Por norma, não vejo nunca filmes que tenham a ver com doenças ou com escola. Mal vejo adolescentes com mochilas às costas, ou pessoas deitadas em macas em correria pelo corredor de um hospital, desligo e vou em frente. A insónia, a preguiça, a procrastinação e a falta de vontade para nada fazer levaram-me a esgotar a lista de filmes dignos de ser vistos no YouTube. Se eu não tivesse alergia a adolescentes, escolas, professores, médicos, enfermeiros e macas, tinha muito com que me entreter. Claro!
No domingo passado, ia eu ver um filme de sobrevivência - não tenho nada contra o sofrimento, desde que o sofredor não esteja numa escola ou num hospital. Porém, apercebo-me de que o acidente de avião era, de facto, de um avião que transportava uma doente em maca. Nada feito. Aparece-me então este Detachment, com um actor que muito aprecio: Adrien Brody. Porém, ele era um professor. Através do trailer, apercebi-me logo que era o tipo de professor angustiado, com alunos de fugir com quantos pés a pessoa pode e sabe, e que talvez, sendo ele um professor substituto, acabasse por se tornar muito amado pelo alunos, quiçá até os mandasse rasgar páginas de livros e porem-se de pé em cima das carteiras - tenho um particular desagrado pelo Clube dos Poetas Mortos, para que conste. Não confundir com o desempenho dos actores ou com a história. Mas foram/são este tipo de professores muito bonzinhos, rebeldes e criativos, juntamente com as "ciências" da educação, que tornaram possível a barbárie que vai pelas salas das escolas por esse mundo fora.
Feito este desabafo, voltemos ao filme. Hesitei, hesitei, mas acabei por carregar no on, embora com cara de poucos amigos. Os comentários que li acabaram por me dar algum encorajamento: é uma obra de arte, excelente, melhor filme de sempre, em conclusão, e cito: "Holy shit! Well done". Mas também algum desencorajamento: o rei dos filmes tristes - pudera, alunos e professores -, chorei muito, não aconselhável a pessoas depressivas e um enigmático, e cito: " I can't believe I used to think this movie was so deep. Now I rewatch and pass".
Comecei a ver. De pé atrás. Um professor com um ar muito sofrido. Uma turma que olha para o professor como se ele fosse um alienígena, um aluno que se aproxima do professor, que agarra na pasta do professor e a atira à parede e que fala com ele como se o pobre fosse o ser mais surdo do mundo. Nada de novo! O professor, de forma firme e indiferente, diz-lhe: atiraste a minha pasta? Ela não tem sentimentos, não lhe importa, e eu não tenho nada em mim que tu consigas magoar. Pôs a criatura na ordem e, surpresa, todos fizeram o que ele pediu. Mais: fizeram-no em silêncio! Pensei logo em ficar por ali. Alunos CALADOS??? Na sala de aula? Não é plausível.
Finda a aula, o prof. vai para casa. E é naquela ida para casa, de autocarro - claro -, que se começa a desenhar uma certa atmosfera, que começam a aparecer certas personagens dignas de pesadelo e não só. É um filme "noir", de professores "noir". Vejam o prof. abaixo, que, nos intervalos, fica o tempo todo agarrado à cerca, em desespero:
Há inclusive uma cena em que a directora está deitada no chão do seu gabinete, cheguei a pensar que estava a ter um ataque, mas não, estava a contactar telefonicamente com a alguém. Ou seja, estava em desespero, deitada no chão, a trabalhar! Gostei! Eu pensava que já tinha visto cara a cara professores desesperados. Aliás, a minha própria cara. Mas não. Ali tudo está no limite: as vidas profissionais e as privadas. É indiferença. Tudo é indiferença. E onde não há indiferença, há pior que indiferença...
Só uma personagem consegue escapar, mas até que ponto? Ela está apaixonada e estar apaixonado não é um bom sintoma: NUNCA!!!
Gostei do filme. Gostei. Gostei. Rebolei-me naquele desespero todo, mergulhei, fiquei feliz, embora duma forma um bocado infeliz. E é tudo!
É esta a banda sonora da alegria que sinto pelo facto de te teres ido embora da selecção. Estás livre daquele ambiente de faz de conta. Verdade se diga, não vou mentir, que já deverias ter saído há mais tempo. Mas, pelo que ouvi e não vi nenhum desmentido, tu ias sair, depois do Mundial, e pediram-te para ficares. Dizem as más línguas - cruz, credo - que te queriam por causa dos patrocínios e quejandos. Não sei. Não me interessa. Mas parece evidente, pelo andar da carruagem, que te queriam como enfeite. Compreendo: um homem lindo como tu, grande, forte, etc., quem desdenharia ter-te como enfeite? Mas, lá está, tu és um ser humano, um profissional, um homem de acção, não gostas de estar sentado. Não combina contigo. Combina menos ainda ouvir um bronco a dizer, com todas as letras, eu é que mando: «Eu é que sou o "perzidente" da junta». A lata do sujeito!!! Agora, ele esqueceu é que tu não és homem para ser mandado! Olha, eu teria feito o mesmo! Entretanto lia eu hoje que a maioria dos portugueses está com o treinador, pois ele é que "manda". Percebe-se. Vou explicar.
A maioria dos portugueses, pobres que são, sabe que manda quem pode e obedece quem tem de obedecer. É o chamado meter o rabinho entre as pernas. São pessoas que têm de se vergar, se querem comida na mesa e dinheiro para café e tabaco. Na Literatura, é ver o obedecer ao chefe. Leia-se Eça de Queirós, leia-se "O Conde de Abranhos". Logo, o treinador, a despeito da sua famosa iliteracia linguística que, por sua vez, é testemunho da sua incultura e do seu pensamento tortuoso, o treinador, dizia, manda e há que obedecer. E com um bónus, também muito apreciado por muitos portugueses: o Ronaldo vai ter que engolir o sapo. Mas o Ronaldo é multimilionário. Ele não precisa de se vergar, de engolir sapos, de baixar a bolinha. E fez o que fez.
Os que o odeiam - e é ódio mesmo - e outros que também não o apreciam vieram logo dizer que ele escolheu sair pela porta pequena. Também se disse que saiu como um rato. Ora, como disse um humorista, de cujo nome não me lembro, a única porta pequena foi a do jacto privado dele.
Por falar em jacto, no Público, um escritor escreveu um ensaio - bastante bom, mas não brilhante, penso - sobre o querido Ronaldo (Cristiano Ronaldo como figura trágica), em que vê como kitsch a exibição de riqueza do jogador e diz « a ostentação da riqueza (o jato privado chamado como quem chama um Uber, a célebre marquise)». Pois. Agora imaginem se o Ronaldo tivesse chamado um táxi para se ir embora. Ou levantasse o polegar para ir à boleia. O homem tem um jacto, senhores! O homem queria ir dali para fora e chamou o jacto dele!
Têm existido manifestações de apoio a Ronaldo: muito bem! Estamos juntos. No YouTube, eu devo ser a apoiante mais activa e que tem levado bastante na cabecinha - nos cornos, porque não dizê-lo? . AhAhAh. Mas também muitos likes, atenção!
Querido Ronaldo. Vai. Vai e não voltes. Vive a tua vida privilegiada! Sê feliz. Ao contrário de Messi, tu não vais ter festa de despedida, homenagem, não vais ter o apoio de "Portugal" na despedida. Porém, nós, os que te admiramos, em Portugal e no mundo, faremos, cada um à sua maneira, a festa. Deitaremos os foguetes e apanharemos as canas. Sê feliz! Concentra-te apenas em ser feliz!!
Só uma homenagem a Rasmus Hoejlund, o jogador dinamarquês.
O algoritmo por vezes, interpretando mal os meus interesses, traz-me temas e vídeos de que eu não gosto. Doenças, por exemplo, ou vídeos de extração de todo o tipo de imundície da pele das pessoas. De imediato, assinalo o meu desinteresse por tais temas e tudo vai bem. Há talvez um mês, não mais, traz-me um vídeo - shorts - de duas meninas, muito novinhas ainda, com progéria. Passei-o rapidamente. Pouco depois, apareceram as meninas novamente. Olho de relance para os comentários e leio: lindas! Passei e disse para mim, porquê dizer "lindas", as meninas não são lindas, isto é ser condescendente. Pode amar-se uma pessoa sem que ela seja linda. Eu detesto condescendência. Aquele tipo de pessoa que me diz: «não envelhece. Está sempre na mesma. Sempre linda. Os anos não passam por ela.» E outras coisas mais... Com uma agravante. Isto do estar sempre linda e jovem, que para além do mais é preconceituoso, é uma forma de tentar ser agradável. Mas há outras formas de condescendência, que, de tão descaradas, até podemos ver o filme na cabeça da pessoa, a rir-se e a pensar «olha o estafermo». Eu tive durante anos uma pessoa condescendente deste tipo em cima de mim: desdenhava de mim, pensando que eu não percebia - tá bem abelha! - enquanto me enchia de encómios (que eu não comia, claro).
Voltando ao algoritmo. Aquelas meninas punham-me tensa. Só o facto de eu não ser do tipo de me pôr a ver bebés e a babar-me com a sua graciosidade me contentava: por que razão hei-de ver estas meninas com esta síndrome, se eu não sou daquelas mulheres que se perdem por bebés? Triste é dize-lo, mas eu passo, sim, é horas a fio a ver gatinhos (de quatro patas, note-se). Mas estas meninas eram doentes, tinham uma doença rara, que eu tinha estudado para falar sobre o tema do envelhecimento. Eu até tinha seguido a vida de Sammy Basso, que conseguiu viver muito para além da esperança de vida que estas pessoas normalmente têm. É muito triste ver crianças com todas as características dos idosos, e com mais problemas de locomoção, por exemplo, do que os próprios velhos. Claro que não tive coragem de marcar o vídeo como não sendo do meu interesse. E como as meninas não deixaram de aparecer, eu dei por mim a vê-las, a apreciá-las, a procurar vídeos delas, a segui-las, a adorá-las e a achá-las, sem condescendência nenhuma, LINDAS. As crianças mais maravilhosas, mais queridas, que já tinha visto na minha vida.
Elis e Eloá são/eram duas gémeas idênticas nascidas no Brasil, no seio de uma família pobre e cuja mãe já tinha oito filhos. Ora, não há registo de gémeas com progéria. Elas serão as únicas. O pai terá abandonado o barco... E é um irmão de 20 anos, na altura do seu nascimento, que assume o papel de "pai", irmão, cuidador e companheiro incansável da mãe, nas idas aos hospitais, aqui e ali, e nos cuidados com as pequeninas. A mãe, uma mulher ainda nova, talvez nos quarentas, com grandes olhos cheios de amor, tristeza e cansaço, é daquelas mulheres com uma dedicação única em relação às suas meninas. Diz-se que, ainda antes de se descobrir o que havia de anormal com elas, pois por volta dos três meses começaram a perder o cabelo, a ficar com a cabeça cheia de veias salientes e a pele fininha e algo enrugada, aconteceu o seguinte: a mãe estava com as meninas no supermercado e alguém disse, «Olha, dois monstrinhos». Aliás, como reação ao «Que lindas», não faltavam comentários do género «Lindas?? Podem ser tudo, mas são bem feias.», ou «Lindas? Só se for num pesadelo.», ou ainda «Parecem vampiros», e também «Parecem dois marcianos». Quanto à mãe, havia quem a criticasse, dizendo que tinha um canal no YouTube, mas não para mostrar as filhas. Era, sim, para se mostrar a ela.»
O certo é que, através do YouTube e outras redes, conseguiram arranjar dinheiro para fazer melhorias na casa, bastante pobre, bem como dinheiro para as despesas das crianças. Conseguiram também visibilidade que permitiu que elas sejam/fossem seguidas por especialistas nos Estados Unidos e tenham inclusive beneficiado da toma de um novo medicamento que retardará os efeitos mais nefastos do envelhecimento precoce.
Esta doença rara, porém, é implacável e devido à debilidade, ora uma partia um bracinho e ia para o hospital, ora tinha uma gripe e seguia para o hospital, e outras situações semelhantes. A Elis, porém, era a que tinha uma maior propensão para problemas mais graves: problemas cardiorrespiratórios. Há um ano, devido a um desses problemas, teve que fazer uma traqueostomia: é muito triste ver uma criancinha com aquele tubo na garganta, com dificuldade em respirar e em falar. Mas, mesmo assim, logo que melhorou, desatou a fazer as tropelias e as birras do costume. Há semanas, porém, voltou a ter uma paragem, esteve no hospital e, quando teve alta, regressou a casa letárgica, com tubos, sempre deitadinha no colo da mãe, sorrindo apenas com o carinho da família. Eloá, com as suas mãozinhas minúsculas, mas semelhantes às mãos artríticas dos idosos, ficava também ao pé dela, agarrando-lhe nas mãos, fazendo-lhe festinhas e, por vezes, limpando as próprias lágrimas da sua carinha linda de cinco anos apenas.
Entretanto, começaram a vir vídeos repetidos e nada de novo acerca da Elis, nem respostas às perguntas acerca do estado de saúde dela. No dia 30 de Setembro, no entanto, apareceu o irmão para dar a notícia: a Elis morreu. O enterro foi ontem: um cortejo de familiares, a Eloá no colo de um tio, a mãe devastada, o caixão minúsculo cheio de flores.
É por estas coisas que eu não gosto que o algoritmo me recomende estes vídeos. Não há como não passar por tudo isto como se se fosse apenas alguém de longe que observa. Assiste-se à morte desta criança como se fosse da nossa criança. E agora fica-se a aguardar a reacção da Eloá, a irmã gémea que vai ficar sozinha, sem a sua companheira...
Elis, nunca me custou tanto uma morte... Gostava, sinceramente, de não te ter conhecido. Eloá, ainda bem que és gémea da Elis. Vou matar saudades dela através de ti. E vou matar saudades tuas, contigo. Vou continuar a ver-te sempre, nem que seja através dos vídeos antigos. Não sei estar sem vocês!!
No vídeo abaixo, havia já um prenúncio de partida: o título, saudade; a música, partida; a imagem, os dias felizes à chuva, na companhia da mãe e do irmão.
Jorge Palma é/era um grande cantor, que não doutrinava nem dava lições de moral. Parecia sempre ter bebido para além da conta... ou algo assim. Canta muito bem. Era/é muito bom.
Na fotografia estou a beber - água, porque estou frágil: sorry! -, com ele, por ele.
As eminências pardas estavam
todas devidamente sentadas, à espera que vocência falasse. E ele falou:
- Não fazem o trabalho de casa e depois
queixam-se que as sessões são muito grandes!
- Mas eu só recebi isto às duas
da manhã…
- Cedíssimo, minha cara.
Cedíssimo. E vamos lá ao trabalho. Tenho tudo pronto, é só assinarem!
E fez cara de poucos amigos, para
que ninguém mais ousasse reclamar. Posto isto, todos afocinharam nos papéis de
caneta em acção. Entretanto, diz alguém:
- Mas estes papéis têm a data de
há cinco anos…
- Impossível!
- Julho de 2021!
A formiga- mas pouco, com grande propensão para
cigarra, aliás – ficou vermelhusca, se bem que estar vermelhusca não é de todo
raro. Com efeito, a sua tromba asinina pende sempre um bocadinho para o
escarlate.
- Tenho que ir buscar novos
papéis… Esperem um bocadinho.
De rabo entre as pernas, lá se
dirigiu para os serviços de cópia. Os outros olhavam-se, zurzindo-o com o olhar e com não poucos trejeitos labiais
e acenos de cabeça. Mas nem um pio. Passado um bom bocado, aparece o tarata,
muito esbaforido, com a papelada na mão. Segue-se mais uma ronda de
assinaturas. Só se ouvia risc risc. Porém, alguém exclama:
- Os nomes estão errados!
- Impossível!
- Beltrano…
- Beltrano? Não está lá sicrano?
- Não.
O dito cujo levantou-se muito
contrariado, agarrou na papelada, deitou-a ao lixo e disse:
- É só mais um bocadinho…
- Mas eu t…
- Peço desculpa. Fartei-me de
trabalhar. Toda a noite a preparar os papéis…
- Quais papéis? Estes que estão todos
sem ponta p…
- Não lhe admito! Quem achar que
faz melhor do que eu, pode vir substituir-me!
- Fazer melhor??? Mas isto não
está nada bem feito!
E ouve-se um coro: Ó colegas,
acalmem-se lá. Isto é muito complexo, é muito trabalho. Deixem o chefe
trabalhar, que ele tem que regressar à secção de cópia pela segunda vez.
- Terceira, se faz favor, que ele
mal pôs os olhos nos papéis, assim que aqui chegou, viu logo que se tinha
esquecido de pôr o cabeçalho!!
- Sabe quem é que nunca se
engana??? Quem não faz nada!
- De acordo. Mas bom seria que
tivesse feito E BEM…
Coro: Ó colegas, ó colegas… Nunca
mais daqui saímos. Deixem o homem trabalhar. Deixem-no ir às fotocópias…
E ele foi, de olhos escancarados,
a boca à banda e os braços a abanar com ímpeto.
- Olha-me este q…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
Finalmente reaparece o taralhoco,
com cara de quem é sempre incompreendido, não obstante o excelente – digamos assim
– trabalho.
Papelada de novo em cima da mesa,
canetas, risc risc; risc, risc.
- Então, agora parece que está
bem! Não dizem nada? Se houvesse mais algum erro, aqui-d'el-rei . mas como está tudo bem, nada.
Nunca se elogia o bom trabalho. Mas apontar os erros…
- O bom trabalho? Já estamos com
hora e meia de atraso…
- Olhe que eu não lhe a…
Coro: Ó colegas, ó colegas…
E assim foi. Levantámo-nos,
agarrámos nas nossas malas e saímos cabisbaixos, comme d'habitude.
https://www.google.com/search?q=expressionismo+dist%C3%B3pico&sca_ , consultado em 16 de Setembro, 2026
Dia de regresso à rotina. Tudo igual. Não. Há mais exigências. Estavam dois lugares vazios na sala de reuniões... Eu própria, provavelmente, deixarei o meu lugar vazio no próximo ano.
Sempre pensei que os últimos anos seriam de alegria, a alegria da contagem decrescente. Mas não. Custa na mesma, como se não fosse acabar nunca. E depois, há o resto. O que vem ocupar o lugar que fica vazio...
Muitas caras novas. Não se conhece ninguém. Os novos, embora velhos, a tentarem adaptar-se e os velhos a tentar puxar a cadeira para eles se acomodarem. Que cansaço!
Entretanto, a minha casa, que continuo a limpar, a pintar, etc., ainda está em estado de sítio. Não consigo começar e acabar, fazer tudo de seguida. Não. Tenho de ir descansando. Pelo menos, livrei-me de imenso lixo: roupa e mais roupa e outras coisas. A limpeza da cozinha está mais perto. Já tenho uma oferta e há uma nova empresa de limpezas na Covilhã. Mal posso esperar por ver tudo pronto.
Amanhã começo às 10:00 e vou pela tarde fora. Desânimo...
https://culture.pl/en/gallery/selected-paintings-by-zdzislaw-beksinski-image-gallery, consultado em 9 de Setembro, 2026
Para mim, a Internet é a melhor invenção de sempre. Sinto que "vivo" mais do que alguma vez vivi por causa dela. Não gosto de viajar, de me deslocar, de ver pessoas, falar com elas, ser aquilo que é expectável que sejamos quando estamos com alguém. Os livros foram sempre a minha forma de viver. Através deles conheci pessoas, sítios, situações. Ri muito e também chorei muito. A ficção foi e continua a ser um espaço de convívio para mim. Mas agora tenho também a Internet. É melhor? Mesmo que fosse, eu jamais o admitiria, porque sou fiel aos livros que me ajudaram sempre a ir pela vida, pelos maus e pelos menos maus momentos. A Literatura foi e é um espaço virtual, onde tudo acontece, ainda que não aconteça nada. A Internet veio complementar o meu espaço ficcional. O espaço cibernético permitiu-me entrar em mais mundos. Os livros são lentos: confortavelmente lentos. A Internet é rápida. É difícil abandonar um livro que não nos fascinou logo no início. Vamos virando mais uma e outra página, porque sabemos que pode estar um tesouro escondido algures e que seria trágico não o encontrarmos. A internet, não. Não gosto, passo. E passo, e passo. Quero encontrar o tesouro logo no início.
Em Julho e Agosto, encontrei um novo canal de YouTube para seguir. Tomei conhecimento da arte de Yuzuru Hanyu: passei horas a vê-lo. Vi a novela completa A Banqueira do Povo, superiormente interpretada por todos os actores. Vi a série completa O Conde de Abranhos, baseada no romance homónimo de Eça de Queirós. Estou a ver a série A Ferreirinha, que inclui o romance de Camilo Castelo Branco com Ana Plácido e a sua passagem pela prisão. Aparece também o nosso rei D. Pedro V, o que me levou a procurar informação acerca dele: foi um homem lindo e bom. Era contra a escravatura e, durante uma epidemia de febre amarela, visitava os doentes nos hospitais em vez de se isolar. Enfim... E agora, de repente, no Instagram, aparece-me esta versão do Libertango. E tantas outras coisas, sobretudo imagens, aquelas imagens que só podem dizer uma coisa: há um grupo de pessoas que partilha um fascínio por aquilo que é obscuro, mas, simultaneamente, sublime...
Eu sou pela Internet, pela IA - não enquanto professora -, pelos robôs humanoides, por tudo o que seja um mundo que me permita estar cada vez mais distante do humano, ao vivo e a cores. Humanos, só através de mediação. Na parte final da minha vida, nos últimos capítulos, percebi que há formas de viver com a felicidade possível...
Começaram as férias. Um tempo alegadamente de descanso. Alegadamente. A vontade que tenho de ter férias é quase igual ao medo que sinto em relação a tê-las. Este ano, tive inclusive que mudar as datas, aliás, tivemos, devido à trapalhada dos exames. É uma coisa mínima, mas é o suficiente para me desestabilizar completamente e para significar menos cinco dias. Os exactos cinco dias de que mais necessito. É como acordar. Posso até dormir bem - o que é raro -, mas o melhor sono acontece entre as sete e as nove horas. Sem essas duas horas, levanto-me com um cansaço que só vai aumentando durante o dia. Chega a ser absolutamente insuportável. Depois, tenho imensas coisas para fazer em casa. Este ano, tenho que tratar da parede do quarto multiusos, chamemos-lhe assim. E, para a semana, vou ver a minha mãe. Entretanto, até lá, tenho de preparar tudo para passar aqueles dias: a comida, os presentes para todos os que apoiam a minha mãe - aos quais muito agradeço - e as minhas próprias coisas. Não sou de sair, de visitar, tenho inclusive uma condição de saúde que me impede dessas folias. Mas eu já era assim antes dessa condição. Não gosto de sair da minha casa. Não gosto. Mas não posso deixar de ir ver a minha mãe e verificar como é que ela está. Como está o sofá onde ela se senta e o colchão, e a disposição de o que quer que seja que a possa levar a cair. Tenho também de averiguar se está a tomar os medicamentos corretamente e se nada passou da validade. No ano passado, apercebi-me de coisas que me deixaram triste, porque ela estava rodeada de coisas que, por não as conseguir ver, não se deu conta de como estavam impróprias. E ela teimosa. Só quando a sua querida Isabel lhe disse que sim, que realmente aquilo precisava de renovação, é que acreditou. Renovei tudo. Vamos ver o que vou encontrar este ano, para além daquilo que me comprometi a fazer... Valha-me Deus! Não me posso esquecer da enxada...
E nisto, na apatia de quem não sabe nem quer saber para onde se virar, vejo o que se passa em Espanha, em Ceuta, território que já foi português e que depois da Restauração da Independência, permaneceu com os espanhóis. Curiosamente, a bandeira da Cidade de Ceuta conserva o brasão português. E não só. Mas não é isso que interessa. São os factos e a forma como estão a ser veiculados pelos média tradicionais e os outros. Há as teoria da conspiração e as outras. Um jornalista da CNN falava das dificuldades dos marroquinos, cheios de fome e de sede, posto que em Ceuta tinham fechado o comércio. Streamers de Direita repudiavam, e bem, o acontecimento, e falavam depois das elites globalistas e do seu projecto de substituir os europeus (?). Uma política do Chega mostrava uma muçulmana a celebrar a entrada de muçulmanos em Ceuta, antecipando a islamização da Europa. Eu teria de saber quem era aquela senhora, tão articulada, e com um discurso tão conveniente para a Direita Securitária - como eles gostam de ser chamados. Sem o conhecimento das fontes, não acredito em nada daquilo que me dizem e só em metade daquilo que vejo. Ouvi também relatos de cidadãos de Ceuta, com medo daquilo que possa acontecer, e que têm medo de sair à rua. Procurei depois os especialistas. Um tal de professor brasileiro adiantou uma teoria bem fundamentada acerca daquilo que estava por trás desta invasão. Terei de esperar pelo veredicto do Prof. Marco António Villa. E eu o que penso?
Lembro-me de outras entradas de migrantes, em menor número, bastante menor, que chegavam esvaídos e esfarrapados. Estes, pelo contrário, entraram frescos, eufóricos e esbracejantes, invadindo com um à-vontade revoltante um país que não é o deles. O que está por trás disso? Como é que um número tão elevado de pessoas entra em conjunto num país estrangeiro? Como é que se organizou? Não sei. Não vou especular. Porém, repudio em absoluto a forma como se INVADE um país estrangeiro, e se espera que esse país nos acolha, nos alimente, nos ceda as suas infraestruturas, para que possamos ter acesso àquilo que o nosso próprio país nos nega.
Vivemos tempos estranhíssimos. Perdeu-se a ideia daquilo que é normal. Aceitável. Claro que este assunto vai ser resolvido, veremos, contudo, como a Europa vai ficar durante e após a sua resolução. Uma coisa é certa. A humanidade vai-se perdendo. Senti sempre empatia por aqueles que invadiam a costa europeia, solidária com o sofrimento que os atirou para tão esdrúxula aventura. Desta vez, olhei e senti fúria, indignação. Não se entra assim em casa alheia!!
Lembro-me de estar em Coimbra e eu e as minhas colegas gostarmos dos Trovante, mas sobretudo de Luís Represas, que era liiiindoooo.
Não segui muito a sua carreira, embora conheça as suas músicas e os maiores êxitos. Mas, para mim, sempre que se fala no LR, vejo-me logo em Coimbra, com as minhas colegas e amigas, a discutirmos o estilo daquele cantor tão lindo e com um ar tão sério. Lembro-me dos risos, dos comentários. LR é o tempo que passou, para mim... Não foi um tempo feliz, não tenho muita queda para a felicidade. Muitas preocupações, muito medo do futuro, um tempo em que tinha amigas, mas em que sentia que era uma amiga diferente. Tinha, mas não tinha. A par de LR, comentávamos o Marco Paulo e o António Variações. Uma colega imitava muito mal o Variações, mas nós ouvíamos e gostávamos. Um dia, o Carlos Cruz foi muito deselegante com o Marco Paulo, e nós defendemo-lo.
Ontem, fui surpreendida pela notícia da morte de Luís Represas e, depois, pelas circunstâncias, pelo guardar para si a doença. Também assim sou. Compreendo-o. Descansa em paz, Luís Represas, foste/és o cantor mais lindo de Portugal e um dos mais talentosos.
https://www.coliseu.pt/evento/20270417-luis-represas-50-anos, consultado em 23 Julho, 2026
Todos os admiradores estrangeiros sublinham o facto de Ronaldo ter ficado sozinho em campo, depois da derrota, sem que a "equipa" se tenha juntado a ele, até por saber que este será o seu último mundial.
Grandes Montes de Estrume!!!!
Adiante. Conheço bem esta sensação de ficar sozinha depois de ter feito o que pude para ajudar... Custa muto o virar de costas. Porém, primeiro estranha-se e depois entranha-se, como dizia o outro. Eu escrevi ontem que ia torcer pela selecção da Noruega. Não. Vou antes torcer pela Espanha, como agradecimento pelo gesto de Lamine Yamal, que foi o único que abraçou o meu querido Ronaldo, naquele momento de adeus ao que começou em 2006.
Obrigada Yamal!!
Depois de Ronaldo, Halaand e Yamal serão os únicos que me levarão a passar alguns - poucos - minutos para saber o que se passa no mundo do futebol.
Um abraço, meu querido Ronaldo! Obrigada! Vi jogos só por causa de ti. Sou uma pessoa anestesiada. Irrito-me no meu trabalho, é certo. Fico apática com o que algumas pessoas me fazem... Não se pode dizer que esteja muito viva, mas também não estou morta: helás!! Por tua causa, saí muitas vezes da minha apatia: enervei-me, defendi-te, elogiei-te; alegrei-me, ri contigo. Tive orgulho de te teres tornado um homem tão lindo e com uma personalidade vincada. Irei seguindo o eco dos teus próximos passos.
Portugal foi eliminado. O Brasil foi eliminado. Está na hora de torcer pela Noruega, isto é, por Halaand!
https://www.theaustralian.com.au/sport/football/champions-league-wrap-arsenal-barca-and-psg-enjoy-huge-wins-as-erling-haaland-helps-city-past-villareal/news-story/a57af43d39940adfd4814510b31d7c8c, consultado em 6 de Julho de 2026
Portugal empatou e a culpa é, mais uma vez, do "idoso" Ronaldo! A Internet, salvo raras exceções, desanca naquele que já lhes deu mais alegrias do que outro jogador qualquer (penso eu de que). Muitos só sabem que Portugal existe por causa do Ronaldo. O que é que isso interessa? Dirão. Eu acho que interessa. Por que motivo é que um país com tantos séculos de História se há-de tornar invisível? E porque é que há-de ser um futebolista a dar-lhe visibilidade? Ainda se fosse um cientista, um escritor, um político, enfim, uma pessoa importante... Mas Ronaldo É importante. Ele é um profissional de excelência: dedicadíssimo, disciplinado, motivado, corajoso. É um exemplo dos melhores. Fossemos nós todos, nas nossas áreas, trabalhadores ao nível dele, e Portugal estaria incomparavelmente mais avançado, mais desenvolvido, mais respeitado. Aliás, respeitado, sem mais.
Compreendo, em parte, aqueles que dizem que ele deveria saber quando retirar-se, sair de cena. Mas duvido que ele não saiba. Acontece que ele tinha como objetivo fazer mais um mundial e ATINGIU esses objetivo. Para tal, preparou-se fisicamente para obviar a idade. Os hábitos alimentares e de descanso e de treino são extraordinários. O indivíduo é um monge. Um monge hiperactivo, claro, mas um monge. Está a dar o seu melhor, a dar visibilidade à selecção. Pergunto: há, neste momento, algum português de destaque no mundial? Quando digo de destaque, falo do ponto de vista de uma pessoa que não tem qualquer interesse por futebol. Ou seja, quando o Ronaldo começou a ser falado, até eu sabia que havia um jogador com aquele nome e aquelas características. Hoje, com a multiplicação dos meios de comunicação, não consigo saber que nome sonante existe no futebol português. Explicando melhor. Eu não procuro informação sobre o Ronaldo, porém ela chega a mim e eu vou retendo isto e aquilo. Mas não me chega nada acerca de outros nomes. Há um ou outro que vão sendo referidos, mas eu não decorei os nomes: não são sonantes. Mais uma vez, é o Ronaldo, o grande, o príncipe - o tolo, o parvalhão que foi aos EUA ver a criatura insalubre - que dá visibilidade à selecção!!
Um jogador novo, cujo nome, lá está, não sei, diz que CR é um jogador como os outros, que não é mais nem menos que os outros. Vejam só o desplante da "jovem promessa do desporto rei"!! Very typical! "Somos todos iguais". É este o lema da modernidade, ou melhor, da pós-modernidade, melhor ainda, da modernidade líquida. Muito gosta esta gente de ser igual. Destacar-se? Não. Ser igual: nem mais, nem menos. É esta aspiração à mediania, à igualdade saloia, ao igualitarismo que explica, em grande parte, a estagnação actual. Porque é que eu gosto/adoro o Ronaldo? Porque tenho a certeza absoluta - ponho a minha cabeça num cepo - de que Ronaldo não quer ser igual a ninguém. Ele quer ser o maior, o melhor, o único. E faz tudo para assim ser. Independentemente dos resultados da selecção, para mim, o Ronaldo será sempre o vencedor, porque ele é um gigante e todos os outros são meros anões nos ombros dele.
Ai, os dias, os dias… é sempre o mesmo sol, a mesma chuva, as mesmas pessoas, as mesmas maçadas… enfim! Ontem, pelo menos, aconteceu uma coisa boa: fiquei encravada no elevador! Saquei, então, do admirável telemóvel e telefonei para o número de ajuda, esparramado na parede do dito elevador e tive que dizer à menina: “ah, é que estou presa …!”. “Acalme-se – disse ela – eu mando já uma equipa para a libertar!”. Em abono da verdade se diga, que eu estava calma! Mais, ansiava por atirar-me nos braços espadaúdos da equipa de salvamento. Até retoquei o batom. Porém, quando a equipa, constituída por um técnico, homem vulgar, chegou, dado que não vi nada de espadaúdo, retirei-me do poço do elevador, como se tivesse asas nos pés. Francamente, não há condições para uma pessoa ficar languidamente traumatizada, a cantar o “Frágil, lálálálá, sinto-me frágil… e coiso e tal…lálálála!”. Tirando isto, a vida seguiu o seu curso atabalhoado. As noites, porém, têm sido de aventura imparável!
Ainda no outro dia, presidia eu a um funeral, em plena noite. O caixão vinha numa carreta de madeira puxada por dois cavalos negros, de crina farta e esvoaçante. O cortejo fúnebre, todo vestido de preto, incluindo a cabeça (explique-se: vinham cobertos de roupas pretas da cabeça aos pés), acabou, claro, por se revelar desastroso. Importará dizer que eu avisei, deixem pelo menos os olhos de fora? Não! E era um funeral tão lindo! Eu, então, toda vestida de seda negra e esvoaçante…! Era um espectáculo solene, digno de se ver. Mas, com os entes queridos do defunto às apalpadelas, devido ao excesso de luto, tanto apalparam, tanto apalparam, que acabaram por espantar os cavalos, já fartos de que lhes passassem as mãos pelas pernas (e outras partes)! Foi o lindo e o bonito: as bestas correm para um lado, a carreta é projectada para o outro, o caixão, por sua vez, sai disparado em direcção desconhecida e o cortejo começa a andar em círculos, tacteando tudo o que lhes aparecia pela frente, principalmente, há que dizê-lo, os traseiros uns dos outros.
Nesta grande aflição, eu e os outros dois cangalheiros pusemo-nos logo, de telemóvel em punho, pelo meio do mato, à procura dos cavalos, da carreta, do caixão e do defunto, posto que estava cada coisa para seu lado. Fui eu, competentíssima, que encontrei o jazente, que se encontrava a uns bons metros do caixão. Logo comuniquei para o colega encarregado dos cavalos: “ Emergência, repito, emergência. Elemento encontrado, bom estado, caixão desfeito. Repito, caixão desfeito. Over”. Resposta: “ Ó valha-me Deus, repito, valha-me Deus, estamos sem caixões em stock e não há rasto dos cavalos. Over.” Resposta: “Emergência, repito, emergência. Defunto não sai daqui sem caixão… repito, etc. Over”. Resposta: “Momento, repito, momento. À carpintaria. Over and out.” Resposta: “pixté, repito, pixté. Qual out? Alguém que me venha buscar, para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Ok, repito, Ok. O Aparício, que anda à procura da carreta, assim que a ache, vai buscar-te a ti e ao jazente. Over.” Resposta. “Um momento, repito, um momento. E se ele não acha a carreta? Fico aqui com o jazente nos braços? Over.” Resposta: “Calma, repito, calma. Plano: eu à carpintaria tratar do caixão. O Aparício continua a procurar a carreta. Tu chamas táxi para levar o jazente à carpintaria. Over.” Resposta: “ Táxi, repito, táxi? E o cortejo fúnebre… por Deus, os entes enlutados? Over”. Resposta: “ Repito, repito, repito. Os entes continuam à roda a apalpar os traseiros uns aos outros. Tudo sob controlo. Over and out”.
Que noite! Que noite! Foi o cabo dos trabalhos! Mas conseguimos, posteriormente, aliás, muito posteriormente, proceder ao enterramento sem quaisquer outros sarilhos de monta. Isto se exceptuarmos o facto de que o cortejo acabou também por desaparecer, juntamente com a carreta e os equídeos, que o carpinteiro se recusou a fazer o caixão àquela hora da noite e que o taxista se mostrou extremamente resistente a transportar o defunto à sua última morada. Pior ainda, quando constatou que teria que abrir, também, a sepultura. Mas isso ficou por conta dos meus colegas cangalheiros. Coisas de homens!!!
Eu, recuperado o corpo, e chegado este ao cemitério, dei por acabada a função e fiquei toda concentrada em fazer esvoaçar o meu vestido de seda negra, que ocupava todo o espaço da noite.
https://www.facebook.com/photo?fbid=846245198493371&set=a.112750521842846, consultado em 12 de Abril, 2026
A música é a melhor invenção. Talvez haja melhor, claro. Mas, de momento, ouvindo esta voz, esta melodia, esta letra, não me ocorre nada mais lindo, melhor, mais insubstituível. E, claro, as imagens. Imagens oníricas. O espaço vazio, a porta aberta. É material de sonhos...
Era de noite, mas havia uma luz
muito idêntica à do dia. Uma espécie de noite brilhante ou iluminada. Eu estava
num pátio enorme em frente a uma casa que era um palácio sóbrio de pedra branca
e majestosa. Eu tinha um vestido de seda branca que não só me cobria a mim, mas
também a maior parte do espaço onde me encontrava. Tudo isto estava suspenso no
ar, algures sob as nuvens e sobre uma floresta de enormes árvores verdes de
folhas suaves. Eu sentia uma angústia enorme e indizível. Olhava as janelas
iluminadas e inacessíveis da enorme casa e sentia a carícia das folhas meigas
da selva em redor. De repente, levantei-me e corri para a extremidade do pátio.
Debrucei-me sobre a floresta imensa e imaginei que poderia ser o mítico
Pantanal. E era. Podia ver lá em baixo por entre a vegetação as sucuris, as
onças, as capivaras e também uma mulher enlouquecida correndo ao longo de um
rio cheio de piranhas. Metade da angústia passou. Tinha de abandonar aquele
sítio e começar o dia, o trabalho. Avistei umas escadas e desci-as. O meu
vestido foi encolhendo e escurecendo. Quando desci o último degrau, eu era eu
mesma. Roupa preta, óculos pretos e os livros. Havia uma escola à minha frente.
Entrei. Algures, havia alunos à minha espera. A angústia voltou. Não sabia o
meu horário, os funcionários olhavam-me hostis e todas as portas estavam
fechadas. Ninguém parecia conhecer-me, ainda assim, dirigi-me a um colega que
se limitou a dar-me uma chave. A chave da minha sala. Introduzi-a, de imediato,
na porta da sala em frente. Espreitei. Era um lugar escuro e cheio de poeira,
com homens encapuçados bebendo vinho. Tranquei a porta. E, de repente, a escola
passou a ocupar toda uma cidade tosca, com estradas de pedra. Dirigi-me com a
chave na mão em busca de uma fechadura que se lhe ajustasse, por entre a cidade
decrépita. Estava cansada. Avistei um banco comprido junto a uma parede branca
e, logo que me sentei, começou a desfilar perante os meus olhos uma
interminável fila de homens nus da cintura para baixo. Não que a sua nudez fosse
visível, mas, de facto, não tinham roupa. Eu não podia ficar sentada a
contemplar homens invisivelmente nus. Levantei-me e recomecei a procurar os
meus alunos. A paisagem, entretanto, tinha mudado. Estava num caminho de argila
vermelha e por todo o lado havia casas pequenas e opacas, sem janelas. Havia
também uma casa transparente. Lá dentro, um professor silencioso como uma
estátua presidia a uma classe ruidosa. Ao seu lado, pairava, insuspenso, um
quadro negro. Vi então a minha própria casa/sala. Meti a chave, a porta
abriu-se e através dela, como uma onda, começaram a sair minúsculos porquinhos
cor-de-rosa como flores, com as orelhinhas espetadas como pétalas, as pequenas
caudas movendo-se como folhas e produzindo uma estridência boa como pássaros.
Apoderou-se de mim uma alegria grande. Feliz, levantei os braços e ri alto em
direcção ao céu. Houve depois uma agitação confusa. Duas galinhas apressadas saíram
da sala voando e cobrindo-me de penas. Continuava feliz mas deixei de rir.
Ouviu-se então uma campainha. Tudo voltou à normalidade. O dia de trabalho
tinha chegado ao fim. Uma funcionária simpática disse-me: "Até
amanhã". Eu disse-lhe: "Até amanhã". Dentro de cinco minutos
estaria em casa bebendo chá. Depois, seria novamente noite e poderia, talvez,
voltar a pôr o meu enorme vestido branco.
https://www.facebook.com/photo/?fbid=846246301826594&set=a.112750521842846, consultado em 10 de Abril, 2026
Daniel Maia-Pinto Rodrigues, TURQUESA, edição INCM
Eu também gostava...
P.S. Descobri este escritor DMPR quando ele publicou num jornal o poema Dióspiro. Adorei. Mais tarde, descobri que não fui só eu que fiquei impressionada. DMPR é hoje um dos melhores poetas contemporâneos. O poema acima, que trata o tema da noite, o meu tema favorito, é retirado do seu livro Turquesa. Há almas gémeas. Descubro isto, uma e outra vez, sobretudo em imagens e textos. Também em filmes. E, afinal, não sou só eu que gostaria que não houvesse dia seguinte. Gostaria de ficar aprisionada numa noite linda... Mas todas as noites são lindas.
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10239342388516604&set=gm.2783766298495791&idorvanity=157947604411020, consultado em 29 de Agosto, 2025
https://www.facebook.com/photo/?fbid=1537127578415341&set=a.382580190536758, consultado em 29 Março, 2026