Wednesday, August 14, 2013
A Noite
E não é que esta fotografia encerra a essência magnífica da noite? E não é a noite a parte mais bela do dia? E a luz? Não será a luz eléctrica a luz mais espantosa do universo? E a casa? Não será o lugar mais acolhedor que se possa imaginar? Mesmo a casa desolada, pobre, fria... Não será o sítio mais encantador e encantado do mundo?
Na minha casa, iluminada ou escura, dentro da noite, e só aí - aqui - consigo perceber - um pouco - o que é ser feliz...
(Foto "pedida" de empréstimo, permanente, ao blogue A Educação do Meu Umbigo).
Thursday, August 01, 2013
Veículo Longo ou da Hermenêutica do Texto (!)
Como não queria deixar o meu leitor fiel - MOI MÊME - sem leitura estival, fiz um esforço de síntese e: Eis!!
Eu: Pobre Marcelino…
Outro: Pobríssimo!
Eu: Pisoteado pelo touro que ainda se borrou em cima dele..
Outro: Lástima. Mas
essa eu ainda não sabia…
Eu: Foi numa tenta, se não estou em erro. O touro tomou-se
da pinga…
Outro: Isso já foi
depois de ele ser confundido, por sua excelência o Papa , com um penico…
Eu: Muito depois… onde é que isso já vai… bons tempos esses
em que ele andava ao rebolão por debaixo da cama do Papa… mas a Sétima
Onda é que deu cabo dele…
Outro: O que é a Sétima Onda?
Eu: Não sei. Ninguém sabe! Nem o pobre sabe… mas foi
arrebanhado… não vês que ele é muito dado a meter-se em grossos sarilhos… ?
Outro: Grossíssimos!!!!
Eu: E a mulher? Viciada em Feicebuque!
Outro: Alto aí! Mulher e irmã, não esquecer…
Eu: E eu não sei? Mas já não me lembro se eles eram irmãos
só de pai ou de mãe…
Outro: Então o pai não foi aquele que desapareceu num
urinol?
Eu: Sim, mas tudo esquema… ele ia era morder a esposa que
estava num asilo…
Outro: São os traumas de infância…
Eu: E a incompreensão… então o tabefe que lhe deu o
Calabote, por ele lhe chamar “filho da cabra”!?
Outro: Era a cabra coimbrã… Mas foi o Calabote que lhe
assentou o tabefe?
Eu: Foi um catedrático. Disso lembro-me… mas ele havia lá
tantos catedráticos.
Outro: Precisamente… catedráticos e políticos.
Eu: Principalmente o …ai… como é que ele se chamava, o anão…
o Dr. … ai… que não me lembro…raios!
Outro: Era aquele que para além da política também se
dedicava às revistas pornográficas… A “bunda em chamas”…
Eu: Esse mesmo. Mas em chamas terá ficado, quiçá, a bunda
dele, quando o lançaram do canhão.
Outro: Felizmente que a viagem foi curta, ficou logo preso
num estendal, senão ainda podia ter sido
pior. ..
Outro: Mas ele não foi disparado para uma azinheira nas imediações
de Fátima?
Eu: Acho que não! Quem ficou empoleirada numa azinheira foi
a… ai … como é que ela se chama… aquela que era amante do coiso… o…. Ai… como é
que ele se chama… o cantor de rock…
Outro: É muito nome, muita coisa esquisita. Eu, para além do
Marcelino e do Calabote, só me lembro do Aschenbecher…
Eu: O Axem… esse… não era o camareiro do Marcelino?
Outro: Esse mesmo… camareiro, intelectual e mentor. Só não
despejava penicos!
Eu: Esse mesmo… e
maquiavélico. Não esqueças que matou o outro que agrediu o Marcelino quando ele
estava na sanita…
Outro: Estás confundido. Quem matou o meliante que sovou o
Marcelino no WC foi o outro… o… ai… a minha cabeça…. Aliás, ele próprio também
morreu. Quando ia lançar o defunto ao rio, com uma grande pedra atada ao pé, ele
próprio ficou com o pé na corda… e ala que se faz tarde. Lá vão o morto, o vivo e o pedregulho… tudo para o fundo do
rio…
Eu: Já me lembro. Bem feito. Anda, que não sovou mais
nenhum!
Outro: Já não me lembro porque é que todos queriam malhar no
Marcelino…
Eu: Queriam, não. Malharam.
Ele punha-se a jeito… sempre a perseguir, a fazer queixinhas… olha, que
até reclamou de um assistente de loja por ele ter o nariz comprido!
Outro: E as perseguições ao arquitecto?
Eu: Verdade! E porquê? Porque ele desenhou o elevador e
colocou os botões muito em cima, sem se lembrar do anão… que não chegava a lado
nenhum…
Outro: Tenho cá para mim que se ele se tem casado com a
Maria Estrovenga… teria feito um matrimónio mais feliz…
Eu: Como é que ele poderia ter casado com a Maria Estrovenga
se ele matou a Maria Estrovenga quando dançava o tango com ela?
Outro: Precisamente! Mas se ele não a tivesse matado… se
tivesse antes dançado um slow, a história podia ter acabado bem melhor.
Eu: Mas ele não namorou uma rapariga com quem costumava
passear no jardim zoológico … onde até aconteceu aquela coisa de ele ter feito
queixa de um macaco à PIDE, porque o macaco gostava de manusear as partes em
público?
Outro: Ele queixou-se do macaco, por atentado ao pudor, duas
vezes. Mas essa era a irmã, aliás, a futura mulher.
EU: Olha que não!
Outro: Olha que sim… lembra-te lá! Ele não era namoradeiro.
Muito viril, sim, que chegou a andar três ou quatro dias seguidos de … pau…
feito… que nem conseguia apertar as calças… muito viril… mas não era
namoradeiro.
Eu: Eu sei… ele até só se pôs a dançar com a Maria
Estrovenga para fazer ciúmes à irmã, e futura mulher, que se tinha embeiçado
pelo professor de danças de salão… o … ai… é escusado… que morreu tísico, em
palco… nas cerimónias de homenagem a Mao Tsé Tung…
Outro: Ai… essa homenagem… que festança! Até houve missinha…
de rezar e chorar por mais! Começou aí a queda do Marcelino…
Eu: E que senhora queda! Passar de diplomata para dirigente
desportivo…
Outro: Para um clube da terceira divisão… o A da Cabra.
Eu: De quinta divisão, se faz favor. De quinta!
Outro: Mas tinha um ordenado e dos grandes no Cabrense… essa
é que é essa!
Eu: Também só lhe deram o posto, para conseguirem torrar as
pilas do público masculino… por suposto… do espectáculo da queima das fitas de
Coimbra!
Outro: E torraram! Ó se torraram, ficou tudo com a pila em
torresmos. O Marcelino saiu ileso… se bem me lembro… com a pila “au naturel”,
como dizem os franceses.
Eu: Dessa livrou-se ele… mas só porque lhe deram uma mistela
tal, que ele teve um ataque de gases fortíssimos… passou a noite num badanal!
Outro: Ele e outros… aquilo foi de estrondo… felizmente
estava a tocar uma banda de rock da pesada…
Eu: Era a banda do
Maradona Madona, se não estou em erro… que foi eletrocutada…
Outro: Não. Era a banda do Alberto Cristovão, mais conhecido
por Betóvão.
Eu: Esse era da música clássica. Disso não há dúvida
nenhuma… alto lá.
Outro: Ahhhh, tens razão!
Eu: Mas olha que a praça de tóxis foi uma boa ideia!!
Outro: Táxis! Taralhoco…
Eu: Tóxis, se faz favor. Praça de estacionamento de
toxicodependentes!
Outro: hummm…
Eu: Mas então não sabias das humilhações do Marcelino na
tenta no Ribatejo… se não estou em erro…
Outro: Mas que raio andava ele a fazer em touradas?
Eu: Foi aquela coisa da Sétima Onda… uma coisa muito
secreta…
Outro: Mas o que é a Sétima Onda… por Deus?
Eu: Olha, de concreto, só me lembro que nas reuniões, em que
os membros …
Outro: Membros? Quais membros?
Eu: Os membros…ora, os associados… o Marcelino e os outros
da quadrilha…
Outro: Ah! Diz-me dessas. Continua.
Eu: Interrompeste-me o raciocínio desnecessariamente…
Outro: Estavas a dizer que os membros se reuniam…
Eu: Exacto! Reuniam-se atrás de cortinas ou guardanapos,
para manter o segredo… vê tu!
Outro: Mas assim, atrás dos guardanapos, tanto podiam estar
a falar com os membros como com qualquer um…
Eu: Não! Primeiro confirmavam que era um membro, depois é
que se colocavam atrás de qualquer coisa … reposteiros, guardanapos, panos de
cozinha….fraldas!... e depois é que falavam…
Outro: Fraldas?
Eu: Que surpresa! Como se o Marcelino não gostasse de pôr
fraldas e pespegar-se em frente a um espelho
a dizer gugu-dadá e a babar-se…
Outro: Lembro-me bem! Mas pôr uma fralda não é o mesmo que
colocar-se atrás de uma fralda…
Eu: Coisas da Sétima Onda… mente aberta, por favor!
Outro: Seja!
Eu: Eeeeeeeee … deixa ver… que me desconcentraste
escusadamente. Falavam, então, under cover, como diriam os ingleses. Mas o secretismo não residia só em taparem-se
para falar! A coisa era assim: supõe que me querias falar de um assunto… tinhas
que falar de seis assuntos até chegares ao assunto propriamente dito, que era o
sétimo…
Outro: Vamos tentar… vamos exemplificar… vamos falar de….
eh…eh… pesca, que está o tempo quente…
Eu: Pesca? Verdade…
foi aquele do nariz … aliás, que não tinha nariz, porque o Marcelino lho pescou
com um anzol, durante uma tertúlia sobre filosofia….
Outro: A mania que
ele tinha de pescar durante tertúlias filosóficas! Bem me lembro… o outro, com o nariz
atarraxado de fresco e o Marcelino… zás!!
Eu: Uma tragédia! Mas o outro acabou por assumir a falta de
nariz… só ficou com dois buracos no meio da cara…
Outro: Credo!
Eu: Pois! E sempre ranhosos…!
Outro: ugh!
Eu: Foi ele – se me permites que acabe o meu raciocínio
- que arrebatou o Marcelino p’rá Sétima
Onda…
Outro: Já me cheirava!
Eu: Mas vamos então treinar a técnica dos sete assuntos.
Outro: Avança com o primeiro…
Eu: Não! Vamos fazer as coisas como deve ser… passa aí uma
coisa para nos cobrirmos…
Outro: Ainda mais essa… não há necessidade…
Eu: Há, sim senhor. Vamos para trás das persianas.
Outro: Mas ficamos olhar uma para o outro na mesma…
Eu: Pois ficamos… mas ninguém pode olhar para nós… essa é
que é a grande diferença.
Outro: Mas não está aqui ninguém…
Eu: Não custava nada fazermos a coisa como deve de ser… mas,
assim queres… assim tens.
Outro: Fechamos os olhos! Qual é a melhor maneira de não
ver?
Eu: Seja! Vamos então começar…
Outro: ….
Eu: Recordar é viver…
Outro: Um…
Eu: Tens que contar baixo. Assim toda a gente vai perceber a
nossa técnica!!
Outro: Isto é só um treino… depois é que vamos à séria! Dá o
segundo tema.
Eu: já dei: tens que contar baixo é o segundo tema.
Outro: Tema??? Que raio de tema é esse?
Eu: Aí é que está a dificuldade! O membro da Sétima Onda tem
de ter raciocínio rápido.
Outro: Quatro!
Eu: Quatro?
Outro: Cinco!
Eu: Pára! Pára! Ponto de ordem!
Outro: Seis!
Eu: Não, não, raios!! Só dei ainda dois temas: recordar é
viver e conta baixo.
Outro: Sete!
Eu: Estás surdo?
Outro: A surdez é de facto uma condição inimaginável… Mas os
implantes cocleares …
Eu: Acabou a Sétima Onda! Ouviste? E abre os olhos!
Acabou…finito!
Outro: Gostei, sim
senhor. Agora vamos para detrás da persiana e digo eu os temas.
Eu: Acabou. Não há cá mais temas nem sétimas ondas… inferno!
Outro: Pronto. Vamos voltar ao Marcelino… o que ele gostava
de filmes pornográficos!
Eu: Era só para melhor perceber a perfídia de tais filmes!
Outro: Era, era! Gostava pouco, gostava…!
Eu: Eu acho que é de realçar as suas boas qualidades…
Outro: Quais??
Eu: Foi ele que indicou o caminho às tropas no 25 de Abril…
Outro: Isso é verdade. Subiu para o blindado…se bem me
lembro… e lá vai ele a dizer aos militares… siga à direita, agora à esquerda… o
sítio da revolução é ali à frente.
Eu: No fundo, um oportunista. Ele nem era de revoluções…
Outro: Antes da revolução não era, mas depois passou a ser…
como todo o mundo!
Eu: Por pouco tempo… passados dias, com o belo ripanço em
perigo…já estava farto de revolução até aos olhos.
Outro: Como todo o mundo… quer dizer… os ignorantes!
Eu: Alto lá! Há …
Outro: Vamos mudar de assunto. Ai aquela dos pauliteiros de
Miranda no palácio de Buckingham…
Eu: De Mirandela…
Outro: Isso são as alheiras! Os pauliteiros são de Miranda.
Eu: Ai, a minha cabeça! Não foi aí que o embaixador da … do…
ai… a memória de galinha… da Holanda…
Outro: Não era da Holanda. Era da… ui….que não me lembro…
raios… era da Polónia…
Eu: Pronto. Mesmo que não fosse, passa a ser. Dizia eu, que
o embaixador da Polónia morreu de apoplexia com as trapalhadas da diplomacia
portuguesa?
Outro: Não. Ele foi hospitalizado com os desmandos da
diplomacia portuguesa, mas foi quando apanhou o Marcelino em Veneza, disfarçado
de empregado de mesa, a servir a alta sociedade aristocrática e clerical…
Eu: E a ouvir os conselhos do bispo de… ai…é escusado… do
bispo…pronto… sobre a forma como as senhoras devem lavar as partes íntimas sem
pecar…
Outro: Não me lembro disso… mas lavar as partes
íntimas…pudibundas é pecado?
Eu: É, segundo o bispo, se os dedos tocarem as partes sem
sabonete…
Outro: Sem sabonete?
Eu: Quando a pessoa está a lavar-se deve usar sabonete, se
não usar… o que é está a fazer com a mão nas partes?
Outro: Está a pecar. Claro! Que bem visto! Olha que se
aprende muito com a ficção…
Eu: Verdade cristalina!
Outro: E foi então aí que deu o badagaio ao embaixador da
Polónia…
Eu: Um piripaqui…como dizem os brasileiros. Nunca mais
tossiu.
Outro: E como é que acabou aquela grande confusão…confusões…
Eu: Depende de que confusão se está a falar! Não faço ideia…
Outro: Quem é que andava com um capote alentejano numas
grutas… num calor de morrer?
Eu: O Marcelino, certamente. Só ele para se agasalhar na
canícula alentejana…
Outro: Não era propriamente para se agasalhar… era para se
disfarçar.
Eu: Olha, só me lembro que o Marcelino estava a nadar na sua
bela piscina e ela deu de si…
Outro: Deu de si? Como?
Eu: Ruiu. Abateu. O Marcelino ficou a nadar em seco… acho
que contundiu algumas costelas… mas posso estar a ser atraiçoada pela minha
péssima memória…
Outro: Anda que se não contundiu aí as costelas…
contundiu-as noutra parte qualquer…
Eu: As canelas…. Lembraste do advogado americano que lhe macerou as canelas por baixo da mesa do
hotel?
Outro: Se lembro…. Aí houve exagero…. Aquilo foi malhar até
mais não…
Eu: Não se faz… a um pai de família… casado… político… e que
dava o seu melhor… no fundo… era isso.
Outro: Ele tinha dois filhos…
Eu: E sobrinhos!!
Outro: E….
COFFEE BREAK
Eu: Chiça que nunca mais vinha o coffee break. Estou esvaída!
Outro: É muita actividade cerebral….
Eu: O meu com uma gotinha de aguardente…ó faxavor!
Chlép!
Bibliografia:
António Vitorino D’Almeida, Coca Cola Killer, Lisboa, Oficina do Livro, 2008 (reedição)
António Vitorino D’Almeida, Tubarão 2000, Lisboa, Oficina do Livro, 2009 (reedição)
António Vitorino D’Almeida,
Portugal Definitivo, Lisboa, Clube do
Autor, 2012
Wednesday, July 03, 2013
Was ist mit mir geschehen?*
«Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt»
Kafka, Die Verwandlung
* O que é que me está a acontecer?
O que é que nos está a acontecer?
Tuesday, July 02, 2013
Obviamente!
Entretanto, apesar do nonsense da tarde política... com cerimónias de posse e de demissão em simultâneo... apesar de se sentenciar mais uma demissão...entretanto eu, emocional, puramente emocional, gostei de ouvir: Não me demito, não abandono o meu país!
Gostei.
Wednesday, June 26, 2013
Bem...
O esgoto estava sufocante. Que
lugar desagradável, até parece impossível. Tinha eu saído do chiqueiro e
pensava, inocente, que a coisa não podia piorar.
Ali estavam as baratas tontas ( ou seja, não são caras,
são baratas e tontas), caladas que nem múmias. Para quem não conhece, esclareço
que as baratas tontas não querem incomodar ninguém. Nem pensar. Nisto, entra o
rato das botas, pisando algumas patas e
elas, claro, pediram desculpa por terem colocado sulcos sob as botas do rato. O
rato, contente, deu um guincho. Nisto, entra o animal mais repugnante da
infraestrutura escoadora: Pépe le pew, ( leia-se piú, para efeitos de hilaridade,
se for caso disso…) a doninha fedorenta. Porém, como anda a treinar para o jogo
de futebol entre esgotos, que põe pépes le pews
casados contra pépes le pews solteiros, entrou rápido, fez um flique
flaque à direita e saiu ao pé coxinho. As baratas tontas taparam os narizinhos
e suspiraram violentamente, mas com respeitinho, como é seu hábito. O rato das
botas, entretanto, como se apanhou de amores pelos ratos dos computadores, a
que chama “mauces”, para luzir o seu
inglês, pôs-se a passar as patas pelo teclado de um Toshiba. Este, ressentido,
posto que só gosta de ter as teclas dedilhadas com competência, pôs-se aos espirros e pregou-lhe com um vírus no focinho. Todos se riram,
menos o vírus, claro, por ficar alojado em tão ruim defunto. Bem, estávamos
todos nisto, à espera que tocasse, quando entra a madre abadessa com um galo na
cabeça. Um galo mesmo, de Barcelos. Ela tem dois. Põe um na cabeça e outro no
fogão, em cima de um naperão ( ou naperon, como preferirem). Bem, depois de se ter certificado que todos
tinham observado o seu vistoso enfeite, saiu também, mas com pena. Ela é do
tipo de macaca que gosta de ocupar os galhos todos, a puta. Bem, passado um
pouco, entram os dois intrusos, aqueles tontos torpedeiros, patéticos, que
sorriem quando não devem, falam quando deviam estar calados e estão calados
quando deviam falar. Fazem tudo ao contrário. Claro que ficaram no esgoto,
quando deviam ir fustigar-se com um pau de marmeleiro. Ou uma chibata. Nisto,
aparecem duas avestruzes que queriam vender qualquer coisa inútil. Ninguém
comprou. Tratou-se foi de os correr à bordoada e consta até que ficaram um pouquinho
doridos. Faltava ainda a cereja
em cima do bolo. Mas, como não havia cerejas, pôs-se uma uva. Ora, como já se fazia tarde, demos as
mãos e entoámos uma canção do saudoso
Demis Roussos, o good bye my love good bye.
E é nisto que se fica a saber que os resultados do processo de
ensino-aprendizagem não eram famosos. Ficámos todos embasbacados. Pépe le pew (piú), entretanto regressado de
algures, teve um ataque de soluços, mas
não se sabe bem porquê. Consta que se engasgou.
Foi logo proposto que se fizesse um PowerPoint. Bem, o PowerPoint não
caiu bem em certos gotos. Nisto, tocou a
campainha. Estava na hora de sair do esgoto e regressar à vida. Bem, …
(Não se pode dizer que as reuniões não são produtivas... Bem... )
Thursday, June 06, 2013
A p*** da vida!
As bestas vieram todas para o esgoto. Muito apropriado para elas. Mas não para mim!!
O esgoto já é um sítio muito mal frequentado. Nauseabundo. Enfim, esgoto! Não se está cá nada bem. E agora chegam os asnos. Afastem-se que eles são anafados. Um estica as beiças na minha direcção. Penso que quer sorrir-me. O cabrão! Vai rir-te para quem te fez as orelhas... e a cauda! Olha o jerico!
Num autêntico festival de atrocidade, chega também o Pépe le Pew ( leia-se "piú"), a fazer fliques flaques em pontas. Anda a praticar para um jogo entre o chiqueiro e a pocilga. Que o esterco não lhe seja leve! Le Pew, assim entra, assim sai: vai mafarrico! Até já se respira melhor.
Que horas são? Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, ainda faltem 28 segundos. Deus, dá-me resistência e algodões para vedar as narinas!
Entretanto, grande chefe Cabeça de Burro afadiga-se por elevar os níveis de pestilência!
Como é feia a puta da vida!
Monday, June 03, 2013
Jean Stapleton
Descansa em paz, querida Edith!
Ri tanto contigo e o teu preconceituoso e adorável Archie. Aliás, continuo a rir. Obrigada pela companhia, pela boa disposição, por todos os momentos bons que me deste!
Thursday, May 16, 2013
Thursday, May 02, 2013
Thursday, April 25, 2013
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
39 anos depois, vai-se instalando a noite...
Wednesday, April 24, 2013
Bibliotecas
Ontem ou "trasantontem", como se diz na minha terra, li que uma biblioteca tinha aberto as suas portas não só para ler, mas também para conviver e até namorar. Repito: até namorar. Need I say more?
Entretanto, aqui há atrasado, numa acção de formação sobre bibliotecas, dizia a formadora, muito fina, que hoje as ditas já não são espaços de silêncio, frios e com bibliotecárias hirtas e com carrapitos na cabeça. Ela achava isto, claro, um progresso, uma benção. Eu acho isto um horror, uma tragédia e, a avaliar pela soneca e a marmelada junto às estantes, uma comédia, também. Para mim, isto não são bibliotecas. São antros!
Dêem-me uma biblioteca fria e silenciosa e ponham-me um totó no cocuruto e eu dir-vos-ei o que é a felicidade na terra.
Monday, April 15, 2013
Salvar o mundo
O bastonário da ordem dos psicólogos disse que os psicólogos não podiam salvar o mundo, mas...
Mas o quê? Que interessa! Desliguei logo o rádio.
What a cheek! "Si manca, viu?"
Wednesday, March 20, 2013
Tuesday, March 19, 2013
A espuma dos dias
Terminou um projecto de seis anos. Um período de histórias com personagens, espaço, tempo, estilo e perspectiva. Não houve bons e maus. Ninguém foi bom. Foi uma narrativa de maus e menos maus. Egos. Narcisos algo decadentes...
Uma história dos tempos que correm. Fragmentos. Disseram-me que sou intimidante. Foi seguramente dos poucos elogios que recebi. Houve laços que nunca se quebraram. Pelo contrário. Agora acabou. Não ficou saudade de quase nada. Ontem, ouvi o som de uma voz que não era suposto estar já naquele sítio. As personagens ainda não chegaram ao fim das páginas, mas a palavra FIM já está escrita. Acabou. Sem saudades. Sem nada. Não tarda e até as vozes, que se tornaram estranhas, deixarão de se ouvir. Paz às nossas almas!
Algures, já se prepara uma nova história de desamor. I'm ready.
Tuesday, March 05, 2013
A viagem
Abri a porta e saí para a rua. Estava na hora de iniciar a
minha viagem. Não era apenas uma deambulação, como tantas vezes faço. Era uma
viagem. A comprová-lo, bastaria ver a mala sem rodas que pendia da minha mão.
Mala vazia, claro, porque o peso tiraria todo o prazer e leveza da minha viagem
nocturna, a pé, pela linha escura do horizonte.
Teria que atravessar uma série de campos profusamente
cultivados: milho, morangos, couves, pimentos, etc.. Tudo muito verde e
colorido, embora, no escuro da noite, não se pudesse apreciar devidamente,
claro, nem o verde nem o colorido. E lá seguia eu, no meio das couves, em
direcção ao meu destino, esperando que ele não tivesse mudado de lugar. É este,
aliás, o único inconveniente dos sonhos, nunca se sabe bem o ponto de chegada. Mas
também não interessa. Interessa, isso sim, evitar a luz do dia. A todo o custo!
O dia é o palco da realidade e esta é sempre de evitar. Especialmente
a última moda em realidade. Não sei se acontece só comigo, mas a minha
realidade anda cheia de gente apodrecida, gangrenada. Não vejo ninguém com boas
cores. É só gente meio podre ou completamente podre. E gente muito velha e
triste. E jovens. Mas os jovens também estão apodrecidos, embora não o saibam,
porque se vêem muito ao espelho e o espelho lhes diz que eles são os jovens
mais belos de sempre. E eles acreditam. Interrupção. Um momento.
Só os morangos negros claros, do campo cultivado da minha noite de viagem,
conseguem afastar os meus pensamentos da realidade insalubre da luz do dia.
Mais uns passos e cheguei. Está tudo no lugar: árvores
enormes, com candeeiros de luz amarela no meio delas. E uma cerca em torno de
um bosque ali perto. Que beleza! Não pensei que conseguisse vir duas vezes a
este sítio. Mas consegui. Poderia voltar para trás, para casa, fazendo a viagem
de regresso. Mas há um portão aberto na cerca do bosque. Entro. Sinto, então,
que o dia está para amanhecer, juntamente com as pessoas e as suas coisas. Há casas
ao longe. Há fumo a sair das chaminés. Adivinha-se movimento, vozes, bulício:
tudo coisas a evitar! Ainda tento sair do bosque, mas o portão da cerca já está
fechado. Procuro, então, uma árvore grande que me proteja e a minha mala abre-se
para me esconder. É uma mala enorme. Quem diria? É confortável. Toda forrada de
cetim branco. Há até algumas flores em meu redor. Mantenho-me quieta, deitada,
as mãos sobre o peito e os olhos fechados. Descanso.
Sei que à hora do cair da noite, quando os monstros
apodrecidos recolherem às suas casas e desocuparem as ruas, a mala vai abrir-se
novamente, para eu continuar a minha viagem.
(continua, talvez)
https://wall.alphacoders.com/big.php?i=1364036, consultado em 15 de Março, 2026
Saturday, March 02, 2013
Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena
Queridos defuntos, paizinho, 'vózinhas, tiozinhos, tia Maria, todos... desculpem a barulheira, desculpem dirigir-me a vós e perturbar o vosso descanso, mas está na hora de cantarmos todos a Grândola e dizer: que se lixe a troika!!
Wednesday, February 20, 2013
Coisas
«UMA VERDADE ABSOLUTA….Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal … e isso é precisamente a velhice.»
Sándor Márai, in ‘As Velas Ardem Até ao Fim
Tuesday, February 19, 2013
Velhos
A política anda horrorizada com os velhos... a política não sabe, de momento, o que fazer com o país, posto que anda ocupada com a economia... o que não tem nada a ver.
Os velhos são feios. Adoecem. Tomam medicamentos. Recebem reformas. Fazem despesa. Tiram o lugar/ emprego aos mais novos. Respiram. São, muitas vezes, dependentes. Não produzem. Vivem de mais!
O blogue A Educação do Meu Umbigo fez um "post", aliás mais do que um, sobre os velhos. Parece que um jovem político resumiu a velhice a " peste grisalha", mais coisa, menos coisa. Muitos foram os que comentaram. Deixo aqui o comentário do Farpas, uma daquelas pessoas de quem me orgulho de ser colega (passo a imodéstia).
« (as razões pela quais os governantes "não podem com os velhos") Antes de mais, porque na sua visão da realidade social e económica só há lugar para os jovens empreendedores, que fazem da sua própria vida um empreendimento, que gerem a sua existência pelas leis e expectativas do mercado – o homo economicus, figura suprema, fetichizada do neoliberalismo -, quais bestas céleres para as quais não há lugar para o que não seja útil ou rendível.
Depois, porque na sua mundividência, na sua perspectiva cultural e de vida, só há lugar para o culto do “juvenilismo”, para a eterna juventude do receituário politicamente correcto – vida plastificada e alienada pelo reino da aparência e do investimento narcísico -, em que o envelhecimento, o sofrimento e a morte são vistos com o horror do absolutamente estranho, e não como referenciais de sentido da vida humana, onde o homem se reconhece e se mede a si mesmo no confronto com os seus limites.»
Farpas, Educação do Meu Umbigo, 18 de Fevereiro
Thursday, February 14, 2013
Monday, February 11, 2013
Monotonia
Às vezes,
está só uma pessoa na sala e inicia-se uma conversa. No outro dia, fiquei só
com uma pessoa na sala e teve início a seguinte conversa.
Pessoa: ( a
fazer ruídos com a boca)
Eu: A sala
está tão cheia que não se cabe cá…
Pessoa: ( a
olhar em redor, como se lhe tivesse escapado alguma coisa)
Eu: Não
vamos fazer nada… não há condições.
Pessoa: É
uma falta de condições… ainda ontem… queria dormir e não conseguia (abana a
cabeça de olhos em alto)
Eu: Assim não se pode trabalhar…
Pessoa: Nem trabalhar,
nem dormir, nem comer… (torce o lábio e o nariz)
Eu: Fazemos
a ficha no próximo dia, quando estiver mais gente…
Pessoa:
(olha para mim, para confirmar que eu era mesmo eu)
Eu: Conte-me
coisas… como é que vai isso…
Pessoa: (faz
esgares atrás de esgares)
Eu: Assim
torna-se aborrecido…
Pessoa: O
que vale é que está quase a acabar … ( olha para mim, como que a dizer, sabes
bem do que estou a falar)
Eu: Há que
ter calma.
Pessoa:
Calma? Eu ando mesmo… mesmo… (respira fundíssimo) pfiuuuuuuu … se me vejo longe
daqui…
Eu: Com o
desemprego que para aqui vai…
Pessoa: Quem
é bom tem sempre emprego… (olha para mim com ar de sábio, abanando a cabeça)
sempre… acredite no que eu lhe digo…
Eu: Nos
tempos que correm não é bem assim…
Pessoa: Para
mim há sempre emprego… muitos não cortam árvores em ribanceiras. Eu corto em
todo o lado…
Eu: Nas
ribanceiras, é mais difícil…
Pessoa: Ná…
parece! Quem sabe cortar árvores, tanto corta nas ribanceiras, como num sítio
qualquer (põe a boca em O e fixa o olhar em mim).
Eu: Trabalho
difícil… e perigoso…
Pessoa: Ná…
só tem de se saber… ( abre a boca e fixa-me)
Eu: As
motosserras são um equipamento perigoso…
Pessoa: É
como tudo. Há que saber… eu agarro na motosserra sem problemas. Nunca tive
problemas. (estica o dedo e abana a cabeça. Fixa-me)
Eu: Eu tenho
medo de motosserras… e de electricidade…
Pessoa: Isso
para mim não é nada (ri com leveza e abana a cabeça, sempre a olhar para mim)
Eu: É…
Pessoa: É
como cortar oliveiras….
Eu: As
oliveiras são frágeis… é preciso cuidado.
Pessoa:
Nunca tive problemas com oliveiras! (vai abanando a cabeça e esticando o lábio,
enquanto vai fechando os olhos para melhor marcar aquilo que diz)
Eu: Há muita
gente que cai…das oliveiras…
Pessoa: Um
dia, com um colega, fomos cortar oliveiras. Ele, mal subiu, caiu logo.
Logo! Zás! Também lhe disse: bem te avisei. Não
ouvem! (gesticula largamente, para dar
vivacidade à empolgante história)
Eu:
Oliveiras…um perigo…
Pessoa: Eu
nunca caí! (bate com a mão na mesa e põe a boca em O durante uns bons segundos)
Eu:
Extraordinário!
Pessoa: É
preciso saber subir à oliveira… nunca caí. Quer acreditar?
Eu:
Acredito, pois!
Pessoa: Mas
eu sei subir… (semicerra os olhos cheio de mistério)
Eu: … (
morta por saber como é que se sobe a uma oliveira, estico a cabeça e espero)
Pessoa: Eu…
eu… quando subo à oliveira tiro os óculos e o casaco!! (olha para mim com um
olhar de: toma, que já aprendeste! E estica de tal modo a cabeça, que parece
uma tartaruga)
Eu: … os
óculos?
Pessoa: Os
óculos! Tiro-os.
Eu: … e o
casaco?
Pessoa: E o
casaco!
Eu: …
Pessoa:
Nunca caí! ( e faz abundantes estalos com a boca)
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