matar saudades dela através de ti. E vou matar saudades tuas, contigo. Vou continuar a ver-te sempre, nem que seja através dos vídeos antigos. Não sei estar sem vocês!!
No vídeo abaixo, havia já um prenúncio de partida: o título, saudade; a música, partida; a imagem, os dias felizes à chuva, na companhia da mãe e do irmão. 




Friday, September 25, 2026

Jorge Palma

 



Jorge Palma é/era um grande cantor, que não doutrinava nem dava lições de moral. Parecia sempre ter bebido para além da conta... ou algo assim. Canta muito bem. Era/é muito bom. 
Na fotografia estou a beber  - água, porque estou frágil: sorry! -, com ele, por ele.
Rest in peace. 



Thursday, September 24, 2026

Thursday, September 17, 2026

A Oeste nada de novo


As eminências pardas estavam todas devidamente sentadas, à espera que vocência falasse. E ele falou:

- Não fazem o trabalho de casa e depois queixam-se que as sessões são muito grandes!

- Mas eu só recebi isto às duas da manhã…

- Cedíssimo, minha cara. Cedíssimo. E vamos lá ao trabalho. Tenho tudo pronto, é só assinarem!

E fez cara de poucos amigos, para que ninguém mais ousasse reclamar. Posto isto, todos afocinharam nos papéis de caneta em acção. Entretanto, diz alguém:

- Mas estes papéis têm a data de há cinco anos…

- Impossível!

- Julho de 2021!

A formiga  - mas pouco, com grande propensão para cigarra, aliás – ficou vermelhusca, se bem que estar vermelhusca não é de todo raro. Com efeito, a sua tromba asinina pende sempre um bocadinho para o escarlate.

- Tenho que ir buscar novos papéis… Esperem um bocadinho.

De rabo entre as pernas, lá se dirigiu para os serviços de cópia. Os outros olhavam-se, zurzindo-o  com o olhar e com não poucos trejeitos labiais e acenos de cabeça. Mas nem um pio. Passado um bom bocado, aparece o tarata, muito esbaforido, com a papelada na mão. Segue-se mais uma ronda de assinaturas. Só se ouvia risc risc. Porém, alguém exclama:

- Os nomes estão errados!

- Impossível!

- Beltrano…

- Beltrano? Não está lá sicrano?

- Não.

O dito cujo levantou-se muito contrariado, agarrou na papelada, deitou-a ao lixo e disse:

- É só mais um bocadinho…

- Mas eu t…

- Peço desculpa. Fartei-me de trabalhar. Toda a noite a preparar os papéis…

- Quais papéis? Estes que estão todos sem ponta p…

- Não lhe admito! Quem achar que faz melhor do que eu, pode vir substituir-me!

- Fazer melhor??? Mas isto não está nada bem feito!

E ouve-se um coro: Ó colegas, acalmem-se lá. Isto é muito complexo, é muito trabalho. Deixem o chefe trabalhar, que ele tem que regressar à secção de cópia pela segunda vez.

- Terceira, se faz favor, que ele mal pôs os olhos nos papéis, assim que aqui chegou, viu logo que se tinha esquecido de pôr o cabeçalho!!

- Sabe quem é que nunca se engana??? Quem não faz nada!

- De acordo. Mas bom seria que tivesse feito E BEM…

Coro: Ó colegas, ó colegas… Nunca mais daqui saímos. Deixem o homem trabalhar. Deixem-no ir às fotocópias…

E ele foi, de olhos escancarados, a boca à banda e os braços a abanar com ímpeto.  

- Olha-me este q…

Coro: Ó colegas, ó colegas…

Finalmente reaparece o taralhoco, com cara de quem é sempre incompreendido, não obstante o excelente – digamos assim – trabalho.

Papelada de novo em cima da mesa, canetas, risc risc; risc, risc.

- Então, agora parece que está bem! Não dizem nada? Se houvesse mais algum erro,  aqui-d'el-rei . mas como está tudo bem, nada. Nunca se elogia o bom trabalho. Mas apontar os erros…

- O bom trabalho? Já estamos com hora e meia de atraso…

- Olhe que eu não lhe a…

Coro: Ó colegas, ó colegas…

E assim foi. Levantámo-nos, agarrámos nas nossas malas e saímos cabisbaixos, comme  d'habitude.

https://www.google.com/search?q=expressionismo+dist%C3%B3pico&sca_ , consultado em 16 de Setembro, 2026

Wednesday, September 09, 2026

Primeiro dia...

Dia de regresso à rotina. Tudo igual. Não. Há mais exigências. Estavam dois lugares vazios na sala de reuniões... Eu própria, provavelmente, deixarei o meu lugar vazio no próximo ano.

Sempre pensei que os últimos anos seriam de alegria, a alegria da contagem decrescente. Mas não. Custa na mesma, como se não fosse acabar nunca. E depois, há o resto. O que vem ocupar o lugar que fica vazio...

Muitas caras novas. Não se conhece ninguém. Os novos, embora velhos, a tentarem adaptar-se e os velhos a tentar puxar a cadeira para eles se acomodarem. Que cansaço! 

Entretanto, a minha casa, que continuo a limpar, a pintar, etc., ainda está em estado de sítio. Não consigo começar e acabar, fazer tudo de seguida. Não. Tenho de ir descansando. Pelo menos, livrei-me de imenso lixo: roupa e mais roupa e outras coisas. A limpeza da cozinha está mais perto. Já tenho uma oferta e há uma nova empresa de limpezas na Covilhã. Mal posso esperar por ver tudo pronto. 

Amanhã começo às 10:00 e vou pela tarde fora. Desânimo...  

https://culture.pl/en/gallery/selected-paintings-by-zdzislaw-beksinski-image-gallery, consultado em 9 de Setembro, 2026

Tuesday, August 18, 2026

Férias 2026


Para mim, a Internet é a melhor invenção de sempre. Sinto que "vivo" mais do que alguma vez vivi por causa dela. Não gosto de viajar, de me deslocar, de ver pessoas, falar com elas, ser aquilo que é expectável que sejamos quando estamos com alguém. Os livros foram sempre a minha forma de viver. Através deles conheci pessoas, sítios, situações. Ri muito e também chorei muito. A ficção foi e continua a ser um espaço de convívio para mim. Mas agora tenho também a Internet. É melhor? Mesmo que fosse, eu jamais o admitiria, porque sou fiel aos livros que me ajudaram sempre a ir pela vida, pelos maus e pelos menos maus momentos. A Literatura foi e é um espaço virtual, onde tudo acontece, ainda que não aconteça nada. A Internet veio complementar o meu espaço ficcional. O espaço cibernético permitiu-me entrar em mais mundos. Os livros são lentos: confortavelmente lentos. A Internet é rápida. É difícil abandonar um livro que não nos fascinou logo no início. Vamos virando mais uma e outra página, porque sabemos que pode estar um tesouro escondido algures e que seria trágico não o encontrarmos. A internet, não. Não gosto, passo. E passo, e passo. Quero encontrar o tesouro logo no início. 
Em Julho e Agosto, encontrei um novo canal de YouTube para seguir. Tomei conhecimento da arte de Yuzuru Hanyu: passei horas a vê-lo. Vi a novela completa A Banqueira do Povo, superiormente interpretada por todos os actores. Vi a série completa O Conde de Abranhos, baseada no romance homónimo de Eça de Queirós. Estou a ver a série A Ferreirinha, que inclui o romance de Camilo Castelo Branco com Ana Plácido e a sua passagem pela prisão. Aparece também o nosso rei D. Pedro V, o que me levou a procurar informação acerca dele: foi um homem lindo e bom. Era contra a escravatura e, durante uma epidemia de febre amarela, visitava os doentes nos hospitais em vez de se isolar. Enfim... E agora, de repente, no Instagram, aparece-me esta versão do Libertango. E tantas outras coisas, sobretudo imagens, aquelas imagens que só podem dizer uma coisa: há um grupo de pessoas que partilha um fascínio por aquilo que é obscuro, mas, simultaneamente, sublime...
Eu sou pela Internet, pela IA - não enquanto professora -, pelos robôs humanoides, por tudo o que seja um mundo que me permita estar cada vez mais distante do humano, ao vivo e a cores. Humanos, só através de mediação. Na parte final da minha vida, nos últimos capítulos, percebi que há formas de viver com a felicidade possível...