Ai, os dias, os dias… é sempre o mesmo sol, a mesma chuva, as mesmas pessoas, as mesmas maçadas… enfim! Ontem, pelo menos, aconteceu uma coisa boa: fiquei encravada no elevador! Saquei, então, do admirável telemóvel e telefonei para o número de ajuda, esparramado na parede do dito elevador e tive que dizer à menina: “ah, é que estou presa …!”. “Acalme-se – disse ela – eu mando já uma equipa para a libertar!”. Em abono da verdade se diga, que eu estava calma! Mais, ansiava por atirar-me nos braços espadaúdos da equipa de salvamento. Até retoquei o batom. Porém, quando a equipa, constituída por um técnico, homem vulgar, chegou, dado que não vi nada de espadaúdo, retirei-me do poço do elevador, como se tivesse asas nos pés. Francamente, não há condições para uma pessoa ficar languidamente traumatizada, a cantar o “Frágil, lálálálá, sinto-me frágil… e coiso e tal…lálálála!”. Tirando isto, a vida seguiu o seu curso atabalhoado. As noites, porém, têm sido de aventura imparável!
Ainda no outro dia, presidia eu a um funeral, em plena noite. O caixão vinha numa carreta de madeira puxada por dois cavalos negros, de crina farta e esvoaçante. O cortejo fúnebre, todo vestido de preto, incluindo a cabeça (explique-se: vinham cobertos de roupas pretas da cabeça aos pés), acabou, claro, por se revelar desastroso. Importará dizer que eu avisei, deixem pelo menos os olhos de fora? Não! E era um funeral tão lindo! Eu, então, toda vestida de seda negra e esvoaçante…! Era um espectáculo solene, digno de se ver. Mas, com os entes queridos do defunto às apalpadelas, devido ao excesso de luto, tanto apalparam, tanto apalparam, que acabaram por espantar os cavalos, já fartos de que lhes passassem as mãos pelas pernas (e outras partes)! Foi o lindo e o bonito: as bestas correm para um lado, a carreta é projectada para o outro, o caixão, por sua vez, sai disparado em direcção desconhecida e o cortejo começa a andar em círculos, tacteando tudo o que lhes aparecia pela frente, principalmente, há que dizê-lo, os traseiros uns dos outros.
Nesta grande aflição, eu e os outros dois cangalheiros pusemo-nos logo, de telemóvel em punho, pelo meio do mato, à procura dos cavalos, da carreta, do caixão e do defunto, posto que estava cada coisa para seu lado. Fui eu, competentíssima, que encontrei o jazente, que se encontrava a uns bons metros do caixão. Logo comuniquei para o colega encarregado dos cavalos: “ Emergência, repito, emergência. Elemento encontrado, bom estado, caixão desfeito. Repito, caixão desfeito. Over”. Resposta: “ Ó valha-me Deus, repito, valha-me Deus, estamos sem caixões em stock e não há rasto dos cavalos. Over.” Resposta: “Emergência, repito, emergência. Defunto não sai daqui sem caixão… repito, etc. Over”. Resposta: “Momento, repito, momento. À carpintaria. Over and out.” Resposta: “pixté, repito, pixté. Qual out? Alguém que me venha buscar, para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Ok, repito, Ok. O Aparício, que anda à procura da carreta, assim que a ache, vai buscar-te a ti e ao jazente. Over.” Resposta. “Um momento, repito, um momento. E se ele não acha a carreta? Fico aqui com o jazente nos braços? Over.” Resposta: “Calma, repito, calma. Plano: eu à carpintaria tratar do caixão. O Aparício continua a procurar a carreta. Tu chamas táxi para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Táxi, repito, táxi? E o cortejo fúnebre… por Deus, os entes enlutados? Over”. Resposta: “ Repito, repito, repito. Os entes continuam à roda a apalpar os traseiros uns aos outros. Tudo sob controlo. Over and out”.
Que noite! Que noite! Foi o cabo dos trabalhos! Mas conseguimos, posteriormente, aliás, muito posteriormente, proceder ao enterramento sem quaisquer outros sarilhos de monta. Isto se exceptuarmos o facto de que o cortejo acabou também por desaparecer, juntamente com a carreta e os equídeos, que o carpinteiro se recusou a fazer o caixão àquela hora da noite e que o taxista se mostrou extremamente resistente a transportar o defunto à sua última morada. Pior ainda, quando constatou que teria que abrir, também, a sepultura. Mas isso ficou por conta dos meus colegas cangalheiros. Coisas de homens!!!
Eu, recuperado o corpo, e chegado este ao cemitério, dei por acabada a função e fiquei toda concentrada em fazer esvoaçar o meu vestido de seda negra, que ocupava todo o espaço da noite.
https://www.facebook.com/photo?fbid=846245198493371&set=a.112750521842846, consultado em 12 de Abril, 2026

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