Era de noite, mas havia uma luz
muito idêntica à do dia. Uma espécie de noite brilhante ou iluminada. Eu estava
num pátio enorme em frente a uma casa que era um palácio sóbrio de pedra branca
e majestosa. Eu tinha um vestido de seda branca que não só me cobria a mim, mas
também a maior parte do espaço onde me encontrava. Tudo isto estava suspenso no
ar, algures sob as nuvens e sobre uma floresta de enormes árvores verdes de
folhas suaves. Eu sentia uma angústia enorme e indizível. Olhava as janelas
iluminadas e inacessíveis da enorme casa e sentia a carícia das folhas meigas
da selva em redor. De repente, levantei-me e corri para a extremidade do pátio.
Debrucei-me sobre a floresta imensa e imaginei que poderia ser o mítico
Pantanal. E era. Podia ver lá em baixo por entre a vegetação as sucuris, as
onças, as capivaras e também uma mulher enlouquecida correndo ao longo de um
rio cheio de piranhas. Metade da angústia passou. Tinha de abandonar aquele
sítio e começar o dia, o trabalho. Avistei umas escadas e desci-as. O meu
vestido foi encolhendo e escurecendo. Quando desci o último degrau, eu era eu
mesma. Roupa preta, óculos pretos e os livros. Havia uma escola à minha frente.
Entrei. Algures, havia alunos à minha espera. A angústia voltou. Não sabia o
meu horário, os funcionários olhavam-me hostis e todas as portas estavam
fechadas. Ninguém parecia conhecer-me, ainda assim, dirigi-me a um colega que
se limitou a dar-me uma chave. A chave da minha sala. Introduzi-a, de imediato,
na porta da sala em frente. Espreitei. Era um lugar escuro e cheio de poeira,
com homens encapuçados bebendo vinho. Tranquei a porta. E, de repente, a escola
passou a ocupar toda uma cidade tosca, com estradas de pedra. Dirigi-me com a
chave na mão em busca de uma fechadura que se lhe ajustasse, por entre a cidade
decrépita. Estava cansada. Avistei um banco comprido junto a uma parede branca
e, logo que me sentei, começou a desfilar perante os meus olhos uma
interminável fila de homens nus da cintura para baixo. Não que a sua nudez fosse
visível, mas, de facto, não tinham roupa. Eu não podia ficar sentada a
contemplar homens invisivelmente nus. Levantei-me e recomecei a procurar os
meus alunos. A paisagem, entretanto, tinha mudado. Estava num caminho de argila
vermelha e por todo o lado havia casas pequenas e opacas, sem janelas. Havia
também uma casa transparente. Lá dentro, um professor silencioso como uma
estátua presidia a uma classe ruidosa. Ao seu lado, pairava, insuspenso, um
quadro negro. Vi então a minha própria casa/sala. Meti a chave, a porta
abriu-se e através dela, como uma onda, começaram a sair minúsculos porquinhos
cor-de-rosa como flores, com as orelhinhas espetadas como pétalas, as pequenas
caudas movendo-se como folhas e produzindo uma estridência boa como pássaros.
Apoderou-se de mim uma alegria grande. Feliz, levantei os braços e ri alto em
direcção ao céu. Houve depois uma agitação confusa. Duas galinhas apressadas saíram
da sala voando e cobrindo-me de penas. Continuava feliz mas deixei de rir.
Ouviu-se então uma campainha. Tudo voltou à normalidade. O dia de trabalho
tinha chegado ao fim. Uma funcionária simpática disse-me: "Até
amanhã". Eu disse-lhe: "Até amanhã". Dentro de cinco minutos
estaria em casa bebendo chá. Depois, seria novamente noite e poderia, talvez,
voltar a pôr o meu enorme vestido branco.
https://www.facebook.com/photo/?fbid=846246301826594&set=a.112750521842846, consultado em 10 de Abril, 2026

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