Monday, August 19, 2019

Sorry!



O Público traz, hoje, um artigo sobre como é difícil pedir desculpa.
 Ofender os outros é fácil. É um exercício de poder. Pedir desculpa, pelo contrário, é demonstrar fraqueza…
As minhas férias são frequentemente ensombradas por uma palavra, ou duas, de escárnio e maldizer. Este ano não foi diferente. Estou lentamente a recuperar das palavras de humilhação e insulto deste ano. Graças ao meu querido Nuno Markl, ao Lord, Rui Unas, e a outros queridos do YouTube. Ontem e hoje já consegui, até, não ficar o dia todo na cama…
Pessoalmente, não tenho muita dificuldade em desculpar-me. Também, verdade seja dita, não me exponho muito, não tenho amigos - vou-os espantando, espantalho que sou - e, na minha profissão, tento não ser injusta. Este ano, contudo, em que me aconteceu um pouco de tudo, até uma espécie de assédio - os outros alunos, todos adultos, é que me avisaram que a criatura vinha por trás de mim cheirar-me os cabelos… -, dado que tinha os nervos em franja, excedi-me na violência e tom de voz que usei para pôr na ordem um certo aluno. Nada que ele não merecesse! Mas tanto lhe estava a berrar até que ele se calasse - e calava-se! - como no final da aula lhe dava uma palmadinha nas costas e nos despedíamos a rir. E, no final do ano - fui a última a acabar as aulas, dia 30 de julho, das 14:00 às 17:00 -, tive a alegria de ter presentes nas aulas todos os alunos e de virem todos cumprimentar-me no momento da despedida. Quando o aluno irritante veio com cara sorridente e olhinhos de cão meigo em direcção a mim, disse-lhe: desculpe alguma coisinha, meu querido. E ficou tudo bem. Ele porque não tem muito mais gente que lhe dirija palavras de conforto - se é que tem alguma - e eu porque, como estava feliz por ver o reconhecimento dos meus alunos, foi com prazer que dei afecto. Retribuí.
 

Saturday, August 17, 2019

Wednesday, August 14, 2019

A casa interminável



Depois de longas noites de insónia e falta de sonhos, seguiram-se ontem e hoje momentos de sono e de sonhos maravilhosos. Magníficos. Grandes. Grandiosos. Indizíveis. Lindos. O de hoje já não me ocorre bem o que foi. Mas o de ontem tem andado às voltas na minha cabeça, a encher-me de prazer e de sublime.
Eu gosto de sonhar com casas e comboios. E ontem estive numa das muitas casas em que passo noites de alegria. De riso e de esquecimento. Por lá ando, de facto, esquecida, tentando não acordar. Nunca! Mas ontem aquela casa foi-se metamorfoseando. Ela, que é uma casa que eu conheço, mas da qual não sei muito, porque acabo por não entrar nela quase nunca, porque aquela terra aonde vou fazer compras, uma terra linda, de grandes prédios, tem as lojas quase sempre fechadas, pelo menos quando eu me aproximo delas e, por isso, acabo por ir para outra terra fazer compras e só vejo a casa de longe. Mas sei que tem um quarto de banho com toalhas vermelhas. Até já lá tomei banho e depois fiquei sem saber onde dormir. Mas como tenho uma outra casa onde tenho uma sala com uma cama, acabo por dormir na cama da sala dessa casa. Às vezes, a sala dessa casa tem muito bolor junto ao chão. Desagradável!
Ontem, como disse, fui a essa terra com uma amiga. Não uma amiga minha, mas amiga de uma amiga, que também não é minha amiga. Ainda assim, como os amigos são para as ocasiões, resolvi convidá-la para dormir na minha casa, porque ela não tinha transporte para casa dela e estava a chover. Dirigi-me então para a casa das toalhas vermelhas, sem saber bem onde deitaria a minha amiga. Mas, quando cheguei àquela casa, vi que ela se tinha juntado a uma outra e também à da sala com a cama onde costumo ficar. Acontece que a casa do meio ainda anda em obras. Ainda está em tosco, como se costuma dizer, embora tenha um ou outro quarto já acabado. A decoração, no entanto, é que me agonia naquela casa. É tudo muito mal combinado, muito sem gosto. Passo bastante tempo, às vezes, a distribuir almofadas por aqui e por ali, mas fica tudo forçado. É esgotante.
Bem, chegada à casa ainda em melhoramentos, deparo-me com o construtor civil e uma série de pedreiros, muito atarefados, que me dizem para ir ver a obra. E que vejo? Que já construíram um enorme quarto com uma parede envidraçada e que tem no chão, a espaços, colchões cobertos de lençóis brancos. Atiro-me logo para cima de um deles e digo à minha amiga: escolhe um para ti! Rebolo-me. Contente. Só depois vejo que a parede não tem reboco. E que para além do enorme quarto, há uma série de outras salas, pegadas umas às outras, quase prontas. Só falta pintar. "Venha ver o resto da obra!". O resto? E a casa não pára de aumentar. São quartos e quartos, terraços. Há até uma pocilga e uma mulher a guardar os porcos. "A pocilga, não", digo eu. E eles dizem que não, que a pocilga pertence à casa do lado, mas falta fazer a parede. Ah! E fico mais descansada. Entretanto, vem um outro pedreiro que, aliás, é o engenheiro e me chama para vermos o jardim. Eu fico muito apreensiva, porque o jardim está cheio de ervas daninhas e me lembro que já não tenho idade para cavar. Mas ele diz-me que há uma surpresa no final do jardim e eu penso que as ervas também são criaturas de Deus.
De facto, pela vereda estreita, começa a aparecer um fiozinho de água e depois um rio: "é seu. Faz parte da propriedade". Mas isto é um palácio! Penso. E de facto é, só falta rebocar, pintar, correr com os porcos para a casa deles e começar a apreciar ervas, estevas, giestas, espinheiros e, até, amoreiras bravas. E nisto vem um outro sujeito, com um ar muito profissional, com um berbequim na mão, que me diz: "venha ver a varanda." Varanda? mas é um rés-do-chão...
E que varanda. Está toda apainelada. Madeira dourada, com um brilho discreto e elegante. Só faltava o gradeamento à frente. Mas estava já encomendado. Quando entrei nela, para ver bem a madeira, senti-me impulsionada para a frente, a rodopiar, numa viagem a alta velocidade. Era uma varanda rolante. E grande, a perder de vista. A paisagem que a rodeava era de asfixiar (para não dizer que era de tirar o fôlego): roseirais, campos de tulipas, lagos, árvores frondosas carregadas de madressilvas. E havia também grandes clareiras com sacos de um quilo de sal e de um quilo de açúcar. E porcos. Tantos leitõezinhos cor-de-rosa e malmequeres.
Asfixiada, resfolegante, exaurida, maravilhada, com tudo, tudo, alma e corpo, subido mesmo ao pé da garganta. Feliz. É neste estado que recolho ao quarto por rebocar e me deito no colchão, coberto de branco, junto ao vulto da minha amiga - que não o é - que dorme, calma, e ressona, movimentando um fiozinho de algodão junto à boca entreaberta.

Thursday, August 08, 2019

A Experiência



É com algum incómodo que confirmo que não consigo ler ficção. Aquilo que me manteve à tona durante toda a minha vida, deixou  - espero que temporariamente :( - de me interessar. Penso que, depois de Gissing, deixei de ter romances que me interessem. Os policiais perderam o mistério. Já li tudo de Ruth Rendell e de Patricia Highsmith. Ninguém mais se lhes compara. Os outros policiais parecem-me forçados, ridículos ou previsíveis. Romances de amor, nunca apreciei o género. Aliás, a literatura light/chick lit é a única paraliteratura de amor - amor confluente - que consigo - ou conseguia - ler. Quanto à minhas escritora de culto, Charlotte Brontë, o que ela escrevia não é romance de amor, não é literatura sentimental, não é cor-de-rosa, não é literatura de género. A ficção de CB é uma coisa à parte. Já a querida Jane Austen, teve o mérito de ter criado o homem mais adorável de toda a literatura: Mr Darcy. Quanto à Literatura, parece-me forçada. Parece-me que os últimos romances que li - um de João Tordo - são feitos para serem literários, isto é, soam a história forçada, para parecer arte.
Mas não deixei de ler. Como adoptei as ciências forenses como passatempo, tenho lido biografias de assassinos que ficaram na história do crime, bem como ensaios sobre psicopatia - Michael Stone, Robert Hare, etc. e, até, Hernani Carvalho (!). De momento, tenho o Índice da Maldade para acabar, tenho o livro de RH para acabar, tenho o livro sobre Ed Gein para acabar e um outro, de uma mulher que matou, mas que é tão humana, tão fascinante, tão sofrida… que dá vontade de ler muito devagar, para ter um exemplo - um mau exemplo - do que é viver à beira do abismo. Podia ser uma personagem de Ruth Rendell. Mas não é. Está presa. Perpetuamente.
Como contraponto à literatura de crime, estou a ler O Demónio da Depressão - excelente - e
Sapiens: A Brief History of Humankind - Excelente ao quadrado.
Mas é o crime que me ocupa a mente. Ontem vi uma história verídica acerca de um tipo de crime que se está a banalizar, mas que teve algo de fascinante. Há muito não me surpreendia com uma história destas e Deus sabe que tenho lido e visto histórias surpreendentes.
Uma mulher bipolar casa com o homem por quem se apaixonou no liceu. As crises pareciam ter amenizado. E ela tem medicação, mas não a toma. O casamento segue o seu curso de filhos e empregos e fraldas e casas e vida a dois. Por vezes ela tem as suas crises de mudanças bruscas de humor, que acabam, as mais graves, com ela a meter-se no carro e a andar sem destino. Passada a crise, volta para casa. O marido é compreensivo. Tenta levá-la a tomar a medicação, mas ela resiste: não precisa, não é louca, está bem. Decidem, entretanto, mudar de cidade, para ela poder retomar o estudo e ele poder arranjar um emprego melhor. Numa primeira etapa, tudo corre bem. Estudo. Emprego. Casa. Ela tem mais um filho. O terceiro. Mas, subitamente, ele perde o emprego bem pago e arranja outro que apenas permite pagar as contas. Ela ressente-se. Acusa-o de ser um perdedor, a loser. E começa a refugiar-se no computador. Dia e noite. A casa está num caos: lixo e coisas sujas por todo o lado. Os filhos ao deus-dará. O marido começa a ficar farto. Com um emprego precário, uma família para alimentar, três filhos para cuidar e uma casa desorganizada, não consegue deixar de se exaltar. O ambiente familiar é opressivo. Ela, entretanto, entra em depressão profunda. Quando não está no computador, no grupo Experience, a desabafar com um outro internauta, está deitada no chão, com as mãos na cabeça. Os filhos mais velhos vão-se valendo a si próprios. O bebezinho vegeta. Gatinha sem rumo pela casa. E, um belo dia, ela mete-se no carro e desaparece. De vez. Para não mais voltar. O marido tem esperança de que seja apenas uma viagem mais longa. Mas não. É uma despedida. Perante a ausência de notícias, informa a polícia, que começa a procurá-la. A investigação é curta. Verificado o computador, localiza-se a morada do interlocutor, o confidente. Na casa deste, a polícia fala com a mulher, que não faz segredo da estranha obsessão do marido com o computador, farta que está dos temas que o fascinam. A polícia pergunta: "e que temas são esse?", " Canibalismo", diz a mulher. "Canibalismo?", "É, ele parece ter curiosidade em provar carne humana". De imediato, a polícia liga para a "esquadra", para apanhar o canibalista. E da esquadra dizem: "ele está aqui. Diz que nos vai levar ao corpo", "corpo?". Corpo.
No Experience, encontram-se pessoas com coisas para contar: a vida, as humilhações, os desesperos, os desejos obscuros, as fantasias, enfim, a realidade paralela. É neste site que a mulher bipolar diz que não gosta de viver, que a vida dela não tem sentido, que é um pesadelo, e que deseja morrer. Ser morta por asfixia e, depois, cortarem-lhe a garganta, como garantia inequívoca de morte. Já o canibal, em potência, quer apenas provar carne humana. Como têm desejos que se complementam, combinam encontrar-se num hotel. Ali, conhecem-se e combinam a hora e o sítio para proceder à consumação dos seus desejos. Vê-se a imagem de ambos, de costas, lado a lado, calmos, dirigindo-se para o interior de uma floresta, em direcção a um local isolado. As calças de ambos estão descaídas. Têm uns corpos tristes e as calças são tristes também.
É ao local isolado que o homem leva os polícias para recuperarem o corpo. Ele está como que aliviado. Os polícias, por sua vez, estão com o ar de quem pensava já ter ouvido tudo. Pergunta um deles ao canibal: "e comeu alguma coisa?". E ele, calmo, apesar de ter à espera uma pena de prisão perpétua: "não. Não consegui."







Black Humor



Os amiguinhos do YouTube… Coisa mais linda!
Por falar,  a CC tem um vídeo em que ensina a lavar os dentes! Só não vou ver agora, porque não tenho como tirar notas. A sério. Foi com ela que aprendi a lavar a cara. E se eu precisava! Agora vou de certeza aprender a lavar os dentes. Iupe.

Monday, August 05, 2019

Beer? -Yes, I'd like some.






Hoje bebi uma cerveja. Foi um acontecimento. Há quanto tempo não o fazia, entretida que tenho estado a não misturar a medicação com álcool. Se calhar, o meu mal tem sido justamente falta de álcool. Nada que eu não possa remediar. Amanhã compro mais. E das grandes. Aliás, talvez beba uma garrafinha de vinho … deixa cá ver... penso que é moscatel. Não sei bem. Numa garrafinha tão pequenina. Tão linda! Mais logo. É para o caminho, como dizem os bêbados!

O que a Francisca Conimbriga ia gostar de saber que a minha mãe me chamou doutora da mula ruça. E já não é a primeira vez. O meu doutoramento só serviu, aparentemente, para as pessoas me virarem as costas, me insultarem, me apoucarem e terem todo o tipo de comportamentos bizarros e discriminatórios. É para o lado que eu durmo melhor, claro. Mas chateia! Não há como negar. Entretanto, assim que eu arranjar forma de fazer outro doutoramento, sem ser na UBI, matriculo-me. Quem diz doutoramento diz curso, diz uma coisa qualquer, para eu sentir que faço alguma coisa na minha vida de que gosto e, se chatear alguém, melhor. Começo a habituar-me. E se eu perdesse o amor à propina altíssima e me inscrevesse em Direito?? Hein? Quando tiver a cabeça menos oca, vou pensar nisso.

Errata: escrevi «inscreve-se» em vez de inscrevesse! É com a cara vermelha que nem um pimento que digo: foi da cerveja!
PS: já corrigi.
Aviso: quaisquer erros que possam ser dados por mim em textos passados, presentes ou futuros, das duas uma, ou foi da cerveja ou de algum vírus informático. Eu sou completamente irresponsável (isto é, não responsável) no que toca a erros.

Monday, July 29, 2019

O Demónio da Depressão




« (…) time passes , and what has been will never be again. Pain is the first experience of world-helplessness, and it never leaves us.»*
«“Tomo cerca de 12 comprimidos por dia para evitar ficar demasiado deprimido”, escreve Andrew Solomon. “Nas últimas fases da escrita deste livro, tive ataques de pânico e de solidão. Não eram sintomas depressivos, mas por vezes escrevia uma página e tinha de me ir deitar durante meia hora para recuperar das palavras que tinha escrito. Por vezes, chorava; por vezes, ficava ansioso e passava um ou dois dias na cama.” No fim, o seu O Demónio da Depressão — Um Atlas da Doença, que chega a Portugal 15 anos depois de ter sido publicado pela primeira vez nos Estados Unidos, foi vencedor do National Book Award e finalista do Pulitzer. Está traduzido em 24 línguas, do chinês ao turco.
(…)
“A depressão é a principal causa de incapacidade nos EUA e no mundo em pessoas com mais de cinco anos.” Cerca de 15% das pessoas deprimidas acabarão por se suicidar.»**

Nem tudo é mau!!

*https://www.amazon.com/Noonday-Demon-Atlas-Depression-ebook/dp/B005UDIB94/ref=sr_1_1?crid=24AVRWDQZROK&keywords=andrew+solomon&qid=1564424698&s=gateway&sprefix=andrew+so%2Caps%2C245&sr=8-1
consultado em 29 de Julho, 2019
**https://www.publico.pt/2016/02/15/sociedade/noticia/a-depressao-nos-seus-piores-momentos-e-a-mais-terrivel-das-solidoes-1723280, consultado em 29 de Julho, 2019

Wednesday, July 24, 2019

Os Desertos


Eu gosto de desertos: são espaços onde não há nada, ninguém. Há coisa melhor?
Mas hoje vou falar de desertos de forma figurada. Aquela coisa estéril, onde nada resiste. Aquela coisa onde existem caveiras de animais com areia a escorrer das órbitas vazias, claro. E é uma maçada muito grande, porque eu gosto de caveiras. Ainda para mais no deserto. Diga-se que estou a falar de caveiras em sentido figurado: a ausência de vida. Tudo aquilo que resta depois da pele branca, ou negra, e dos músculos rosa e do sangue vermelho e tudo o resto, que simboliza a vida, se exauriu. E é novamente uma maçada. Porque eu gosto da ausência de vida. Eu gosto da morte: o fim já foi ultrapassado e já só se é um corpo morto. Já se é um deserto. Ou seja, é muito difícil falar daquilo que desprezo, se utilizar tudo aquilo que acho sublime.
Vou falar de ervas daninhas. É melhor. Aquelas ervas que preenchem todo o espaço sem se importarem com as outras ervas. Isto é, aqueles desertos cheios de viçosas ervas daninhas, que empurram com certas partes estratégicas dos seus caulezinhos - em sentido figurado, obviamente -  toda a restante flora. Exactamente! Os desertos verdes não me parecem tão dignos de apreço como os desertos de areia estéril com uma caveirazinha aqui e outra ali. Definitivamente. Mas as ervas daninhas não andam muito longe do meu coração.
Vou falar de fumo. De cigarro. Daquelas pessoas que deixaram de ser admitidas em lugares dignos, para poderem dedicar-se à arte de  introduzir pequenos archotes nas suas bocas e expelirem o respectivo fumo pela boca e, numa aproximação assaz bovina, pelo nariz, também. Em redor dessas pessoas, vai-se fazendo um deserto. E bem. Já lá vai o tempo em que introduzir o atrás referido cilindro ardente na boca era sexy. Hoje não é sexy. Aliás, no deserto em que os fumantes se bamboleiam, com deselegância e desconforto, nada há que se recomende. É desses desertos fumegantes que eu não gosto. Hoje mesmo, quando me aproximava de um determinado deserto, vejo uma erva daninha, digo, isto é, corrijo, vejo um vulto em tons de cinzento agarrado a um caninho fumegante. E digo bem: caninho. Não se trata de um cigarro de ponta vermelha. Não. É um caninho eletrónico, ao qual se aplica a boquinha e depois se expele um vaporzinho nojento… mas a cheirar mal: a tabaco. Uma coisa deprimente. E dizer que abocanhar o caninho de plástico e expirar é a única coisa de jeito que tal avezinha aparentada dos abutres... - valha-me Deus, eu gosto de abutres - sabe fazer. Vou tentar de novo. E dizer que aquela tarata a única coisa de jeito que sabe fazer é delamber o tubinho fumegante. Ou seja: a pobre tonta não faz nada de jeito. Mas nada mesmo. Mesmo!

Imagem: https://medium.com/neworder/comciência-um-convite-à-reflexão-ética-e-filosófica-bc5b64eb197a, consultado em 25 de julho, 2019

Thursday, July 18, 2019

Karochi




A minha mãe telefonou-me subitamente, sem esperar que fosse eu a tomar a iniciativa, como sempre. Pensou que eu estava doente. Que eu tinha a voz muito cansada ontem. E antes de ontem, também. E porque é que eu tinha a voz assim. É dos ares condicionados, disse eu. E do calor. Alimenta-te, filha. A minha mãe pensa sempre que eu preciso de me alimentar…
Não é o trabalho que me mata. E tenho 10 portefólios à minha espera, para 2ª e 3ª feira. E tenho aulas até ao dia 30 de julho: faltam ainda 14 para as 233 naquela disciplina. As outras já acabaram: 4 tempos apenas. E ainda tenho uma sessão de certificação e uma1 reunião de notas e o que entretanto aparecer. Mas não é isto que me mata. É o ambiente tóxico. As pessoas tóxicas. É o sentir que estou sozinha a recusar o facilitismo mais torpe. A farsa. É  ter de ser chamada à atenção por alguém a quem eu não reconheço um único vestígio de autoridade para o fazer. Alguém que eu não respeito profissionalmente: eu não posso, nem quero, respeitar quem aceita sistematicamente a cópia, o plágio, o despejar da Internet diretamente para a página em branco e avalia a partir dali. Pior: quer, pelos vistos, que eu o faça também. NUNCA!!!!! «Aproveita o que está nos trabalhos!». Eu? Aproveitar? Aproveita tu! Eu não como o que me põem no prato. Eu como aquilo que pedi a partir da ementa e só se estiver cozinhado de forma condigna. Para que conste. E ela, de quem me lembro de dizer, nos idos de 80,  que a aluna X não tinha condições de passar para o secundário, que estava bem era na costura, continua a ver os alunos assim. Que os alunos são muito fracos, que não sabem escrever sobre - reparem - a terra deles. E digo eu: não acredito! E a outra: eles só sabem falar do trabalho que fazem. Eu não acredito! Recuso-me a ver as pessoas como meras marionetas programadas para o trabalho. Acredito, sim, noutras coisas, que não me apetece agora referir. Disse que não a respeito profissionalmente. E pessoalmente? Pessoalmente? Qual pessoalmente? Onde? Não me interessa o pessoalmente. Não sei. Não respondo. Não interessa.
Estou cansada. Estou zonza, com dor de cabeça, sem vontade de me levantar e proceder aos rituais de recolher à cama. Mas queria tanto estar já na cama, de banho tomado, no escuro, a conversar com os meus amiguinhos fantasma do YouTube…
O Público diz que a FENPROF vai mandar investigar a morte súbita - na sala de aula; durante a correção de trabalho - de quatro professores, que ocorreu num curto espaço de tempo. Uma das professoras era minha colega. Trabalhava na "minha" escola. Penso que vai ser mais uma forma de colocar os professores na arena, para serem toureados sem dó.
Entretanto, um psiquiatra diz que se pode morrer - morte súbita - por excesso de cansaço - burnout - e acrescenta que este é um fenómeno muito frequente no Japão. De tal modo, que há um termo para essa morte: Karochi.    

Imagem de Beksinski

Wednesday, July 17, 2019

A República - diálogos pós-modernos



A: Miga, disse-lhas!

B: A ela?

A: A quem mais?

B: Benza Deus, miga. E ela?

A: Assanhada, a santinha do pau oco.

B; Bota santinha, credo! Pior que a caça às bruxas só a caça ao plágio.

A: LOL, miga. Tiveste tanta graça agora. (Dentes ao léu de tanto rir).

B: Pois se tu plageias ou plagias ou plajias. É com g ou com j?

A: Miga, tenho que ir ao Google, prá ver como se escreve! (riso alarve, mostrando dentes amarelos).

B: LOL. Estás imparável.

A: Mas agora a sério. Se está tudo na Internet, para que é que uma pessoa há-de maçar-se a escrever? Eu tenho pânico da página em branco. (olho arregalado).

B: Claro! Só aquela mártir é que gasta a ponta dos dedos a dedelhar o computador a …. repara… ESCREVER! ( fica com a boca descaída de espanto e nojo. Acabando por babar-se). Ai que até me babei. LOL.

A: Olha, se é mártir, que vá de rojo a Fátima, pode ser que lhe passe… o burgesso.

B: Que se vá encher de abelhas.

A: Por falar em abelhas. O outro, em vez fazer o que deve, põe-se a vender mel…

B: Nunca me enganou! Sempre achei que tinha o queixo muito bicudo!

A: Mas voltemos à vaca fria… à escriturária-mor.

A: Vaca?  Ah que bem visto. E vaca malhada… agora deu-lhe para pintar os olhos... (risos e agarrar de barriga, com a hilaridade).

B: O quê? Já não a vejo há muito tempo. Aliás, da última vez que a vi (dedinhos no ar a fazer aspas), fiquei de costas para não a ver! (riso e ataque de tosse portentoso).

A: Então, estás sufocada? Bate nas costas.

B: E... ss...fff. (tosse) ...a..a...nnn (tosse e espirro)

A: Miga, é melhor desligares e beberes água.

B: fff...nnnn...aaaa. (espirro e tosse canina).

A: As melhoras. Adeus. Desligo.

B: Aaa...fff...ssss … espppep…

Plim

A: (entredentes) Bolas, que quase me rebentava os tímpanos, o estafermo!!!!

Imagem: https://www.pinterest.it/pin/560698222350023482/?lp=true, consultado em 8 de Agosto, 2018

Saturday, July 13, 2019

O Desprezo


O desprezo é libertador. Quando começamos a desprezar as pessoas, porque conseguimos ver finalmente a prova inequívoca da sua mediocridade, deixamos de sentir pena por tê-las perdido.
Só ficou desprezo. Até pena. É triste ver adultos perdidos no seu labirinto de raiva e impotência. Gente que vê vantagem na segregação, na fragmentação, no silêncio malcriado. Pois que fiquem na sua bolha tóxica e estéril. No seu nada.

Imagem: http://www.ip.usp.br/site/noticia/tratando-indiferencas-com-indiferenca/, consultado em 12 de julho, 2019

Friday, July 12, 2019

World of Dreams





Hoje desliguei. Amanhã não posso...

Thursday, July 11, 2019

QUERO DORMIR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


P: O que é que eu hei-de contar para dormir?
R: Talvez os meus inimigos. Talvez as pessoas que se afastaram de mim. Talvez as pessoas que me tratam como se eu fosse um ET. Talvez as pessoas que não gostam de mim. Talvez as pessoas que se esforçam para gostar de mim, mas não conseguem… Talvez as pessoas que no futuro se vão afastar de mim, as que vão "inconseguir" gostar de mim, as que vão ser minhas inimigas, etc.

Tenho muito que contar. Estou mais sossegada. Talvez adormeça.


Imagem: http://www.isleep.pt/o-sonho-a-cama-de-frida-kahlo/11 de julho, 2019, consultado em

J'accuse!




Com tanta coisa para ler (e tanta dor de cabeça), e vou ter de continuar a fazer um trabalho estúpido: escrever EU aquilo que deveria ter sido escrito por quem precisa - eu já tenho a escola toda: até ao doutoramento.
Mas as pobres almas são pastoreadas por quem nada sabe. Pior: foram instrumentalizados para vinganças pessoais. Gente ignara, com as competências sociais e a delicadeza de um pau de vassoura. Gente que não distingue entre relações profissionais e desafectos pessoais. Maquiavéis de tamancas. Gente ridícula, jumenta.
Uma coisa, no entanto, me deixa curiosa. Será que essa gente não sente vergonha da triste figura que fez e faz? Do péssimo trabalho? Dos atropelos?  Não me parece. É gente muito cheia de si - "bem resolvida". Que lhe faça bom proveito!

Imagem: https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-913504278-meia-quadro-o-grito-edvard-munch-arte-artista-_JM?quantity=, consultado em 20 de junho, 2019

Wednesday, July 10, 2019

O Discurso do Método


Contaram-me que algures há pessoas deveras sui generis. Consta-se que, certamente por falta de discernimento e outras coisas similares, costumavam usar como método de trabalho a cópia. O plágio. O vira-o-disco-e-toca-a-mesma. Consta-se mesmo que a coisa era feita com grande desenvoltura e descaro. Nisto, consta-se que alguém, certamente uma besta desmancha-prazeres - os belos prazeres do ripanço neo-copista -, se fartou de ler tantas vezes a mesma coisa que pediu às referidas pessoas que se contivessem, que ela, a besta protestativa, se encarregaria de refrescar o acervo de textos para a sublime arte de copiar toda a frase. As ditas pessoas de que falamos, parece que compreenderam outra coisa. Não se sabe bem o quê. É gente com nítidas dificuldades de expressão oral e escrita, bem como de descodificação do discurso oral e escrito. Ou seja, erram tudo aquilo que seja interpretar qualquer frase com mais de três palavras… ou menos! Consta-se então que decidiram mudar o método. Como? Em vez de deixarem de copiar e começarem a pensar em algo fresco e dentro do prazo de validade, decidiram mudar as questões. Consta-se até que não deixaram de copiar aquilo que puderam, mas podiam menos, porque as questões - as grandes questões da humanidade - tinham mudado. Mudado para pior. Parece, dizem as más línguas, que andaram a meter a foice em seara alheia, o que é sempre um mau método, especialmente quando até a própria foice se manuseia aos arrancos. É como quem diz, pior a emenda do que o soneto. E que emenda e que soneto. E agora, consta-se, está a pobre besta tonitruante a fazer a gestão dos estragos. Quanto às pessoas, aquelas de quem se tem estado a falar, consta-se que preparam os turgidos peitos  para a comenda do 10 de junho. Isto porque têm trabalhado imenso para o sucesso.
O sucesso pós-moderno, como é sabido, é fake news, plágio, pastiche. E as referidas pessoas praticam-no em abundância. O país e o mundo devem curvar-se perante essas pessoas e todas as outras pessoas como essas. Esta é a minha sentida - e de que maneira - homenagem. Not!!

Imagem:
https://www.pinterest.es/pin/349521621061665407/?lp=true, consultado a 7 de julho, 2019

Saturday, July 06, 2019

O Maligno



Sete Ideias Filosóficas: que Toda a Gente Deveria Conhecer, Desidério Murcho

Descartes escreveu uma obra intitulada Meditações sobre a Filosofia Primeira , nas quais são Demonstradas a Existência de Deus e a Distinção entre a Alma e o Corpo. E é nela que desenvolve o "conceito" de «um certo génio maligno», que, pelo que compreendo, será Deus. E será aquilo que, sendo lógico, desafia a lógica. Desafia porque, se é lógico é concreto, tangível, explicável. Porém, o génio maligno, pelo que compreendo, quando trazido para a realidade quotidiana, funciona como "argumento" irracional. DM cria uma situação: alguém falta ao trabalho e, quando questionado pelo motivo, responde:

«"Como sabe que realmente não estive cá? Talvez um génio maligno o tenha enganado e, por causa disso, não me viu!"» (2011: location 133).

Este é um livro de Filosofia que prende. Pela forma como está escrito. Não cede no rigor, no conteúdo, na estrutura profunda. Mas acerta/inova na forma como apresenta esse conteúdo, a estrutura de superfície: o enquadramento - o leitor não tem de procura-lo noutras fontes - a frase curta, a sucessão de temas, que são depois retomados, mas dando a sensação de haver sempre novidade e não, como é mais comum nesta área, aquela ideia de que um tema tem de ser abordado até ao seu esgotamento - se isto é possível em Filosofia! -  e só depois avançar para o próximo. Aqui, como é próprio da pós-modernidade, escreve-se para um leitor que tanto pode submergir na leitura e concentrar nela toda a sua atenção, como para um outro que a meio tem de consultar o e-mail ou as redes sociais. É um livro de hoje, para os leitores de hoje.
Não muito longe, talvez, salvaguardando todas as especificidades, do tipo de literatura que eu estudo. Que nunca mais deixei de estudar. Continuo a procurar os livros que fui pondo de  parte  para leitura pós-tese. E ainda faltam tantos… Não poderia ter escolhido uma área melhor, a da Paraliteratura. Graças a ela encontrei um número infindável de temas. Encontrei gente. Juntei-me a grupos de discussão. Até este livro de Filosofia foi comprado devido ao segmento: "toda a gente deveria conhecer"; "toda a gente". Perguntei-me: porquê toda a gente? O que há nestas sete ideias filosóficas de apelativo, fundamental, indispensável a "toda a gente"?  E como se escreve Filosofia para "toda a gente"? Será como se escreve "literatura para toda a gente"? É isso que irei tentar responder.
Já agora, a pretexto do  "génio maligno", lembro-me de uma história que é, a seu modo, filosófica, também.
Escrevia alguém, nos jornais ou nas revistas que costumava ler e que já desapareceram, o seguinte. Se entrarmos num autocarro cheio de gente, em hora de ponta, e dissermos uma asneira, pondo cara de poucos amigos, ninguém se incomoda. Tudo normal. Mas se entrarmos, olharmos em redor, saudarmos todos e tentarmos cumprimentar aqueles que estão junto de nós, estendendo-lhes a mão, gera-se uma situação de mal-estar. Viram-nos a cara e, à socapa, haverá quem olhe para nós batendo ao de leve com o polegar no meio da testa. Não regulamos da cabeça!    

Imagem: Beksinski, claro.


Friday, July 05, 2019

Hoje perdi um inimigo



coisa melhor no mundo não há...

Thursday, July 04, 2019

Dias esmifrantes, noites palpitantes - parte dois



 Que dia! O idiota-mor preparava-se para me moer. Enganou-se. O pobre tonto esqueceu-se que já me tinha feito aquela pergunta e eu já lhe tinha respondido. Lá ficou a remorder até que adormeceu. Segundo o colega, até estava a ressonar. E bem.  Mal mesmo é quando acorda. Sempre a ver segundos sentidos, a levantar suspeitas e calúnias a toda a gente. A mim foi queixar-se à minha colega que eu era maluca e que queria fa
zer queixa de mim. Apanhou um berro e retornou à base, de mansinho. Caí depois na asneira de o ouvir e de o tentar aconselhar, juntamente com os companheirinhos de route, mas o pobre não entende. O que não me surpreende. A falta de compreensão e de competências de leitura é, pelos vistos, epidémica. Nada que eu já não soubesse.  Felizmente o outro teve de ausentar-se, o que propiciou que conseguíssemos  o
uvir os nossos pensamentos. Lá foi feito tudo às três pancadas: o costume, em várias latitudes. E depois a cereja no topo do bolo.
 What a cheek! Tanta falta de tudo, como miolo. No fundo é isso mesmo: falta de miolo, de bestunto. Figuras tristes! Arranjar soluções estapafúrdias para  problemas …. hummmmm…. como dizer? Não há como dizer.  É uma tal chafurda que não tem ponta por onde se lhe pegue. Fazer de mim uma ajudante, personagem secundária? Tomar decisões que me cabem a mim tomar? That would be the day. Tenho excesso de habilitações. Sorry!
Que façam as figuras que quiserem, mas não contem comigo para abandalhar, ou melhor, avacalhar aquilo que já está mais que avacalhado.
Eu quando não posso com eles, porque estamos na pura irracionalidade - não é à toa a tática do silêncio…_ , mantenho-me afastada e com a mão no nariz.
E estou calma. Claro que os bons dos comprimidinhos ajudam, mas estou calma. E há música a metro aqui ao lado. Pela primeira vez apreciei a chinfrineira insana, noite dentro. Funciona como um espanta-espantalhos.  E vi gatinhos.
Agora a Doutora vai deitar-se e conversar com os amiguinhos do YouTube.

Imagem de Beksinski, para me trazer de volta às paisagens que me fazem bem.




Tuesday, July 02, 2019

MATILDE





Tudo de bom, Matilde. Beijinho.