O algoritmo por vezes, interpretando mal os meus interesses, traz-me temas e vÃdeos de que eu não gosto. Doenças, por exemplo, ou vÃdeos de extração de todo o tipo de imundÃcie da pele das pessoas. De imediato, assinalo o meu desinteresse por tais temas e tudo vai bem. Há talvez um mês, não mais, traz-me um vÃdeo - shorts - de duas meninas, muito novinhas ainda, com progéria. Passei-o rapidamente. Pouco depois, apareceram as meninas novamente. Olho de relance para os comentários e leio: lindas! Passei e disse para mim, porquê dizer "lindas", as meninas não são lindas, isto é ser condescendente. Pode amar-se uma pessoa sem que ela seja linda. Eu detesto condescendência. Aquele tipo de pessoa que me diz: «não envelhece. Está sempre na mesma. Sempre linda. Os anos não passam por ela.» E outras coisas mais... Com uma agravante. Isto do estar sempre linda e jovem, que para além do mais é preconceituoso, é uma forma de tentar ser agradável. Mas há outras formas de condescendência, que, de tão descaradas, até podemos ver o filme na cabeça da pessoa, a rir-se e a pensar «olha o estafermo». Eu tive durante anos uma pessoa condescendente deste tipo em cima de mim: desdenhava de mim, pensando que eu não percebia - tá bem abelha! - enquanto me enchia de encómios (que eu não comia, claro).
Voltando ao algoritmo. Aquelas meninas punham-me tensa. Só o facto de eu não ser do tipo de me pôr a ver bebés e a babar-me com a sua graciosidade me contentava: por que razão hei-de ver estas meninas com esta sÃndrome, se eu não sou daquelas mulheres que se perdem por bebés? Triste é dize-lo, mas eu passo, sim, é horas a fio a ver gatinhos (de quatro patas, note-se). Mas estas meninas eram doentes, tinham uma doença rara, que eu tinha estudado para falar sobre o tema do envelhecimento. Eu até tinha seguido a vida de Sammy Basso, que conseguiu viver muito para além da esperança de vida que estas pessoas normalmente têm. É muito triste ver crianças com todas as caracterÃsticas dos idosos, e com mais problemas de locomoção, por exemplo, do que os próprios velhos. Claro que não tive coragem de marcar o vÃdeo como não sendo do meu interesse. E como as meninas não deixaram de aparecer, eu dei por mim a vê-las, a apreciá-las, a procurar vÃdeos delas, a segui-las, a adorá-las e a achá-las, sem condescendência nenhuma, LINDAS. As crianças mais maravilhosas, mais queridas, que já tinha visto na minha vida.
Elis e Eloá são/eram duas gémeas idênticas nascidas no Brasil, no seio de uma famÃlia pobre e cuja mãe já tinha oito filhos. Ora, não há registo de gémeas com progéria. Elas serão as únicas. O pai terá abandonado o barco... E é um irmão de 20 anos, na altura do seu nascimento, que assume o papel de "pai", irmão, cuidador e companheiro incansável da mãe, nas idas aos hospitais, aqui e ali, e nos cuidados com as pequeninas. A mãe, uma mulher ainda nova, talvez nos quarentas, com grandes olhos cheios de amor, tristeza e cansaço, é daquelas mulheres com uma dedicação única em relação à s suas meninas. Diz-se que, ainda antes de se descobrir o que havia de anormal com elas, pois por volta dos três meses começaram a perder o cabelo, a ficar com a cabeça cheia de veias salientes e a pele fininha e algo enrugada, aconteceu o seguinte: a mãe estava com as meninas no supermercado e alguém disse, «Olha, dois monstrinhos». Aliás, como reação ao «Que lindas», não faltavam comentários do género «Lindas?? Podem ser tudo, mas são bem feias.», ou «Lindas? Só se for num pesadelo.», ou ainda «Parecem vampiros», e também «Parecem dois marcianos». Quanto à mãe, havia quem a criticasse, dizendo que tinha um canal no YouTube, mas não para mostrar as filhas. Era, sim, para se mostrar a ela.»
O certo é que, através do YouTube e outras redes, conseguiram arranjar dinheiro para fazer melhorias na casa, bastante pobre, bem como dinheiro para as despesas das crianças. Conseguiram também visibilidade que permitiu que elas sejam/fossem seguidas por especialistas nos Estados Unidos e tenham inclusive beneficiado da toma de um novo medicamento que retardará os efeitos mais nefastos do envelhecimento precoce.
Esta doença rara, porém, é implacável e devido à debilidade, ora uma partia um bracinho e ia para o hospital, ora tinha uma gripe e seguia para o hospital, e outras situações semelhantes. A Elis, porém, era a que tinha uma maior propensão para problemas mais graves: problemas cardiorrespiratórios. Há um ano, devido a um desses problemas, teve que fazer uma traqueostomia: é muito triste ver uma criancinha com aquele tubo na garganta, com dificuldade em respirar e em falar. Mas, mesmo assim, logo que melhorou, desatou a fazer as tropelias e as birras do costume. Há semanas, porém, voltou a ter uma paragem, esteve no hospital e, quando teve alta, regressou a casa letárgica, com tubos, sempre deitadinha no colo da mãe, sorrindo apenas com o carinho da famÃlia. Eloá, com as suas mãozinhas minúsculas, mas semelhantes à s mãos artrÃticas dos idosos, ficava também ao pé dela, agarrando-lhe nas mãos, fazendo-lhe festinhas e, por vezes, limpando as próprias lágrimas da sua carinha linda de cinco anos apenas.
Entretanto, começaram a vir vÃdeos repetidos e nada de novo acerca da Elis, nem respostas à s perguntas acerca do estado de saúde dela. No dia 30 de Setembro, no entanto, apareceu o irmão para dar a notÃcia: a Elis morreu. O enterro foi ontem: um cortejo de familiares, a Eloá no colo de um tio, a mãe devastada, o caixão minúsculo cheio de flores.
É por estas coisas que eu não gosto que o algoritmo me recomende estes vÃdeos. Não há como não passar por tudo isto como se se fosse apenas alguém de longe que observa. Assiste-se à morte desta criança como se fosse da nossa criança. E agora fica-se a aguardar a reacção da Eloá, a irmã gémea que vai ficar sozinha, sem a sua companheira...
Elis, nunca me custou tanto uma morte... Gostava, sinceramente, de não te ter conhecido. Eloá, ainda bem que és gémea da Elis. Vou matar saudades dela através de ti. E vou matar saudades tuas, contigo. Vou continuar a ver-te sempre, nem que seja através dos vÃdeos antigos. Não sei estar sem vocês!!
No vÃdeo abaixo, havia já um prenúncio de partida: o tÃtulo, saudade; a música, partida; a imagem, os dias felizes à chuva, na companhia da mãe e do irmão.
