Wednesday, February 18, 2026

A tempestade


Filme impressionante... nem vou dizer a premissa que explica o decorrer da acção. É um mito. Está no YouTube sob o nome The Storm. 
Recomendo a quem aqui vem ler os meus textos, como forma de agradecimento...

 

Sunday, February 15, 2026

A noite...

 


https://www.youtube.com/shorts/NWrjXegW51E
A beleza imensa...

Golden Brown


Sempre gostei desta canção. Sempre! Na versão integral dos Stranglers. Ultimamente ouvi-a uma e outra vez como banda sonora de vídeos curtos, com imagens de sonho, de tudo aquilo de que eu gosto e me faz pensar que há gente como eu por aí fora, pela Internet. Gente que gosta da noite, de castelos góticos, noites chuvosas, caminhos sinuosos, tudo molhado, enevoado e com comboios fantasma a andar, lentos, na paisagem. E que gosta também de melodias de que eu gosto e a um ritmo que eu não sabia que gostava. Onde anda essa gente? Sei, por mim, que não será gente de falar, fazer amigos, trocar experiência - quais? -, é, sim, gente que procura na arte, na Literatura, na Pintura, na Música, na Escultura, na Arquitectura imagens para ver, para esquecer as "experiências de vida", não para partilhá-las, para fazer uma comunidade ligada pelos interesses comuns. É gente, também, que fica no seu canto, embora atenta, para não perder nada que possa mergulhá-la num mundo de fantasia em que não há solidão. Não falta nada. Com os olhos cheios de noite e chuva, e comboios de luzes esbatidas pelo nevoeiro, não há nada mais para querer.  

Ainda assim, um abraço longo e apertado a essa gente ...
 

Thursday, January 08, 2026

8 de Janeiro, 2026

 

Era uma tarde alegre e eu estava alegre também. Não gosto de estar alegre. Gosto de estar feliz. Eu ia com um grupo de pessoas todas elas alegres também, gesticulando muito, falando alto. Rindo. Ao meu lado, com grande intimidade, seguia um homem de camisa totalmente aberta, muito simpático, mostrando o peito e as mãos grandes e eu achando-o simpático e com as mãos grandes. O grupo de pessoas, entretanto, não parava de aumentar. Éramos uma mancha compacta em movimento por entre duas filas de árvores gigantescas, cobertas de flores coloridas. Eu fui a primeira a dizer adeus a todos. Apertei a mão grande do homem da camisa totalmente aberta e continuei sozinha. Estava feliz. Algures, havia alguém à minha espera. E eu queria ver esse homem e seguir com ele numa viagem. Estava com um vestido às flores, pelo joelho. Era um vestido antiquado que já ninguém usa. Queria ser eu mesma, com a minha roupa. Mas aquele vestido antiquado agarrou-me dentro dele. Não havia como fugir-lhe.

Concentrei-me, então, no homem que estava à minha espera e, quando se fez noite, ele chegou. Muito alto, muito lindo, muito frio. Corri para o abraçar e ele afastou-se. As minhas roupas, entretanto, tinham mudado. Eram as minhas roupas, o meu perfume, o meu batom. À distância, onde ele me tinha colocado, perguntei-lhe:

- "Onde vamos?"

E ele:

- "Nós? Vamos?"

E eu disse:

- "Sim. Vamos."

E ele disse:

- "Eu vou e tu vais."

E eu calei-me e ele disse:

- "Posso transportar-te para onde fores."

E virou-me as costas. Dirigiu-se para um carro branco na noite escura. Eu segui-o. Ele entrou. O lugar ao lado dele estava ocupado. Era uma mulher linda e muito elegante. Juntos, lado a lado, eram todo um universo de beleza e harmonia. Virei-me e fui embora.

Tudo era ermo, escuro, longe. Havia também uma estrada incongruente que se encheu dum trânsito caótico e ruidoso assim que decidi atravessá-la. Finda a travessia, caiu novamente o silêncio mais absoluto. Eu estava num descampado. Ao longe, havia um aglomerado de luzes amarelas, como pirilampos. Encaminhei-me para lá. De repente, junto a uma árvore como se fosse uma ilha, surgiu um grupo de homens muito altos, com máscaras brancas. Dançavam cada um consigo próprio, lentamente. Fugi deles, cheia de medo e maus presságios. Só parei junto do sítio das luzes amarelas. Era uma aldeia, embora não fosse visível uma única casa. Era noite de festa. Havia música de festa e as pessoas vestiam roupa antiquada, de festa. Perguntei a alguém onde havia um telefone. Eram pessoas muito simpáticas e muito impressionadas com a minha aparição. Indicaram-me um bar feito de caixas de madeira. Sobre o balcão estreitíssimo, depois de uma fila interminável de garrafas de cerveja, havia uma fila interminável de telefones. Queria chamar um táxi, para sair dali. Fui tentando, exausta, os telefones todos. Mas nenhum funcionava, limitavam-se a emitir uma música clássica, belíssima. Perguntei:

- "Onde posso encontrar um táxi?"

- "Não há."

- "Um carro?"

- "Não há."

- "Como é que se sai daqui?"

- "De comboio"

"Onde?"

- "Do outro lado do monte."

Corri pelo meio da vegetação seca até ver as linhas de aço paralelas reluzindo, fracamente, na noite.

A estação tinha apenas uma parede alta e um banco comprido junto à linha de caminho-de-ferro. Tentei procurar a bilheteira. Em vão. Quanto mais procurava na parede grande, maior ela se tornava. Desisti, com medo de que tudo desaparecesse. Sentei-me, então, no banco comprido à espera. Olhei em redor e avistei os bailarinos de máscara branca a aproximarem-se de mim, na sua dança lenta. Ia ter companheiros de viagem. De repente, ouviu-se um barulho enorme, como uma explosão. Era o comboio que passava veloz à minha frente. Levantei-me agitada, gritei e fiz gestos para que parasse. Era um comboio interminável, cheio de rostos de olhos cintilantes colados às janelas. E passava, com os vidros e os olhos reluzentes. Uma linha contínua, ruidosa e cheia de pontos minúsculos de luz. E eu agitava-me a implorar que parasse. A deslocação do ar fazia rodopiar tudo à sua volta. Era um redemoinho de coisas vivas em movimento. Calei-me. Fui ficando calma. Esperava apenas que o comboio parasse. Mas ele seguiu rápido, perturbando a noite. Não parou. Ainda bem. Eu também já não queria ir-me embora.

PS: Este foi o presente que me ofereci, para comemorar o dia mais importante da minha vida: 8 de Janeiro, dia em que defendi a minha tese de doutoramento.

Prof.ª Doutora Adélia Rocha
:)
https://uxwing.com/phd-icon/. consultado em 8 de Janeiro, 2026


Wednesday, December 31, 2025

Awaiting


Já nem sabia que ainda havia filmes destes capazes de me surpreender. Brilhante!!

Tuesday, December 30, 2025

Viagem

 

Eu ia adormecida no banco de um comboio em andamento. Era a única passageira embora, por vezes, se sentisse a agitação de inúmeras pessoas em debandada, arrastando malas pesadíssimas. Sentia-me bem naquele comboio escuro, viajando no silêncio da noite. Tinha os olhos fechados, o que não me impedia de ver os assentos austeros e vazios, o corredor trespassado de sombras, os rectângulos transparentes das janelas e as linhas de aço estendidas no chão, a perder de vista. Obriguei-me, no entanto, a dormir sentada, para melhor sentir a viagem e o banco, amável, ajeitou-se para me acolher, como um colo.

Por vezes, passávamos por estações vazias, outras vezes, por estações cheias de gente em movimento frenético, atropelando-se e produzindo um barulho aterrador. O comboio, porém, seguia em frente, veloz, transportando-me simplesmente a mim, sua única passageira. De repente, a noite encheu-se de um nevoeiro doce e transparente, com reflexos de verde. Abri os olhos. Seguíamos numa linha invisível, à beira mar. Por vezes, as ondas entravam pelas janelas fechadas, deixando um rasto suave de humidade. Levantei-me. Ao longe, via-se uma estrutura gigantesca sem volume. Poderia ser a parede de uma casa assombrada ou de um palácio em ruínas. Tinha portas enormes e janelas de vidros partidos, das quais pendiam cortinas transparentes ou teias de aranhas, ou ambas. Tinha também um enorme terraço, meio enterrado na areia branca e fina, pura como a seda. Por todo o lado, em volta da casa, cresciam flores minúsculas de cor indefinida. Depois, apareceram outras casas mais pequenas, mas com janelas enormes e outras ainda que o nevoeiro encobria e não deixava ver. Eu sentia-as, como se estivesse dentro delas, habitando-as a todas em simultâneo. Colei-me aos vidros do comboio. Tentei abrir as portas, as janelas. Queria sair. Permanecer para sempre naquele mar, naquele nevoeiro. Em vão. Eu era a única passageira de uma viagem que ainda não tinha terminado. Apoderou-se de mim uma angústia indizível, à medida que todas as casas, da mais pequena ao palácio imponente e sem volume, foram desaparecendo na distância. Sentei-me. Tínhamos voltado à noite e às sombras. De repente, um túnel horrorizado com a penetração eminente desintegrou-se em milhões de pássaros esvoaçantes. Ri-me, então, bem alto, espantado as aves ainda mais. Fiquei feliz. Voltei a adormecer. A viagem terminaria apenas quando a noite terminasse também. Ao primeiro vislumbre de luz solar, desapareceria tudo. Como sempre.

https://br.freepik.com/fotos/trem-fantasma, consultado em 30 de Dezembro, 2025

Friday, December 26, 2025

Why?'???

 


O meu espírito natalício esgotou-se de vez!
Eu devo ter feito muito mal a alguém.... Por que motivo é que as pessoas pensam que podem tudo??
Não há almoços grátis. Mas eu não comi nada. Estou a pagar pelos almoços alheios! 
A lata...

https://www.facebook.com/photo/?fbid=33977938235138351&set=gm.2894950384044048&idorvanity=157947604411020, consultado em 25 de Dezembro, 2025

Saturday, December 20, 2025

“Dies irae”


Muito adequado para a festa da família... cheia de som e de fúria significando nada. 

Monday, December 15, 2025

 





AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA         https://www.facebook.com/photo/?fbid=122162114750600110&set=pcb.122162114840600110, consultado em 11 de Novembro, 2025 




Friday, December 12, 2025

00:39

 Trovoada? Sou eu a tremer, ou é outra coisa?

Monday, November 24, 2025

Kitsch

 


Vou começar a "decorar" a minha casa com tudo aquilo de que eu gosto, mais ou menos. Livros, filmes e pintura. Mondrian vai predominar. Adoro Mondrian!

Sunday, November 23, 2025

Nuno Markl - o homem que mordeu o cão

                                                       

A Chiclete numa atitude de quem não quer perder o seu amigo e companheiro de casa, o Nuno. Numa atitude protectora, como se pressentisse que ele não estava bem. 

Felizmente, tudo está a correr pelo melhor. Beijinho, meu querido Markl!

Friday, October 24, 2025

Insanidade!

 


É preciso fazer teste??? Claro que nem tudo o que parece é, e nem tudo o que reluz é ouro. Mas... nadadorA? Desde quando é que nos tornámos tão imbecis??

https://www.instagram.com/p/DQMolLQke6n/, consultado em 24 outubro, 2025

Wednesday, October 15, 2025

Ah! Entendi

 


https://web.facebook.com/photo/?fbid=24808255435481815&set=a.373087232758642, consultado em 30 de setembro, 2025

Sunday, October 05, 2025

O frio

 



Manuel A. Domingos, BAÇO, edição Medula

imagem: https://web.facebook.com/photo/?fbid=32320338947564963&set=gm.2801223356750085&idorvanity=157947604411020, consultado 19 Setembro, 2025

https://web.facebook.com/photo/?fbid=1375683677893066&set=a.382580190536758, consultado em 5 Outubro, 2025

PS: há sempre uma imagem e um texto que se completam...

Thursday, October 02, 2025

Poeira - A Casa

 


Eu tinha partido em busca de uma casa invulgarmente bela que vi uma vez, de forma fugaz, enquanto dormia. Eu lembrava-me que tinha andado durante muito tempo num caminho muito acidentado, hostil e cheio de poeira. Era um lugar de tal forma deprimente que decidi esquecer-me dele, e foi nessa altura, na ânsia de ver algo bom e belo que avistei, ao longe, uma casa. Fiquei por isso, durante muito tempo, quieta e silenciosa olhando a casa. Ela ficou quieta e silenciosa também e deixou amavelmente que eu a observasse. Dela, porém, não retive um só detalhe. Não sei sequer se era grande ou não. Era apenas bela e eu procuro-a desde então, todas as noites, nos meus sonhos, porque sinto saudade.

Pensei que devia começar por encontrar o caminho deprimente, mas foi impossível encontrá-lo. Tive então consciência de que estava num pinhal muito denso. Todos os pinheiros eram da minha altura, alguns mais baixos, e todos eles, sem excepção, estavam carregados de cerejas amarelas. Parei. Por momentos, desejei permanecer ali para sempre, encantada com a beleza do local. Fechei os olhos. Quando os abri, a paisagem tinha mudado. À minha frente, estendia-se uma planície imensa. Tudo era terra escura e desolação. Depois, fui descobrindo rectângulos de pedra branca, como túmulos. Eram túmulos. Depois começaram a erguer-se do chão estátuas e cruzes brancas, umas de pedra outras de ferro. Havia também flores artificiais sem cor. Toda a planície, a perder de vista, era um cemitério desolado e belo. De repente, senti um aroma quente de café. Virei-me. Atrás de mim, tinha-se formado uma enorme esplanada cheia de um movimento lento mas intenso. Os clientes, todos homens muito velhos, estavam sentados, cada um à sua mesa, bebendo café. Havia também uma mulher, mas essa parecia adormecida. No seu colo, dormia também um gato e sobre a sua mesa, como um prodígio, crescia uma flor branca e frágil com as pétalas, puras como seda, permanentemente agitadas por um vento impiedoso e invisível. O empregado de mesa aproximou-se de mim, apontou-me uma mesa junto a um túmulo discreto e, com um sorriso, disse:

- "Vai querer café, certamente."

Eu respondi:

- "Não. Procuro uma casa."

Ele ficou desiludido e mudo e eu disse:

- "Existe por aqui uma casa?"

E ele disse novamente com um sorriso:

"Vai querer café, certamente."

Eu sorri para ele e não disse mais nada. Virei-me e continuei o meu caminho. Estava novamente num sítio com árvores muito baixas e muito densas, mas agora sentia-me impaciente. Protegi os olhos e fui abrindo caminho, com violência, incomodada com o choque da vegetação por todo o meu corpo. De repente, ficou tudo vazio e amplo outra vez. Eu estava junto a um lago de um verde leitoso. No meio dele, estava uma casa vermelha com grandes janelas, através das quais a noite entrava e permanecia. Sentei-me no chão. Queria terminar ali a minha viagem, contemplar a casa durante muito tempo e descobrir se era ela a casa extremamente bela de um sonho passado. Ouvi, então, um barulho leve e tímido. Virei-me. Atrás de mim, como uma orquestra, estavam os clientes velhos e solitários, as sepulturas, a senhora adormecida, o gato também adormecido, a flor branca e frágil e o vento impiedoso e invisível. Ao meu lado, alguém disse:

- "Vai querer café, certamente".

Fiquei feliz, tomei o meu lugar na mesa junto ao túmulo discreto e disse:

- "Certamente".

https://pt.vecteezy.com/foto/12790692, consultado em 29 Setembro, 2025

Saturday, September 27, 2025

Sorry if I look a little lost


Busy digging out her own grave...

A caminhada solitária... mas sempre com possibilidade de ficar mais árida ainda... À mercê do virar de costas dos outros. Sozinhos a fazer planos de como conseguir dar mais um passo, ultrapassar mais uma contrariedade. Ninguém se rala. Ninguém ouve...

Saturday, September 13, 2025

Iryna Zarutska

 


Aqui a um ou dois minutos de morrer. Já ferida de morte: esfaqueada pelo monstro atrás dela. Ninguém se levantou para a ajudar. O assassino saiu do comboio com a faca a pingar sangue. Ela, depois, tapou a cara com as mãos, apoiando-se nos joelhos. Não saberia o que lhe tinha acontecido. Foi tudo muito rápido. Depois foi caindo no banco, sempre encolhida, e dele caiu para o chão, a vida a fugir-lhe. Depois, durante uns segundos, não aconteceu nada, até que uma enorme quantidade de sangue, de repente, correu para a área de embarque de passageiros. Muito sangue. Veio-me à cabeça a imagem do filme Shining: a parede a cobrir-se de sangue.
Entretanto, chega um homem e uma mulher e outro homem, para ajudá-la. Pessoas que estavam longe do sítio onde ela estava. Os que estavam perto nada fizeram. Mas ela morreu. Foi num instante. Um dia de trabalho. A hora da saída. O chegar ao comboio. Sentar-se, colocar os auriculares e concentrar-se no telemóvel. Atrás dela, um homem tira uma faca, levanta-se e atinge-a três vezes no pescoço. Depois sai do comboio, a faca a escorrer sangue.  Na imagem, o momento em que ela olha para perceber o que estava a acontecer. Depois, mais nada: sozinha, numa carruagem de um país estrangeiro, perante a indiferença dos outros passageiros, foi caindo, mais e mais até morrer...  


 https://x.com/EndWokeness/status/1966897158763819084/photo/1, consultado em 12 de Setembro, 2025

Tuesday, September 09, 2025

Supertramp


Sou daquelas pessoas que adora Supertramp. Adoro! Andava algo esquecida deles, mas, de repente, morre Rick Davies: voz inesquecível. 
Lembro-me de um dia, em Coimbra, 6.ª feira, ia apanhar o comboio para ir para a casa da minha tia (obrigada, tia, pela ajuda que me deste). Ia apressada. Saí da faculdade diretamente para uma ruela da parte mais antiga de Coimbra. Aquelas ruas estreitas que as minhas colegas e amigas não frequentavam, e me pediam para eu evitar. Elas iam para o comboio no autocarro. Eu ia a pé, por gosto e porque não tinha dinheiro para autocarros. Era inverno, a noite estava instalada. Rua isolada e noite escura: há coisa melhor? Nisto, pela janela de uma casa, aos berros, fazia-se ouvir uma canção dos Supertramp. Eu adorava e tive de parar para ouvir tudo, aos berros, repito, uma barulheira imensa e linda. Foi um momento mágico! Depois, para não perder o comboio tive de correr o mais que pude para chegar a horas à estação...

Descansa em paz, Rick Davies!

Thursday, September 04, 2025

O Regresso Às Jaulas

 


Sábado. Começa a cair a noite. É hora de eu começar a viver.

Ontem tive um pesadelo. Estava num sítio terrível: uma sala com janelas grandes, vidros sujos, estores assimétricos, muitas cadeiras e mesas com coisas escritas. Havia também papéis escritos nas paredes. Muitos papéis. E computadores: velhos! Cheirava a poeira antiga e cheirava também a sujidade acre. Eu entrei na sala e já lá estava gente. Uma gente grotesca e sem dentes. Uma tinha uns grandes cornos e uns óculos cor-de-laranja. Outra tinha uma cara muito comprida, cerca de um metro e meio. Ou até mais. Mas o nariz era pequeno, pelo menos naquela cara grande de queixo imenso. Havia também uma com três olhos. Não! Quatro. E tinha uns óculos para os quatro olhos. Mas não tinha boca. Tinha um rosto que era um excesso de olhos: mudo. Uma era apenas uma poça de gordura com um olho perdido na imensidão mole e oscilante. Uma ria muito, muito, muito, e abanava os braços. A outra estava tão quieta, que parecia morta. Havia também um homem: sentado e absorto dedilhando os testículos. A que estava sentada ao meu lado tinha um rosto hediondo e indecifrável e um hálito apodrecido: como se tivesse um cadáver debaixo da língua. Eu tentava sair daquela sala, tentava falar, gesticular, pedir socorro. Cheguei a dizer, com esperança que me expulsassem: “odeio-vos”, “detesto-vos”. Espetei uma unha na testa da da cara a perder de vista. Nada. Disse à do hálito fétido: “metes-me nojo!” Nada. A dos quatro olhos, tinha dois cravados nos testículos do homem. Os outros dois dormiam. A que estava quieta caiu no chão. Estava morta. Mesmo. A dos cornos levantou-se e pisou-me de forma horrenda: fazendo saltar os seus dois pés sobre os meus. Abri a boca, mas não gritei. O tempo tinha acabado, deixando o som do meu grito fora do meu pesadelo.

Era aqui que eu devia ter acordado. Era aqui que eu devia ter aberto os olhos e visto a normalidade habitual: expectável. Era aqui que eu devia ter saído definitivamente daquele sítio mal frequentado. Mas não. Era dia. Era verdade. Aquela gente é a gente que eu conheço. Tal e qual. O habitual. O como sempre. Eu estava /estou aqui mesmo. É este o cheiro quotidiano de todos os dias. A gente grotesca = normal. Tudo. Desde o excesso de olhos ao excesso de cara. Desde o excesso de fealdade ao excesso de muita fealdade. E a burrice? A burrice está mesmo aqui ao lado. Lambendo os beiços. Bebendo café.

Ninguém vai sair desta sala horrenda. Estamos habituados uns aos outros. Somos espectadores uns dos outros. Ninguém prescinde de ninguém. Daqui a nada, uma jumenta, quadrúpede mesmo, vai dizer: “Podemos começar?” E começamos a falar. A empestar o espaço com palavras. Quando o expediente terminar, vamos sair do sítio medonho, com a certeza que no mundo há alguém que não nos suporta. Não nos respeita. Que nos humilha. Que nos ouve, só para mostrar que não nos ouve. Que nos arrancará os olhos as vezes que forem necessárias. E nos arrancará cabelos e, pior, nos encherá de perdigotos. Alguém que não hesitará em atacar-nos as canelas ou até a barriga das pernas. Alguém que terá prazer em morder-nos a ponta do nariz e em espetar-nos uma faca metafórica (e não só) nas costas (ou noutro sítio qualquer). Alguém que, quando ri, é para rir de nós. Alguém que nos quer encher a barriga de nomes. Podemos contar sempre com esse alguém. Esse alguém e outros alguéns, companheiros dedicados de gigantescas orgias de ódio. As personagens fixas dos meus pesadelos quotidianos: dia após dia lá estão, sempre, infatigáveis e um nadinha mais velhos e mais flácidos e mais repulsivos: medonhos!

PS: Este ano juntou-se à comunidade um jumento obeso, muito dado à electricidade estática no traseiro, quando em contacto com cadeiras de plástico. É um pirilampo gigante, embora seja minúsculo, especialmente na área da cabeça. Pior: é viciado em confidencialidade. Olha quem! Mais viciado que ele só o Correio da Manhã. Pobre jerico!

«Ande junte-se aqui, puxe da cadeira, sente-se, para ver como lhe tratamos da confidencialidade e do resto…». 

https://web.facebook.com/photo/?fbid=444119281884237&set=gm.7865982576817042&idorvanity=350579061690802, consultado em 23 de Julho, 2024