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Saturday, April 27, 2024

Pesadelo



Acordei com medo do escuro. Depois pensei que talvez não estivesse acordada. Mas estava. O medo, porém, não estava no meu quarto real, na penumbra, com alguma luz, a da madrugada, a entrar pelos limites da janela. Fechei os olhos, para não ficar já acordada à espera do dia. Vi então o que me perturbava. 
Eu estava naquela casa. Tinha ido por um longo corredor para o meu quarto. Atrás de mim, vinha um cão branco, que se imobilizou em frente à porta. Mas eu entrei, e senti logo alguma coisa incómoda. Sentei-me no meio da cama e tentei acender a luz, nos muitos interruptores que saltavam da parede. Mas a luz não acendia. Foi aí que comecei a sentir dificuldade em respirar. Mas eu não estava às escuras. Lá fora, estava o escuro próprio da noite. Mas não no quarto, que estava claro, embora tivesse todas as luzes apagadas. Ah! Era disso que eu estava com medo. Porque é que o quarto não estava escuro? E saí a correr, com a sensação de que alguém vinha atrás de mim. Procurei uma porta para sair para a rua. E vi o cão. Estava encolhido e levemente quadrado. Metia medo. E pena.
Começo então a percorrer o labirinto da casa. Sobre uma mesa vi um x-ato, o mesmo que eu andava há muito para comprar. Agarrei-o. A lâmina fininha, quase meiga. Iria fazer a cena há muito imaginada. Só precisava de um sítio cheio de gente, ou daquela casa de um bairro triste. Sentar-me-ia no meio de todos…ou bateria à porta daquela pessoa. Depois deixar-me-ia ir … Mas para ir a algum lado, precisava de sair daquela casa. 
Distraí-me, perdida em fantasias. Quando recuperei a consciência de mim, vi o cão cada vez mais encolhido a desaparecer num enorme corredor. Era o único caminho naquele sítio. Fui atrás dele, que se movia como se fosse um novelo. Rebolava, levantava-se, andava de lado, olhava para mim com olhos grandes e tristes. E continuava. E a lâmina ia quente na minha mão. Entretanto, a casa transformara-se num túnel infindável. De bom grado me deitaria na cama do quarto claro, sem luz, no meio da noite escura. Nessa impossibilidade, sentei-me no chão, cansada, sem fôlego, ao lado do cão, cada vez mais pequeno, quase invisível. Mas amigo, companhia. Devo ter adormecido naquele corredor. Depois devo ter acordado, mas já não naquele sítio.
Tornei a acordar, com um sentimento de medo, de desconforto. Ouvi, então, ruídos. Vinham do computador ligado sobre a minha cama. Nele, estava Sean Penn no aeroporto, sem fôlego, em agonia, preparando-se para mostrar a todos o que o ignoraram, o afastaram, o desamaram, o incompreenderam, que existia e que iria inscrever-se para sempre na memória deles. O espectáculo da solidão absoluta estava ali à minha frente. Já o tinha visto tantas vezes e tantas vezes me sentara junto a Sean Penn, no mesmo sentimento de impotência e abandono sem remédio. Desliguei o computador. Não estava em condições de ver o plano falhar. Falhar tudo. Sean Penn a morrer no avião que tentara sequestrar. E a televisão a dar a notícia de forma monótona. Ninguém soube sequer que ele morreu: nem a ex-mulher, nem o ex-amigo, nem o ex-irmão. Ninguém. 
A manhã, senti, já estava instalada no meu quarto. Mas ainda era cedo. Fechei os olhos novamente, tentando ver o cão informe do meu sonho. Nada. Voltei ao corredor labiríntico sozinha. Tornei a deitar-me lá. Fechei os olhos, para fazer de conta. Para voltar atrás, o mais atrás possível. Nisto senti um barulho, um murmúrio, e imaginei que o animal estava ali. Na minha mão, senti também a lâmina meiga e salvífica. Estava em posição de continuar a noite até ao meio-dia. Tinha junto a mim tudo o que precisava para me defender do abandono e, sobretudo, do desespero.   

https://jp.123rf.com/photo_25276944_%E9%96%8B%E3%81%84%E3%81%9F%E3%83%89%E3%82%A2%E3%81%A8-3-d-%E6%9A%97%E3%81%84%E9%83%A8%E5%B1%8B.html, em 25 de Abril, 2024

Friday, March 01, 2024

Sonhos que sonhei... onde estão?

 

A minha maquinaria orgânica anda a precisar, urgentemente, de ser oleada, pois não só me obriga a passar a noite em interacção com acabrunhantes personagens do quotidiano fabril, como, esta noite, me pôs a fugir de um galináceo.

Eu estava refastelada num banco de jardim, em Faro, rodeada de escuríssimos arbustos e obscuras flores. Era noite. Nisto, oiço:

- Encontrei-te meu amor.

E fechei os olhos. Este ia ser um sonho de encantar, de romance, o meu tipo de romance favorito: aquele que não acontece. De repente, ainda envolta em suspirantes delíquios, senti uma picadela no ombro. Uma senhora picadela, diga-se, de tal modo que me permiti deslizar para a realidade do meu quarto e averiguar o caso. Seria algum companheiro de cama que me agredira? Talvez uma das seis almofadas. Mas elas são tão fofinhas! Ou o equipamento informático (e não só) armazenado debaixo da almofada (inteligente!) do lado esquerdo: o tablet, o Kindle, o telemóvel, o comando da televisão, o comando da box, o comando do ventilador, o pacote de lenços, a caixa de rebuçados para o catarro, a caixa de Strepsils e, triste é dizê-lo, o mata-moscas. Seria possível uma tal agressão por parte de um destes amiguinhos nocturnos? Abri os olhos. Felizmente, continuava no jardim de Faro, mas tinha um bico junto ao meu nariz e dois olhinhos muito redondos a olharem para mim. Era um galo! Levantei-me, fazendo uma prece com os dedos em cruz  e tentando, até, fazer a dança da chuva, junto a um canteiro. Mas o galo continuava ali, com as asas muito abertas e espanejantes. Mais: vinha, pata ante pata, de bico em riste, na minha direcção. Pior: ouviu-se, algures da figura da ave:

- Sou eu, amor.

- Quem? – Respondi. – Como se atreve?

E ele, teimoso, avança, esvoaçante e penugento, directo a mim. Foi quando decidi pôr-me em fuga, espavorida, pelas ruas da cidade.

As portas das casas reluziam, fechadas. Das janelas, espreitavam as cortinas, em desalinho de curiosidade. As ruas iam ficando mais estreitas e mais vazias. Éramos apenas eu, em correria, o galo, em esforço cacarejante, e os postes de luz, altos e hirtos, espalhando uma luz miúda.

Estava a ser muito cansativa aquela correria infernal. O bicho não se cansava. Mas, nisto, não só deixei de lhe ouvir o estampido das unhacas no empedrado das ruas, como vislumbrei o jardim onde estivera, há não muito, tão sossegada. Rumei para lá, a arfar. Sentei-me num banco e ouvi:

- Estou aqui, meu bem.

O galo? Olhei. Não. Era um homem, muito bem vestido, um pouco démodé, com um chapéu de feltro na cabeça, da qual se elevava uma frondosa pena.

- Hein? – disse eu.

- Hoje é dia de amá-la.

- A mim?

- Claro, meu benzinho fofo. Hoje é dia 29 de Fevereiro.

- Ah! Desculpe. Estou cansada. Fui atacada e perseguida por um galo. Doem-me os pés de tanto correr… Foi horríiiiiveele!

- Um galo? Olhe que não. O meu benzinho está aí desde que cheguei. Muito estranha. Eu chee..

- Não viu um galo? Uma ave imensa cheia de penas??

- Não, benzinho. A coisa mais parecida com uma ave, diga-se, sou eu, que me engalanei com uma pena para a homenagear.

- Pena de galo?

- De pavão. Pavão!

- Então está a dizer que eu sou mentirosa, que não aconteceu nada?

- Aconteceu sim, a fofa, assim que eu cheguei, ficou muito inquieta. Disse umas palavras misteriosas e depois foi para o canteiro aos pulos…

- Desculpe? Euuuu? Aos pulos?

- Sim. Era uma espécie de co… coreografia. Destruiu as plantas todas e arrancou os goivos pela raiz. Olhe!

- E não fez nada? SE eu fiz isso, por que razão não me agarrou?

- Por causa da poeira, amorzinho fofo. Veja como está cheia da terra.

De facto, havia sobre mim um imenso véu de terra e até algumas ervas. Não podia ser! Expliquei então que tinha sido a correria pela cidade, com as estradas cheias de buracos e com a criatura penugenta a levantar imensa poeira com as patas. E perguntei ao homem démodé, engalanado, se já tinha visto as unhas dum galo.

- Que pergunta, gatinha fofa. Venha aqui para a espanejar.

- Deixe-me. Não me espaneje! Vou embora.

- Fofa! Fofa, estamos a ter a nossa primeira discussão. Deixe-me estreitá-la em meus braços…

E arregalou os olhos, muito contente.

Abraçamo-nos. E, do jardim de Faro, fomos transportados para uma bela casa. Era um sítio antigo, de tectos altos, amplo, com uma sugestão de reposteiros de veludo grená e mobília escura e elegante. A roupa começou a sair do nosso corpo, espalhando-se pelo chão, que brilhava sob a luz de um candeeiro de cristal. Felizmente não ficámos nus, o que seria muito impróprio e indiscreto. Em vez disso, à medida que a roupa saía, íamos ficando cobertos de uma penugem longa e macia, que ondulava. E foi nestes preparos que iniciámos uma sessão de beijos, com os lábios unidos em ventosa, que terminou aos rebolões no chão.  Entre beijos e cabeçadas nas paredes e mobiliário, sempre de rojo, com evidente benefício para o enceramento do parquet, corremos toda a casa descendo, até, compridas escadarias. Por vezes, parávamos, ofegantes, um pouco lilases até, já a arroxear, enchíamos os pulmões e, antes de continuarmos o deslizamento beijoqueiro e cabeceante, olhos nos olhos, eu dizia-lhe:

- Ai, querido. Que cabeçada!!

E ele, enlevado e esfuziante de paixão incontida, retorquia:

- Cabeçada? Eu não tenho cabeça! O meu bem fez-ma perder.

Mas tinha eu, e dorida. A testa, um verdadeiro catálogo dos abundantes galos que iriam despontar.

Aos primeiros minutos do dia 1 de Março, o meu homem elegante e démodé desapareceu. Foi-se. Eu fiquei só e pensei: o meu primeiro sonho de amor. E foi tão lindo!

https://br.pinterest.com/pin/216665432057912001/?nic_v2=1a2JU1DAN, em 27 de Setembro, 2020

NOTA: O ÚLTIMO TEXTO DEIXOU-ME TÃO ESQUISITA, QUE TIV NECESSIDADE DE TERMINAR O DIA COM ESTA HISTÓRIA DE AMOR....

Wednesday, October 19, 2022

Tragam-me o livro de reclamações!!!

 


Acordei arrelampada. Estava a tentar falar com o chefe da estação de caminho de ferro. Aliás, levei metade da noite a tentar contactar o chefe da estação. A outra metade foi passada a correr atrás da funcionária da estação, aos berros, dizendo-lhe: «Quero o livro de reclamações!» E ela, que não tinha o livro. E eu: «o livro, já! Quero o livro!» Já me faltava a voz. E à funcionária estava a faltar o ar, com medo. De mim! «Quero o livro de reclamações!!». Ela, com ar esgazeado, saiu então do cubículo, onde a minha bagagem jazia aberta e retida, posto que a funcionária não me autorizava a seguir viagem, sem eu arrumar todos os meus pertences devidamente. Teve, pois, a dita cuja, a lata de censurar a forma como emalei a minha trouxa. Saiu do cubículo, dizia eu, calada como um rato, porque já não aguentava a minha berraria: «o livro! Quero o livro! O livro de reclamações!» E, como ela saiu, eu saí também, da zona do cubículo, atrás dela, que, ao pressentir-me, desatou em grande correria por um caminho agreste. De noite, claro. É sempre de noite que as aventuras acontecem. Paisagem estranha. Caminhos estreitos. Vegetação cinzenta e com muitos espinhos. E a funcionária a correr à minha frente e eu, furibunda, atrás dela: «o livro! O livro de reclamações! O livro! O livro!» Nisto, a fulana caiu. E eu contente. Fui por cima dela – não confundir com em cima dela – e berrei-lhe diretamente no ouvido que não estava esborrachado no chão de arbustos cinzentos: «o livro! O livro!» Mas como a funcionária da estação de caminho-de-ferro parecia ter gostado da cama onde se estatelou, depois de um senhor tropeção num arbusto cinzento, visto que não dava mostra de se querer erguer do chão, vi que tinha de mudar de estratégia e de berro: «o chefe da estação! O chefe! Onde está o chefe da estação?» E dirigi-me para a estação. Luz amarelada. Bar. Resmas e resmas de prateleiras com rebuçados e bolos e revistas. Bancos onde ninguém estava sentado. Vazios. Uma gentinha miúda, quase invisível, a rodopiar expectante. E uma série de portas. Fechadas. A bilheteira. O caminho-de-ferro. As linhas de aço. Nenhum comboio. Numa porta estava escrito: chefe da estação. Fiquei em pulgas: «onde está o chefe? Senhor chefe! O chefe, se faz favor!» Abriu-se a porta, devido ao meu alarido, e começaram a sair dela vários chefes. Todos vestidos de amarelo. «Senhor chefe?» Que não. O chefe da estação estava no primeiro andar. Dirigi-me, então, para o primeiro andar, mas não havia escadas em parte nenhuma. Foi quando vi um ajuntamento à espera de ser ejectado para o primeiro andar, através de um conjunto de molas gigantes, onde tinha de se equilibrar. Mais estranho ainda: estavam todos de calção. Pesadelo. Isto não podia estar a acontecer. Eu não quero ser ejectada por uma mola para o primeiro andar. Mas não havia outra maneira. Nisto, vejo uma cara conhecida. Estava na bicha para o primeiro andar. Diz-me ela: «vamos vestir os calções.» E eu: «mas isto é aviltante, não estou depilada.» E foi quando reparei que as molas ejectoras não estavam fixas. Tínhamos que nos equilibrar sobre elas, fazer balanço e esperar cair num sítio mole. Mais: tínhamos também que, primeiro, montar as molas, que jaziam em destroços metálicos, depois de cada carrada de gente ter sido arremessada para o primeiro andar. E pensei: vou antes chagar a funcionária da estação, que ainda deve estar esparramada na paisagem. E logo me saiu um berro: «o livro!» E a cara conhecida: «qual? Onde?» E eu: «não ligues, vamos montar as molas.» E eis que se ouve um baque enorme, com ranger de ossos, ais, uis e um enorme som de oco, causado por aqueles que tiveram o azar de aterrar de cabeça, no primeiro andar. Pus-me logo em retirada, a andar de costas, para não suscitar questões à cara conhecida, que se afadigava a ajeitar as molas, mortinha por se fazer ejectar. Sempre de arrecuas, quando cheguei à porta do bar da estação, voltei-me, finalmente, para andar de frente, e acelerei o passo. Tudo vazio. Ou não. Vi uma sombra a esgueirar-se veloz, para a zona de embarque, com a pressa de quem quer fugir para a frente, sempre para a frente e deixar o passado para trás. Numa mesa, poisava uma chávena de café preto, cheia, com o fumo a pairar de forma ténue. «Anda vai, sombra dum raio!» Eu estava berrante, frenética, revoltada. Eu queria sangue: o da funcionária. Eu queria mais sangue: o do chefe da estação refastelado no primeiro andar. E mais ainda: o sangue da mola ejectora e trapalhona. Sangue! E saí da estação de comboios.

Lembrei-me então da minha mala. A minha querida malinha, com os meus haveres caoticamente colocados nela. «A minha mala…» Murmurei. «A mala...», tornei a murmurar. E corri, corri, com as mãos na cabeça, desvairada, na direção do cubículo. Em vão. Tudo era um deserto. Não havia rasto de estação, de cubículo, de mola, de cara conhecida, de sombra, de funcionária, de chávena de café preto, de primeiro andar. Nem da minha malinha. Nem dos meus haveres. Só restava eu na noite, na paisagem cinzenta.

 

imagem: https://www.gazette-drouot.com/en/article/beksinski-warhol-and-soulages/37070 

Thursday, November 29, 2018

Nevoeiro


Hoje, regressei sozinha a casa. Já tinha curiosidade de saber como seria enfrentar a noite desde aquela última vez…
Não aconteceu nada. A noite voltou a estar como sempre e voltei a gostar dela. Estava tudo calmo, silencioso e enevoado. Tudo passa. Isto… também vai passar!

Monday, October 15, 2018

Furacão





A ver tango. Assim passei os dias da tempestade, que pôs todos a zelar pelo bem-estar dos seus "entes queridos".

Hoje, falava-se dos telefonemas inquietos. Ainda tive, eu também, de sossegar a inquietude da minha mãe. Pessoalmente, ninguém se preocupou com os danos que o furacão poderia causar-me. Felizmente, na Covilhã, a tempestade foi meiga: muito vento e muita chuva. Mas tudo muito breve.

Como pensei viajar a tempos felizes, através da música, acabei por encontrar novas viagens, que nunca tinha feito. Aliás, alguns destinos eram totalmente desconhecidos para mim. Santa Maria Del Buen Ayre, por exemplo. Passei aí muito tempo, hipnotizada, enquanto os que se amam usavam os telemóveis para ouvirem a voz dos seus e sossegarem, e enquanto a tempestade bramia, derrubava, destruía…

Foram os dias do furacão.


Wednesday, September 02, 2015

Vou contar-te uma história



Esta noite dormi! Sei-o porque durante alguns momentos tive um sonho daqueles que eu gosto. Não é difícil, eu gosto de todos. Excepto, claro, daqueles em que há gente mesmo, à séria. Cruzes!!

Foi um bocado confuso, é verdade. Mas foi bom. Depois de uma série de andanças sem nexo, eis que estou com um grupo de desconhecidos, em biquíni, discutindo quem vai com quem para a água, tomar banho, logicamente. Estamos pois, junto ao mar, ou ao rio, ou a uma lagoa, ou mesmo lago... posto que a água que esta à nossa frente ora tem horizonte, ora não tem, ora é comprida, ora é redonda. Desde que não fuja, penso, já não é mau. Bom, ponho os olhos num moço bem constituído, mas… como se adivinha… quando chegou à minha vez já só havia uma rapariga para emparceirar comigo! O moço avantajado, perdão, musculado, tinha-se evaporado completamente! That’s the story of my life! Lá fui eu, então, com a outra rapariga – sim, porque eu também era uma rapariga, toda jeitosa, até - tomar banho, quando chegou a minha vez. Informação importante: naquele mar, rio, lagoa, lago, era preso quem estivesse só ou com mais de uma pessoa na água. Adiante. Metemos os pezinhos “no precioso líquido” – momento kitsch, “pardon!” – e verificámos que mal nos cobria o peito do pé. Fomos então andando à procura de um lugar mais fundo, para mergulharmos, mas os lugares fundos fugiam de nós de forma espavorida e assaz irritante. É que nem os tornozelos conseguíamos molhar!  Nisto, encontrámos uma quinta a boiar e pedimos fruta ao fazendeiro, alemão, que disse que teria todo o gosto em falar connosco. E eu disse: «Importa-se de gravar? Assim posso ouvir mais tarde.». Ele ficou entusiasmado. Assim, lá ficou o senhor alemão debaixo de uma macieira a gravar a conversa que estava a ter connosco, enquanto nós continuávamos à procura de um sítio em que a água nos chegasse pelo menos aos joelhos. Acabada a conversa, o senhor deu-nos as cassetes – que não eram poucas – dentro de um saco de plástico, juntamente com uns biscoitos e umas peças de fruta. Agradecemos profusamente. A minha parceira até se desequilibrou de tantas vénias que fez, enquanto, embargada, dizia obrigada, obrigada. Porém, colocou-se-nos logo um grave dilema: como íamos tomar banho, com o saco das oferendas? Começámos, por isso, em busca de uma pedra onde pudéssemos colocar o incómodo carrego. A minha colega, que tinha um pescoço anormalmente longo, tanto o esticou que acabou por avistar ao longe – eu também avistei, aliás, apesar de ter o pescoço curto – uma festa. Uma festa!! Era uma espécie de arraial, mas também havia sardinha assada. Diz logo ela: «E se fossemos lá?». «Nem pensar. Agora que a maré até está a encher…». E responde ela: «É que eu aproveitava e fazia uma TAC.» Como com a saúde não se brinca, só lhe disse, «vai rápido, que ainda me apanham aqui sozinha e me prendem. Ah, e vamos a terra colocar o raio do saco que o estafermo do alemão se lembrou, em má hora, de nos oferecer.» E lá fomos. Colocámos o saquinho junto de uma bicicleta que nos tinha saído numa rifa e ela foi para a festa e eu procurar um sítio para mergulhar, com a promessa de que em quinze minutos estaríamos ambas em terra para irmos… enfim, para algum sítio. Estava a anoitecer e teríamos, certamente, alguém à nossa espera e certamente, também, com alguma preocupação, não fossemos nós afogar-nos naquelas águas profundas. Com tanta sorte, que apanhei uma leva de água, de tal modo, que até fui de escorrega por ali abaixo, toda consolada. Nisto, contudo, sinto o traseiro a derrapar em seco, por cima de umas pedras lascadas, uma coisa horrível. Olhei, já era noite escura, e não se via água em sítio algum. Só pedras e cascalho e restos de neve e uma ponte escura prestes a desabar sobre a minha cabeça. Corri então para terra, com o traseiro a assar, esperando que a minha companheira já estivesse pronta, também, para darmos continuação ao nosso dia/noite. Primeiro contratempo: tinham-nos roubado tudo! Segundo contratempo: a outra estava desaparecida. Chamei: «Palmiiiiiiiiiiiiiiiiira, Palmiiiiiiiiiiiiiiiiiiiira, etc.». Nada. Lá fui sozinha - é a minha sina – pela noite adiante e pela festa longínqua adiante, sob uma luz amarela e um cheiro de sardinha assada de morrer… e chorar por mais.  
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Friday, February 06, 2015

A igreja estava toda iluminada




Tive, ontem, uma noite de agitadíssimas aventuras! Não foi por falta de merecimento, posto que aqui há noites sofri um atrocíssimo revés, quando me aterrou em pleno sonho uma criatura medonha vinda directamente da realidade. E em figura de gente (triste figura, claro), com a sua própria tromba e corpo. Até a roupa. Não tivesse eu fugido esbaforida de tal estafermo e poderia sentir, até, o seu cheiro característico: um ranço nojentíssimo, misto de sudorese e mau hálito. 

Bem, mas ontem foi uma maravilha. Tive uma noite prodigiosa. Atentem! Andava eu deambulando por uma rua ladeada de moradias lindíssimas, quando avisto uma em que já estive e à qual desejo voltar. Fico, então, junto à porta, na tentativa de me lembrar de uma desculpa suficientemente boa para que a dona me deixe lá entrar. Mas nada! Claro que ainda espero que a porta se abra, como é suposto as portas fazerem nos sonhos, para que eu possa simplesmente entrar. Mas esta é uma porta surda, que não liga nada à minha agitação ansiosa. Nisto, vejo um homem muito pálido, com ar de quem não está nada bem e vejo, também, uma cadeira de rodas. Não hesitei. Coloquei o homem na cadeira e fui em correria, com o homem aos guinchos, bater à porta da casa linda e hipnótica, implorando que me deixassem entrar para acolher aquela pobre alma em sofrimento, nosso irmão na fé. A senhora, muito aristocrática e de nariz franzido disse que não acolhia enfermos, que me dirigisse ao hospital. «Mas» disse eu, vislumbrando o corredor magnífico, «somos todos filhos de Deus, etc.». Ao que ela respondeu, peremptória: «o meu pai é o Sr. Nogueira». E bateu com a porta.  

Ora, de um momento para o outro, não só me vejo impedida de fazer o que queria, como me vejo a braços com um enfermo, cada vez mais pálido, amarelo até e, já agora, esverdeado em certas partes, que não interessa aqui mencionar. «Esta não será uma noite de visitação de casas», pensei, «vejamos o que me espera». E decidi passear o achacado, na esperança de que o ar fresco lhe fizesse bem. Porém, vendo-o com a cabeça muito inclinada, temi o pior e estava certa: o homem tinha falecido. Dirigi-me em correria, de cadeira de rodas em punho, para a casa, esperando que a dona não negasse a entrada a um defunto. Em vão. A senhora, nada caridosa, nem uma palavra me disse. Fiquei, claro, muito abatida e sem saber o que fazer. É então que passa um carro da polícia anunciando fazer coisas terríveis ao defunto, caso este não se casasse de imediato. Eu ainda gritei para o carro, «mas ele faleceu, espero que esteja perdoado». E responde a polícia, ao longe, mas de forma vigorosa, «só o casamento o livra». «Ele há coisas» pensei, «que mundo é este que não dá sequer paz a quem já partiu?» Dirigi-me então a uma igreja em forma de carro, com guiador e tudo, e contraí núpcias com o jazente. O padre, comovido com a minha atitude, disse-me de forma solene: «já o podes enterrar, irmã». Pois que mais podia eu fazer? E dirigi-me para o banco da frente, posto que nos tínhamos casado no banco de trás, para me dirigir a uma funerária. Nisto, passa o carro da polícia e eu gritei-lhes: «casado e bem casado!» E eles foram para outra freguesia. Com ternura súbita, deitei um olhar meigo ao meu defunto marido, estirado no banco traseiro, e vi como eram azuis e espantados e aterrorizados e cada vez mais abertos os seus olhos. «Quem és tu?», ouvi incrédula. «Sou a tua legítima esposa». «Esposa???». «Sim, esposa. Honrei-te e livrei-te de veres o sol aos quadradinhos, fica sabendo.», «Mas eu não te amo!», «Ora essa, és muito esquisito, para quem já está morto… e azulado!», «Morto? Desde quando é que os mortos falam?», «Isso te pergunto eu, ingrato!», «Ingrato? Fora eu ingrato e uma mulher como tu não poderia gabar-se de ter um marido como eu!», «Uma mulher como eu? Como te atreves?», «Atrevendo-me… antes a morte que tal sorte!». E expirou ruidosamente, mas com alívio. Nunca me senti tão humilhada na minha vida: ser esnobada, como dizem os brasileiros, por um moribundo! Conduzi, então, o carro igreja rapidamente para a mortuária, onde deixei o ingrato defunto para ir a enterrar. Não iria acompanhá-lo, pensei, nem me vestiria de preto. Foi então, enquanto encomendava uma urna de pinho, do mais barato, que tive uma ideia brilhante. Iria novamente bater à porta daquela casa. Agora, como viúva, em sofrimento. Aliás, com o marido morto logo depois da cerimónia. Aliás, antes mesmo da cerimónia. Quem negaria uma palavra de conforto e um chá, uma cama, uma estadia de uma semana (ou mais), a uma mulher assim, como eu?  «Pinho, mas do mais caro, se faz favor, e um raminho de crisântemos amarelos». E chorei um bocadinho. A alegria antecipada da permanência na casa tornou-me generosa. E, de negro, acompanhei, até ao fim, as exequiazinhas. RIP  
Imagem:IngeSchuster, https://x.com/literatura_rte/status/1756245188165414963?lang=ar, consultado em 24 de Abril, 2024
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Tuesday, March 05, 2013

A viagem




Abri a porta e saí para a rua. Estava na hora de iniciar a minha viagem. Não era apenas uma deambulação, como tantas vezes faço. Era uma viagem. A comprová-lo, bastaria ver a mala sem rodas que pendia da minha mão. Mala vazia, claro, porque o peso tiraria todo o prazer e leveza da minha viagem nocturna, a pé, pela linha escura do horizonte.

Teria que atravessar uma série de campos profusamente cultivados: milho, morangos, couves, pimentos, etc.. Tudo muito verde e colorido, embora, no escuro da noite, não se pudesse apreciar devidamente, claro, nem o verde nem o colorido. E lá seguia eu, no meio das couves, em direcção ao meu destino, esperando que ele não tivesse mudado de lugar. É este, aliás, o único inconveniente dos sonhos, nunca se sabe bem o ponto de chegada. Mas também não interessa. Interessa, isso sim, evitar a luz do dia. A todo o custo!

O dia é o palco da realidade e esta é sempre de evitar. Especialmente a última moda em realidade. Não sei se acontece só comigo, mas a minha realidade anda cheia de gente apodrecida, gangrenada. Não vejo ninguém com boas cores. É só gente meio podre ou completamente podre. E gente muito velha e triste. E jovens. Mas os jovens também estão apodrecidos, embora não o saibam, porque se vêem muito ao espelho e o espelho lhes diz que eles são os jovens mais belos de sempre. E eles acreditam. Interrupção. Um momento. Só os morangos negros claros, do campo cultivado da minha noite de viagem, conseguem afastar os meus pensamentos da realidade insalubre da luz do dia.

Mais uns passos e cheguei. Está tudo no lugar: árvores enormes, com candeeiros de luz amarela no meio delas. E uma cerca em torno de um bosque ali perto. Que beleza! Não pensei que conseguisse vir duas vezes a este sítio. Mas consegui. Poderia voltar para trás, para casa, fazendo a viagem de regresso. Mas há um portão aberto na cerca do bosque. Entro. Sinto, então, que o dia está para amanhecer, juntamente com as pessoas e as suas coisas. Há casas ao longe. Há fumo a sair das chaminés. Adivinha-se movimento, vozes, bulício: tudo coisas a evitar! Ainda tento sair do bosque, mas o portão da cerca já está fechado. Procuro, então, uma árvore grande que me proteja e a minha mala abre-se para me esconder. É uma mala enorme. Quem diria? É confortável. Toda forrada de cetim branco. Há até algumas flores em meu redor. Mantenho-me quieta, deitada, as mãos sobre o peito e os olhos fechados. Descanso.

Sei que à hora do cair da noite, quando os monstros apodrecidos recolherem às suas casas e desocuparem as ruas, a mala vai abrir-se novamente, para eu continuar a minha viagem.

(continua, talvez)    
https://wall.alphacoders.com/big.php?i=1364036, consultado em 15 de Março, 2026

Thursday, February 23, 2012

The Shining


Olha, cheguei à Figueira da Foz, mesmo à hora do jantar. Mas eu tinha tirado bilhete para Coimbra ou para Lisboa, não consigo agora precisar! ‘inda mais essa! Devo ter-me enganado no Entroncamento. Mas eu nem sequer passei pelo Entroncamento! Há que tempos que não vou a essa terra linda….linda (buááá, chuif, chuif). O pior é ter de ir dormir a casa da minha tia, em vez de ficar já neste hotelzinho, à beira mar, tão lindo, com olhos nas fechaduras das portas. Família! Sempre a atravancar a vida das pessoas, até em sonhos. Apre! E a minha bagagem? Pânico! Ah! O meu saquinho, o meu lindo saquinho portador das minhas coisinhas, está aqui mesmo pendurado na minha mão. ‘bora para a casa da tia. E onde diabos irei dormir? Sim, porque eu já não tenho paciência para improvisos. Quero caminha fofa e pequeno-almoço britânico às dez. E nisto cheguei:

-Há coelho para o jantar - diz a minha tia muito lacónica.
- Que bom! – respondo.

E começo a fazer contas de cabeça. O meu primo P1 dorme aqui. O P2 dorme ali, mas a caminha é grande. Vou dormir com ele? Não me apetece, mas… às sete horas já tenho que estar no comboio para Coimbra ou para Lisboa. É um instantinho. O sacrifício será benéfico para a minha vida pós-morte. O tio T1 e a tia T2 dormem aqui na cama deles. Mas nisto vejo o sofá da sala. É aqui mesmo. Vou-me já à cama. E a minha bagagem, para tirar o pijama?
- Ó T2, viu o meu saquinho?
- Há coelho para o jantar.
Está aqui. Vou aos saltinhos para a sala, em direcção ao sofá, e já lá estão deitados a tia T2 e o primo P2. Que lata! Vou então dormir na cama do P2, melhor, mais espaço fica para mim. Mas, na cama do P2 está deitada a minha avó. O vultinho da minha avó, tão pequenino, com o tufo de cabelinhos brancos, e com os olhinhos a rir para mim, convence-me: tenho de dormir com ela. Mas nisto oiço alguém chamar-me. É uma amiga minha! Ó praga. Onde é que ela se deita? Se é minha amiga tenho de a pôr a dormir. Ideia! Há um colchão debaixo do sofá. Dormimos lá as duas. Volto à sala e, no colchão debaixo do sofá, já estão deitados a minha mãe e o meu pai. Estou novamente desalojada, juntamente com a minha amiga. Penso: é melhor comer alguma coisa enquanto descubro onde dormir com a minha amiga. Pergunto à tia T2:

- Onde está o coelho?
- No forno.
- Onde está o forno?
- Na cozinha.
- Onde está a cozinha?
- rrrrrroooonnncccc zzzzzzzzzzzzzz.

Lindo! Bela hospitalidade. É que não há rasto de cozinha em lado nenhum. Nisto diz-me o meu paizinho, com o tufinho de cabelo branco a sair do lençol:

- Ó Lelicha, traz-me um livro do tio Patinhas, filha.
- Ok, chefe! Vou ver o que tenho na minha malinha.

A minha malinha estava enorme, parecia um elefante. O que teria acontecido? Fui ver e tinha lá, entre muitas outras coisas, todos os volumes da enciclopédia britânica. Que pesadelo! Como é que eu iria carregar tudo aquilo, às 7 da manhã, para a estação de caminho de ferro? Fui então ao quarto do meu tio T1, procurar patinhas na mesa de cabeceira. A cama ainda estava vazia. Porque é que a minha tia T2 não dormia com o marido, como todas as outras esposas do mundo, e o meu primo P2 não ia dormir com a avó, como todas as crianças, para eu dormir no sofá com a minha amiga? Só preocupações! E eu que tinha vindo em busca de paz e sossego para me dedicar à escrita do grande épico, digno de um qualquer nome, dos grandes, da Literatura universal, sobre três bostas mutantes!! E ali estava, mal comida, sem poiso para dormir e sem cabeça para pensar em bostas. Lá encontrei um livro dos irmãos metralhas e fui dá-lo ao meu pai. Foi aí que pensei. O meu pai morreu. A minha mãe pode ir dormir com a minha avó e eu durmo aqui com a minha amiga. E depois pensei, mas a minha avó também morreu, posso muito bem ignorá-la e deitar-me lá com a minha amiga! Mas pareciam tão vivinhos, a avozinha toda enrolada na caminha e o meu pai tão feliz e tão vivo a ler os metralhas! Deixá-los viver mais um bocadinho.

- Que bom está o nhcoelho…nhac mfac. – diz a minha amiga.
- Onde está o coelho?
- No fffnhorno.
- Onde está o forno?
- Nha cozinhanhac.
- Onde está a cozinha?
- nnhhhacc ffufenhac.

Bastou-me seguir os ruídos ou rugidos da mastigação da minha amiga para encontrar a cozinha. E ali estava ela, má rês, à mesa, com a boca cheia, na proximidade de um enorme coelho assado. Dir-se-ia que era a cozinha que estava no coelho e não o coelho que estava na cozinha. Como é que eu havia de a descobrir? Mas era um coelho que cheirava lindamente. Comecei logo a comer e ele apoderou-se da minha boca como se a quisesse comer também. Tinha de pedir a receita. Que bela ceia. Podíamos não ter onde cair adormecidas, mas o jantar era divino. Entre grunhidos, de boca cheia, disse à minha amiga que o meu primo P1 ainda não tinha vindo, por isso podíamos dormir na cama dele, ao que ela respondeu que já lá estava a dormir um primo dela, o P3. «O qnhê?». «Frronhc». O melhor era mesmo comer e calar. Assim fizemos, até que a minha amiga adormeceu sobre a mesa, com o cabelo dentro do prato e um osso a sair-lhe da boca. Que falta de maneiras! Pelo menos ela já estava instalada. Levantei-me, agarrei na minha malona e abri a porta, porque até estava com falta de ar. E desapareceu tudo. (Que pena, o tufinho de cabelo branco do paizinho e da avozinha…saudade. )

Luzes na noite. Movimento. Mar e mar. A malinha de volta, magrinha. E o hotelzinho lindo estava ali à minha frente. Dirigi-me a ele. Nem foi preciso dizer nada. O recepcionista agarrou-me ao colo e deitou-me numa cama enorme. Adormeci logo, feliz, com a porta dos olhos a olhar para mim.