Era uma tarde
alegre e eu estava alegre também. Não gosto de estar alegre. Gosto de estar
feliz. Eu ia com um grupo de pessoas todas elas alegres também, gesticulando
muito, falando alto. Rindo. Ao meu lado, com grande intimidade, seguia um homem
de camisa totalmente aberta, muito simpático, mostrando o peito e as mãos
grandes e eu achando-o simpático e com as mãos grandes. O grupo de pessoas,
entretanto, não parava de aumentar. Éramos uma mancha compacta em movimento por
entre duas filas de árvores gigantescas, cobertas de flores coloridas. Eu fui a
primeira a dizer adeus a todos. Apertei a mão grande do homem da camisa
totalmente aberta e continuei sozinha. Estava feliz. Algures, havia alguém à
minha espera. E eu queria ver esse homem e seguir com ele numa viagem. Estava
com um vestido às flores, pelo joelho. Era um vestido antiquado que já ninguém
usa. Queria ser eu mesma, com a minha roupa. Mas aquele vestido antiquado
agarrou-me dentro dele. Não havia como fugir-lhe.
Concentrei-me,
então, no homem que estava à minha espera e, quando se fez noite, ele chegou.
Muito alto, muito lindo, muito frio. Corri para o abraçar e ele afastou-se. As
minhas roupas, entretanto, tinham mudado. Eram as minhas roupas, o meu perfume,
o meu batom. À distância, onde ele me tinha colocado, perguntei-lhe:
- "Onde
vamos?"
E ele:
- "Nós?
Vamos?"
E eu disse:
- "Sim. Vamos."
E ele disse:
- "Eu vou e
tu vais."
E eu calei-me e
ele disse:
- "Posso
transportar-te para onde fores."
E virou-me as
costas. Dirigiu-se para um carro branco na noite escura. Eu segui-o. Ele
entrou. O lugar ao lado dele estava ocupado. Era uma mulher linda e muito
elegante. Juntos, lado a lado, eram todo um universo de beleza e harmonia.
Virei-me e fui embora.
Tudo era ermo,
escuro, longe. Havia também uma estrada incongruente que se encheu dum trânsito
caótico e ruidoso assim que decidi atravessá-la. Finda a travessia, caiu
novamente o silêncio mais absoluto. Eu estava num descampado. Ao longe, havia
um aglomerado de luzes amarelas, como pirilampos. Encaminhei-me para lá. De
repente, junto a uma árvore como se fosse uma ilha, surgiu um grupo de homens
muito altos, com máscaras brancas. Dançavam cada um consigo próprio,
lentamente. Fugi deles, cheia de medo e maus presságios. Só parei junto do
sítio das luzes amarelas. Era uma aldeia, embora não fosse visível uma única
casa. Era noite de festa. Havia música de festa e as pessoas vestiam roupa
antiquada, de festa. Perguntei a alguém onde havia um telefone. Eram pessoas
muito simpáticas e muito impressionadas com a minha aparição. Indicaram-me um
bar feito de caixas de madeira. Sobre o balcão estreitíssimo, depois de uma
fila interminável de garrafas de cerveja, havia uma fila interminável de
telefones. Queria chamar um táxi, para sair dali. Fui tentando, exausta, os
telefones todos. Mas nenhum funcionava, limitavam-se a emitir uma música
clássica, belíssima. Perguntei:
- "Onde
posso encontrar um táxi?"
- "Não há."
- "Um
carro?"
- "Não há."
- "Como é
que se sai daqui?"
- "De
comboio"
"Onde?"
- "Do outro
lado do monte."
Corri pelo meio
da vegetação seca até ver as linhas de aço paralelas reluzindo, fracamente, na
noite.
A estação tinha
apenas uma parede alta e um banco comprido junto à linha de caminho-de-ferro.
Tentei procurar a bilheteira. Em vão. Quanto mais procurava na parede grande,
maior ela se tornava. Desisti, com medo de que tudo desaparecesse. Sentei-me,
então, no banco comprido à espera. Olhei em redor e avistei os bailarinos de
máscara branca a aproximarem-se de mim, na sua dança lenta. Ia ter companheiros
de viagem. De repente, ouviu-se um barulho enorme, como uma explosão. Era o
comboio que passava veloz à minha frente. Levantei-me agitada, gritei e fiz
gestos para que parasse. Era um comboio interminável, cheio de rostos de olhos
cintilantes colados às janelas. E passava, com os vidros e os olhos reluzentes.
Uma linha contínua, ruidosa e cheia de pontos minúsculos de luz. E eu
agitava-me a implorar que parasse. A deslocação do ar fazia rodopiar tudo à sua
volta. Era um redemoinho de coisas vivas em movimento. Calei-me. Fui ficando
calma. Esperava apenas que o comboio parasse. Mas ele seguiu rápido, perturbando
a noite. Não parou. Ainda bem. Eu também já não queria ir-me embora.
PS:

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