Monday, September 19, 2016
A maldade
A Internet, mais propriamente o Facebook, é uma fonte inesgotável de grotesco. Falo dos comentários dos internautas. O discurso do ódio, da raiva, da inveja e o recurso ao insulto mais rasteiro são endémicos. Mas há gente muito compreensiva. Estranhamente compreensiva. Há dias, se calhar ontem, li uma notícia macabra: uma mãe, porque queria assistir a um homicídio, contratou um executante e pôs no cadafalso a própria filha, uma criança. À sua frente, a menina foi violada, torturada e morta. Depois, ambos, mãe e executante/homicida, desmembraram a criança numa banheira. os comentários eram, de um modo geral (e bem), de horror, e de desejo de que todas as pragas do Egipto caíssem (e bem) na cabeça e noutras partes do corpo dos dois facínoras. Pois bem, nisto, vem um ser bem-pensante pôr os pontos nos is. Indignado, diz que a notícia era apenas mais uma história sensacionalista, pois apenas dava conta dos factos, sem se importar em questionar e compreender o que tinha levado a mãe a ter um comportamento daqueles. Claro que o psicólogo de esplanada foi insultado (e bem) de tudo o que é mau e ruim até à quinta geração (ou mais). Há que compreender!?
Numa cena memorável da série CSI, apanhado o assassino, autor dos mais bárbaros crimes, este, num tipo de cena muito comum deste género televisivo, pergunta ao Inspector: «Quer saber por que razão é que eu fiz isto?» Lembro, antes de dar a resposta, que geralmente o mal-feitor aproveita para despejar uma ladainha do tipo "ninguém gostava de mim, os meus pais eram umas bestas, os meus professores idem, etc.", tentando passar a mensagem de que não há homens (e mulheres, naturalmente) maus, é a sociedade e a família e a educação, entre outros, que geram os monstros. Não quero problematizar esta premissa, mas não a acho de todo, em tese, válida para todos os casos de violência. Voltando ao CSI, após a pergunta do assassino, eu, sem pachorra, preparava-me para mudar de canal, pois não estava disponível para a supra-citada ladainha, quando a resposta me surpreende agradavelmente. O Inspector diz: «Eu sei por que razão você fez isto. É porque vocé é mau!» E o episódio termina (e bem).
A maldade existe e é largamente praticada: há que não esquecê-lo!
Imagem: http://www.imprevisivel.com/2013/06/a-arte-sombria-de-zdzislaw-beksinski.html, consultado em 19 de Setembro, 2016
.
Monday, September 12, 2016
A primeira frase
A primeira página de um livro, o primeiro parágrafo, a primeira frase podem ser aquilo que nos leva a não o fechar e passar a outro. Aquele que agora estou a ler The House on the Moor, de Margaret Oliphant começa assim:
«In a gloomy room, looking out through one narrow window upon a moor, two young people together, and yet alone, consumed the dreary hours of a February afternoon.» (1861: loc. 136)
Nada mau! Sala sombria, janela estreita, duas pessoas juntas mas AINDA ASSIM sozinhas, numa tarde desolada de Fevereiro? Gosto.
Jane Eyre, o romance de Charlotte Brontë inicia com a seguinte frase:
« There was no possibility of taking a walk that day.» (1847: loc. 99).
Não é frase que anuncie a tempestade que se segue. Mas um romance, ainda que deste calibre, tem de começar de uma forma qualquer, mesmo esta.
Jane Austen começa de forma interessante o seu Pride and Prejudice:
« It is a truth universally acknowledged, that a single man in the possession of a good fortune, must be in want of a wife.» (2014: p. 3).
Já não é assim. Mas é engraçado como numa frase se sintetiza uma maneira de viver nesses tempos já remotos.
Agora, não há como superar, parece-me, a primeira frase do romance de Leo Tolstoy, Anna Karenina:
«Happy families are all alike; every unhappy family is unhappy in its own way.» (2014: p. 2)
"Todas as famílias felizes são iguais; as infelizes, são infelizes cada uma à sua maneira." Verdade!
Imagem: http://charivari.pt/2015/02/07/a-intermitencia-fotografica-entre-o-sonho-e-o-pesadelo/, consultado em 12 Setembro, 2016
Monday, September 05, 2016
DR. JOÃO RIBEIRO SANTOS
Morreu. Morreu o co-fundador do Movimento Direito a Morrer com Dignidade, isto é, um defensor da eutanásia. A notícia é dada pela Doutora Laura Ferreira dos Santos, outra fundadora do Movimento e grande defensora da eutanásia, ela própria a sofrer de uma doença que a vai impedindo de realmente viver. Ribeiro Santos era médico e, como refere a querida Laura, conhecia bem o sofrimento daqueles que estavam destinados a morrer aos poucos sem esperança de melhoras. Por isso defendia a morte boa, antecipada, digna, daqueles que na vida são apenas zombies.
Pouco sei deste homem que morreu ontem, dia 4 de Setembro. Tivesse eu sabido ontem da sua morte e estaria hoje em Lisboa, às 14:00 horas para lhe dizer: «Adeus, e muito obrigada por tudo o que fez em defesa daquilo que eu também defendo.»
Descansa em paz!
Sunday, September 04, 2016
The Woman in White
Havia mais um livro de George Gissing, "A Life's Morning". Entretanto, descobri mais um escritor do século XIX, Wilkie Collins, através da sua obra-prima "The Woman in White! É um romance como não lia há muito. Nada que se pareça com G. Gissing, que tem claramente uma agenda ideológica. W Collins quer entreter, permitir evasão, e fá-lo lindamente. Claro que não consigo já ficar de respiração suspensa, à espera do mistério seguinte. Pelo contrário. É com todo o vagar que espero que o segredo último e terrível seja desvendado. Entretanto, deambulo pela casa aristocrática mas a ameaçar ruína e passeio junto ao lago de águas pantanosas sob o nevoeiro, no qual quase de certeza se esconde um cadáver...
Agora mesmo tive de suspender a leitura: o kindle está a carregar! Não faz mal. Assim que possa retomar a leitura, fá-lo-ei com redobrado interesse, para matar a enorme e gigantesca saudade de todos: a casa, o lago, as irmãs, o conde - ahahahah -, o baronete e o sublime Mr. Fairlie. Ah, e a mulher de branco, claro.
Saturday, August 20, 2016
Dia Mundial da Fotografia
Foi ontem, dia 19. Mas eu comemoro agora, com uma foto do meu calçado discreto. A propósito, que dia é hoje? Hummmmmmm está na hora de levantar o presépio!
Wednesday, August 17, 2016
O Mundo de Ontem
Li 24 Horas na Vida de Uma Mulher, de Stefan Zweig, quando era bastante nova. Lembro-me de ter gostado. Como eu fui daquelas raparigas que estava proibida, pela minha mãe, de ter amigas, amigos, então, nem se fala, surpreendeu-me o mistério que se adivinhava acerca da vida das mulheres. Eu não tinha bem a noção de como as mulheres eram/são diferentes, socialmente, claro. Li depois Amok e, durante muito tempo, Zweig esteve ausente dos meus pensamentos. Há pouco tempo, porém, alguém escreveu um artigo em que falava deste livro de memórias, por assim dizer, de SZ: The World of Yesterday.
Este é um daqueles livros que ilumina partes, para mim obscuras, daquilo que significou a Primeira e Segunda Guerra Mundial (a minha ignorância é vasta, para que conste). Claro que eu li muita ficção sobre a Segunda Guerra, li tudo o que vinha publicado pelas Edições Europa-América. Mas ser um judeu, um judeu rico, culto, um homem de letras (ia dizer bem-sucedido, mas isto soa tanto a besteseller) de renome, aliás, um dos escritores mais lidos durante uma dada época, a contar como foi confrontar-se, de repente, com o desmoronar do seu mundo, não pode comparar-se a nada daquilo que li sobre o assunto. Zweig estudou, viajou incessantemente, sem necessidade de passaporte, como ele explica, dado que só a Primeira Grande Guerra vem trazer essa imposição, escreveu, traduziu de várias línguas para alemão, divulgou homens de letras e artes: escritores, pintores, músicos. Conhece, aliás, todos e todas aqueles/as artistas do seu tempo. É curioso como fala das mulheres que escreviam como iguais! (Há tanto do universo ficcional de Gissing no testemunho de Stefan Zweig...)
Voltando ao mundo de ontem, Zweig dá conta de como as pessoas ouviam as notícias preocupantes acerca da possibilidade de uma guerra, mas não acreditavam mesmo que fosse acontecer. Tal repetiu-se com o aparecimento de Hitler. Há muita inquietação, mas há igualmente um sentimento de que não é possível, de que alguém irá evitar a catástrofe. Ninguém evitou. O escritor passou, assim, de homem aclamado, respeitado, a homem em fuga. Ele, que correu o mundo, acabou os seus dias refugiado no Brasil, com a sua segunda mulher e, pouco depois de terminado este livro, suicidaram-se ambos.
Mas Zweig não chora no ombro do leitor. Não se queixa, não faz beicinho, não apela à emoção. Pelo contrário, tenta de forma objectiva, embora vivida, dar um testemunho acerca de um mundo, de uma forma de viver, assente na ideia de segurança e solidez, que acabou definitivamente. Como homem de letras, sentiu que tinha de deixar este contributo para quem viesse a seguir. Para o mundo do futuro ficar a saber. Ao leitor, contudo, ou melhor, a mim, não me foi possível ficar plácida e serena durante a leitura. A Kleenex podia ter feito o patrocínio. Senti, pela primeira vez, verdadeiramente, a injustiça de julgar segundo a etnia. De aniquilar, destruir - os livros dele foram queimados em praça pública - uma vida (vidas) por causa de uma ideologia. Que absurdo!
Zweig fala de quase tudo: a escola - a visão negativa dos professores - o ser jovem, as mulheres («in our intellectual ignorance we looked upon the other sex as being mentally inferior», 2011 [1943]: p. 59), o sexo e a sífilis, a prostituição, o vestuário, as massas, o crescimento das cidades, a prosperidade, a emancipação das mulheres, os intelectuais da época, Paris - a cidade onde tudo é possível - a sociedade que levou à guerra, etc. O livro não é muito longo, mas parece estar lá tudo!
Quando Harry Zohn, na introdução, disfórica, na qual se foca essencialmente na perda, conclui, citando Walt Whitmann: «This is no book; who touches this touches a man» (2011: loc 286), não é fácil... continuar a leitura.
.
Saturday, August 13, 2016
The Girl on The Train
Este é um dos romances de mistério do momento, da autoria de Paula Hawkins. E é, se não estou em erro, o seu primeiro livro. Também já existe o filme.
Gostei deste romance? Gostei. Afinal, revejo-me na seguinte frase:
«Twice a day, I am offered a view into other lives, just for a moment. There's something comforting about the sight of strangers safe at home.» (2015: loc. 46)
Quantas vezes já senti isto mesmo, nas minhas viagens de comboio, o meu meio de transporte preferido? Aliás, a personagem também gosta de comboios: «I like trains, and what's wrong with that? Trains are wonderful.» (idem: loc.522). Nem mais: os comboios são fantásticos. Mas, reparem, mas, gosto do romance de forma igual até ao fim? Não. O fim é previsível, a partir de certa altura, aquela altura, para ser mais concreta, em que me apercebo de que Hawkins quer contar uma história com princípio, meio e fim, em vez de contar simplesmente uma história e o fim, olha, que se trabalhe. A história começa bem. A personagem principal, dado que é alcoólica, e não só, apreende a realidade de forma nebulosa e parcial, o que é bom, pois contribui para um sentimento de incerteza, de o que é que aconteceu? Como? Porquê? Não se sabe bem. O leitor caminha por entre o nevoeiro. Porém, o nevoeiro começa a levantar, desafortunadamente, e a partir daí a história torna-se banal, previsível e demasiado dramática, kitsch mesmo. Mas é de ler. Imagino que quem não tenha lido Ruth Rendell, por exemplo, ou mesmo Stephen King, veja neste romance algo de absolutamente fascinante. E não nego que o seja, mas... Eu já li muito, eu já li os melhores do género (não é para me gabar, ihihih), e por isso esperava mais de um romance tão elogiado - merecidamente.
Espero que PH tenha um/a agente que lhe mostre a importância da subtileza e o encanto da luz do entardecer. Não raro, é no escuro, de forma oculta e indizível, que radica aquilo que de mais belo fica expresso.
.
Sunday, August 07, 2016
George Gissing
Depois de GG não consigo ler nada com prazer. Nada! Deixei um livro de Chesterton a meio, claro que vou terminá-lo um dia destes, mas apenas porque sim. Sinto falta dos romances realistas de Gissing, da forma como dá conta das grandes transformações, em todos os sectores da sociedade, ocorridas em Inglaterra na segunda metade do século XIX.
Como ainda não organizei bem as leituras, ainda não cruzei dados, etc., não posso dizer sem sombra de dúvida que GG era um "apocalíptico" que a custo se foi tornando um "integrado", embora pouco. Com ele, deixei de gostar de livros que pouco vão além da história contada com perícia literária. Aqueles livros que se demoram nos pormenores, porque não têm pressa de revelar o que quer que seja, ou tão pouco de o ocultar. Estou a pensar no romance The Man in the Window, de Jon Cohen. Foi um bom livro, com um título cativante: eu própria sinto-me "uma mulher à janela". É daí apenas que me relaciono com o exterior. É um livro que leva o seu tempo, que não é pouco, a narrar tudo o que envolve o enterramento da personagem que morre logo na primeira página: que feliz forma de começar, hein? Cativou-me logo. É também um livro cheio de sofrimento: o homem desfigurado à janela, a enfermeira obesa mórbida que trabalha com doentes terminais, o homem velho que teme aquilo que a velhice trará ainda de pior (e a situação dele já não é famosa: surdo e com falhas de memória), etc. Mas não há um rebolar na dor, por assim dizer. Não há um choradinho ininterrupto e miudinho como a chuva que molha tudo, até os parvos. Não: tem até muito humor, humor negro, ironia amarga, mas enfim, humor. A primeira gargalhada que dei foi ao ler a seguinte passagem.
Vou enquadrar primeiro. A viúva não quer gastar rios de dinheiro com os preparativos fúnebres do defunto, principalmente porque o agente funerário é conhecido por espremer os entes enlutados até à medula. A viúva, porém, escaldada, responde do seguinte modo à sugestão feita acerca da indumentária do falecido:
«My husband, I guarantee you, Mr. Rose, does not wish to travel through eternity in a necktie and a pair of shiny shoes pressing on his bunions.» (Cohen, 2013: loc. 130)
Eu não resisto à palavra joanetes (bunions) :)!
Mas, dizia eu, sinto falta de realidade, de personagens reais, palpáveis, com muito contexto histórico, narradas de forma "objectiva", não floreada, não cómica, contida. Gissing não está para nos fazer rir. E eu, que gosto de autores que me façam rir, viciei-me em Gissing, na sua seriedade, na sua sobriedade, na forma fascinante como nos leva a conviver com todas as classes sociais da época e em variados espaços: dos bairros miseráveis dos pobres, a cair de bêbedos nas "public houses", às casas da aristocracia decadente e da burguesia ora endinheirada e boçal, ora endinheirada e digna.
Tenho que rebuscar todas as Amazons, pode ser que ainda haja um livrinho, um só, que eu ainda não tenha lido.
Literatura Light: A Chick Lit Portuguesa (Kindle Edition)
Às minhas avós. As pessoas mais meiguinhas que conheci. A avó Maria não tinha a subtileza da avó Soledade, mas eu era a sua neta favorita. Não sou favorita de mais ninguém. Mas da minha avó Maria fui. Recordo bem os serões com ela, que contava histórias e ria muito. Ninguém fica mais feliz que ela com esta coisa, hoje banal, de publicar um livro.
O que ela se há-de gabar da sua neta com os seus companheiros do paraíso.
Tuesday, August 02, 2016
Na Amazon
Publiquei o meu livro. Edição de autor, claro. Gostaria de publicar numa editora tradicional, ter passado pelo crivo de um editor profissional, etc., etc. Porém, este é o sec. XXI, a pós-modernidade, a modernidade líquida. É o tempo da Internet, do faça você mesmo o seu livro. Foi o que fiz. Publiquei na Amazon. Fui preenchendo questionários e mais questionários, assinando contratos e mais contratos (espero ter lido as letras pequeninas! Ui...), dispensei consultores, que teria de pagar, dispensei layouts que teria de pagar... enfim, fiz tudo à mão. A fotografia da capa também fui eu que a tirei. É tudo meu. A Amazon aprovou. Depois, tive que escolher (pôr uma cruzinha) como país de publicação os Estados Unidos: o melhor país do mundo, a partir de hoje, para mim.
Não sinto que estou a enganar alguém que o possa comprar. Aliás, a hipótese de alguém o fazer é ínfima. Afinal, o meu livro foi escrutinado: lido, criticado, corrigido, atacado, defendido. Não estou a pôr à venda gato por lebre. Aliás, o impulso de publicar textos meus, de ficção, esfriou de imediato. Esses necessitariam de um editor idóneo. Por outro lado, tenho no meu blogue um espaço honesto de publicação, pelo menos daquilo que se pode publicar... Sou absolutamente contra as milhentas editoras de vão de escada que me contactam para eu publicar a minha "obra". Já disse a uma que nem tinha obra, nem publicaria numa editora que aceitasse a minha "obra". Acabei insultada de egoísta, de não gostar de literatura e de não querer partilhar com os outros a minha "obra".
Estou feliz!! E completamente sem sono: hoje há maratona de leitura e chocolate.
(Já fiz uma encomenda e grande: ó pra mim toda corada.)
.
Thursday, July 14, 2016
Sunday, June 26, 2016
Os imbecis...
... de que falava Umberto Eco juntaram-se em congresso, suponho, para cascarem no novo livro de Vasco Pulido Valente e sobretudo no próprio Vasco Pulido Valente. Há de tudo, desde quem se arrepie com as árvores abatidas para imprimir o livro a quem diga que o vai comprar para pôr na casa de banho (isto para não deixar aqui a versão "hard core"). Há quem use a palavra fascista, claro, e velho do restelo, e intelectual de m.... e quem o mande investigar, e quem o mande beber menos. Há também quem o elogie, dizendo que ele é "ácido e lúcido", e quem responda logo que a acidez é da vinhaça, da vinha de alhos e quanto à lucidez, e cito, «lucideses vinhateiras».
Há frases épicas: «esse indevido é um grande charelatão»; «Esse Asno já devia estar internado num manicómio à muito tempo para não andar a fazer dos outros malucos.», «Um gajo desses é o cafeterira. A sra gosta do azedume ? Então fique c/ ele para si . É o primeiro comentário a favor,e a publicidsde já anda aí há 4 ou 5 dias.», «Este senhor quem não o conhecer que o compre! Eu não dou nem um pataco por ele! No tempo da outra senhora é que era bom! Não era senhor Vasco?Se este personagem é um grande pensador! Eu vou ali e já venho! Um grande venenoso é o que ele é!!!» etc. Há também muita falta de gramática, de ortografia e de sintaxe, e de cabeça, como se pode constatar.
Ora então, o meu herói, com quem me ri e me irritei tanto ao longo de tantos anos, o autor de Glória (inesquecível), anda a ser tratado assim pelas redes sociais... o que hei-de dizer? Já encomendei o livro. A ler vamos.
Sunday, June 12, 2016
Tuesday, May 10, 2016
Tender was the night...
A noite vai começar, ou já começou, eu vou preparar-me para me deitar e apagar a luz e tenho quase uma certeza: também hoje não guardarei memória daquilo que possa sonhar. Ontem mesmo sei que andei por aí durante a noite, por lugares novos de que não me lembro. Estive na casa do quarto com défice de decoração. Mas não me lembro com quem, embora não tenha estado sozinha. Espero que seja apenas uma fase. Como seria/será se não conseguir mais viver de noite, conhecer gente, fazer coisas, sentir emoções, enfim, ser feliz, viver mesmo, à séria, se não tornar a ter memória dos meus sonhos?
Aqui está um assunto grave e urgente que tenho de resolver.
Thursday, April 21, 2016
Charlotte Brontë
Brontë, Charlotte, faz hoje 200 anos. É uma mulher incomparável e escritora de génio. O mito acerca dela dá conta de uma mulherzinha atormentada, vivendo uma paixão não correspondida pelo seu Professor de Bruxelas, e encarcerada na casa inóspita de seu pai, com vista para o cemitério junto à igreja. Na verdade, ela foi uma mulher muito mais livre e incomparavelmente mais reivindicativa que muitas mulheres do século XXI. Ela sabia o que queria e conseguiu concretizar o seu objectivo: tornou-se, em vida, uma escritora famosa, de sucesso, tendo conseguido, com o seu trabalho de escritora, ganhar uma pequena fortuna. Casou, igualmente, com um homem que veio a amar muito - talvez mais que ao mítico Professor - e que a amava a ela de forma apaixonada. Mais: teve a sorte imensa de ter como pai um homem cultíssimo, que não se opôs a que as suas filhas, mulheres, estudassem e vivessem a sua vida.
Jane Eyre é um grande - enorme - romance, protagonizado por uma mulher forte, independente, decidida e, por isso, fascinante. Mr Rochester, o herói mutilado e vulnerável, é também inesquecível e absolutamente apaixonante. E a mulher louca...?
CB criou um universo ficcional único, devedor certamente às suas circunstâncias de vida e à sua relação com a família, especialmente com as irmãs. Elizabeth Gaskell, a autora da sua primeira biografia, dá conta de como as irmãs eram unidas, especialmente Charlotte, Anne e Emily - selvagem e encantadora -, visto que as outras duas morreram muito cedo e o irmão se tornou arredio e violento devido à bebida e à droga. Conta, numa passagem arrepiante, como as irmãs costumavam correr umas atrás das outras ao redor da mesa em que escreviam e pintavam. Conta também como Charlotte, depois da morte das irmãs, continuava o ritual de correr sozinha em redor da mesa. Conta, por fim, como, estando a residir na casa dos Brontë após a morte de Charlotte, podia jurar que se ouviam, no silêncio da noite, passos apressados em torno da mesa da sala vazia...
Wednesday, April 13, 2016
Ah, Ah, Ah...coisa mais linda!
Não sou eu propriamente, nem os Professores, alguns deles muito queridos, que tive no mestrado - Prof. Doutor Santos Pereira (foi quem me convidou para doutoramento: obrigada, meu queridíssimo Professor, fez-me a mais bela declaração de sempre: "A Adélia pensa bem e escreve bem". Nunca ouvi palavras tão belas e tão boas.) - mas também o Prof. Doutor Gabriel Magalhães, tão importante numa época em que eu desesperava... E todos os outros, incluindo aqueles que só conheci no dia da defesa da tese. A coisa mais linda é aquele livro poisado sobre a secretária, junto à queridíssima Prof.ª Doutora Reina: a minha tese! 205 páginas escritas em férias e fins-de-semana, sem que ninguém me tentasse aliviar do que quer que fosse, para eu poder dedicar-me à investigação sem outras preocupações. A MINHA TESE, escrita entre o prazer do conhecimento e o desespero do tempo, da incerteza, dos prazos, e também do imenso cansaço. Agradeço a todos aqueles professores, desde a escola primária, que foram professores mesmo, à séria, que não foram professores "light", "professores sentados", como aquele professor do romance de Carlos Ceia - O Professor Sentado. Bem-hajam!
Tuesday, April 12, 2016
POEIRA 1
Quando entrei na igreja, o corpo
da minha avó estava rodeado de estranhos. Na primeira fila, junto ao caixão,
perfilava-se a família possível: a nora (minha mãe), o irmão dela (meu tio), o
filho deste e a sua mulher (os meu primos espanhóis). Depois, claro,
encontrava-se toda a aldeia, pelo menos aquela que ainda tem mobilidade
suficiente para não faltar a um único encontro marcado pelo senhor Padre.
Assim, quando eu entrei, entrou a única pessoa da família: a neta (eu). Passado
um pouco, entrou a restante família verdadeira: a filha, o neto e o bem-amado
(neto dela e primo – iac- meu), com os respectivos cônjuges. Entraram a medo e
ficaram junto à porta, quietos, como se estivessem a mais, e estavam. Soube
mais tarde que a boa da aldeia – os aldeões, portanto – queriam “incorrer à
bordoada” os ingratos “que abandonaram a mãe e avó” e “não têm respeito pelos
velhinhos”! E por que razão não foram eles corridos à pedrada? Porque eu
resolvi aproximar-me da minha tia (a filha ingrata) e abraçá-la, porque sim e
porque, apesar de tudo (incluindo o não me ter falado quando me viu e o ter-me
desligado o telefone “na cara”, quando lhe dei a notícia da morte da mãe dela,
minha avó), e porque, dizia eu, antes de me ter interrompido, tinha e continuo
a ter uma dívida de gratidão para com ela: acolheu-me em sua casa para eu fazer
o liceu e a universidade. (Obrigada, tia, mais uma vez. Sem essa ajuda, eu
seria ainda menos feliz.) A minha mãe, sacrificada pela morte do meu pai, que
foi morrendo aos poucos, como é próprio da doença que o vitimou, e que conjuntamente
tratou da sogra (a avó morta no caixão), que foi morrendo ao ritmo surreal de
uma demência senil, a minha mãe, dizia, pontificava aos comandos do funeral,
como se fosse uma personagem de tragédia grega: a nora sofredora e abnegada que
tratou de toda a gente moribunda que habitava a casa, até que esta ficou
finalmente vazia: a morte esvazia as casas.
Eu tinha chegado à aldeia (a
terra), depois das aulas da manhã. Estava frio e eu, agasalhada no casaco de
pele Serra da Estrela (carneira, o casaco, não a serra), parecia um urso polar.
Por mais que queira impressionar os aldeões, com a minha elegância de pessoa
com um curso superior de craveira universitária, acabo sempre por chegar à
terra ou em época de grande frio ou de grande calor e, basicamente, sem
qualquer paciência para saltos altos: a elegância não coexiste com saltos
baixos, como é sabido. A minha mãe tinha-se esquecido de deixar a chave debaixo
do vaso, como combinado, e eu tive que ir do táxi, após 95 km de viagem,
directamente para o funeral. Estava, pois, aborrecidíssima e cansada. Tinha
também ficado combinado que eu não iria à igreja, ficaria logo no cemitério.
Mas, dada a chegada inesperada dos ingratos – se não tinham querido saber da
mãe/avó quando estava viva e doente, porque viriam agora que ela já estava
morta? –, incluindo o bem-amado (o neto preferido, o mais novo), depois de
trocar umas palavras com um sujeito desconhecido e barbudo, que afinal se
revelou ser o meu primo (o mais velho, mas muito amado também), logo conhecido,
à excepção das barbas, que eu nunca tinha visto mais gordas, decidi ir para a
igreja dar a novidade: pxiuuuuuuuuuuuuuuu, calma, ELES vieram!!! Isto mesmo
segredei ao ouvido da minha mãe, perfilada ao lado do caixão, como referido
anteriormente. Eles quem? Perguntou a minha mãe incrédula, mas careca de saber
de quem se tratava. ELES! Repeti. Ah! E a notícia foi seguindo em cadeia, de
boca em boca. Depois, fomos em procissão para o cemitério. Eu parecia um
pêndulo: para cá e para lá! A minha mãe e a restante família postiça da minha
avó foram junto a ela no carro funerário. Nós, a família verdadeira, seguimos
no final do cortejo. O meu primo barbudo deu-me boleia. O outro, o bem-amado,
ingratíssimo, irritante e, pelos vistos, mudo, não abriu a boca uma única vez.
Estava maçado: muito maçado, aliás, agarrado à mãe dele, como que adivinhando a
probabilidade de tareia, a julgar pela hostilidade mal contida no semblante dos
aldeões. O que eu me teria divertido, apesar de tudo: J! Bem feita! Mas nada aconteceu,
excepto o seguinte episódio caricato que passo a narrar. Como se sabe, os
familiares mais chegados querem, quando chega o momento, ser eles a levar o
caixão que transporta o ente querido para a sua última morada. Não era o caso.
A avó demente há muito tinha deixado de ser querida: era um estorvo! O mais
chegado e mais amado dos netos, o mudo carrancudíssimo, talvez por nervos –
claro! – ou apenas por ser malcriado e ingratíssimo, nem pestanejou quando os
agentes funerários – que eram poucos – perguntaram (incrédulos): quem ajuda a
carregar o caixão? (Desculpem que faça aqui uma pausa, pois tenho os olhos
cheios de lágrimas, de tanto rir.) Agora a sério: quem ajuda, perguntavam os
ditos agentes. Eu cheguei-me logo à frente e agarrei uma das pegas – os caixões
são pesadíssimos! – e preparava-me para chamar o meu primo espanhol, que estava
junto à cova ao pé da minha mãe, quando aparece o barbudo (primo) para a pega
restante. Porém, como tinha chovido imenso e havia lama em abundância nas
imediações da sepultura, o barbudo parou, para largar o caixão, pois não queria
enlamear os sapatos. (Outra pausa, que não acerto nas teclas com a risota.) Lá
vem então o meu primo espanhol substituí-lo e fomos nós os dois com os atónitos
agentes funerários que levámos o caixão até à cova. Querem que se abra a tampa
(do caixão)? Pergunta a minha mãe, estóica, querendo demonstrar que tratou do
funeral da sogra, como se esta fosse sua mãe e para esfregar o facto (força,
mãe, estiveste bem!) no focinho da restante família. Não! Diz o barbudo, que
foi o único que falou com a minha mãe, de forma normal, como seria de esperar,
posto que se não tivesse sido ela, seriam eles a colecionar estórias da minha
avó demente, de como ela se viciou em enfiar objectos no nariz, incluindo ossos
de galinha…por exemplo. E pronto: acabou o enterro. O meu tio (marido da minha
tia ingrata) deu uma palavrinha de conforto à minha mãe, a medo, como se fosse
apanhar sova, não dos aldeões mas da respectiva mulher, pouco contente, se
calhar, por ter tirado das costas o fardo de ajudar a própria mãe na velhice,
mãe essa que sempre a ajudou a ela, claro! Nada de novo, pois: é a vida.
Finda a função, como referido,
cada um retornou às suas casas: os outros foram para a terra deles à beira mar.
Eu e a restante família postiça da minha avó (morta e enterrada) fomos para casa da minha mãe. Posteriormente,
a minha mãe ficaria sozinha na casa vazia, o irmão e sobrinhos dela iriam para
Espanha e eu regressaria à Covilhã. Antes, porém, eu e o meu primo espanhol
tivemos que limpar os sapatos enlameados: primeiro, esfregando-os nas ervas
cheias de água da chuva, depois, pragmáticos, descalçando-os e limpando-os com
um pano. E esta, hein, primo? Mira,
pues... Por supuesto, claro. Foi mais um dia que passou.
Friday, April 08, 2016
Thursday, March 17, 2016
Despojos do dia
Liguei para a TVI na hora da crónica criminal. Havia cascatas de riso, como habitualmente. O crime tornou-se num espectáculo como qualquer outro. A notícia causadora de tão farfalhuda galhofa era hoje a da mulher que arrancou "com as próprias mãos" os testículos do marido. Não se trata, pois, de violência doméstica, posto que esta deixa os presentes com cara de grande consternação. O dia começou bem, como se pode ver. Acabei, entretanto, de ler mais um livro de Gissing: só tenho mais dois para ler: pena! Entretanto, também, comecei o dia de trabalho: mais uma tragédia cómica, ou vice-versa. Tanto faz.
A besta delirante estava hoje imparável. O outro, o do colesterol alto, segundo me informou, deve ter ido fazer exercício na segunda hora. Ele, sua burrência imperial, alterna o "estudo" com a actividade física. O outro, entretanto, não tornou a aparecer: terá sido aquela infeliz ocorrência do foro nasal? Mas o que esperava ele? Que eu não o inibisse de atirar macacos dentro do perímetro circense? Enquanto a actividade se circunscreveu ao desentupimento furioso das narinas, eu nada disse. Agora, a partir do momento em que sua insolência insalubre começou a arremessar o conteúdo nasal pelo espaço, tive de intervir! Já basta a quantidade de lixo de toda a espécie em que estou atolada durante a infeliz função de "ensinar"... terei ainda de me arriscar a ser atingida por um macaco, porque sua insolência não foi informada de que há uma coisa chamada lenço? Eu já fui atingida na real cabeça por objectos vários, durante a tourada: papéis, papéis, bolas de papel, papéis, castanhas... papéis. Mas macacada das narinas imundas de sua insolência é um pouco de mais: antes castanhas, durante as ruminações de São Martinho. Ao menos as castanhas estão assadas! Entretanto, ainda, o cómico de serviço, não satisfeito com as minhas manifestações de pesar após as suas insanas sessões de piadas, queixa-se de que eu não lhe presto atenção. Pudera! Se ele calar o focinho e se abstiver de contar anedotas, eu juro que lhe presto atenção. Assim, nada feito. Então ele conta-me uma muito gira, em que afirma que enterrou abundantes ossos de galinha há trinta anos, com o objectivo de que eles fossilizem e produzam petróleo, e está à espera que eu me ria? Claro que eu apenas fungo e levanto as pestanas. Entretanto, grande chefe cabeça de fuinha, certamente atacada por alguma indisposição hormonal, persiste em aborrecer toda a gente num raio de vários quilómetros ao seu redor. É que não tem tento na língua! Maçadora até à puta da medula. E isto e mais isto e mais isto e mais isto e ainda mais isto e isto ainda e outra vez mais isto. Já não basta ser viciada em asnocracia e desplantes de toda a ordem, bem como, também, dada a fazer longos relatórios cheios de nada, ainda me maça, o traste! Vá maçar toda a sua insípida - presumo - família! Vá maçar o raio que a parta. Vá maçar quem lhe fez as orelhas e os restantes órgãos, incluindo os vitais, se é que os tem, o vegetal obtuso! E depois, entretanto, o espantalho simpático e simplório da tristíssima figura! E as duas lorpas descaradas...! E o suposto insonso! E a dos guinchos suplicantes! Que fauna!
Não tivessem as mágoas, segundo dizem, aprendido a nadar, estaria tentada a afogá-las.
Subscribe to:
Posts (Atom)
















