Por norma, não vejo nunca filmes que tenham a ver com doenças ou com escola. Mal vejo adolescentes com mochilas às costas, ou pessoas deitadas em macas em correria pelo corredor de um hospital, desligo e vou em frente. A insónia, a preguiça, a procrastinação e a falta de vontade para nada fazer levaram-me a esgotar a lista de filmes dignos de ser vistos no YouTube. Se eu não tivesse alergia a adolescentes, escolas, professores, médicos, enfermeiros e macas, tinha muito com que me entreter. Claro!
No domingo passado, ia eu ver um filme de sobrevivência - não tenho nada contra o sofrimento, desde que o sofredor não esteja numa escola ou num hospital. Porém, apercebo-me de que o acidente de avião era, de facto, de um avião que transportava uma doente em maca. Nada feito. Aparece-me então este Detachment, com um actor que muito aprecio: Adrien Brody. Porém, ele era um professor. Através do trailer, apercebi-me logo que era o tipo de professor angustiado, com alunos de fugir com quantos pés a pessoa pode e sabe, e que talvez, sendo ele um professor substituto, acabasse por se tornar muito amado pelo alunos, quiçá até os mandasse rasgar páginas de livros e porem-se de pé em cima das carteiras - tenho um particular desagrado pelo Clube dos Poetas Mortos, para que conste. Não confundir com o desempenho dos actores ou com a história. Mas foram/são este tipo de professores muito bonzinhos, rebeldes e criativos, juntamente com as "ciências" da educação, que tornaram possível a barbárie que vai pelas salas das escolas por esse mundo fora.
Feito este desabafo, voltemos ao filme. Hesitei, hesitei, mas acabei por carregar no on, embora com cara de poucos amigos. Os comentários que li acabaram por me dar algum encorajamento: é uma obra de arte, excelente, melhor filme de sempre, em conclusão, e cito: "Holy shit! Well done". Mas também algum desencorajamento: o rei dos filmes tristes - pudera, alunos e professores -, chorei muito, não aconselhável a pessoas depressivas e um enigmático, e cito: " I can't believe I used to think this movie was so deep. Now I rewatch and pass".
Comecei a ver. De pé atrás. Um professor com um ar muito sofrido. Uma turma que olha para o professor como se ele fosse um alienígena, um aluno que se aproxima do professor, que agarra na pasta do professor e a atira à parede e que fala com ele como se o pobre fosse o ser mais surdo do mundo. Nada de novo! O professor, de forma firme e indiferente, diz-lhe: atiraste a minha pasta? Ela não tem sentimentos, não lhe importa, e eu não tenho nada em mim que tu consigas magoar. Pôs a criatura na ordem e, surpresa, todos fizeram o que ele pediu. Mais: fizeram-no em silêncio! Pensei logo em ficar por ali. Alunos CALADOS??? Na sala de aula? Não é plausível.
Finda a aula, o prof. vai para casa. E é naquela ida para casa, de autocarro - claro -, que se começa a desenhar uma certa atmosfera, que começam a aparecer certas personagens dignas de pesadelo e não só. É um filme "noir", de professores "noir". Vejam o prof. abaixo, que, nos intervalos, fica o tempo todo agarrado à cerca, em desespero:
Há inclusive uma cena em que a directora está deitada no chão do seu gabinete, cheguei a pensar que estava a ter um ataque, mas não, estava a contactar telefonicamente com a alguém. Ou seja, estava em desespero, deitada no chão, a trabalhar! Gostei! Eu pensava que já tinha visto cara a cara professores desesperados. Aliás, a minha própria cara. Mas não. Ali tudo está no limite: as vidas profissionais e as privadas. É indiferença. Tudo é indiferença. E onde não há indiferença, há pior que indiferença...
Só uma personagem consegue escapar, mas até que ponto? Ela está apaixonada e estar apaixonado não é um bom sintoma: NUNCA!!!
Gostei do filme. Gostei. Gostei. Rebolei-me naquele desespero todo, mergulhei, fiquei feliz, embora duma forma um bocado infeliz. E é tudo!
É esta a banda sonora da alegria que sinto pelo facto de te teres ido embora da selecção. Estás livre daquele ambiente de faz de conta. Verdade se diga, não vou mentir, que já deverias ter saído há mais tempo. Mas, pelo que ouvi e não vi nenhum desmentido, tu ias sair, depois do Mundial, e pediram-te para ficares. Dizem as más línguas - cruz, credo - que te queriam por causa dos patrocínios e quejandos. Não sei. Não me interessa. Mas parece evidente, pelo andar da carruagem, que te queriam como enfeite. Compreendo: um homem lindo como tu, grande, forte, etc., quem desdenharia ter-te como enfeite? Mas, lá está, tu és um ser humano, um profissional, um homem de acção, não gostas de estar sentado. Não combina contigo. Combina menos ainda ouvir um bronco a dizer, com todas as letras, eu é que mando: «Eu é que sou o "perzidente" da junta». A lata do sujeito!!! Agora, ele esqueceu é que tu não és homem para ser mandado! Olha, eu teria feito o mesmo! Entretanto lia eu hoje que a maioria dos portugueses está com o treinador, pois ele é que "manda". Percebe-se. Vou explicar.
A maioria dos portugueses, pobres que são, sabe que manda quem pode e obedece quem tem de obedecer. É o chamado meter o rabinho entre as pernas. São pessoas que têm de se vergar, se querem comida na mesa e dinheiro para café e tabaco. Na Literatura, é ver o obedecer ao chefe. Leia-se Eça de Queirós, leia-se "O Conde de Abranhos". Logo, o treinador, a despeito da sua famosa iliteracia linguística que, por sua vez, é testemunho da sua incultura e do seu pensamento tortuoso, o treinador, dizia, manda e há que obedecer. E com um bónus, também muito apreciado por muitos portugueses: o Ronaldo vai ter que engolir o sapo. Mas o Ronaldo é multimilionário. Ele não precisa de se vergar, de engolir sapos, de baixar a bolinha. E fez o que fez.
Os que o odeiam - e é ódio mesmo - e outros que também não o apreciam vieram logo dizer que ele escolheu sair pela porta pequena. Também se disse que saiu como um rato. Ora, como disse um humorista, de cujo nome não me lembro, a única porta pequena foi a do jacto privado dele.
Por falar em jacto, no Público, um escritor escreveu um ensaio - bastante bom, mas não brilhante, penso - sobre o querido Ronaldo (Cristiano Ronaldo como figura trágica), em que vê como kitsch a exibição de riqueza do jogador e diz « a ostentação da riqueza (o jato privado chamado como quem chama um Uber, a célebre marquise)». Pois. Agora imaginem se o Ronaldo tivesse chamado um táxi para se ir embora. Ou levantasse o polegar para ir à boleia. O homem tem um jacto, senhores! O homem queria ir dali para fora e chamou o jacto dele!
Têm existido manifestações de apoio a Ronaldo: muito bem! Estamos juntos. No YouTube, eu devo ser a apoiante mais activa e que tem levado bastante na cabecinha - nos cornos, porque não dizê-lo? . AhAhAh. Mas também muitos likes, atenção!
Querido Ronaldo. Vai. Vai e não voltes. Vive a tua vida privilegiada! Sê feliz. Ao contrário de Messi, tu não vais ter festa de despedida, homenagem, não vais ter o apoio de "Portugal" na despedida. Porém, nós, os que te admiramos, em Portugal e no mundo, faremos, cada um à sua maneira, a festa. Deitaremos os foguetes e apanharemos as canas. Sê feliz! Concentra-te apenas em ser feliz!!
Só uma homenagem a Rasmus Hoejlund, o jogador dinamarquês.
O algoritmo por vezes, interpretando mal os meus interesses, traz-me temas e vídeos de que eu não gosto. Doenças, por exemplo, ou vídeos de extração de todo o tipo de imundície da pele das pessoas. De imediato, assinalo o meu desinteresse por tais temas e tudo vai bem. Há talvez um mês, não mais, traz-me um vídeo - shorts - de duas meninas, muito novinhas ainda, com progéria. Passei-o rapidamente. Pouco depois, apareceram as meninas novamente. Olho de relance para os comentários e leio: lindas! Passei e disse para mim, porquê dizer "lindas", as meninas não são lindas, isto é ser condescendente. Pode amar-se uma pessoa sem que ela seja linda. Eu detesto condescendência. Aquele tipo de pessoa que me diz: «não envelhece. Está sempre na mesma. Sempre linda. Os anos não passam por ela.» E outras coisas mais... Com uma agravante. Isto do estar sempre linda e jovem, que para além do mais é preconceituoso, é uma forma de tentar ser agradável. Mas há outras formas de condescendência, que, de tão descaradas, até podemos ver o filme na cabeça da pessoa, a rir-se e a pensar «olha o estafermo». Eu tive durante anos uma pessoa condescendente deste tipo em cima de mim: desdenhava de mim, pensando que eu não percebia - tá bem abelha! - enquanto me enchia de encómios (que eu não comia, claro).
Voltando ao algoritmo. Aquelas meninas punham-me tensa. Só o facto de eu não ser do tipo de me pôr a ver bebés e a babar-me com a sua graciosidade me contentava: por que razão hei-de ver estas meninas com esta síndrome, se eu não sou daquelas mulheres que se perdem por bebés? Triste é dize-lo, mas eu passo, sim, é horas a fio a ver gatinhos (de quatro patas, note-se). Mas estas meninas eram doentes, tinham uma doença rara, que eu tinha estudado para falar sobre o tema do envelhecimento. Eu até tinha seguido a vida de Sammy Basso, que conseguiu viver muito para além da esperança de vida que estas pessoas normalmente têm. É muito triste ver crianças com todas as características dos idosos, e com mais problemas de locomoção, por exemplo, do que os próprios velhos. Claro que não tive coragem de marcar o vídeo como não sendo do meu interesse. E como as meninas não deixaram de aparecer, eu dei por mim a vê-las, a apreciá-las, a procurar vídeos delas, a segui-las, a adorá-las e a achá-las, sem condescendência nenhuma, LINDAS. As crianças mais maravilhosas, mais queridas, que já tinha visto na minha vida.
Elis e Eloá são/eram duas gémeas idênticas nascidas no Brasil, no seio de uma família pobre e cuja mãe já tinha oito filhos. Ora, não há registo de gémeas com progéria. Elas serão as únicas. O pai terá abandonado o barco... E é um irmão de 20 anos, na altura do seu nascimento, que assume o papel de "pai", irmão, cuidador e companheiro incansável da mãe, nas idas aos hospitais, aqui e ali, e nos cuidados com as pequeninas. A mãe, uma mulher ainda nova, talvez nos quarentas, com grandes olhos cheios de amor, tristeza e cansaço, é daquelas mulheres com uma dedicação única em relação às suas meninas. Diz-se que, ainda antes de se descobrir o que havia de anormal com elas, pois por volta dos três meses começaram a perder o cabelo, a ficar com a cabeça cheia de veias salientes e a pele fininha e algo enrugada, aconteceu o seguinte: a mãe estava com as meninas no supermercado e alguém disse, «Olha, dois monstrinhos». Aliás, como reação ao «Que lindas», não faltavam comentários do género «Lindas?? Podem ser tudo, mas são bem feias.», ou «Lindas? Só se for num pesadelo.», ou ainda «Parecem vampiros», e também «Parecem dois marcianos». Quanto à mãe, havia quem a criticasse, dizendo que tinha um canal no YouTube, mas não para mostrar as filhas. Era, sim, para se mostrar a ela.»
O certo é que, através do YouTube e outras redes, conseguiram arranjar dinheiro para fazer melhorias na casa, bastante pobre, bem como dinheiro para as despesas das crianças. Conseguiram também visibilidade que permitiu que elas sejam/fossem seguidas por especialistas nos Estados Unidos e tenham inclusive beneficiado da toma de um novo medicamento que retardará os efeitos mais nefastos do envelhecimento precoce.
Esta doença rara, porém, é implacável e devido à debilidade, ora uma partia um bracinho e ia para o hospital, ora tinha uma gripe e seguia para o hospital, e outras situações semelhantes. A Elis, porém, era a que tinha uma maior propensão para problemas mais graves: problemas cardiorrespiratórios. Há um ano, devido a um desses problemas, teve que fazer uma traqueostomia: é muito triste ver uma criancinha com aquele tubo na garganta, com dificuldade em respirar e em falar. Mas, mesmo assim, logo que melhorou, desatou a fazer as tropelias e as birras do costume. Há semanas, porém, voltou a ter uma paragem, esteve no hospital e, quando teve alta, regressou a casa letárgica, com tubos, sempre deitadinha no colo da mãe, sorrindo apenas com o carinho da família. Eloá, com as suas mãozinhas minúsculas, mas semelhantes às mãos artríticas dos idosos, ficava também ao pé dela, agarrando-lhe nas mãos, fazendo-lhe festinhas e, por vezes, limpando as próprias lágrimas da sua carinha linda de cinco anos apenas.
Entretanto, começaram a vir vídeos repetidos e nada de novo acerca da Elis, nem respostas às perguntas acerca do estado de saúde dela. No dia 30 de Setembro, no entanto, apareceu o irmão para dar a notícia: a Elis morreu. O enterro foi ontem: um cortejo de familiares, a Eloá no colo de um tio, a mãe devastada, o caixão minúsculo cheio de flores.
É por estas coisas que eu não gosto que o algoritmo me recomende estes vídeos. Não há como não passar por tudo isto como se se fosse apenas alguém de longe que observa. Assiste-se à morte desta criança como se fosse da nossa criança. E agora fica-se a aguardar a reacção da Eloá, a irmã gémea que vai ficar sozinha, sem a sua companheira...
Elis, nunca me custou tanto uma morte... Gostava, sinceramente, de não te ter conhecido. Eloá, ainda bem que és gémea da Elis. Vou matar saudades dela através de ti. E vou matar saudades tuas, contigo. Vou continuar a ver-te sempre, nem que seja através dos vídeos antigos. Não sei estar sem vocês!!
No vídeo abaixo, havia já um prenúncio de partida: o título, saudade; a música, partida; a imagem, os dias felizes à chuva, na companhia da mãe e do irmão.