...Há quem tenha saudades minhas.....
Rest in Peace
Monday, October 26, 2026
Monday, October 19, 2026
Detachment - Indiferença
Por norma, não vejo nunca filmes que tenham a ver com doenças ou com escola. Mal vejo adolescentes com mochilas às costas, ou pessoas deitadas em macas em correria pelo corredor de um hospital, desligo e vou em frente. A insónia, a preguiça, a procrastinação e a falta de vontade para nada fazer levaram-me a esgotar a lista de filmes dignos de ser vistos no YouTube. Se eu não tivesse alergia a adolescentes, escolas, professores, médicos, enfermeiros e macas, tinha muito com que me entreter. Claro!
Feito este desabafo, voltemos ao filme. Hesitei, hesitei, mas acabei por carregar no on, embora com cara de poucos amigos. Os comentários que li acabaram por me dar algum encorajamento: é uma obra de arte, excelente, melhor filme de sempre, em conclusão, e cito: "Holy shit! Well done". Mas também algum desencorajamento: o rei dos filmes tristes - pudera, alunos e professores -, chorei muito, não aconselhável a pessoas depressivas e um enigmático, e cito: " I can't believe I used to think this movie was so deep. Now I rewatch and pass".
Comecei a ver. De pé atrás. Um professor com um ar muito sofrido. Uma turma que olha para o professor como se ele fosse um alienígena, um aluno que se aproxima do professor, que agarra na pasta do professor e a atira à parede e que fala com ele como se o pobre fosse o ser mais surdo do mundo. Nada de novo! O professor, de forma firme e indiferente, diz-lhe: atiraste a minha pasta? Ela não tem sentimentos, não lhe importa, e eu não tenho nada em mim que tu consigas magoar. Pôs a criatura na ordem e, surpresa, todos fizeram o que ele pediu. Mais: fizeram-no em silêncio! Pensei logo em ficar por ali. Alunos CALADOS??? Na sala de aula? Não é plausível.
Finda a aula, o prof. vai para casa. E é naquela ida para casa, de autocarro - claro -, que se começa a desenhar uma certa atmosfera, que começam a aparecer certas personagens dignas de pesadelo e não só. É um filme "noir", de professores "noir". Vejam o prof. abaixo, que, nos intervalos, fica o tempo todo agarrado à cerca, em desespero:
Há inclusive uma cena em que a directora está deitada no chão do seu gabinete, cheguei a pensar que estava a ter um ataque, mas não, estava a contactar telefonicamente com a alguém. Ou seja, estava em desespero, deitada no chão, a trabalhar! Gostei! Eu pensava que já tinha visto cara a cara professores desesperados. Aliás, a minha própria cara. Mas não. Ali tudo está no limite: as vidas profissionais e as privadas. É indiferença. Tudo é indiferença. E onde não há indiferença, há pior que indiferença...
Gostei do filme. Gostei. Gostei. Rebolei-me naquele desespero todo, mergulhei, fiquei feliz, embora duma forma um bocado infeliz. E é tudo!
Saturday, October 03, 2026
Meu querido Cristiano Ronaldo,
É esta a banda sonora da alegria que sinto pelo facto de te teres ido embora da selecção. Estás livre daquele ambiente de faz de conta. Verdade se diga, não vou mentir, que já deverias ter saído há mais tempo. Mas, pelo que ouvi e não vi nenhum desmentido, tu ias sair, depois do Mundial, e pediram-te para ficares. Dizem as más línguas - cruz, credo - que te queriam por causa dos patrocínios e quejandos. Não sei. Não me interessa. Mas parece evidente, pelo andar da carruagem, que te queriam como enfeite. Compreendo: um homem lindo como tu, grande, forte, etc., quem desdenharia ter-te como enfeite? Mas, lá está, tu és um ser humano, um profissional, um homem de acção, não gostas de estar sentado. Não combina contigo. Combina menos ainda ouvir um bronco a dizer, com todas as letras, eu é que mando: «Eu é que sou o "perzidente" da junta». A lata do sujeito!!! Agora, ele esqueceu é que tu não és homem para ser mandado! Olha, eu teria feito o mesmo! Entretanto lia eu hoje que a maioria dos portugueses está com o treinador, pois ele é que "manda". Percebe-se. Vou explicar.
A maioria dos portugueses, pobres que são, sabe que manda quem pode e obedece quem tem de obedecer. É o chamado meter o rabinho entre as pernas. São pessoas que têm de se vergar, se querem comida na mesa e dinheiro para café e tabaco. Na Literatura, é ver o obedecer ao chefe. Leia-se Eça de Queirós, leia-se "O Conde de Abranhos". Logo, o treinador, a despeito da sua famosa iliteracia linguística que, por sua vez, é testemunho da sua incultura e do seu pensamento tortuoso, o treinador, dizia, manda e há que obedecer. E com um bónus, também muito apreciado por muitos portugueses: o Ronaldo vai ter que engolir o sapo. Mas o Ronaldo é multimilionário. Ele não precisa de se vergar, de engolir sapos, de baixar a bolinha. E fez o que fez.
Os que o odeiam - e é ódio mesmo - e outros que também não o apreciam vieram logo dizer que ele escolheu sair pela porta pequena. Também se disse que saiu como um rato. Ora, como disse um humorista, de cujo nome não me lembro, a única porta pequena foi a do jacto privado dele.
Por falar em jacto, no Público, um escritor escreveu um ensaio - bastante bom, mas não brilhante, penso - sobre o querido Ronaldo (Cristiano Ronaldo como figura trágica), em que vê como kitsch a exibição de riqueza do jogador e diz « a ostentação da riqueza (o jato privado chamado como quem chama um Uber, a célebre marquise)». Pois. Agora imaginem se o Ronaldo tivesse chamado um táxi para se ir embora. Ou levantasse o polegar para ir à boleia. O homem tem um jacto, senhores! O homem queria ir dali para fora e chamou o jacto dele!
Têm existido manifestações de apoio a Ronaldo: muito bem! Estamos juntos. No YouTube, eu devo ser a apoiante mais activa e que tem levado bastante na cabecinha - nos cornos, porque não dizê-lo? . AhAhAh. Mas também muitos likes, atenção!
Querido Ronaldo. Vai. Vai e não voltes. Vive a tua vida privilegiada! Sê feliz. Ao contrário de Messi, tu não vais ter festa de despedida, homenagem, não vais ter o apoio de "Portugal" na despedida. Porém, nós, os que te admiramos, em Portugal e no mundo, faremos, cada um à sua maneira, a festa. Deitaremos os foguetes e apanharemos as canas. Sê feliz! Concentra-te apenas em ser feliz!!
Só uma homenagem a Rasmus Hoejlund, o jogador dinamarquês.
Friday, October 02, 2026
Elis 😢
Friday, September 25, 2026
Jorge Palma
Thursday, September 24, 2026
Thursday, September 17, 2026
A Oeste nada de novo
As eminências pardas estavam
todas devidamente sentadas, à espera que vocência falasse. E ele falou:
- Não fazem o trabalho de casa e depois
queixam-se que as sessões são muito grandes!
- Mas eu só recebi isto às duas
da manhã…
- Cedíssimo, minha cara.
Cedíssimo. E vamos lá ao trabalho. Tenho tudo pronto, é só assinarem!
E fez cara de poucos amigos, para
que ninguém mais ousasse reclamar. Posto isto, todos afocinharam nos papéis de
caneta em acção. Entretanto, diz alguém:
- Mas estes papéis têm a data de
há cinco anos…
- Impossível!
- Julho de 2021!
A formiga - mas pouco, com grande propensão para
cigarra, aliás – ficou vermelhusca, se bem que estar vermelhusca não é de todo
raro. Com efeito, a sua tromba asinina pende sempre um bocadinho para o
escarlate.
- Tenho que ir buscar novos
papéis… Esperem um bocadinho.
De rabo entre as pernas, lá se
dirigiu para os serviços de cópia. Os outros olhavam-se, zurzindo-o com o olhar e com não poucos trejeitos labiais
e acenos de cabeça. Mas nem um pio. Passado um bom bocado, aparece o tarata,
muito esbaforido, com a papelada na mão. Segue-se mais uma ronda de
assinaturas. Só se ouvia risc risc. Porém, alguém exclama:
- Os nomes estão errados!
- Impossível!
- Beltrano…
- Beltrano? Não está lá sicrano?
- Não.
O dito cujo levantou-se muito
contrariado, agarrou na papelada, deitou-a ao lixo e disse:
- É só mais um bocadinho…
- Mas eu t…
- Peço desculpa. Fartei-me de
trabalhar. Toda a noite a preparar os papéis…
- Quais papéis? Estes que estão todos
sem ponta p…
- Não lhe admito! Quem achar que
faz melhor do que eu, pode vir substituir-me!
- Fazer melhor??? Mas isto não
está nada bem feito!
E ouve-se um coro: Ó colegas,
acalmem-se lá. Isto é muito complexo, é muito trabalho. Deixem o chefe
trabalhar, que ele tem que regressar à secção de cópia pela segunda vez.
- Terceira, se faz favor, que ele
mal pôs os olhos nos papéis, assim que aqui chegou, viu logo que se tinha
esquecido de pôr o cabeçalho!!
- Sabe quem é que nunca se
engana??? Quem não faz nada!
- De acordo. Mas bom seria que
tivesse feito E BEM…
Coro: Ó colegas, ó colegas… Nunca
mais daqui saímos. Deixem o homem trabalhar. Deixem-no ir às fotocópias…
E ele foi, de olhos escancarados,
a boca à banda e os braços a abanar com ímpeto.
- Olha-me este q…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
Finalmente reaparece o taralhoco,
com cara de quem é sempre incompreendido, não obstante o excelente – digamos assim
– trabalho.
Papelada de novo em cima da mesa,
canetas, risc risc; risc, risc.
- Então, agora parece que está
bem! Não dizem nada? Se houvesse mais algum erro, aqui-d'el-rei . mas como está tudo bem, nada.
Nunca se elogia o bom trabalho. Mas apontar os erros…
- O bom trabalho? Já estamos com
hora e meia de atraso…
- Olhe que eu não lhe a…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
E assim foi. Levantámo-nos,
agarrámos nas nossas malas e saímos cabisbaixos, comme d'habitude.



