Monday, October 19, 2026

Detachment - Indiferença



Por norma, não vejo nunca filmes que tenham a ver com doenças ou com escola. Mal vejo adolescentes com mochilas às costas, ou pessoas deitadas em macas em correria pelo corredor de um hospital, desligo e vou em frente. A insónia, a preguiça, a procrastinação e a falta de vontade para nada fazer levaram-me a esgotar a lista de filmes dignos de ser vistos no YouTube. Se eu não tivesse alergia a adolescentes, escolas, professores, médicos, enfermeiros e macas, tinha muito com que me entreter. Claro!
 No domingo passado, ia eu ver um filme de sobrevivência - não tenho nada contra o sofrimento, desde que o sofredor não esteja numa escola ou num hospital. Porém, apercebo-me de que o acidente de avião era, de facto, de um avião que transportava uma doente em maca. Nada feito. Aparece-me então este Detachment, com um actor que muito aprecio: Adrien Brody. Porém, ele era um professor. Através do trailer, apercebi-me logo que era o tipo de professor angustiado, com alunos de fugir com quantos pés a pessoa pode e sabe, e que talvez, sendo ele um professor substituto, acabasse por se tornar muito amado pelo alunos, quiçá até os mandasse rasgar páginas de livros e porem-se de pé em cima das carteiras - tenho um particular desagrado pelo Clube dos Poetas Mortos, para que conste. Não confundir com o desempenho dos actores ou com a história. Mas foram/são este tipo de professores muito bonzinhos, rebeldes e criativos, juntamente com as "ciências" da educação, que tornaram possível a barbárie que vai pelas salas das escolas por esse mundo fora.

Feito este desabafo, voltemos ao filme. Hesitei, hesitei, mas acabei por carregar no on, embora com cara de poucos amigos. Os comentários que li acabaram por me dar algum encorajamento: é uma obra de arte, excelente, melhor filme de sempre, em conclusão, e cito: "Holy shit! Well done". Mas também algum desencorajamento: o rei dos filmes tristes - pudera, alunos e professores -, chorei muito, não aconselhável a pessoas depressivas e um enigmático, e cito: " I can't believe I used to think this movie was so deep. Now I rewatch and pass". 

Comecei a ver. De pé atrás. Um professor com um ar muito sofrido. Uma turma que olha para o professor como se ele fosse um alienígena, um aluno que se aproxima do professor, que agarra na pasta do professor e a atira à parede e que fala com ele como se o pobre fosse o ser mais surdo do mundo. Nada de novo! O professor, de forma firme e indiferente, diz-lhe: atiraste a minha pasta? Ela não tem sentimentos, não lhe importa, e eu não tenho nada em mim que tu consigas magoar. Pôs a criatura na ordem e, surpresa, todos fizeram o que ele pediu. Mais: fizeram-no em silêncio!  Pensei logo em ficar por ali. Alunos CALADOS??? Na sala de aula? Não é plausível.

Finda a aula, o prof. vai para casa. E é naquela ida para casa, de autocarro - claro -, que se começa a desenhar uma certa atmosfera, que começam a aparecer certas personagens dignas de pesadelo e não só. É um filme "noir", de professores "noir". Vejam o prof. abaixo, que, nos intervalos, fica o tempo todo agarrado à cerca, em desespero:


Há inclusive uma cena em que a directora está deitada no chão do seu gabinete, cheguei a pensar que estava a ter um ataque, mas não, estava a contactar telefonicamente com a alguém. Ou seja, estava em desespero, deitada no chão, a trabalhar! Gostei! Eu pensava que já tinha visto cara a cara professores desesperados. Aliás, a minha própria cara. Mas não. Ali tudo está no limite: as vidas profissionais e as privadas. É indiferença. Tudo é indiferença. E onde não há indiferença, há pior que indiferença... 
Só uma personagem consegue escapar, mas até que ponto? Ela está apaixonada e estar apaixonado não é um bom sintoma: NUNCA!!! 

Gostei do filme. Gostei. Gostei. Rebolei-me naquele desespero todo, mergulhei, fiquei feliz, embora duma forma um bocado infeliz. E é tudo!




 





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