Wednesday, July 22, 2015

In Search of Lost Time



Acabei de comprar este romance em 7 volumes. Eu tinha de o ler...

«For a long time I used to go to bed early. Sometimes, when I had put out my candle, my eyes would close so quickly that I had not even time to say "I'm going to sleep". And half na hour later the thought that it was time to go to sleep would awaken me (...)».

Já estou a adorar. Proust vai contar-me histórias  - muitas - durante sete longos volumes. Vai fazer-me companhia, dialogar comigo, ensinar-me coisas, mostrar-me o seu tempo... quem sabe até consolar-me, dizer-me "pssst", fazer-me rir...

Time to put out my candle and hope my eyes close quickly!
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Sunday, June 21, 2015

Ao serão


 
EU: Há que tempos que não nos falávamos!

OUTRO: Então, que contas? Espero que tenhas algo digno de interrompermos este longo – e apreciado – silêncio.

EU: Tenho, pois. Eu tenho sempre coisas para dizer, como sabes.

OUTRO: Vais falar d….

EU: De beijos…

OUTRO: … Mas pensava que andavas sombria e acabrunhada…

EU: Sim… mas vou falar de beijos de forma sombria e acabrunhante..

OUTRO: Ó/Oh os beijos, os beijos são como cerejas…

EU: Eu gosto mais de cerejas, embora não goste de cerejas… mas são um fruto bonito … é como os morangos…

OUTRO: Mas falemos de beijos…

EU: Vi no canal Q…

OUTRO: Quê?

EU: Sim. Um bacoco, um palerma falava de beijos como se fosse especialista, DOS GRANDES, na matéria…

OUTRO: E não era DOS GRANDES?

EU: Não!

OUTRO: Mas deu sugestões para bem beijar?

EU: Deu: não se deve ter bróculos agarrados aos dentes quando se beija…

OUTRO: Hein?

EU: Mas também não se deve escovar os dentes de forma a ter sangue gengival quando se beija.

OUTRO: argh!

EU: Disse que não se deve explorar a boca do parceiro a ponto de lhe arrancar a placa, caso ele a tenha.

OUTRO: !?

Eu: Disse ainda que o beijo envolve os lábios, a língua, os dentes e até um dedo…

OUTRO: Um dedo?

EU: Um dedo! Para meter na boca, para pressionar. Ele diz que é erótico.

OUTRO: Extraordinário!!

EU: E que não se deve pensar no IRS quando se beija…

OUTRO: Mas ele não disse nada de poética, por Deus… estamos a falar de beijos…

EU: Ele falou na bela dança das línguas. Achas poético?

OUTRO: Não, credo!

EU: Então não disse nada de poético.

OUTRO: E que mais disse o especialista?

EU: Que no dia anterior tinha comido lulas e no outro tinha comido rojões…

OUTRO: Mas… porquê??

EU: Para concluir que os dentes não servem só para trincar rojões!

OUTRO: Para que mais servem os dentes, então?

EU: Para mordiscar os lábios…

OUTRO: Ah!

Friday, June 05, 2015

What Kind Of Man - Lyrics - Florence The Machine





A sarna dos dias não me deixa tempo... Hoje vegeto e espero pelo carteiro, entre outras coisas. O dia ainda está longe da noite sempre boa e misericordiosa. Ligo a televisão... TVI, programa da manhã. Falou aquele pobre tonto, o messias das coisas vagas. O outro, o vulgarólogo tonitruante, fala e gosta de se ouvir. Diz ele: «para mim...» Cloaca! Para ele! Ele é uma pessoa que tem um bom ordenado. Não tem mais nada. No entretanto, eu, que tenho a sensibilidade de um tronco de azinheira, dou por mim a ser a pessoa mais sensível que conheço. Mas eu conheço pouca gente. Fe liz men te!

Jorge Jesus abandonou o Benfica... Até que enfim: uma tragédia mesmo. À séria. 

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Friday, April 03, 2015

Os Canibais



Não sou admiradora do cinema de Manoel Oliveira. Compreendo a sua assinatura única, a originalidade, o estranhamento. Enfim, aquelas coisa que se associam a cinema “highbrow”, a literatura “highbrow”, a cultura “highbrow”, etc. No que respeita à literatura, porém, como gosto mais de palavras do que de imagens, consigo “sofrer” a leitura de certos livros – impenetráveis (chatos!) - até ao fim. Tal não acontece, contudo, em relação ao cinema. Para mim, cinema é sobretudo entretenimento. Do cinema, quero emoções fortes: riso e/ou emoção. Não quero estar encerrada numa sala claustrofóbica a admirar, em silêncio, imagens lentas, perturbadas apenas por falas curtas proferidas por personagens estátua. É esta, aliás, a memória que me ocorre, quando recordo a visualização de “Francisca”, em Coimbra, no Gil Vicente.

Tínhamos ido ao cinema, eu a E e o C, instados pela F, grande leitora dos Cahiers du Cinema e espectadora de festivais de cinema de autor. Lá fomos, também, devido ao facto de a mulher de um nosso professor fazer parte do elenco. Éramos todos estudantes universitários na plateia – embora não parecêssemos. Lembro-me de ouvir risos e alguns impropérios, do tipo: não há pachorra! Lembro-me, também, de ver uma das personagens, no grande ecrã, a segurar um coração de carne e lembro, ainda, o barulho de passos a abandonar a sala. Isto tudo antes de adormecer no ombro do C. O nosso grupo tinha decidido que permaneceria até ao fim, e assim foi, para não sermos alvo da ira da F, como tinha acontecido com o filme “Os abismos da meia-noite”. Acabou por não ser uma má noite de cinema, embora nenhum de nós soubesse dizer porquê. A F, satisfeita com a nossa “envergadura intelectual”, tomou o nosso mutismo por admiração e fez o favor de nos explicar todo o simbolismo da história. Ficámos agradecidos.

Um dia, porém, já na Covilhã, apanhei na televisão o filme “Os Canibais”, um dos filmes da minha vida. Inexplicavelmente, hoje, nos artigos sobre a morte do cineasta, só li uma pequena referência a este filme. Será demasiado comercial? Talvez. Pessoalmente, acho-o grandioso, desconcertante, mais: humorístico. Se me dissessem que daria uma gargalhada num filme de Oliveira, não acreditaria. Depois, aquele homem que se desconjunta, cada parte do corpo para seu lado, faz-me lembrar o conto de Poe, “The man who was used up”. Aliás, aprecio bem mais os contos “witty” de Poe, do que os de terror, embora goste de “The black cat”. O final de “Os Canibais”, por sua vez, é igualmente inesquecível: se bem me lembro (má escolha de palavras), pessoas com cabeças de animais rodopiam em torno de um lago em frente de uma casa antiga, belíssima. “Os Canibais”, numa palavra, ou duas/ou pouco mais? Uma obra de arte preciosíssima!

Para mim, Oliveira é o realizador desse filme. É também um modelo de uma vida bem vivida e longa. Uma vida invejável, no bom sentido. Até na morte, não estando, que se saiba, debilitado durante muito tempo a sofrer, pode dizer-se que foi vitorioso: o coração, certamente cansado, limitou-se a parar.

 RIP

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Tuesday, March 24, 2015

Morreu Herberto Helder

 

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gentes de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera de seu tempo e do seu precipício
 (…)
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
 (…)

Mário Cesariny


São assim, como as "descreve" Cesariny - penso - as PALAVRAS dos poemas de Herberto Helder. Não percebo nada do que ele escreve. O que me faz ler os seus poemas? A beleza pura das suas palavras, as associações desconcertantes - e desconcertantemente belas - que faz. Fico sempre apenas à superfície dos textos de HH. Não tenho peso interpretativo para os aprofundar e me afundar neles. Navego neles, apenas. Não sou leitora, pois. Apenas navego na superfície dos seus textos.
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Friday, March 20, 2015

Accentus Samuel Barber Agnus Dei





Lindo!

Para o meu paizinho... com um beijo!

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Wednesday, March 18, 2015

Dormir antes de morrer


«Os doentes em estado “grave e incurável” vão poder pedir em França uma “sedação profunda e contínua” que se prolongue até à morte. A lei que o prevê foi esta terça-feira aprovada por larga maioria, pela Assembleia Nacional. É uma forma de responder ao desejo de muitos pacientes em fim de vida, contornando o sensível debate sobre a eutanásia.

A nova lei abre a porta à inédita possibilidade de “dormir antes de morrer para não sofrer” – nas palavras de um dos autores da lei, Jean Leonetti, médico e deputado da UMP, oposição de direita. O outro, o socialista Alain Claeys, destaca a vantagem de permitir aos doentes um fim de vida “tranquilo e sem dor”.»
Público, 18-03-2015
O medo de morrer e a vida como missão sagrada são o inferno terreno! Tenho que "viver até morrer?" Porque os outros querem??
Na cidade das luzes vai-se fazendo luz! Mais uma vez.
Vive la France!!!
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Thursday, March 05, 2015

... a olhar para um palácio


Georges Lemaître para explicar que o Universo teve um início: «Houve um dia em que não houve ontem.»
No Público, que hoje faz 25 anos: parabéns!

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Tuesday, February 24, 2015

O triunfo dos suínos


Insone e irritadíssima, incapaz de tirar da minha mente o cavaleiro (aliás, burreiro) da triste figura, tenho que vir ventilar a fúria para o grande nada! Discutem-se estratégias (!!!) e o belzeburro mal consegue erguer as pestanas. Discutem-se assuntos sérios (mais ou menos) e o cabisbruto, de beiça descaída e olho revirante, luta (mas pouco) para fazer de conta que não está a dormir. Finalmente, dorme mesmo, à mesa de trabalho (na "runião"), enquanto a discussão seríssima continua. Bem se berra, mas o destrambelhado está ferrado no sono e não há nada que o acorde. Ali fica, em torno da mesa redonda (quadrada, aliás), vermelhusco, beiçudo e de tromba descaída!!! Pudera, com a soneira que tem nos cornos! E assim passa o tempo, o tarata: come (atafulha-se de comida, melhor dizendo), devora bananas para armazenar potássio (muito se preocupa com as "juntas" das pernas), faz jogos no computador, vai ao "face" (dizer facebook é um esforço que está para além da sua debilitada língua!) e fala com quem calha, atroando tudo num raio de uns 500 km (sem exagero!). O fuinha só tem força na voz...quando está acordado, claro! Não se pense, contudo, que ele não acorda aí umas três vezes ao dia (as necessárias para se empanturrar). Entro e saio, saio e entro, passam os dias, as semanas e até os meses, e ele para ali está indolente, ocioso, embrutecido, enfim: esparramorto!

Este desabafo teve o gentil patrocínio de Mia Couto (embora ele não o saiba).
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Friday, February 06, 2015

A igreja estava toda iluminada




Tive, ontem, uma noite de agitadíssimas aventuras! Não foi por falta de merecimento, posto que aqui há noites sofri um atrocíssimo revés, quando me aterrou em pleno sonho uma criatura medonha vinda directamente da realidade. E em figura de gente (triste figura, claro), com a sua própria tromba e corpo. Até a roupa. Não tivesse eu fugido esbaforida de tal estafermo e poderia sentir, até, o seu cheiro característico: um ranço nojentíssimo, misto de sudorese e mau hálito. 

Bem, mas ontem foi uma maravilha. Tive uma noite prodigiosa. Atentem! Andava eu deambulando por uma rua ladeada de moradias lindíssimas, quando avisto uma em que já estive e à qual desejo voltar. Fico, então, junto à porta, na tentativa de me lembrar de uma desculpa suficientemente boa para que a dona me deixe lá entrar. Mas nada! Claro que ainda espero que a porta se abra, como é suposto as portas fazerem nos sonhos, para que eu possa simplesmente entrar. Mas esta é uma porta surda, que não liga nada à minha agitação ansiosa. Nisto, vejo um homem muito pálido, com ar de quem não está nada bem e vejo, também, uma cadeira de rodas. Não hesitei. Coloquei o homem na cadeira e fui em correria, com o homem aos guinchos, bater à porta da casa linda e hipnótica, implorando que me deixassem entrar para acolher aquela pobre alma em sofrimento, nosso irmão na fé. A senhora, muito aristocrática e de nariz franzido disse que não acolhia enfermos, que me dirigisse ao hospital. «Mas» disse eu, vislumbrando o corredor magnífico, «somos todos filhos de Deus, etc.». Ao que ela respondeu, peremptória: «o meu pai é o Sr. Nogueira». E bateu com a porta.  

Ora, de um momento para o outro, não só me vejo impedida de fazer o que queria, como me vejo a braços com um enfermo, cada vez mais pálido, amarelo até e, já agora, esverdeado em certas partes, que não interessa aqui mencionar. «Esta não será uma noite de visitação de casas», pensei, «vejamos o que me espera». E decidi passear o achacado, na esperança de que o ar fresco lhe fizesse bem. Porém, vendo-o com a cabeça muito inclinada, temi o pior e estava certa: o homem tinha falecido. Dirigi-me em correria, de cadeira de rodas em punho, para a casa, esperando que a dona não negasse a entrada a um defunto. Em vão. A senhora, nada caridosa, nem uma palavra me disse. Fiquei, claro, muito abatida e sem saber o que fazer. É então que passa um carro da polícia anunciando fazer coisas terríveis ao defunto, caso este não se casasse de imediato. Eu ainda gritei para o carro, «mas ele faleceu, espero que esteja perdoado». E responde a polícia, ao longe, mas de forma vigorosa, «só o casamento o livra». «Ele há coisas» pensei, «que mundo é este que não dá sequer paz a quem já partiu?» Dirigi-me então a uma igreja em forma de carro, com guiador e tudo, e contraí núpcias com o jazente. O padre, comovido com a minha atitude, disse-me de forma solene: «já o podes enterrar, irmã». Pois que mais podia eu fazer? E dirigi-me para o banco da frente, posto que nos tínhamos casado no banco de trás, para me dirigir a uma funerária. Nisto, passa o carro da polícia e eu gritei-lhes: «casado e bem casado!» E eles foram para outra freguesia. Com ternura súbita, deitei um olhar meigo ao meu defunto marido, estirado no banco traseiro, e vi como eram azuis e espantados e aterrorizados e cada vez mais abertos os seus olhos. «Quem és tu?», ouvi incrédula. «Sou a tua legítima esposa». «Esposa???». «Sim, esposa. Honrei-te e livrei-te de veres o sol aos quadradinhos, fica sabendo.», «Mas eu não te amo!», «Ora essa, és muito esquisito, para quem já está morto… e azulado!», «Morto? Desde quando é que os mortos falam?», «Isso te pergunto eu, ingrato!», «Ingrato? Fora eu ingrato e uma mulher como tu não poderia gabar-se de ter um marido como eu!», «Uma mulher como eu? Como te atreves?», «Atrevendo-me… antes a morte que tal sorte!». E expirou ruidosamente, mas com alívio. Nunca me senti tão humilhada na minha vida: ser esnobada, como dizem os brasileiros, por um moribundo! Conduzi, então, o carro igreja rapidamente para a mortuária, onde deixei o ingrato defunto para ir a enterrar. Não iria acompanhá-lo, pensei, nem me vestiria de preto. Foi então, enquanto encomendava uma urna de pinho, do mais barato, que tive uma ideia brilhante. Iria novamente bater à porta daquela casa. Agora, como viúva, em sofrimento. Aliás, com o marido morto logo depois da cerimónia. Aliás, antes mesmo da cerimónia. Quem negaria uma palavra de conforto e um chá, uma cama, uma estadia de uma semana (ou mais), a uma mulher assim, como eu?  «Pinho, mas do mais caro, se faz favor, e um raminho de crisântemos amarelos». E chorei um bocadinho. A alegria antecipada da permanência na casa tornou-me generosa. E, de negro, acompanhei, até ao fim, as exequiazinhas. RIP  
Imagem:IngeSchuster, https://x.com/literatura_rte/status/1756245188165414963?lang=ar, consultado em 24 de Abril, 2024
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Friday, January 23, 2015

The Walking Dead - Main Title Theme Song





Voltam em Fevereiro! Mal posso esperar...

Música linda! História... não interessa a história! Interessa o corte com a realidade imediata. A fuga que possibilita.  No YouTube discute-se a falta de coerência das histórias, etc. Pobres tontos. Arrastam-se incoerentes pela vida, mas querem coerência na ficção, querem encontrar a lógica num produto de entretenimento. Pessoalmente, só quero que Daryl não morra, que a série não termine, que todas as semanas me seja concedido o privilégio de ter esta gente toda, mortos e vivos, em correria pelo escuro do meu quarto.

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Monday, January 19, 2015

Gavin Bryars - Jesus' blood never failed me yet






Público 19- 01-2015




«“Se é mulher e não procura a felicidade, nem amorosa, sexo ou esperança, se apenas deseja morrer, mas não em solidão, ligue-me.” O anúncio vinha num jornal e saltou à vista do sociólogo José Machado Pais. O professor universitário levou um dos seus temas de eleição, a solidão, à iniciativa Escutar a Cidade, que arrancou na quinta-feira em Lisboa e se prolonga até Junho. A ideia é que não crentes digam o que esperam da comunidade cristã. José Machado Pais falou da sua solidão, da dos outros e recuperou a história da amizade que fez com um sem-abrigo. “Não se deixa um amigo na rua”, contou.

A música Jesus' Blood Never Failed Me Yet, no começo, enche a sala, a pedido do antropólogo, teólogo e compositor Alfredo Teixeira. Uma peça musical criada pelo contrabaixista Gavin Bryars, que fez um arranjo a partir da voz de um sem-abrigo. Na versão que se ouve no encontro junta-se a de Tom Waits.
“A voz não vem de um concurso de talentos, não corresponde aos estereótipos comerciais nem aos padrões de beleza mais reconhecidos. O paradoxo de uma voz banal, frágil, que transporta uma narrativa cristã de confiança”, diz Alfredo Teixeira acerca deste “canto que vem da rua, mantido na sua crueza”. Uma voz anónima que não chegou a ouvir a música criada. Quando Gavin Bryars procurou aquele homem, já tinha morrido.»







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Friday, January 02, 2015

2015



 
O medo vai ter tudo

pernas

ambulâncias

e o luxo blindado

de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém o veja

mãozinhas cautelosas

enredos quase inocentes

ouvidos não só nas paredes

mas também no chão

no tecto

no murmúrio dos esgotos

e talvez até (cautela!)

ouvidos nos teus ouvidos

 

O medo vai ter tudo

fantasmas na ópera

sessões contínuas de espiritismo

milagres

cortejos

frases corajosas

meninas exemplares

seguras casas de penhor

maliciosas casas de passe

conferências várias

congressos muitos

óptimos empregos

poemas originais

e poemas como este

projectos altamente porcos

heróis

(o medo vai ter heróis!)

costureiras reais e irreais

operários

(assim assim)

escriturários

(muitos)

intelectuais

(o que se sabe)

a tua voz talvez

talvez a minha

com a certeza a deles

 

Vai ter capitais

países

suspeitas como toda a gente

muitíssimos amigos

beijos

namorados esverdeados

amantes silenciosos

ardentes

e angustiados

 

Ah o medo vai ter tudo

tudo

(Penso no que o medo vai ter

e tenho medo

que é justamente

o que o medo quer)

 

O medo vai ter tudo

quase tudo

e cada um por seu caminho

havemos todos de chegar

quase todos

a ratos

 

Alexandre O'Neill
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Wednesday, December 24, 2014

Happy Xmas



Para quem tiver saudades minhas, deixo a minha foto a preto e branco (que me favorece tanto, nesta altura avelhentada da minha vida. Ser velha até não é mau, não fossem, claro, o duplo queixo e as rugas!)
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Ortodoxia russa


São padres ortodoxos russos. Aqueles que pensam que eu dei em ver homens lindos em poses sugestivas, para mais na época natalícia, desenganem-se. Eu sou uma mocinha incapaz de olhar para um homem - ou até dois - lindo (s)!
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Friday, November 28, 2014

...com amizade


Abro os jornais e recebo a notícia de dois conhecidos que morreram.
O Eng. Sousa Veloso, uma memória da infância, não totalmente agradável. Recordo que antes da tarde de cinema, tínhamos de ver o TV Rural e um outro programa de ranchos. Enfim, uma tortura para uma criança, que queria ver filmes e desenhos animados. Mas recordo o sorriso do engenheiro, a cara simpática, que se despedia sempre com amizade. Devolvo a amizade que sinto por si, agora que se despediu, para sempre, de todos os que o admiram.
Morreu também, aos 94 anos, a escritora de policiais P. D. James. O último livro que li dela foi Morte Em Pemberley. Eu não poderia perder a oportunidade de reencontrar Mr. Darcy - e pensar no Colin Firth - neste seu romance. Voltar ao universo de Jane Austen é um privilégio que não se pode perder NUNCA. Porém, para mim, PD James é a escritora genial de "O Cadáver sem Mãos". Porque é que o cadáver não tinha mãos? Quem lhe as cortou e porquê? Não interessa. Interessa é o universo claustrofóbico criado, a hora do chá tomado com fleuma britânica na casa dos habitantes daquele lugar. Interessa é sentir que, quando abrimos o romance, somos também personagens daquela história fantástica. Quase me vejo a deambular pela costa agreste daquela aldeia, junto às campas de náufragos desconhecidos. Quase sinto o salitre do mar e oiço o estampido agreste das ondas e o seu estilhaçar na areia. Se eu pudesse entrar num livro e ficar fechada nas suas páginas, como o outro que entrou num quadro e ficou lá...
Vão partindo aqueles que acrescentaram felicidade aos meus dias. Deles fica a saudade imensa.  
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Friday, October 31, 2014

Tratamentos...



Diz Goucha, que não gosta de ser tratado por senhor - e faz bem -, para apresentar um convidado do seu programa: vou trata-lo por Sr. Professor, porque é professor catedrático (!?).
As pessoas não sabem como hão-de tratar os professores...! O título de professor está tão contaminado, tão poluído, porque se aplica a todos os professor(zecos), não catedráticos, que há que referir a cátedra!  Menos sorte teve no outro dia outra professora catedrática - a minha querida Laura Laura - que foi tratada de formas tão variadas por parte de Fátima Lopes, que acabou por dizer: Trate-me por Laura. Claro que Fátima Lopes não teve qualquer espasmo linguístico a propósito da forma de tratar o médico que acompanhava a excelente - e queridíssima - Professora Doutora Laura X (a minha "ídola" Laura Laura, que falou com sensibilidade e bom senso sobre a eutanásia).

Wednesday, August 20, 2014

Too sexy for my camera




Eu estava só a ensaiar a pose para a fotografia... Nabaaaa!

Thursday, August 14, 2014

Mr Darcyyyy



Mr Darcy, my love, this summer is so cold, but you are so hot.....

Tuesday, August 12, 2014

Morrer


 
Morreu o padre espanhol que ajudava os doentes com o vírus ébola. Morreu uma freira também. O homicida que matou o "português suave" que viajou para Inglaterra à procura de trabalho - figura comovente, como disse o juiz - foi condenado! Morreu o casal polaco, nas arribas de Sintra, perante o olhar dos filhos... E morreu Robin Williams, o actor excelentíssimo, aos 63 anos de idade.

 Nesta voragem da morte, no entanto, e no meu pesar e desejo que todos descansem em paz, não consigo deixar de sentir uma tristeza particular pela figura do português, frágil, em Inglaterra. A chegada ao aeroporto, sem que alguém o esperasse, como prometera. O deambular por sítios onde não podia estar. O ser encaminhado para um abrigo, no qual, por sobrelotação, não pode passar a noite. Depois, os minutos de solidão, que a câmara filmou, enquanto decidia para onde ir, na noite fria de Londres. Depois, os bares?, o álcool e, finalmente, o encontro com aquele que o mataria sem piedade, porque sim, porque podia. Acrescenta o tribunal, que, à laia de troféu, o filmou e fotografou, em agonia. Fim de história, para o português em Londres.