Monday, May 11, 2026

Dias esmifrantes, noites palpitantes

 


Ai, os dias, os dias… é sempre o mesmo sol, a mesma chuva, as mesmas pessoas, as mesmas maçadas… enfim! Ontem, pelo menos, aconteceu uma coisa boa: fiquei encravada no elevador! Saquei, então, do admirável telemóvel e telefonei para o número de ajuda, esparramado na parede do dito elevador e tive que dizer à menina: “ah, é que estou presa …!”. “Acalme-se – disse ela – eu mando já uma equipa para a libertar!”. Em abono da verdade se diga, que eu estava calma! Mais, ansiava por atirar-me nos braços espadaúdos da equipa de salvamento. Até retoquei o batom. Porém, quando a equipa, constituída por um técnico, homem vulgar, chegou, dado que não vi nada de espadaúdo, retirei-me do poço do elevador, como se tivesse asas nos pés. Francamente, não há condições para uma pessoa ficar languidamente traumatizada, a cantar o “Frágil, lálálálá, sinto-me frágil… e coiso e tal…lálálála!”. Tirando isto, a vida seguiu o seu curso atabalhoado. As noites, porém, têm sido de aventura imparável!

Ainda no outro dia, presidia eu a um funeral, em plena noite. O caixão vinha numa carreta de madeira puxada por dois cavalos negros, de crina farta e esvoaçante. O cortejo fúnebre, todo vestido de preto, incluindo a cabeça (explique-se: vinham cobertos de roupas pretas da cabeça aos pés), acabou, claro, por se revelar desastroso. Importará dizer que eu avisei, deixem pelo menos os olhos de fora? Não! E era um funeral tão lindo! Eu, então, toda vestida de seda negra e esvoaçante…! Era um espectáculo solene, digno de se ver. Mas, com os entes queridos do defunto às apalpadelas, devido ao excesso de luto, tanto apalparam, tanto apalparam, que acabaram por espantar os cavalos, já fartos de que lhes passassem as mãos pelas pernas (e outras partes)! Foi o lindo e o bonito: as bestas correm para um lado, a carreta é projectada para o outro, o caixão, por sua vez, sai disparado em direcção desconhecida e o cortejo começa a andar em círculos, tacteando  tudo o que lhes aparecia pela frente, principalmente, há que dizê-lo, os traseiros uns dos outros.  

Nesta grande aflição, eu e os outros dois cangalheiros pusemo-nos logo, de telemóvel em punho, pelo meio do mato, à procura dos cavalos, da carreta, do caixão e do defunto, posto que estava cada coisa para seu lado. Fui eu, competentíssima, que encontrei o jazente, que se encontrava a uns bons metros do caixão. Logo comuniquei para o colega encarregado dos cavalos: “ Emergência, repito, emergência. Elemento encontrado, bom estado, caixão desfeito. Repito, caixão desfeito. Over”. Resposta: “ Ó valha-me Deus, repito, valha-me Deus, estamos sem caixões em stock e não há rasto dos cavalos. Over.” Resposta: “Emergência, repito, emergência. Defunto não sai daqui sem caixão… repito, etc. Over”. Resposta: “Momento, repito, momento. À carpintaria. Over and out.” Resposta: “pixté, repito, pixté. Qual out? Alguém que me venha buscar, para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Ok, repito, Ok. O Aparício, que anda à procura da carreta, assim que a ache, vai buscar-te a ti e ao jazente. Over.” Resposta. “Um momento, repito, um momento. E se ele não acha a carreta? Fico aqui com o jazente nos braços? Over.” Resposta: “Calma, repito, calma. Plano: eu à carpintaria tratar do caixão. O Aparício continua a procurar a carreta. Tu chamas táxi para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Táxi, repito, táxi? E o cortejo fúnebre… por Deus, os entes enlutados? Over”. Resposta: “ Repito, repito, repito. Os entes continuam à roda a apalpar os traseiros uns aos outros. Tudo sob controlo. Over and out”.  

Que noite! Que noite! Foi o cabo dos trabalhos! Mas conseguimos, posteriormente, aliás, muito posteriormente,  proceder ao enterramento sem quaisquer outros sarilhos de monta. Isto se exceptuarmos o facto de que o cortejo acabou também por desaparecer, juntamente com a carreta e os equídeos, que o carpinteiro se recusou a fazer o caixão àquela hora da noite e que o taxista se mostrou extremamente resistente a transportar o defunto à sua última morada. Pior ainda, quando constatou que teria que abrir, também, a sepultura. Mas isso ficou por conta dos meus colegas cangalheiros. Coisas de homens!!!

Eu, recuperado o corpo, e chegado este ao cemitério, dei por acabada a função e fiquei toda concentrada em fazer esvoaçar o meu vestido de seda negra, que ocupava todo o espaço da noite.
https://www.facebook.com/photo?fbid=846245198493371&set=a.112750521842846, consultado em 12 de Abril, 2026


Saturday, May 09, 2026

Me and The Devil


A música é a melhor invenção. Talvez haja melhor, claro. Mas, de momento, ouvindo esta voz, esta melodia, esta letra, não me ocorre nada mais lindo, melhor, mais insubstituível. E, claro, as imagens. Imagens oníricas. O espaço vazio, a porta aberta. É material de sonhos...

 

Friday, May 01, 2026

Até Amanhã

 


Era de noite, mas havia uma luz muito idêntica à do dia. Uma espécie de noite brilhante ou iluminada. Eu estava num pátio enorme em frente a uma casa que era um palácio sóbrio de pedra branca e majestosa. Eu tinha um vestido de seda branca que não só me cobria a mim, mas também a maior parte do espaço onde me encontrava. Tudo isto estava suspenso no ar, algures sob as nuvens e sobre uma floresta de enormes árvores verdes de folhas suaves. Eu sentia uma angústia enorme e indizível. Olhava as janelas iluminadas e inacessíveis da enorme casa e sentia a carícia das folhas meigas da selva em redor. De repente, levantei-me e corri para a extremidade do pátio. Debrucei-me sobre a floresta imensa e imaginei que poderia ser o mítico Pantanal. E era. Podia ver lá em baixo por entre a vegetação as sucuris, as onças, as capivaras e também uma mulher enlouquecida correndo ao longo de um rio cheio de piranhas. Metade da angústia passou. Tinha de abandonar aquele sítio e começar o dia, o trabalho. Avistei umas escadas e desci-as. O meu vestido foi encolhendo e escurecendo. Quando desci o último degrau, eu era eu mesma. Roupa preta, óculos pretos e os livros. Havia uma escola à minha frente. Entrei. Algures, havia alunos à minha espera. A angústia voltou. Não sabia o meu horário, os funcionários olhavam-me hostis e todas as portas estavam fechadas. Ninguém parecia conhecer-me, ainda assim, dirigi-me a um colega que se limitou a dar-me uma chave. A chave da minha sala. Introduzi-a, de imediato, na porta da sala em frente. Espreitei. Era um lugar escuro e cheio de poeira, com homens encapuçados bebendo vinho. Tranquei a porta. E, de repente, a escola passou a ocupar toda uma cidade tosca, com estradas de pedra. Dirigi-me com a chave na mão em busca de uma fechadura que se lhe ajustasse, por entre a cidade decrépita. Estava cansada. Avistei um banco comprido junto a uma parede branca e, logo que me sentei, começou a desfilar perante os meus olhos uma interminável fila de homens nus da cintura para baixo. Não que a sua nudez fosse visível, mas, de facto, não tinham roupa. Eu não podia ficar sentada a contemplar homens invisivelmente nus. Levantei-me e recomecei a procurar os meus alunos. A paisagem, entretanto, tinha mudado. Estava num caminho de argila vermelha e por todo o lado havia casas pequenas e opacas, sem janelas. Havia também uma casa transparente. Lá dentro, um professor silencioso como uma estátua presidia a uma classe ruidosa. Ao seu lado, pairava, insuspenso, um quadro negro. Vi então a minha própria casa/sala. Meti a chave, a porta abriu-se e através dela, como uma onda, começaram a sair minúsculos porquinhos cor-de-rosa como flores, com as orelhinhas espetadas como pétalas, as pequenas caudas movendo-se como folhas e produzindo uma estridência boa como pássaros. Apoderou-se de mim uma alegria grande. Feliz, levantei os braços e ri alto em direcção ao céu. Houve depois uma agitação confusa. Duas galinhas apressadas saíram da sala voando e cobrindo-me de penas. Continuava feliz mas deixei de rir. Ouviu-se então uma campainha. Tudo voltou à normalidade. O dia de trabalho tinha chegado ao fim. Uma funcionária simpática disse-me: "Até amanhã". Eu disse-lhe: "Até amanhã". Dentro de cinco minutos estaria em casa bebendo chá. Depois, seria novamente noite e poderia, talvez, voltar a pôr o meu enorme vestido branco.

https://www.facebook.com/photo/?fbid=846246301826594&set=a.112750521842846, consultado em 10 de Abril, 2026