Thursday, January 08, 2026

8 de Janeiro, 2026

 

Era uma tarde alegre e eu estava alegre também. Não gosto de estar alegre. Gosto de estar feliz. Eu ia com um grupo de pessoas todas elas alegres também, gesticulando muito, falando alto. Rindo. Ao meu lado, com grande intimidade, seguia um homem de camisa totalmente aberta, muito simpático, mostrando o peito e as mãos grandes e eu achando-o simpático e com as mãos grandes. O grupo de pessoas, entretanto, não parava de aumentar. Éramos uma mancha compacta em movimento por entre duas filas de árvores gigantescas, cobertas de flores coloridas. Eu fui a primeira a dizer adeus a todos. Apertei a mão grande do homem da camisa totalmente aberta e continuei sozinha. Estava feliz. Algures, havia alguém à minha espera. E eu queria ver esse homem e seguir com ele numa viagem. Estava com um vestido às flores, pelo joelho. Era um vestido antiquado que já ninguém usa. Queria ser eu mesma, com a minha roupa. Mas aquele vestido antiquado agarrou-me dentro dele. Não havia como fugir-lhe.

Concentrei-me, então, no homem que estava à minha espera e, quando se fez noite, ele chegou. Muito alto, muito lindo, muito frio. Corri para o abraçar e ele afastou-se. As minhas roupas, entretanto, tinham mudado. Eram as minhas roupas, o meu perfume, o meu batom. À distância, onde ele me tinha colocado, perguntei-lhe:

- "Onde vamos?"

E ele:

- "Nós? Vamos?"

E eu disse:

- "Sim. Vamos."

E ele disse:

- "Eu vou e tu vais."

E eu calei-me e ele disse:

- "Posso transportar-te para onde fores."

E virou-me as costas. Dirigiu-se para um carro branco na noite escura. Eu segui-o. Ele entrou. O lugar ao lado dele estava ocupado. Era uma mulher linda e muito elegante. Juntos, lado a lado, eram todo um universo de beleza e harmonia. Virei-me e fui embora.

Tudo era ermo, escuro, longe. Havia também uma estrada incongruente que se encheu dum trânsito caótico e ruidoso assim que decidi atravessá-la. Finda a travessia, caiu novamente o silêncio mais absoluto. Eu estava num descampado. Ao longe, havia um aglomerado de luzes amarelas, como pirilampos. Encaminhei-me para lá. De repente, junto a uma árvore como se fosse uma ilha, surgiu um grupo de homens muito altos, com máscaras brancas. Dançavam cada um consigo próprio, lentamente. Fugi deles, cheia de medo e maus presságios. Só parei junto do sítio das luzes amarelas. Era uma aldeia, embora não fosse visível uma única casa. Era noite de festa. Havia música de festa e as pessoas vestiam roupa antiquada, de festa. Perguntei a alguém onde havia um telefone. Eram pessoas muito simpáticas e muito impressionadas com a minha aparição. Indicaram-me um bar feito de caixas de madeira. Sobre o balcão estreitíssimo, depois de uma fila interminável de garrafas de cerveja, havia uma fila interminável de telefones. Queria chamar um táxi, para sair dali. Fui tentando, exausta, os telefones todos. Mas nenhum funcionava, limitavam-se a emitir uma música clássica, belíssima. Perguntei:

- "Onde posso encontrar um táxi?"

- "Não há."

- "Um carro?"

- "Não há."

- "Como é que se sai daqui?"

- "De comboio"

"Onde?"

- "Do outro lado do monte."

Corri pelo meio da vegetação seca até ver as linhas de aço paralelas reluzindo, fracamente, na noite.

A estação tinha apenas uma parede alta e um banco comprido junto à linha de caminho-de-ferro. Tentei procurar a bilheteira. Em vão. Quanto mais procurava na parede grande, maior ela se tornava. Desisti, com medo de que tudo desaparecesse. Sentei-me, então, no banco comprido à espera. Olhei em redor e avistei os bailarinos de máscara branca a aproximarem-se de mim, na sua dança lenta. Ia ter companheiros de viagem. De repente, ouviu-se um barulho enorme, como uma explosão. Era o comboio que passava veloz à minha frente. Levantei-me agitada, gritei e fiz gestos para que parasse. Era um comboio interminável, cheio de rostos de olhos cintilantes colados às janelas. E passava, com os vidros e os olhos reluzentes. Uma linha contínua, ruidosa e cheia de pontos minúsculos de luz. E eu agitava-me a implorar que parasse. A deslocação do ar fazia rodopiar tudo à sua volta. Era um redemoinho de coisas vivas em movimento. Calei-me. Fui ficando calma. Esperava apenas que o comboio parasse. Mas ele seguiu rápido, perturbando a noite. Não parou. Ainda bem. Eu também já não queria ir-me embora.

PS:

Prof.ª Doutora Adélia Rocha
:)
https://uxwing.com/phd-icon/. consultado em 8 de Janeiro, 2026


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