Wednesday, February 18, 2026
A tempestade
Sunday, February 15, 2026
Golden Brown
Ainda assim, um abraço longo e apertado a essa gente ...
Thursday, January 08, 2026
8 de Janeiro, 2026
Era uma tarde
alegre e eu estava alegre também. Não gosto de estar alegre. Gosto de estar
feliz. Eu ia com um grupo de pessoas todas elas alegres também, gesticulando
muito, falando alto. Rindo. Ao meu lado, com grande intimidade, seguia um homem
de camisa totalmente aberta, muito simpático, mostrando o peito e as mãos
grandes e eu achando-o simpático e com as mãos grandes. O grupo de pessoas,
entretanto, não parava de aumentar. Éramos uma mancha compacta em movimento por
entre duas filas de árvores gigantescas, cobertas de flores coloridas. Eu fui a
primeira a dizer adeus a todos. Apertei a mão grande do homem da camisa
totalmente aberta e continuei sozinha. Estava feliz. Algures, havia alguém à
minha espera. E eu queria ver esse homem e seguir com ele numa viagem. Estava
com um vestido às flores, pelo joelho. Era um vestido antiquado que já ninguém
usa. Queria ser eu mesma, com a minha roupa. Mas aquele vestido antiquado
agarrou-me dentro dele. Não havia como fugir-lhe.
Concentrei-me,
então, no homem que estava à minha espera e, quando se fez noite, ele chegou.
Muito alto, muito lindo, muito frio. Corri para o abraçar e ele afastou-se. As
minhas roupas, entretanto, tinham mudado. Eram as minhas roupas, o meu perfume,
o meu batom. À distância, onde ele me tinha colocado, perguntei-lhe:
- "Onde
vamos?"
E ele:
- "Nós?
Vamos?"
E eu disse:
- "Sim. Vamos."
E ele disse:
- "Eu vou e
tu vais."
E eu calei-me e
ele disse:
- "Posso
transportar-te para onde fores."
E virou-me as
costas. Dirigiu-se para um carro branco na noite escura. Eu segui-o. Ele
entrou. O lugar ao lado dele estava ocupado. Era uma mulher linda e muito
elegante. Juntos, lado a lado, eram todo um universo de beleza e harmonia.
Virei-me e fui embora.
Tudo era ermo,
escuro, longe. Havia também uma estrada incongruente que se encheu dum trânsito
caótico e ruidoso assim que decidi atravessá-la. Finda a travessia, caiu
novamente o silêncio mais absoluto. Eu estava num descampado. Ao longe, havia
um aglomerado de luzes amarelas, como pirilampos. Encaminhei-me para lá. De
repente, junto a uma árvore como se fosse uma ilha, surgiu um grupo de homens
muito altos, com máscaras brancas. Dançavam cada um consigo próprio,
lentamente. Fugi deles, cheia de medo e maus presságios. Só parei junto do
sítio das luzes amarelas. Era uma aldeia, embora não fosse visível uma única
casa. Era noite de festa. Havia música de festa e as pessoas vestiam roupa
antiquada, de festa. Perguntei a alguém onde havia um telefone. Eram pessoas
muito simpáticas e muito impressionadas com a minha aparição. Indicaram-me um
bar feito de caixas de madeira. Sobre o balcão estreitíssimo, depois de uma
fila interminável de garrafas de cerveja, havia uma fila interminável de
telefones. Queria chamar um táxi, para sair dali. Fui tentando, exausta, os
telefones todos. Mas nenhum funcionava, limitavam-se a emitir uma música
clássica, belíssima. Perguntei:
- "Onde
posso encontrar um táxi?"
- "Não há."
- "Um
carro?"
- "Não há."
- "Como é
que se sai daqui?"
- "De
comboio"
"Onde?"
- "Do outro
lado do monte."
Corri pelo meio
da vegetação seca até ver as linhas de aço paralelas reluzindo, fracamente, na
noite.
A estação tinha
apenas uma parede alta e um banco comprido junto à linha de caminho-de-ferro.
Tentei procurar a bilheteira. Em vão. Quanto mais procurava na parede grande,
maior ela se tornava. Desisti, com medo de que tudo desaparecesse. Sentei-me,
então, no banco comprido à espera. Olhei em redor e avistei os bailarinos de
máscara branca a aproximarem-se de mim, na sua dança lenta. Ia ter companheiros
de viagem. De repente, ouviu-se um barulho enorme, como uma explosão. Era o
comboio que passava veloz à minha frente. Levantei-me agitada, gritei e fiz
gestos para que parasse. Era um comboio interminável, cheio de rostos de olhos
cintilantes colados às janelas. E passava, com os vidros e os olhos reluzentes.
Uma linha contínua, ruidosa e cheia de pontos minúsculos de luz. E eu
agitava-me a implorar que parasse. A deslocação do ar fazia rodopiar tudo à sua
volta. Era um redemoinho de coisas vivas em movimento. Calei-me. Fui ficando
calma. Esperava apenas que o comboio parasse. Mas ele seguiu rápido, perturbando
a noite. Não parou. Ainda bem. Eu também já não queria ir-me embora.
PS: Este foi o presente que me ofereci, para comemorar o dia mais importante da minha vida: 8 de Janeiro, dia em que defendi a minha tese de doutoramento.
Wednesday, December 31, 2025
Tuesday, December 30, 2025
Viagem
Eu ia adormecida no banco de um comboio em andamento. Era a única passageira embora, por vezes, se sentisse a agitação de inúmeras pessoas em debandada, arrastando malas pesadíssimas. Sentia-me bem naquele comboio escuro, viajando no silêncio da noite. Tinha os olhos fechados, o que não me impedia de ver os assentos austeros e vazios, o corredor trespassado de sombras, os rectângulos transparentes das janelas e as linhas de aço estendidas no chão, a perder de vista. Obriguei-me, no entanto, a dormir sentada, para melhor sentir a viagem e o banco, amável, ajeitou-se para me acolher, como um colo.
Por vezes,
passávamos por estações vazias, outras vezes, por estações cheias de gente em
movimento frenético, atropelando-se e produzindo um barulho aterrador. O
comboio, porém, seguia em frente, veloz, transportando-me simplesmente a mim,
sua única passageira. De repente, a noite encheu-se de um nevoeiro doce e
transparente, com reflexos de verde. Abri os olhos. Seguíamos numa linha
invisível, à beira mar. Por vezes, as ondas entravam pelas janelas fechadas,
deixando um rasto suave de humidade. Levantei-me. Ao longe, via-se uma
estrutura gigantesca sem volume. Poderia ser a parede de uma casa assombrada ou
de um palácio em ruínas. Tinha portas enormes e janelas de vidros partidos, das
quais pendiam cortinas transparentes ou teias de aranhas, ou ambas. Tinha
também um enorme terraço, meio enterrado na areia branca e fina, pura como a
seda. Por todo o lado, em volta da casa, cresciam flores minúsculas de cor
indefinida. Depois, apareceram outras casas mais pequenas, mas com janelas
enormes e outras ainda que o nevoeiro encobria e não deixava ver. Eu sentia-as,
como se estivesse dentro delas, habitando-as a todas em simultâneo. Colei-me
aos vidros do comboio. Tentei abrir as portas, as janelas. Queria sair.
Permanecer para sempre naquele mar, naquele nevoeiro. Em vão. Eu era a única
passageira de uma viagem que ainda não tinha terminado. Apoderou-se de mim uma
angústia indizível, à medida que todas as casas, da mais pequena ao palácio
imponente e sem volume, foram desaparecendo na distância. Sentei-me. Tínhamos voltado
à noite e às sombras. De repente, um túnel horrorizado com a penetração
eminente desintegrou-se em milhões de pássaros esvoaçantes. Ri-me, então, bem
alto, espantado as aves ainda mais. Fiquei feliz. Voltei a adormecer. A viagem
terminaria apenas quando a noite terminasse também. Ao primeiro vislumbre de
luz solar, desapareceria tudo. Como sempre.
Friday, December 26, 2025
Why?'???
Saturday, December 20, 2025
Monday, December 15, 2025
Friday, December 12, 2025
Monday, November 24, 2025
Kitsch
Sunday, November 23, 2025
Nuno Markl - o homem que mordeu o cão
A Chiclete numa atitude de quem não quer perder o seu amigo e companheiro de casa, o Nuno. Numa atitude protectora, como se pressentisse que ele não estava bem.
Felizmente, tudo está a correr pelo melhor. Beijinho, meu querido Markl!
Friday, October 24, 2025
Insanidade!
https://www.instagram.com/p/DQMolLQke6n/, consultado em 24 outubro, 2025
Wednesday, October 15, 2025
Ah! Entendi
Sunday, October 05, 2025
O frio
Manuel A. Domingos, BAÇO, edição Medula
imagem: https://web.facebook.com/photo/?fbid=32320338947564963&set=gm.2801223356750085&idorvanity=157947604411020, consultado 19 Setembro, 2025
https://web.facebook.com/photo/?fbid=1375683677893066&set=a.382580190536758, consultado em 5 Outubro, 2025
PS: há sempre uma imagem e um texto que se completam...
Thursday, October 02, 2025
Poeira - A Casa
Eu tinha partido
em busca de uma casa invulgarmente bela que vi uma vez, de forma fugaz,
enquanto dormia. Eu lembrava-me que tinha andado durante muito tempo num
caminho muito acidentado, hostil e cheio de poeira. Era um lugar de tal forma
deprimente que decidi esquecer-me dele, e foi nessa altura, na ânsia de ver
algo bom e belo que avistei, ao longe, uma casa. Fiquei por isso, durante muito
tempo, quieta e silenciosa olhando a casa. Ela ficou quieta e silenciosa também
e deixou amavelmente que eu a observasse. Dela, porém, não retive um só
detalhe. Não sei sequer se era grande ou não. Era apenas bela e eu procuro-a
desde então, todas as noites, nos meus sonhos, porque sinto saudade.
Pensei que devia
começar por encontrar o caminho deprimente, mas foi impossível encontrá-lo.
Tive então consciência de que estava num pinhal muito denso. Todos os pinheiros
eram da minha altura, alguns mais baixos, e todos eles, sem excepção, estavam
carregados de cerejas amarelas. Parei. Por momentos, desejei permanecer ali
para sempre, encantada com a beleza do local. Fechei os olhos. Quando os abri,
a paisagem tinha mudado. À minha frente, estendia-se uma planície imensa. Tudo
era terra escura e desolação. Depois, fui descobrindo rectângulos de pedra
branca, como túmulos. Eram túmulos. Depois começaram a erguer-se do chão
estátuas e cruzes brancas, umas de pedra outras de ferro. Havia também flores
artificiais sem cor. Toda a planície, a perder de vista, era um cemitério
desolado e belo. De repente, senti um aroma quente de café. Virei-me. Atrás de
mim, tinha-se formado uma enorme esplanada cheia de um movimento lento mas
intenso. Os clientes, todos homens muito velhos, estavam sentados, cada um à
sua mesa, bebendo café. Havia também uma mulher, mas essa parecia adormecida.
No seu colo, dormia também um gato e sobre a sua mesa, como um prodígio,
crescia uma flor branca e frágil com as pétalas, puras como seda,
permanentemente agitadas por um vento impiedoso e invisível. O empregado de
mesa aproximou-se de mim, apontou-me uma mesa junto a um túmulo discreto e, com
um sorriso, disse:
- "Vai
querer café, certamente."
Eu respondi:
- "Não.
Procuro uma casa."
Ele ficou
desiludido e mudo e eu disse:
- "Existe
por aqui uma casa?"
E ele disse
novamente com um sorriso:
"Vai querer
café, certamente."
Eu sorri para
ele e não disse mais nada. Virei-me e continuei o meu caminho. Estava novamente
num sítio com árvores muito baixas e muito densas, mas agora sentia-me
impaciente. Protegi os olhos e fui abrindo caminho, com violência, incomodada
com o choque da vegetação por todo o meu corpo. De repente, ficou tudo vazio e
amplo outra vez. Eu estava junto a um lago de um verde leitoso. No meio dele,
estava uma casa vermelha com grandes janelas, através das quais a noite entrava
e permanecia. Sentei-me no chão. Queria terminar ali a minha viagem, contemplar
a casa durante muito tempo e descobrir se era ela a casa extremamente bela de
um sonho passado. Ouvi, então, um barulho leve e tímido. Virei-me. Atrás de
mim, como uma orquestra, estavam os clientes velhos e solitários, as
sepulturas, a senhora adormecida, o gato também adormecido, a flor branca e
frágil e o vento impiedoso e invisível. Ao meu lado, alguém disse:
- "Vai
querer café, certamente".
Fiquei feliz,
tomei o meu lugar na mesa junto ao túmulo discreto e disse:
- "Certamente".
Saturday, September 27, 2025
Sorry if I look a little lost
Saturday, September 13, 2025
Iryna Zarutska
Tuesday, September 09, 2025
Supertramp
Thursday, September 04, 2025
O Regresso Às Jaulas
Sábado. Começa a cair a noite. É
hora de eu começar a viver.
Ontem tive um pesadelo. Estava
num sítio terrível: uma sala com janelas grandes, vidros sujos, estores
assimétricos, muitas cadeiras e mesas com coisas escritas. Havia também papéis
escritos nas paredes. Muitos papéis. E computadores: velhos! Cheirava a poeira
antiga e cheirava também a sujidade acre. Eu entrei na sala e já lá estava
gente. Uma gente grotesca e sem dentes. Uma tinha uns grandes cornos e uns
óculos cor-de-laranja. Outra tinha uma cara muito comprida, cerca de um metro e
meio. Ou até mais. Mas o nariz era pequeno, pelo menos naquela cara grande de
queixo imenso. Havia também uma com três olhos. Não! Quatro. E tinha uns óculos
para os quatro olhos. Mas não tinha boca. Tinha um rosto que era um excesso de
olhos: mudo. Uma era apenas uma poça de gordura com um olho perdido na
imensidão mole e oscilante. Uma ria muito, muito, muito, e abanava os braços. A
outra estava tão quieta, que parecia morta. Havia também um homem: sentado e
absorto dedilhando os testículos. A que estava sentada ao meu lado tinha um
rosto hediondo e indecifrável e um hálito apodrecido: como se tivesse um
cadáver debaixo da língua. Eu tentava sair daquela sala, tentava falar,
gesticular, pedir socorro. Cheguei a dizer, com esperança que me expulsassem:
“odeio-vos”, “detesto-vos”. Espetei uma unha na testa da da cara a perder de
vista. Nada. Disse à do hálito fétido: “metes-me nojo!” Nada. A dos quatro
olhos, tinha dois cravados nos testículos do homem. Os outros dois dormiam. A
que estava quieta caiu no chão. Estava morta. Mesmo. A dos cornos levantou-se e
pisou-me de forma horrenda: fazendo saltar os seus dois pés sobre os meus. Abri
a boca, mas não gritei. O tempo tinha acabado, deixando o som do meu grito fora
do meu pesadelo.
Era aqui que eu devia ter
acordado. Era aqui que eu devia ter aberto os olhos e visto a normalidade
habitual: expectável. Era aqui que eu devia ter saído definitivamente daquele
sítio mal frequentado. Mas não. Era dia. Era verdade. Aquela gente é a gente
que eu conheço. Tal e qual. O habitual. O como sempre. Eu estava /estou aqui
mesmo. É este o cheiro quotidiano de todos os dias. A gente grotesca = normal.
Tudo. Desde o excesso de olhos ao excesso de cara. Desde o excesso de fealdade
ao excesso de muita fealdade. E a burrice? A burrice está mesmo aqui ao lado.
Lambendo os beiços. Bebendo café.
Ninguém vai sair desta sala
horrenda. Estamos habituados uns aos outros. Somos espectadores uns dos outros.
Ninguém prescinde de ninguém. Daqui a nada, uma jumenta, quadrúpede mesmo, vai
dizer: “Podemos começar?” E começamos a falar. A empestar o espaço com
palavras. Quando o expediente terminar, vamos sair do sítio medonho, com a
certeza que no mundo há alguém que não nos suporta. Não nos respeita. Que nos
humilha. Que nos ouve, só para mostrar que não nos ouve. Que nos arrancará os
olhos as vezes que forem necessárias. E nos arrancará cabelos e, pior, nos
encherá de perdigotos. Alguém que não hesitará em atacar-nos as canelas ou até
a barriga das pernas. Alguém que terá prazer em morder-nos a ponta do nariz e
em espetar-nos uma faca metafórica (e não só) nas costas (ou noutro sítio
qualquer). Alguém que, quando ri, é para rir de nós. Alguém que nos quer encher
a barriga de nomes. Podemos contar sempre com esse alguém. Esse alguém e outros
alguéns, companheiros dedicados de gigantescas orgias de ódio. As personagens
fixas dos meus pesadelos quotidianos: dia após dia lá estão, sempre,
infatigáveis e um nadinha mais velhos e mais flácidos e mais repulsivos: medonhos!
PS: Este ano juntou-se à
comunidade um jumento obeso, muito dado à electricidade estática no traseiro,
quando em contacto com cadeiras de plástico. É um pirilampo gigante, embora
seja minúsculo, especialmente na área da cabeça. Pior: é viciado em
confidencialidade. Olha quem! Mais viciado que ele só o Correio da Manhã. Pobre
jerico!
«Ande junte-se aqui, puxe da
cadeira, sente-se, para ver como lhe tratamos da confidencialidade e do resto…».
