Saturday, April 27, 2024
Pesadelo
Friday, March 01, 2024
Sonhos que sonhei... onde estão?
A minha maquinaria orgânica anda a precisar, urgentemente, de ser oleada, pois não só me obriga a passar a noite em interacção com acabrunhantes personagens do quotidiano fabril, como, esta noite, me pôs a fugir de um galináceo.
Eu estava refastelada num banco de jardim, em Faro, rodeada de escuríssimos arbustos e obscuras flores. Era noite. Nisto, oiço:
- Encontrei-te meu amor.
E fechei os olhos. Este ia ser um sonho de encantar, de romance, o meu tipo de romance favorito: aquele que não acontece. De repente, ainda envolta em suspirantes delíquios, senti uma picadela no ombro. Uma senhora picadela, diga-se, de tal modo que me permiti deslizar para a realidade do meu quarto e averiguar o caso. Seria algum companheiro de cama que me agredira? Talvez uma das seis almofadas. Mas elas são tão fofinhas! Ou o equipamento informático (e não só) armazenado debaixo da almofada (inteligente!) do lado esquerdo: o tablet, o Kindle, o telemóvel, o comando da televisão, o comando da box, o comando do ventilador, o pacote de lenços, a caixa de rebuçados para o catarro, a caixa de Strepsils e, triste é dizê-lo, o mata-moscas. Seria possível uma tal agressão por parte de um destes amiguinhos nocturnos? Abri os olhos. Felizmente, continuava no jardim de Faro, mas tinha um bico junto ao meu nariz e dois olhinhos muito redondos a olharem para mim. Era um galo! Levantei-me, fazendo uma prece com os dedos em cruz e tentando, até, fazer a dança da chuva, junto a um canteiro. Mas o galo continuava ali, com as asas muito abertas e espanejantes. Mais: vinha, pata ante pata, de bico em riste, na minha direcção. Pior: ouviu-se, algures da figura da ave:
- Sou eu, amor.
- Quem? – Respondi. – Como se atreve?
E ele, teimoso, avança, esvoaçante e penugento, directo a mim. Foi quando decidi pôr-me em fuga, espavorida, pelas ruas da cidade.
As portas das casas reluziam, fechadas. Das janelas, espreitavam as cortinas, em desalinho de curiosidade. As ruas iam ficando mais estreitas e mais vazias. Éramos apenas eu, em correria, o galo, em esforço cacarejante, e os postes de luz, altos e hirtos, espalhando uma luz miúda.
Estava a ser muito cansativa aquela correria infernal. O bicho não se cansava. Mas, nisto, não só deixei de lhe ouvir o estampido das unhacas no empedrado das ruas, como vislumbrei o jardim onde estivera, há não muito, tão sossegada. Rumei para lá, a arfar. Sentei-me num banco e ouvi:
- Estou aqui, meu bem.
O galo? Olhei. Não. Era um homem, muito bem vestido, um pouco démodé, com um chapéu de feltro na cabeça, da qual se elevava uma frondosa pena.
- Hein? – disse eu.
- Hoje é dia de amá-la.
- A mim?
- Claro, meu benzinho fofo. Hoje é dia 29 de Fevereiro.
- Ah! Desculpe. Estou cansada. Fui atacada e perseguida por um galo. Doem-me os pés de tanto correr… Foi horríiiiiveele!
- Um galo? Olhe que não. O meu benzinho está aí desde que cheguei. Muito estranha. Eu chee..
- Não viu um galo? Uma ave imensa cheia de penas??
- Não, benzinho. A coisa mais parecida com uma ave, diga-se, sou eu, que me engalanei com uma pena para a homenagear.
- Pena de galo?
- De pavão. Pavão!
- Então está a dizer que eu sou mentirosa, que não aconteceu nada?
- Aconteceu sim, a fofa, assim que eu cheguei, ficou muito inquieta. Disse umas palavras misteriosas e depois foi para o canteiro aos pulos…
- Desculpe? Euuuu? Aos pulos?
- Sim. Era uma espécie de co… coreografia. Destruiu as plantas todas e arrancou os goivos pela raiz. Olhe!
- E não fez nada? SE eu fiz isso, por que razão não me agarrou?
- Por causa da poeira, amorzinho fofo. Veja como está cheia da terra.
De facto, havia sobre mim um imenso véu de terra e até algumas ervas. Não podia ser! Expliquei então que tinha sido a correria pela cidade, com as estradas cheias de buracos e com a criatura penugenta a levantar imensa poeira com as patas. E perguntei ao homem démodé, engalanado, se já tinha visto as unhas dum galo.
- Que pergunta, gatinha fofa. Venha aqui para a espanejar.
- Deixe-me. Não me espaneje! Vou embora.
- Fofa! Fofa, estamos a ter a nossa primeira discussão. Deixe-me estreitá-la em meus braços…
E arregalou os olhos, muito contente.
Abraçamo-nos. E, do jardim de Faro, fomos transportados para uma bela casa. Era um sítio antigo, de tectos altos, amplo, com uma sugestão de reposteiros de veludo grená e mobília escura e elegante. A roupa começou a sair do nosso corpo, espalhando-se pelo chão, que brilhava sob a luz de um candeeiro de cristal. Felizmente não ficámos nus, o que seria muito impróprio e indiscreto. Em vez disso, à medida que a roupa saía, íamos ficando cobertos de uma penugem longa e macia, que ondulava. E foi nestes preparos que iniciámos uma sessão de beijos, com os lábios unidos em ventosa, que terminou aos rebolões no chão. Entre beijos e cabeçadas nas paredes e mobiliário, sempre de rojo, com evidente benefício para o enceramento do parquet, corremos toda a casa descendo, até, compridas escadarias. Por vezes, parávamos, ofegantes, um pouco lilases até, já a arroxear, enchíamos os pulmões e, antes de continuarmos o deslizamento beijoqueiro e cabeceante, olhos nos olhos, eu dizia-lhe:
- Ai, querido. Que cabeçada!!
E ele, enlevado e esfuziante de paixão incontida, retorquia:
- Cabeçada? Eu não tenho cabeça! O meu bem fez-ma perder.
Mas tinha eu, e dorida. A testa, um verdadeiro catálogo dos abundantes galos que iriam despontar.
Aos primeiros minutos do dia 1 de Março, o meu homem elegante e démodé desapareceu. Foi-se. Eu fiquei só e pensei: o meu primeiro sonho de amor. E foi tão lindo!
https://br.pinterest.com/pin/216665432057912001/?nic_v2=1a2JU1DAN, em 27 de Setembro, 2020
NOTA: O ÚLTIMO TEXTO DEIXOU-ME TÃO ESQUISITA, QUE TIV NECESSIDADE DE TERMINAR O DIA COM ESTA HISTÓRIA DE AMOR....
Wednesday, October 19, 2022
Tragam-me o livro de reclamações!!!
Acordei
arrelampada. Estava a tentar falar com o chefe da estação de caminho de ferro.
Aliás, levei metade da noite a tentar contactar o chefe da estação. A outra
metade foi passada a correr atrás da funcionária da estação, aos berros, dizendo-lhe:
«Quero o livro de reclamações!» E ela, que não tinha o livro. E eu: «o livro,
já! Quero o livro!» Já me faltava a voz. E à funcionária estava a faltar o ar,
com medo. De mim! «Quero o livro de reclamações!!». Ela, com ar esgazeado, saiu
então do cubículo, onde a minha bagagem jazia aberta e retida, posto que a
funcionária não me autorizava a seguir viagem, sem eu arrumar todos os meus
pertences devidamente. Teve, pois, a dita cuja, a lata de censurar a forma como
emalei a minha trouxa. Saiu do cubículo, dizia eu, calada como um rato, porque
já não aguentava a minha berraria: «o livro! Quero o livro! O livro de
reclamações!» E, como ela saiu, eu saí também, da zona do cubículo, atrás dela,
que, ao pressentir-me, desatou em grande correria por um caminho agreste. De
noite, claro. É sempre de noite que as aventuras acontecem. Paisagem estranha.
Caminhos estreitos. Vegetação cinzenta e com muitos espinhos. E a funcionária a
correr à minha frente e eu, furibunda, atrás dela: «o livro! O livro de reclamações!
O livro! O livro!» Nisto, a fulana caiu. E eu contente. Fui por cima dela – não
confundir com em cima dela – e berrei-lhe diretamente no ouvido que não estava
esborrachado no chão de arbustos cinzentos: «o livro! O livro!» Mas como a
funcionária da estação de caminho-de-ferro parecia ter gostado da cama onde se
estatelou, depois de um senhor tropeção num arbusto cinzento, visto que não
dava mostra de se querer erguer do chão, vi que tinha de mudar de estratégia e
de berro: «o chefe da estação! O chefe! Onde está o chefe da estação?» E
dirigi-me para a estação. Luz amarelada. Bar. Resmas e resmas de prateleiras
com rebuçados e bolos e revistas. Bancos onde ninguém estava sentado. Vazios.
Uma gentinha miúda, quase invisível, a rodopiar expectante. E uma série de
portas. Fechadas. A bilheteira. O caminho-de-ferro. As linhas de aço. Nenhum
comboio. Numa porta estava escrito: chefe da estação. Fiquei em pulgas: «onde
está o chefe? Senhor chefe! O chefe, se faz favor!» Abriu-se a porta, devido ao
meu alarido, e começaram a sair dela vários chefes. Todos vestidos de amarelo.
«Senhor chefe?» Que não. O chefe da estação estava no primeiro andar.
Dirigi-me, então, para o primeiro andar, mas não havia escadas em parte
nenhuma. Foi quando vi um ajuntamento à espera de ser ejectado para o primeiro
andar, através de um conjunto de molas gigantes, onde tinha de se equilibrar.
Mais estranho ainda: estavam todos de calção. Pesadelo. Isto não podia estar a
acontecer. Eu não quero ser ejectada por uma mola para o primeiro andar. Mas
não havia outra maneira. Nisto, vejo uma cara conhecida. Estava na bicha para o
primeiro andar. Diz-me ela: «vamos vestir os calções.» E eu: «mas isto é
aviltante, não estou depilada.» E foi quando reparei que as molas ejectoras não
estavam fixas. Tínhamos que nos equilibrar sobre elas, fazer balanço e esperar
cair num sítio mole. Mais: tínhamos também que, primeiro, montar as molas, que
jaziam em destroços metálicos, depois de cada carrada de gente ter sido
arremessada para o primeiro andar. E pensei: vou antes chagar a funcionária da
estação, que ainda deve estar esparramada na paisagem. E logo me saiu um berro:
«o livro!» E a cara conhecida: «qual? Onde?» E eu: «não ligues, vamos montar as
molas.» E eis que se ouve um baque enorme, com ranger de ossos, ais, uis e um
enorme som de oco, causado por aqueles que tiveram o azar de aterrar de cabeça,
no primeiro andar. Pus-me logo em retirada, a andar de costas, para não
suscitar questões à cara conhecida, que se afadigava a ajeitar as molas, mortinha
por se fazer ejectar. Sempre de arrecuas, quando cheguei à porta do bar da
estação, voltei-me, finalmente, para andar de frente, e acelerei o passo. Tudo
vazio. Ou não. Vi uma sombra a esgueirar-se veloz, para a zona de embarque, com
a pressa de quem quer fugir para a frente, sempre para a frente e deixar o
passado para trás. Numa mesa, poisava uma chávena de café preto, cheia, com o
fumo a pairar de forma ténue. «Anda vai, sombra dum raio!» Eu estava berrante,
frenética, revoltada. Eu queria sangue: o da funcionária. Eu queria mais
sangue: o do chefe da estação refastelado no primeiro andar. E mais ainda: o
sangue da mola ejectora e trapalhona. Sangue! E saí da estação de comboios.
Lembrei-me então
da minha mala. A minha querida malinha, com os meus haveres caoticamente
colocados nela. «A minha mala…» Murmurei. «A mala...», tornei a murmurar. E corri,
corri, com as mãos na cabeça, desvairada, na direção do cubículo. Em vão. Tudo
era um deserto. Não havia rasto de estação, de cubículo, de mola, de cara conhecida,
de sombra, de funcionária, de chávena de café preto, de primeiro andar. Nem da
minha malinha. Nem dos meus haveres. Só restava eu na noite, na paisagem
cinzenta.
Thursday, November 29, 2018
Nevoeiro
Hoje, regressei sozinha a casa. Já tinha curiosidade de saber como seria enfrentar a noite desde aquela última vez…
Não aconteceu nada. A noite voltou a estar como sempre e voltei a gostar dela. Estava tudo calmo, silencioso e enevoado. Tudo passa. Isto… também vai passar!
Monday, October 15, 2018
Furacão
A ver tango. Assim passei os dias da tempestade, que pôs todos a zelar pelo bem-estar dos seus "entes queridos".
Hoje, falava-se dos telefonemas inquietos. Ainda tive, eu também, de sossegar a inquietude da minha mãe. Pessoalmente, ninguém se preocupou com os danos que o furacão poderia causar-me. Felizmente, na Covilhã, a tempestade foi meiga: muito vento e muita chuva. Mas tudo muito breve.
Como pensei viajar a tempos felizes, através da música, acabei por encontrar novas viagens, que nunca tinha feito. Aliás, alguns destinos eram totalmente desconhecidos para mim. Santa Maria Del Buen Ayre, por exemplo. Passei aí muito tempo, hipnotizada, enquanto os que se amam usavam os telemóveis para ouvirem a voz dos seus e sossegarem, e enquanto a tempestade bramia, derrubava, destruía…
Foram os dias do furacão.
Wednesday, September 02, 2015
Vou contar-te uma história
Friday, February 06, 2015
A igreja estava toda iluminada
Tive, ontem, uma noite de agitadíssimas aventuras! Não foi por falta de merecimento, posto que aqui há noites sofri um atrocíssimo revés, quando me aterrou em pleno sonho uma criatura medonha vinda directamente da realidade. E em figura de gente (triste figura, claro), com a sua própria tromba e corpo. Até a roupa. Não tivesse eu fugido esbaforida de tal estafermo e poderia sentir, até, o seu cheiro característico: um ranço nojentíssimo, misto de sudorese e mau hálito.
Tuesday, March 05, 2013
A viagem
Thursday, February 23, 2012
The Shining

Olha, cheguei à Figueira da Foz, mesmo à hora do jantar. Mas eu tinha tirado bilhete para Coimbra ou para Lisboa, não consigo agora precisar! ‘inda mais essa! Devo ter-me enganado no Entroncamento. Mas eu nem sequer passei pelo Entroncamento! Há que tempos que não vou a essa terra linda….linda (buááá, chuif, chuif). O pior é ter de ir dormir a casa da minha tia, em vez de ficar já neste hotelzinho, à beira mar, tão lindo, com olhos nas fechaduras das portas. Família! Sempre a atravancar a vida das pessoas, até em sonhos. Apre! E a minha bagagem? Pânico! Ah! O meu saquinho, o meu lindo saquinho portador das minhas coisinhas, está aqui mesmo pendurado na minha mão. ‘bora para a casa da tia. E onde diabos irei dormir? Sim, porque eu já não tenho paciência para improvisos. Quero caminha fofa e pequeno-almoço britânico às dez. E nisto cheguei:
-Há coelho para o jantar - diz a minha tia muito lacónica.
- Que bom! – respondo.
E começo a fazer contas de cabeça. O meu primo P1 dorme aqui. O P2 dorme ali, mas a caminha é grande. Vou dormir com ele? Não me apetece, mas… às sete horas já tenho que estar no comboio para Coimbra ou para Lisboa. É um instantinho. O sacrifício será benéfico para a minha vida pós-morte. O tio T1 e a tia T2 dormem aqui na cama deles. Mas nisto vejo o sofá da sala. É aqui mesmo. Vou-me já à cama. E a minha bagagem, para tirar o pijama?
- Ó T2, viu o meu saquinho?
- Há coelho para o jantar.
Está aqui. Vou aos saltinhos para a sala, em direcção ao sofá, e já lá estão deitados a tia T2 e o primo P2. Que lata! Vou então dormir na cama do P2, melhor, mais espaço fica para mim. Mas, na cama do P2 está deitada a minha avó. O vultinho da minha avó, tão pequenino, com o tufo de cabelinhos brancos, e com os olhinhos a rir para mim, convence-me: tenho de dormir com ela. Mas nisto oiço alguém chamar-me. É uma amiga minha! Ó praga. Onde é que ela se deita? Se é minha amiga tenho de a pôr a dormir. Ideia! Há um colchão debaixo do sofá. Dormimos lá as duas. Volto à sala e, no colchão debaixo do sofá, já estão deitados a minha mãe e o meu pai. Estou novamente desalojada, juntamente com a minha amiga. Penso: é melhor comer alguma coisa enquanto descubro onde dormir com a minha amiga. Pergunto à tia T2:
- Onde está o coelho?
- No forno.
- Onde está o forno?
- Na cozinha.
- Onde está a cozinha?
- rrrrrroooonnncccc zzzzzzzzzzzzzz.
Lindo! Bela hospitalidade. É que não há rasto de cozinha em lado nenhum. Nisto diz-me o meu paizinho, com o tufinho de cabelo branco a sair do lençol:
- Ó Lelicha, traz-me um livro do tio Patinhas, filha.
- Ok, chefe! Vou ver o que tenho na minha malinha.
A minha malinha estava enorme, parecia um elefante. O que teria acontecido? Fui ver e tinha lá, entre muitas outras coisas, todos os volumes da enciclopédia britânica. Que pesadelo! Como é que eu iria carregar tudo aquilo, às 7 da manhã, para a estação de caminho de ferro? Fui então ao quarto do meu tio T1, procurar patinhas na mesa de cabeceira. A cama ainda estava vazia. Porque é que a minha tia T2 não dormia com o marido, como todas as outras esposas do mundo, e o meu primo P2 não ia dormir com a avó, como todas as crianças, para eu dormir no sofá com a minha amiga? Só preocupações! E eu que tinha vindo em busca de paz e sossego para me dedicar à escrita do grande épico, digno de um qualquer nome, dos grandes, da Literatura universal, sobre três bostas mutantes!! E ali estava, mal comida, sem poiso para dormir e sem cabeça para pensar em bostas. Lá encontrei um livro dos irmãos metralhas e fui dá-lo ao meu pai. Foi aí que pensei. O meu pai morreu. A minha mãe pode ir dormir com a minha avó e eu durmo aqui com a minha amiga. E depois pensei, mas a minha avó também morreu, posso muito bem ignorá-la e deitar-me lá com a minha amiga! Mas pareciam tão vivinhos, a avozinha toda enrolada na caminha e o meu pai tão feliz e tão vivo a ler os metralhas! Deixá-los viver mais um bocadinho.
- Que bom está o nhcoelho…nhac mfac. – diz a minha amiga.
- Onde está o coelho?
- No fffnhorno.
- Onde está o forno?
- Nha cozinhanhac.
- Onde está a cozinha?
- nnhhhacc ffufenhac.
Bastou-me seguir os ruídos ou rugidos da mastigação da minha amiga para encontrar a cozinha. E ali estava ela, má rês, à mesa, com a boca cheia, na proximidade de um enorme coelho assado. Dir-se-ia que era a cozinha que estava no coelho e não o coelho que estava na cozinha. Como é que eu havia de a descobrir? Mas era um coelho que cheirava lindamente. Comecei logo a comer e ele apoderou-se da minha boca como se a quisesse comer também. Tinha de pedir a receita. Que bela ceia. Podíamos não ter onde cair adormecidas, mas o jantar era divino. Entre grunhidos, de boca cheia, disse à minha amiga que o meu primo P1 ainda não tinha vindo, por isso podíamos dormir na cama dele, ao que ela respondeu que já lá estava a dormir um primo dela, o P3. «O qnhê?». «Frronhc». O melhor era mesmo comer e calar. Assim fizemos, até que a minha amiga adormeceu sobre a mesa, com o cabelo dentro do prato e um osso a sair-lhe da boca. Que falta de maneiras! Pelo menos ela já estava instalada. Levantei-me, agarrei na minha malona e abri a porta, porque até estava com falta de ar. E desapareceu tudo. (Que pena, o tufinho de cabelo branco do paizinho e da avozinha…saudade. )
Luzes na noite. Movimento. Mar e mar. A malinha de volta, magrinha. E o hotelzinho lindo estava ali à minha frente. Dirigi-me a ele. Nem foi preciso dizer nada. O recepcionista agarrou-me ao colo e deitou-me numa cama enorme. Adormeci logo, feliz, com a porta dos olhos a olhar para mim.





