Wednesday, August 14, 2013

A Noite



E não é que esta fotografia encerra a essência magnífica da noite? E não é a noite a parte mais bela do dia? E a luz? Não será a luz eléctrica a luz mais espantosa do universo?  E a casa? Não será o lugar mais acolhedor que se possa imaginar? Mesmo a casa desolada, pobre, fria... Não será o sítio mais encantador e encantado do mundo?
Na minha casa, iluminada ou escura, dentro da noite, e só aí - aqui - consigo perceber - um pouco - o que é ser feliz...

(Foto "pedida" de empréstimo, permanente, ao blogue A Educação do Meu Umbigo).

Thursday, August 01, 2013

Veículo Longo ou da Hermenêutica do Texto (!)

Como não queria deixar o meu leitor fiel - MOI MÊME - sem leitura estival, fiz um esforço de síntese e: Eis!!



Eu: Pobre Marcelino…

Outro: Pobríssimo!

Eu: Pisoteado pelo touro que ainda se borrou em cima dele..

Outro:  Lástima. Mas essa eu ainda não sabia…

Eu: Foi numa tenta, se não estou em erro. O touro tomou-se da pinga…

Outro:  Isso já foi depois de ele ser confundido, por sua excelência o Papa , com um penico…

Eu: Muito depois… onde é que isso já vai… bons tempos esses em que ele andava ao rebolão por debaixo da cama do Papa… mas a Sétima Onda  é que deu cabo dele…

Outro: O que é a Sétima Onda?

Eu: Não sei. Ninguém sabe! Nem o pobre sabe… mas foi arrebanhado… não vês que ele é muito dado a meter-se em grossos sarilhos… ?

Outro: Grossíssimos!!!!

Eu: E a mulher? Viciada em Feicebuque!

Outro: Alto aí! Mulher e irmã, não esquecer…

Eu: E eu não sei? Mas já não me lembro se eles eram irmãos só de pai ou de mãe…

Outro: Então o pai não foi aquele que desapareceu num urinol?

Eu: Sim, mas tudo esquema… ele ia era morder a esposa que estava num asilo…

Outro: São os traumas de infância…

Eu: E a incompreensão… então o tabefe que lhe deu o Calabote, por ele lhe chamar “filho da cabra”!?

Outro: Era a cabra coimbrã… Mas foi o Calabote que lhe assentou o tabefe?

Eu: Foi um catedrático. Disso lembro-me… mas ele havia lá tantos catedráticos.

Outro: Precisamente… catedráticos e políticos.

Eu: Principalmente o …ai… como é que ele se chamava, o anão… o Dr. … ai… que não me lembro…raios!

Outro: Era aquele que para além da política também se dedicava às revistas pornográficas… A “bunda em chamas”…

Eu: Esse mesmo. Mas em chamas terá ficado, quiçá, a bunda dele, quando o lançaram do canhão.

Outro: Felizmente que a viagem foi curta, ficou logo preso num estendal,  senão ainda podia ter sido pior. ..

Outro: Mas ele não foi disparado para uma azinheira nas imediações de Fátima?

Eu: Acho que não! Quem ficou empoleirada numa azinheira foi a… ai … como é que ela se chama… aquela que era amante do coiso… o…. Ai… como é que ele se chama… o cantor de rock…

Outro: É muito nome, muita coisa esquisita. Eu, para além do Marcelino e do Calabote, só me lembro do Aschenbecher…

Eu: O Axem… esse… não era o camareiro do Marcelino?

Outro: Esse mesmo… camareiro, intelectual e mentor. Só não despejava penicos!

Eu:  Esse mesmo… e maquiavélico. Não esqueças que matou o outro que agrediu o Marcelino quando ele estava na sanita…

Outro: Estás confundido. Quem matou o meliante que sovou o Marcelino no WC foi o outro… o… ai… a minha cabeça…. Aliás, ele próprio também morreu. Quando ia lançar o defunto ao rio, com uma grande pedra atada ao pé, ele próprio ficou com o pé na corda… e ala que se faz tarde. Lá vão o morto,  o vivo e o pedregulho… tudo para o fundo do rio…

Eu: Já me lembro. Bem feito. Anda, que não sovou mais nenhum!

Outro: Já não me lembro porque é que todos queriam malhar no Marcelino…

Eu: Queriam, não. Malharam.  Ele punha-se a jeito… sempre a perseguir, a fazer queixinhas… olha, que até reclamou de um assistente de loja por ele ter o nariz comprido!

Outro: E as perseguições ao arquitecto?

Eu: Verdade! E porquê? Porque ele desenhou o elevador e colocou os botões muito em cima, sem se lembrar do anão… que não chegava a lado nenhum…

Outro: Tenho cá para mim que se ele se tem casado com a Maria Estrovenga… teria feito um matrimónio mais feliz…

Eu: Como é que ele poderia ter casado com a Maria Estrovenga se ele matou a Maria Estrovenga quando dançava o tango com ela?

Outro: Precisamente! Mas se ele não a tivesse matado… se tivesse antes dançado um slow, a história podia ter acabado bem melhor.

Eu: Mas ele não namorou uma rapariga com quem costumava passear no jardim zoológico … onde até aconteceu aquela coisa de ele ter feito queixa de um macaco à PIDE, porque o macaco gostava de manusear as partes em público?  

Outro: Ele queixou-se do macaco, por atentado ao pudor, duas vezes. Mas essa era a irmã, aliás, a futura mulher.

EU: Olha que não!

Outro: Olha que sim… lembra-te lá! Ele não era namoradeiro. Muito viril, sim, que chegou a andar três ou quatro dias seguidos de … pau… feito… que nem conseguia apertar as calças… muito viril… mas não era namoradeiro.

Eu: Eu sei… ele até só se pôs a dançar com a Maria Estrovenga para fazer ciúmes à irmã, e futura mulher, que se tinha embeiçado pelo professor de danças de salão… o … ai… é escusado… que morreu tísico, em palco… nas cerimónias de homenagem a Mao Tsé Tung…

Outro: Ai… essa homenagem… que festança! Até houve missinha… de rezar e chorar por mais! Começou aí a queda do Marcelino…

Eu: E que senhora queda! Passar de diplomata para dirigente desportivo…

Outro: Para um clube da terceira divisão… o A da Cabra.

Eu: De quinta divisão, se faz favor. De quinta!

Outro: Mas tinha um ordenado e dos grandes no Cabrense… essa é que é essa!

Eu: Também só lhe deram o posto, para conseguirem torrar as pilas do público masculino… por suposto… do espectáculo da queima das fitas de Coimbra!

Outro: E torraram! Ó se torraram, ficou tudo com a pila em torresmos. O Marcelino saiu ileso… se bem me lembro… com a pila “au naturel”, como dizem os franceses.

Eu: Dessa livrou-se ele… mas só porque lhe deram uma mistela tal, que ele teve um ataque de gases fortíssimos… passou a noite num badanal!

Outro: Ele e outros… aquilo foi de estrondo… felizmente estava a tocar uma banda de rock da pesada…

Eu: Era a banda do  Maradona Madona, se não estou em erro… que foi eletrocutada…

Outro: Não. Era a banda do Alberto Cristovão, mais conhecido por Betóvão.

Eu: Esse era da música clássica. Disso não há dúvida nenhuma… alto lá.

Outro: Ahhhh, tens razão!

Eu: Mas olha que a praça de tóxis foi uma boa ideia!!

Outro: Táxis! Taralhoco…

Eu: Tóxis, se faz favor. Praça de estacionamento de toxicodependentes!

Outro: hummm…

Eu: Mas então não sabias das humilhações do Marcelino na tenta no Ribatejo… se não estou em erro…

Outro: Mas que raio andava ele a fazer em touradas?

Eu: Foi aquela coisa da Sétima Onda… uma coisa muito secreta…

Outro: Mas o que é a Sétima Onda… por Deus?

Eu: Olha, de concreto, só me lembro que nas reuniões, em que os membros …

Outro: Membros? Quais membros?

Eu: Os membros…ora, os associados… o Marcelino e os outros da quadrilha…

Outro: Ah! Diz-me dessas. Continua.

Eu: Interrompeste-me o raciocínio desnecessariamente…

Outro: Estavas a dizer que os membros se reuniam…

Eu: Exacto! Reuniam-se atrás de cortinas ou guardanapos, para manter o segredo… vê tu!

Outro: Mas assim, atrás dos guardanapos, tanto podiam estar a falar com os membros como com qualquer um…

Eu: Não! Primeiro confirmavam que era um membro, depois é que se colocavam atrás de qualquer coisa … reposteiros, guardanapos, panos de cozinha….fraldas!... e depois é que falavam…

Outro: Fraldas?

Eu: Que surpresa! Como se o Marcelino não gostasse de pôr fraldas e pespegar-se em frente a um espelho  a dizer gugu-dadá e a babar-se…

Outro: Lembro-me bem! Mas pôr uma fralda não é o mesmo que colocar-se atrás de uma fralda…

Eu: Coisas da Sétima Onda… mente aberta, por favor!

Outro: Seja!

Eu: Eeeeeeeee … deixa ver… que me desconcentraste escusadamente. Falavam, então, under cover, como diriam os ingleses.  Mas o secretismo não residia só em taparem-se para falar! A coisa era assim: supõe que me querias falar de um assunto… tinhas que falar de seis assuntos até chegares ao assunto propriamente dito, que era o sétimo…

Outro: Vamos tentar… vamos exemplificar… vamos falar de…. eh…eh… pesca, que está o tempo quente…

Eu:  Pesca? Verdade… foi aquele do nariz … aliás, que não tinha nariz, porque o Marcelino lho pescou com um anzol, durante uma tertúlia sobre filosofia….

Outro:  A mania que ele tinha de pescar durante tertúlias filosóficas!  Bem me lembro… o outro, com o nariz atarraxado de fresco e o Marcelino… zás!!

Eu: Uma tragédia! Mas o outro acabou por assumir a falta de nariz… só ficou com dois buracos no meio da cara…

Outro: Credo!

Eu: Pois! E sempre ranhosos…!

Outro: ugh!

Eu: Foi ele – se me permites que acabe o meu raciocínio -  que arrebatou o Marcelino p’rá Sétima Onda…

Outro: Já me cheirava!

Eu: Mas vamos então treinar a técnica dos sete assuntos.

Outro: Avança com o primeiro…

Eu: Não! Vamos fazer as coisas como deve ser… passa aí uma coisa para nos cobrirmos…

Outro: Ainda mais essa… não há necessidade…

Eu: Há, sim senhor. Vamos para trás das persianas.

Outro: Mas ficamos olhar uma para o outro na mesma…

Eu: Pois ficamos… mas ninguém pode olhar para nós… essa é que é a grande diferença.

Outro: Mas não está aqui ninguém…

Eu: Não custava nada fazermos a coisa como deve de ser… mas, assim queres… assim tens.

Outro: Fechamos os olhos! Qual é a melhor maneira de não ver?

Eu: Seja! Vamos então começar…

Outro: ….

Eu:  Recordar é viver…

Outro: Um…

Eu: Tens que contar baixo. Assim toda a gente vai perceber a nossa técnica!!

Outro: Isto é só um treino… depois é que vamos à séria! Dá o segundo tema.

Eu: já dei: tens que contar baixo é o segundo tema.

Outro: Tema??? Que raio de tema é esse?

Eu: Aí é que está a dificuldade! O membro da Sétima Onda tem de ter raciocínio rápido.

Outro:  Quatro!

Eu: Quatro?

Outro: Cinco!

Eu: Pára! Pára! Ponto de ordem!

Outro: Seis!

Eu: Não, não, raios!! Só dei ainda dois temas: recordar é viver e conta baixo.

Outro: Sete!

Eu: Estás surdo?

Outro: A surdez é de facto uma condição inimaginável… Mas os implantes cocleares …

Eu: Acabou a Sétima Onda! Ouviste? E abre os olhos! Acabou…finito!

Outro:  Gostei, sim senhor. Agora vamos para detrás da persiana e digo eu os temas.

Eu: Acabou. Não há cá mais temas nem sétimas ondas… inferno!

Outro: Pronto. Vamos voltar ao Marcelino… o que ele gostava de filmes pornográficos!

Eu: Era só para melhor perceber a perfídia de tais filmes!

Outro: Era, era! Gostava pouco, gostava…!

Eu: Eu acho que é de realçar as suas boas qualidades…

Outro: Quais??

Eu: Foi ele que indicou o caminho às tropas no 25 de Abril…

Outro: Isso é verdade. Subiu para o blindado…se bem me lembro… e lá vai ele a dizer aos militares… siga à direita, agora à esquerda… o sítio da revolução é ali à frente.

Eu: No fundo, um oportunista. Ele nem era de revoluções…

Outro: Antes da revolução não era, mas depois passou a ser… como todo o mundo!

Eu: Por pouco tempo… passados dias, com o belo ripanço em perigo…já estava farto de revolução até aos olhos.

Outro: Como todo o mundo… quer dizer… os ignorantes!

Eu: Alto lá! Há …

Outro: Vamos mudar de assunto. Ai aquela dos pauliteiros de Miranda no palácio de Buckingham…

Eu: De Mirandela…

Outro: Isso são as alheiras! Os pauliteiros são de Miranda.

Eu: Ai, a minha cabeça! Não foi aí que o embaixador da … do… ai… a memória de galinha… da Holanda…

Outro: Não era da Holanda. Era da… ui….que não me lembro… raios… era da Polónia…

Eu: Pronto. Mesmo que não fosse, passa a ser. Dizia eu, que o embaixador da Polónia morreu de apoplexia com as trapalhadas da diplomacia portuguesa?

Outro: Não. Ele foi hospitalizado com os desmandos da diplomacia portuguesa, mas foi quando apanhou o Marcelino em Veneza, disfarçado de empregado de mesa, a servir a alta sociedade aristocrática e clerical…

Eu: E a ouvir os conselhos do bispo de… ai…é escusado… do bispo…pronto… sobre a forma como as senhoras devem lavar as partes íntimas sem pecar…

Outro: Não me lembro disso… mas lavar as partes íntimas…pudibundas é pecado?

Eu: É, segundo o bispo, se os dedos tocarem as partes sem sabonete…

Outro: Sem sabonete?

Eu: Quando a pessoa está a lavar-se deve usar sabonete, se não usar… o que é está a fazer com a mão nas partes?

Outro: Está a pecar. Claro! Que bem visto! Olha que se aprende muito com a ficção…

Eu: Verdade cristalina!

Outro: E foi então aí que deu o badagaio ao embaixador da Polónia…

Eu: Um piripaqui…como dizem os brasileiros. Nunca mais tossiu.

Outro: E como é que acabou aquela grande confusão…confusões…

Eu: Depende de que confusão se está a falar! Não faço ideia…

Outro: Quem é que andava com um capote alentejano numas grutas… num calor de morrer?

Eu: O Marcelino, certamente. Só ele para se agasalhar na canícula alentejana…

Outro: Não era propriamente para se agasalhar… era para se disfarçar.

Eu: Olha, só me lembro que o Marcelino estava a nadar na sua bela piscina e ela deu de si…

Outro: Deu de si? Como?

Eu: Ruiu. Abateu. O Marcelino ficou a nadar em seco… acho que contundiu algumas costelas… mas posso estar a ser atraiçoada pela minha péssima memória…

Outro: Anda que se não contundiu aí as costelas… contundiu-as noutra parte qualquer…

Eu: As canelas…. Lembraste do advogado americano que  lhe macerou as canelas por baixo da mesa do hotel?

Outro: Se lembro…. Aí houve exagero…. Aquilo foi malhar até mais não…

Eu: Não se faz… a um pai de família… casado… político… e que dava o seu melhor… no fundo… era isso.

Outro: Ele tinha dois filhos…

Eu: E sobrinhos!!

Outro: E….

COFFEE BREAK

Eu: Chiça que nunca mais vinha o coffee break. Estou esvaída!

Outro: É muita actividade cerebral….

Eu: O meu com uma gotinha de aguardente…ó faxavor!

Chlép!

Bibliografia:

António Vitorino D’Almeida, Coca Cola Killer, Lisboa, Oficina do Livro, 2008 (reedição)

António Vitorino D’Almeida, Tubarão 2000, Lisboa, Oficina do Livro, 2009 (reedição)

 António Vitorino D’Almeida, Portugal Definitivo, Lisboa, Clube do Autor, 2012

 

 

Wednesday, July 03, 2013

Was ist mit mir geschehen?*



«Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt»

Kafka, Die Verwandlung

* O que é que me está a acontecer?

O que é que nos está a acontecer?

Tuesday, July 02, 2013

Obviamente!





 
Enquanto eu fazia uma pausa, para tirar uma fotografia, para imortalizar o meu corte de cabelo... o país ruía mais um pouco...
Entretanto, apesar do nonsense da tarde política... com cerimónias de posse e de demissão em simultâneo... apesar de se sentenciar mais uma demissão...entretanto eu, emocional, puramente emocional, gostei de ouvir: Não me demito, não abandono o meu país!
Gostei.

Wednesday, June 26, 2013

Bem...




O esgoto estava sufocante. Que lugar desagradável, até parece impossível. Tinha eu saído do chiqueiro e pensava, inocente, que a coisa não podia piorar.

Ali estavam  as baratas tontas ( ou seja, não são caras, são baratas e tontas), caladas que nem múmias. Para quem não conhece, esclareço que as baratas tontas não querem incomodar ninguém. Nem pensar. Nisto, entra o rato das botas, pisando algumas patas  e elas, claro, pediram desculpa por terem colocado sulcos sob as botas do rato. O rato, contente, deu um guincho. Nisto, entra o animal mais repugnante da infraestrutura escoadora: Pépe le pew, ( leia-se piú, para efeitos de hilaridade, se for caso disso…) a doninha fedorenta. Porém, como anda a treinar para o jogo de futebol entre esgotos, que põe pépes le pews  casados contra pépes le pews solteiros, entrou rápido, fez um flique flaque à direita e saiu ao pé coxinho. As baratas tontas taparam os narizinhos e suspiraram violentamente, mas com respeitinho, como é seu hábito. O rato das botas, entretanto, como se apanhou de amores pelos ratos dos computadores, a que chama “mauces”,  para luzir o seu inglês, pôs-se a passar as patas pelo teclado de um Toshiba. Este, ressentido, posto que só gosta de ter as teclas dedilhadas com competência,  pôs-se aos espirros e pregou-lhe  com um vírus no focinho. Todos se riram, menos o vírus, claro, por ficar alojado em tão ruim defunto. Bem, estávamos todos nisto, à espera que tocasse, quando entra a madre abadessa com um galo na cabeça. Um galo mesmo, de Barcelos. Ela tem dois. Põe um na cabeça e outro no fogão, em cima de um naperão ( ou naperon, como preferirem).   Bem, depois de se ter certificado que todos tinham observado o seu vistoso enfeite, saiu também, mas com pena. Ela é do tipo de macaca que gosta de ocupar os galhos todos, a puta. Bem, passado um pouco, entram os dois intrusos, aqueles tontos torpedeiros, patéticos, que sorriem quando não devem, falam quando deviam estar calados e estão calados quando deviam falar. Fazem tudo ao contrário. Claro que ficaram no esgoto, quando deviam ir fustigar-se com um pau de marmeleiro. Ou uma chibata. Nisto, aparecem duas avestruzes que queriam vender qualquer coisa inútil. Ninguém comprou. Tratou-se foi de os correr à bordoada e consta até que ficaram um pouquinho  doridos.  Faltava ainda a  cereja  em cima do bolo. Mas, como não havia cerejas, pôs-se uma uva.  Ora, como já se fazia tarde, demos as mãos  e entoámos uma canção do saudoso Demis Roussos, o good bye my love good bye.  E é nisto que se fica a saber que os resultados do processo de ensino-aprendizagem não eram famosos. Ficámos todos embasbacados.  Pépe le pew (piú), entretanto regressado de algures,  teve um ataque de soluços, mas não se sabe bem porquê. Consta que se engasgou.  Foi logo proposto que se fizesse um PowerPoint. Bem, o PowerPoint não caiu bem em certos gotos. Nisto,  tocou a campainha. Estava na hora de sair do esgoto e regressar à vida. Bem, …
 

   (Não se pode dizer que as reuniões não são produtivas... Bem... )

Thursday, June 06, 2013

A p*** da vida!



As bestas vieram todas para o esgoto. Muito apropriado para elas. Mas não para mim!!
O esgoto já é um sítio muito mal frequentado. Nauseabundo. Enfim, esgoto! Não se está cá nada bem. E agora chegam os asnos. Afastem-se que eles são anafados. Um estica as beiças na minha direcção. Penso que quer sorrir-me. O cabrão! Vai rir-te para quem te fez as orelhas... e a cauda! Olha o jerico!
Num autêntico festival de atrocidade, chega também o Pépe le Pew ( leia-se "piú"), a fazer fliques flaques em pontas. Anda a praticar para um jogo entre o chiqueiro e a pocilga. Que o esterco não lhe seja leve! Le Pew, assim entra, assim sai: vai mafarrico! Até já se respira melhor.
Que horas são? Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, ainda faltem 28 segundos. Deus, dá-me resistência e algodões para vedar as narinas!
Entretanto, grande chefe Cabeça de Burro afadiga-se por elevar os níveis de pestilência!
Como é feia a puta da vida! 

Monday, June 03, 2013

Jean Stapleton

 
 
Descansa em paz, querida Edith!
Ri tanto contigo e o teu preconceituoso e adorável Archie. Aliás, continuo a rir. Obrigada pela companhia, pela boa disposição, por todos os momentos bons que me deste! 

Thursday, May 16, 2013

Animal Farm




Tirado de empréstimo (permanente) do Umbigo.

Thursday, May 02, 2013

Thursday, April 25, 2013

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

                         Sophia de Mello Breyner Andresen

39 anos depois, vai-se instalando a noite...

Wednesday, April 24, 2013

Bibliotecas



 
Aqui há uns anos, lia eu, horrorizada, que uma biblioteca, para promover o gosto pela leitura e coiso, tinha "implementado" uma actividade entre os jovens futuros ex-leitores que consistia em passar uma noite na biblioteca, a dormir. Comentei com um colega e ele, muito moderno, disse achar alguma piada a estas iniciativas inovadoras, porque assim e porque assado. Diga-se que o dito colega é semianalfabeto.  Eu sugeri, então, para parecer também moderna e semianalfabeta, que se fizesse um churrasco na biblioteca... e ele disse que, enfim, até teria alguma piada. ahahahahahahh. Que rir!
Ontem ou "trasantontem", como se diz na minha terra, li que uma biblioteca tinha aberto as suas portas não só para ler, mas também para conviver e até namorar. Repito: até namorar. Need I say more?
Entretanto, aqui há atrasado, numa acção de formação sobre bibliotecas, dizia a formadora, muito fina, que hoje as ditas já não são espaços de silêncio, frios e com bibliotecárias hirtas e com carrapitos na cabeça. Ela achava isto, claro, um progresso, uma benção. Eu acho isto um horror, uma tragédia e, a avaliar pela soneca e a marmelada junto às estantes, uma comédia, também. Para mim, isto não são bibliotecas. São antros!
Dêem-me uma biblioteca fria e silenciosa e ponham-me um totó no cocuruto e eu dir-vos-ei o que é a felicidade na terra.

Monday, April 15, 2013

Salvar o mundo


O bastonário da ordem dos psicólogos disse que os psicólogos não podiam salvar o mundo, mas...
Mas o quê? Que interessa! Desliguei logo o rádio.
What a cheek! "Si manca, viu?"

Wednesday, March 20, 2013

Tuesday, March 19, 2013

A espuma dos dias


Terminou um projecto de seis anos. Um período de histórias com personagens, espaço, tempo, estilo e perspectiva. Não houve bons e maus. Ninguém foi bom. Foi uma narrativa de maus e menos maus. Egos. Narcisos algo decadentes...
Uma história dos tempos que correm. Fragmentos. Disseram-me que sou intimidante. Foi seguramente dos poucos elogios que recebi. Houve laços que nunca se quebraram. Pelo contrário. Agora acabou. Não ficou saudade de quase nada. Ontem, ouvi o som de uma voz que não era suposto estar já naquele sítio.  As personagens ainda não chegaram ao fim das páginas, mas a palavra FIM já está escrita. Acabou. Sem saudades. Sem nada. Não tarda e até as vozes, que se tornaram estranhas, deixarão de se ouvir. Paz às nossas almas!
Algures, já se prepara uma nova história de desamor. I'm ready.

Tuesday, March 05, 2013

A viagem




Abri a porta e saí para a rua. Estava na hora de iniciar a minha viagem. Não era apenas uma deambulação, como tantas vezes faço. Era uma viagem. A comprová-lo, bastaria ver a mala sem rodas que pendia da minha mão. Mala vazia, claro, porque o peso tiraria todo o prazer e leveza da minha viagem nocturna, a pé, pela linha escura do horizonte.

Teria que atravessar uma série de campos profusamente cultivados: milho, morangos, couves, pimentos, etc.. Tudo muito verde e colorido, embora, no escuro da noite, não se pudesse apreciar devidamente, claro, nem o verde nem o colorido. E lá seguia eu, no meio das couves, em direcção ao meu destino, esperando que ele não tivesse mudado de lugar. É este, aliás, o único inconveniente dos sonhos, nunca se sabe bem o ponto de chegada. Mas também não interessa. Interessa, isso sim, evitar a luz do dia. A todo o custo!

O dia é o palco da realidade e esta é sempre de evitar. Especialmente a última moda em realidade. Não sei se acontece só comigo, mas a minha realidade anda cheia de gente apodrecida, gangrenada. Não vejo ninguém com boas cores. É só gente meio podre ou completamente podre. E gente muito velha e triste. E jovens. Mas os jovens também estão apodrecidos, embora não o saibam, porque se vêem muito ao espelho e o espelho lhes diz que eles são os jovens mais belos de sempre. E eles acreditam. Interrupção. Um momento. Só os morangos negros claros, do campo cultivado da minha noite de viagem, conseguem afastar os meus pensamentos da realidade insalubre da luz do dia.

Mais uns passos e cheguei. Está tudo no lugar: árvores enormes, com candeeiros de luz amarela no meio delas. E uma cerca em torno de um bosque ali perto. Que beleza! Não pensei que conseguisse vir duas vezes a este sítio. Mas consegui. Poderia voltar para trás, para casa, fazendo a viagem de regresso. Mas há um portão aberto na cerca do bosque. Entro. Sinto, então, que o dia está para amanhecer, juntamente com as pessoas e as suas coisas. Há casas ao longe. Há fumo a sair das chaminés. Adivinha-se movimento, vozes, bulício: tudo coisas a evitar! Ainda tento sair do bosque, mas o portão da cerca já está fechado. Procuro, então, uma árvore grande que me proteja e a minha mala abre-se para me esconder. É uma mala enorme. Quem diria? É confortável. Toda forrada de cetim branco. Há até algumas flores em meu redor. Mantenho-me quieta, deitada, as mãos sobre o peito e os olhos fechados. Descanso.

Sei que à hora do cair da noite, quando os monstros apodrecidos recolherem às suas casas e desocuparem as ruas, a mala vai abrir-se novamente, para eu continuar a minha viagem.

(continua, talvez)    
https://wall.alphacoders.com/big.php?i=1364036, consultado em 15 de Março, 2026

Saturday, March 02, 2013

Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena



Queridos defuntos, paizinho, 'vózinhas, tiozinhos, tia Maria, todos... desculpem a barulheira, desculpem dirigir-me a vós e perturbar o vosso descanso, mas está na hora de cantarmos todos a Grândola e dizer: que se lixe a troika!!

Wednesday, February 20, 2013

Coisas



«UMA VERDADE ABSOLUTA….Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal … e isso é precisamente a velhice.»

Sándor Márai, in ‘As Velas Ardem Até ao Fim

Tuesday, February 19, 2013

Velhos






A política anda horrorizada com os velhos... a política não sabe, de momento, o que fazer com o país, posto que anda ocupada com a economia... o que não tem nada a ver.
Os velhos são feios. Adoecem. Tomam medicamentos. Recebem reformas. Fazem despesa. Tiram o lugar/ emprego aos mais novos. Respiram. São, muitas vezes, dependentes. Não produzem. Vivem de mais!

O blogue A Educação do Meu Umbigo fez um "post", aliás mais do que um,  sobre os velhos. Parece que um jovem político resumiu a velhice a " peste grisalha", mais coisa, menos coisa. Muitos foram os que comentaram. Deixo aqui o comentário do Farpas, uma daquelas pessoas de quem me orgulho de ser colega (passo a imodéstia).

« (as razões pela quais os governantes "não podem com os velhos") Antes de mais, porque na sua visão da realidade social e económica só há lugar para os jovens empreendedores, que fazem da sua própria vida um empreendimento, que gerem a sua existência pelas leis e expectativas do mercado – o homo economicus, figura suprema, fetichizada do neoliberalismo -, quais bestas céleres para as quais não há lugar para o que não seja útil ou rendível.

Depois, porque na sua mundividência, na sua perspectiva cultural e de vida, só há lugar para o culto do “juvenilismo”, para a eterna juventude do receituário politicamente correcto – vida plastificada e alienada pelo reino da aparência e do investimento narcísico -, em que o envelhecimento, o sofrimento e a morte são vistos com o horror do absolutamente estranho, e não como referenciais de sentido da vida humana, onde o homem se reconhece e se mede a si mesmo no confronto com os seus limites.»

Farpas, Educação do Meu Umbigo, 18 de Fevereiro

Thursday, February 14, 2013

Amor é...

 
...não chatear o outro.

Monday, February 11, 2013

Monotonia



Às vezes, está só uma pessoa na sala e inicia-se uma conversa. No outro dia, fiquei só com uma pessoa na sala e teve início a seguinte conversa.

Pessoa: ( a fazer ruídos com a boca)

Eu: A sala está tão cheia que não se cabe cá…

Pessoa: ( a olhar em redor, como se lhe tivesse escapado alguma coisa)

Eu: Não vamos fazer nada… não há condições.

Pessoa: É uma falta de condições… ainda ontem… queria dormir e não conseguia (abana a cabeça de olhos em alto)

Eu:  Assim não se pode trabalhar…

Pessoa: Nem trabalhar, nem dormir, nem comer… (torce o lábio e o nariz)

Eu: Fazemos a ficha no próximo dia, quando estiver mais gente…

Pessoa: (olha para mim, para confirmar que eu era mesmo eu)

Eu: Conte-me coisas… como é que vai isso…

Pessoa: (faz esgares atrás de esgares)

Eu: Assim torna-se aborrecido…

Pessoa: O que vale é que está quase a acabar … ( olha para mim, como que a dizer, sabes bem do que estou a falar)

Eu: Há que ter calma.

Pessoa: Calma? Eu ando mesmo… mesmo… (respira fundíssimo) pfiuuuuuuu … se me vejo longe daqui…

Eu: Com o desemprego que para aqui vai…

Pessoa: Quem é bom tem sempre emprego… (olha para mim com ar de sábio, abanando a cabeça) sempre… acredite no que eu lhe digo…

Eu: Nos tempos que correm não é bem assim…

Pessoa: Para mim há sempre emprego… muitos não cortam árvores em ribanceiras. Eu corto em todo o lado…

Eu: Nas ribanceiras, é mais difícil…

Pessoa: Ná… parece! Quem sabe cortar árvores, tanto corta nas ribanceiras, como num sítio qualquer (põe a boca em O e fixa o olhar em mim).

Eu: Trabalho difícil… e perigoso…

Pessoa: Ná… só tem de se saber… ( abre a boca e fixa-me)

Eu: As motosserras são um equipamento perigoso…

Pessoa: É como tudo. Há que saber… eu agarro na motosserra sem problemas. Nunca tive problemas. (estica o dedo e abana a cabeça. Fixa-me)

Eu: Eu tenho medo de motosserras… e de electricidade…

Pessoa: Isso para mim não é nada (ri com leveza e abana a cabeça, sempre a olhar para mim)

Eu: É…

Pessoa: É como cortar oliveiras….

Eu: As oliveiras são frágeis… é preciso cuidado.

Pessoa: Nunca tive problemas com oliveiras! (vai abanando a cabeça e esticando o lábio, enquanto vai fechando os olhos para melhor marcar aquilo que diz)

Eu: Há muita gente que cai…das oliveiras…

Pessoa: Um dia, com um colega, fomos cortar oliveiras. Ele, mal subiu, caiu logo. Logo!  Zás!  Também lhe disse: bem te avisei. Não ouvem!  (gesticula largamente, para dar vivacidade à empolgante história)

Eu: Oliveiras…um perigo…

Pessoa: Eu nunca caí! (bate com a mão na mesa e põe a boca em O durante uns bons segundos)

Eu: Extraordinário!

Pessoa: É preciso saber subir à oliveira… nunca caí. Quer acreditar?

Eu: Acredito, pois!

Pessoa: Mas eu sei subir… (semicerra os olhos cheio de mistério)

Eu: … ( morta por saber como é que se sobe a uma oliveira, estico a cabeça e espero)

Pessoa: Eu… eu… quando subo à oliveira tiro os óculos e o casaco!! (olha para mim com um olhar de: toma, que já aprendeste! E estica de tal modo a cabeça, que parece uma tartaruga)

Eu: … os óculos?

Pessoa: Os óculos! Tiro-os.

Eu: … e o casaco?

Pessoa: E o casaco!

Eu: …

Pessoa: Nunca caí! ( e faz abundantes estalos com a boca)