Wednesday, March 20, 2013

Tuesday, March 19, 2013

A espuma dos dias


Terminou um projecto de seis anos. Um período de histórias com personagens, espaço, tempo, estilo e perspectiva. Não houve bons e maus. Ninguém foi bom. Foi uma narrativa de maus e menos maus. Egos. Narcisos algo decadentes...
Uma história dos tempos que correm. Fragmentos. Disseram-me que sou intimidante. Foi seguramente dos poucos elogios que recebi. Houve laços que nunca se quebraram. Pelo contrário. Agora acabou. Não ficou saudade de quase nada. Ontem, ouvi o som de uma voz que não era suposto estar já naquele sítio.  As personagens ainda não chegaram ao fim das páginas, mas a palavra FIM já está escrita. Acabou. Sem saudades. Sem nada. Não tarda e até as vozes, que se tornaram estranhas, deixarão de se ouvir. Paz às nossas almas!
Algures, já se prepara uma nova história de desamor. I'm ready.

Tuesday, March 05, 2013

A viagem




Abri a porta e saí para a rua. Estava na hora de iniciar a minha viagem. Não era apenas uma deambulação, como tantas vezes faço. Era uma viagem. A comprová-lo, bastaria ver a mala sem rodas que pendia da minha mão. Mala vazia, claro, porque o peso tiraria todo o prazer e leveza da minha viagem nocturna, a pé, pela linha escura do horizonte.

Teria que atravessar uma série de campos profusamente cultivados: milho, morangos, couves, pimentos, etc.. Tudo muito verde e colorido, embora, no escuro da noite, não se pudesse apreciar devidamente, claro, nem o verde nem o colorido. E lá seguia eu, no meio das couves, em direcção ao meu destino, esperando que ele não tivesse mudado de lugar. É este, aliás, o único inconveniente dos sonhos, nunca se sabe bem o ponto de chegada. Mas também não interessa. Interessa, isso sim, evitar a luz do dia. A todo o custo!

O dia é o palco da realidade e esta é sempre de evitar. Especialmente a última moda em realidade. Não sei se acontece só comigo, mas a minha realidade anda cheia de gente apodrecida, gangrenada. Não vejo ninguém com boas cores. É só gente meio podre ou completamente podre. E gente muito velha e triste. E jovens. Mas os jovens também estão apodrecidos, embora não o saibam, porque se vêem muito ao espelho e o espelho lhes diz que eles são os jovens mais belos de sempre. E eles acreditam. Interrupção. Um momento. Só os morangos negros claros, do campo cultivado da minha noite de viagem, conseguem afastar os meus pensamentos da realidade insalubre da luz do dia.

Mais uns passos e cheguei. Está tudo no lugar: árvores enormes, com candeeiros de luz amarela no meio delas. E uma cerca em torno de um bosque ali perto. Que beleza! Não pensei que conseguisse vir duas vezes a este sítio. Mas consegui. Poderia voltar para trás, para casa, fazendo a viagem de regresso. Mas há um portão aberto na cerca do bosque. Entro. Sinto, então, que o dia está para amanhecer, juntamente com as pessoas e as suas coisas. Há casas ao longe. Há fumo a sair das chaminés. Adivinha-se movimento, vozes, bulício: tudo coisas a evitar! Ainda tento sair do bosque, mas o portão da cerca já está fechado. Procuro, então, uma árvore grande que me proteja e a minha mala abre-se para me esconder. É uma mala enorme. Quem diria? É confortável. Toda forrada de cetim branco. Há até algumas flores em meu redor. Mantenho-me quieta, deitada, as mãos sobre o peito e os olhos fechados. Descanso.

Sei que à hora do cair da noite, quando os monstros apodrecidos recolherem às suas casas e desocuparem as ruas, a mala vai abrir-se novamente, para eu continuar a minha viagem.

(continua, talvez)    
https://wall.alphacoders.com/big.php?i=1364036, consultado em 15 de Março, 2026

Saturday, March 02, 2013

Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena



Queridos defuntos, paizinho, 'vózinhas, tiozinhos, tia Maria, todos... desculpem a barulheira, desculpem dirigir-me a vós e perturbar o vosso descanso, mas está na hora de cantarmos todos a Grândola e dizer: que se lixe a troika!!

Wednesday, February 20, 2013

Coisas



«UMA VERDADE ABSOLUTA….Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal … e isso é precisamente a velhice.»

Sándor Márai, in ‘As Velas Ardem Até ao Fim

Tuesday, February 19, 2013

Velhos






A política anda horrorizada com os velhos... a política não sabe, de momento, o que fazer com o país, posto que anda ocupada com a economia... o que não tem nada a ver.
Os velhos são feios. Adoecem. Tomam medicamentos. Recebem reformas. Fazem despesa. Tiram o lugar/ emprego aos mais novos. Respiram. São, muitas vezes, dependentes. Não produzem. Vivem de mais!

O blogue A Educação do Meu Umbigo fez um "post", aliás mais do que um,  sobre os velhos. Parece que um jovem político resumiu a velhice a " peste grisalha", mais coisa, menos coisa. Muitos foram os que comentaram. Deixo aqui o comentário do Farpas, uma daquelas pessoas de quem me orgulho de ser colega (passo a imodéstia).

« (as razões pela quais os governantes "não podem com os velhos") Antes de mais, porque na sua visão da realidade social e económica só há lugar para os jovens empreendedores, que fazem da sua própria vida um empreendimento, que gerem a sua existência pelas leis e expectativas do mercado – o homo economicus, figura suprema, fetichizada do neoliberalismo -, quais bestas céleres para as quais não há lugar para o que não seja útil ou rendível.

Depois, porque na sua mundividência, na sua perspectiva cultural e de vida, só há lugar para o culto do “juvenilismo”, para a eterna juventude do receituário politicamente correcto – vida plastificada e alienada pelo reino da aparência e do investimento narcísico -, em que o envelhecimento, o sofrimento e a morte são vistos com o horror do absolutamente estranho, e não como referenciais de sentido da vida humana, onde o homem se reconhece e se mede a si mesmo no confronto com os seus limites.»

Farpas, Educação do Meu Umbigo, 18 de Fevereiro

Thursday, February 14, 2013

Amor é...

 
...não chatear o outro.

Monday, February 11, 2013

Monotonia



Às vezes, está só uma pessoa na sala e inicia-se uma conversa. No outro dia, fiquei só com uma pessoa na sala e teve início a seguinte conversa.

Pessoa: ( a fazer ruídos com a boca)

Eu: A sala está tão cheia que não se cabe cá…

Pessoa: ( a olhar em redor, como se lhe tivesse escapado alguma coisa)

Eu: Não vamos fazer nada… não há condições.

Pessoa: É uma falta de condições… ainda ontem… queria dormir e não conseguia (abana a cabeça de olhos em alto)

Eu:  Assim não se pode trabalhar…

Pessoa: Nem trabalhar, nem dormir, nem comer… (torce o lábio e o nariz)

Eu: Fazemos a ficha no próximo dia, quando estiver mais gente…

Pessoa: (olha para mim, para confirmar que eu era mesmo eu)

Eu: Conte-me coisas… como é que vai isso…

Pessoa: (faz esgares atrás de esgares)

Eu: Assim torna-se aborrecido…

Pessoa: O que vale é que está quase a acabar … ( olha para mim, como que a dizer, sabes bem do que estou a falar)

Eu: Há que ter calma.

Pessoa: Calma? Eu ando mesmo… mesmo… (respira fundíssimo) pfiuuuuuuu … se me vejo longe daqui…

Eu: Com o desemprego que para aqui vai…

Pessoa: Quem é bom tem sempre emprego… (olha para mim com ar de sábio, abanando a cabeça) sempre… acredite no que eu lhe digo…

Eu: Nos tempos que correm não é bem assim…

Pessoa: Para mim há sempre emprego… muitos não cortam árvores em ribanceiras. Eu corto em todo o lado…

Eu: Nas ribanceiras, é mais difícil…

Pessoa: Ná… parece! Quem sabe cortar árvores, tanto corta nas ribanceiras, como num sítio qualquer (põe a boca em O e fixa o olhar em mim).

Eu: Trabalho difícil… e perigoso…

Pessoa: Ná… só tem de se saber… ( abre a boca e fixa-me)

Eu: As motosserras são um equipamento perigoso…

Pessoa: É como tudo. Há que saber… eu agarro na motosserra sem problemas. Nunca tive problemas. (estica o dedo e abana a cabeça. Fixa-me)

Eu: Eu tenho medo de motosserras… e de electricidade…

Pessoa: Isso para mim não é nada (ri com leveza e abana a cabeça, sempre a olhar para mim)

Eu: É…

Pessoa: É como cortar oliveiras….

Eu: As oliveiras são frágeis… é preciso cuidado.

Pessoa: Nunca tive problemas com oliveiras! (vai abanando a cabeça e esticando o lábio, enquanto vai fechando os olhos para melhor marcar aquilo que diz)

Eu: Há muita gente que cai…das oliveiras…

Pessoa: Um dia, com um colega, fomos cortar oliveiras. Ele, mal subiu, caiu logo. Logo!  Zás!  Também lhe disse: bem te avisei. Não ouvem!  (gesticula largamente, para dar vivacidade à empolgante história)

Eu: Oliveiras…um perigo…

Pessoa: Eu nunca caí! (bate com a mão na mesa e põe a boca em O durante uns bons segundos)

Eu: Extraordinário!

Pessoa: É preciso saber subir à oliveira… nunca caí. Quer acreditar?

Eu: Acredito, pois!

Pessoa: Mas eu sei subir… (semicerra os olhos cheio de mistério)

Eu: … ( morta por saber como é que se sobe a uma oliveira, estico a cabeça e espero)

Pessoa: Eu… eu… quando subo à oliveira tiro os óculos e o casaco!! (olha para mim com um olhar de: toma, que já aprendeste! E estica de tal modo a cabeça, que parece uma tartaruga)

Eu: … os óculos?

Pessoa: Os óculos! Tiro-os.

Eu: … e o casaco?

Pessoa: E o casaco!

Eu: …

Pessoa: Nunca caí! ( e faz abundantes estalos com a boca)

 

Friday, January 25, 2013

A. R. Rocha


Paizinho... és lindo!!! Adoro-te!

Tuesday, January 15, 2013

O pensamento pronto a vestir e a sociedade da incultura

Este era um blogue para falar sobre a morte. Por isso mesmo, passei a falar também aqui da vida. Em Portugal, as pessoas ou estão mortas, ou moribundas ou a cuspir no túmulo dos privilegiados. Os poucos que estão vivos, espera-se que morram depressinha, porque um morto não adoece nem faz despesa. Isto é, este é um país death-friendly.
 
Um bom português é um português morto ou um português emigrado. Um mau português é  um funcionário público. Um português típico - tragicamente típico - é o português que vê quem está no poleiro, quem precisa de ir para o olho da rua, é o português que espuma de raiva contra a súcia da função pública. É aquele português a quem ninguém come as papas na cabeça, pois é muito esperto, claro. É o português cheio de razão, porque faz parte do grande rebanho que professa o pensamento único, sempre muito atento aos privilégios dos outros. É o português que gostaria de estar ainda na década de 60 ou por aí. Um tempo em que não havia  estes privilégios de acesso a saúde e educação, em que o povinho era ignaro e morria cedo, uma benção para o estado do défice público.
O programa do português de pensamento único é exterminar os funcionários públicos. Este português iletrado e inculto usa a cabeça apenas para usar chapéu. Raciocinar é uma função que está tolhida, substituída que foi, há muito,  pelo ódio aos privilegiados. É a emoção negativa, mesquinha, de quem só está bem quando os outros estão mal. O problema é que são mais que as mães, estes desiluminados. Não há pachorra para as suas lamúrias, as suas cassetes.
Desactivei os comentários...  Isto é um muro das lamentações? É! Mas das MINHAS lamentações. Não há traseiro para aguentar as lamentações dos outros, menos ainda para os aturar a desejarem, plácidos, que eu, privilegiada, seja colocada no desemprego, para aprender o que são necessidades.
O português tragicamente típico olha sempre para baixo. Quer sempre nivelar por baixo. Quer que os outros estejam abaixo de cão, para ele poder sentir-se ao nível de cão. A mais não almeja, diga-se.  É muito acomodado este português: desde que todos, ou, no mínimo, o maior número possível esteja mal, ele já está bem. Vejam só!! Para este português trágico o importante é desanimar a malta... ! Que pobreza!
E agora para algo completamente diferente. O Paulo Guinote hoje está com os grandes a discutir o país. Finalmente, senhores professores, temos um dos nossos a falar. E a falar bem, como seria de esperar de um homem culto, letrado, que escreve, raciocina, investiga, lê. Grande Paulo Guinote!! Se não fosse o alento que vou buscar ao "nosso umbigo", já tinha morrido de tédio, desespero, falta de paciência e outras maleitas avulsas, próprias de um mundo de faz de conta, onde se fala muito e se pensa pouco. Aliás, não se pensa nada!

Wednesday, January 09, 2013

Marilyn Manson - Sweet Dreams (lyrics)



Sem comentários.

50 000...



... precisam de sair. Não há lugar para eles. São "gorduras do estado". Precisam de ser lipoaspirados. São só 50 000, mais famílias, mais aqueles que dependem deles para trabalhar também, etc. A luz ao fundo do túnel já se começa a ver...

Wednesday, December 19, 2012

Led Zeppelin - Kashmir (Stereo)



Homens de cabelo comprido! Coisa mai linda!

Friday, December 07, 2012

Se o ridículo matasse...



O ridículo, a brincadeira (!?) matam mesmo.
Aquela enfermeira, vítima de uma dupla que se fez passar pela rainha de Inglaterra e pelo Príncipe Carlos, para obter informação sobre a Princesa Kate, morreu. A notícia surpreende-me enquanto corrigia potfólios. Fiquie indignada... Já tinha pensado no que terá sentido esta enfermeira ao ver-se exposta nesta farsa grosseira e grotesca. Pelos vistos, sentiu-se suficientemente mal para se suicidar...
É esta gente brincalhona que dá má fama à liberdade de expressão, ou melhor, àquilo que entendem ser liberdade de expressão, pois do que se trata verdadeiramente é falta de escrúpulos e de consideração pelo outro.
Senhora Enfermeira, a senhora não merecia isto! A senhora merecia continuar a fazer o seu trabalho, dignamente, sem ser importunada por estes caça-notícias acéfalos.
...

Wednesday, December 05, 2012

2012 12 03 O grupo GPS TVI



Parece-me que o vídeo não está nas melhores condições, mas ouve-se bem. Aqui fica, como testemunho de que algo morre todos os dias: a vergonha, a decência, etc. O que já há muito tempo está morto é o respeito pelos professores. Por esses nem já os sinos dobram!

Wednesday, November 21, 2012

2001 Gy Ligeti Requiem



Cinco horas a corrigir trabalhos e a ouvir o Requiem de vários músicos e chego a este!!
E de repente... passou-me a náusea profunda da presença obtusa dos outros...
De futuro, quando vier do dia, do barulho, da presença insuportável dos outros, que são ninguém, já tenho um novo Alguém: Ligeti!
Já posso, agora, desligar o computador e começar a noite... aquela parte do dia que é eu e aqueles que eu amo. Sem a náusea, o nojo, a repulsa infinta do outro!
Hoje durmo com Ligeti...

Wednesday, November 14, 2012

O teu bife é maior que o meu!!




Gosto de ler Paulo Rangel no jornal Público. Confesso, até já tenho tirado notas! Hoje, porém, leio e releio o seu artigo "Precisamos de discursos de complexidade" e fico na dúvida se este é um exercício de 'colossal' ironia.
Esclareço: a crónica de PR pretende fazer uma reflexão sobre duas intervenções desastradas, de duas figuras públicas, na televisão. Uma, Isabel Jonet, a outra, Mouraz Lopes.
Resumidamente - o resumo é meu - Isabel Jonet disse que se deve comer menos bifes, ou, se quiserem, actualizou a história do " se o povo não tem pão que coma brioche", mas ao contrário! Já Mouraz Ferreira diz ALEGADAMENTE que os magistrados têm de ser bem pagos, para não cederem a pressões, ou coisa que o valha.
Ora, se bem percebi, segundo os comentadores de um certo quadrante, a formulação feita pelas duas figuras terá sido "infeliz", mas, para Paulo Rangel, essa infelicidade, não ofusca a sua substância, que  é da ordem do complexo.  Diz ele e cito: «Os discursos de Mouraz Lopes e de Isabel Jonet são palavras de complexidade, qualquer que seja o juízo que sobre eles venha a emitir-se.»  Bem, mas onde está então o busílis destas palavras de complexidade?  Como é que um discurso complexo (apesar de infeliz, não esquecer) gera uma reação tão adversa por parte de quem o ouviu ou ouviu dizer?  Vejam a explicação de PR: «A sociedade mediática e a esfera das redes sociais... empurram-nos ... para o simplismo da argumentação, para a boçalidade da expressão... para a tentação populista da deturpação do sentido e do contexto. » Quer dizer, quem ouviu não percebeu que o discurso era complexo. Quem ouviu é boçal e contagia de boçalidade mesmo aqueles que não são de todo boçais! E é a boçalidade promovida pelos meios de comunicação que leva os ignaros a nada ou pouco compreender ou, pior, a compreender mal discursos complexos de formulação infeliz.  Ou seja, a responsabilidade das infelizes , porém complexas, palavras foi não de quem falou, mas de quem ouviu.
Mas, pode perguntar-se e eu respondo, como defende PR a complexidade das palavras de Jonet e Lopes? Dizendo «que são discursos contra corrente ... e, por isso, obrigam o ouvinte a parar para pensar.» Ah! Um momento, apesar dos pesares, o ouvinte ouve (claro!) as infelizes declarações e pára para pensar, dada a sua complexidade. Acontece é que o ouvinte desatou a vituperar Jonet e Lopes. Pelos vistos, nem parou, nem pensou... muito. O ouvinte tratou, sim,  de dizer cobras e lagartos das prestigiadas figuras e pediu, peticionou, até, a demissão de Jonet do Banco Alimentar contra a Pobreza.
Vejamos. Pedir a demissão de Jonet do Banco Alimentar é dar uma importância ao infeliz discurso ( eu prefiro dizer ao discurso descuidado, não pensado, fútil, ligeiro, imponderado), importância essa que ele manifestamente não tem. Aquilo, o discurso, pareceu-me uma conversa de tias, a falar dos pobrezinhos, coitadinhos,  que se habituaram a comer pão com fiambre e estão renitentes a voltar ao pão com manteiga, ou mesmo sem manteiga.
Não vejo neste discurso complexidade nenhuma. Todos os dias oiço discursos deste jaez, para, por exemplo, apontar o dedo aos que recebem o rendimento mínimo, MAS têm a lata de beber café e comer bolos nas esplanadas. Oiço também este tipo de complexidade discursiva (!), todos os dias, em conversas com colegas, do tipo, « já viram os telemóveis desta gente, que mal tem para comer?». Ou mesmo discursos da complexidade de um «eles não querem trabalho, querem é emprego», ou «querem é o subsídio de desemprego, porque trabalhar faz calos». Ora, eu também penso que neste momento de crise é preciso ajustar comportamentos. Há cuidados a ter. Mas falar como se o ideal fosse EMPOBRECER, não só não me parece complexo,  como me parece, outrossim,  paradoxal. Precisamos de empobrecer? Precisamos de ficar pobres? Não!! Precisamos de distribuir melhor os recursos económicos, precisamos de mudar comportamentos de consumo, para fazer face ao momento de crise, tendo em vista um regresso ao DESENVOLVIMENTO e à RIQUEZA!  Não será? Depois, pergunto: as pessoas precisam que lhes digam para não consumir, porque não há dinheiro? Afinal o consumo não tem vindo em decréscimo acelerado? Quem precisa que Isabel Jonet lhes diga, « não podemos comer sempre bifes»? Jonet que continue a fazer o bom trabalho que tem feito no Banco Alimentar contra a Pobreza, mas que se abstenha de falar perante as câmaras sem se preparar devidamente ... é que, do outro lado,  a "boçalidade do ouvinte" espreita!
Quanto a Lopes, pelos vistos a solução de Jonet - de não comer bifes - não se aplica. Ao que parece, e para continuar com a imagética alimentar (clép!),  os magistrados têm de continuar a ter dinheiro para a mercearia gourmet, caso contrário, podem cair ALEGADAMENTE em tentação.  Eu acredito - de parva que sou - que a maior parte dos magistrados, tal como os outros trabalhadores, aguentarão alguma austeridade e continuarão a ser íntegros. Não consta que a abstinência de bife cause acessos de falta de honestidade. Pelo menos àqueles que são e sempre foram honestos!
Gostava de terminar com uma citação de um excelente artigo, sobre ideologia, publicado há algum tempo, também, no Público. Mas o meu kindle ficou sem bateria! Recordo, porém, que nele se dizia que há alternativas à austeridade. Há, por exemplo, uma melhor distribuição da riqueza, para que, acrescento, todos possam comer, apesar da diferença das ementas e da qualidade da baixela.
 A frugalidade, a que Jonet faz apelo, é algo a que os pobres estão habituados. É certo que estavam a começar a desabituar-se, mas ainda não lhe perderam o jeito... infelizmente! Eu pergunto é se aqueles para quem a palavra frugalidade é quase um sinónimo de comer com elegância ( o contrário da forma alarve que os "pobres" têm de se empanturrar) estão preparados  para deixar a sua zona de conforto, isto é:
1- voltar à casa dos pais, porque não se conseguem alimentar por si
2- emigrar, sem rumo, sem certezas, para conseguir arranjar um emprego qualquer
3- ir à sopa dos pobres
4- dar água aos filhos, quando estes pedem pão (acontece na Grécia)
5- ir para a cama com fome (acontece em Portugal)
6- usufruir do Banco Alimentar, etc.
São apenas exemplos. Não quero puxar ao "ai coitadinhos, que somos tão desgraçadinhos", claro! Mas, com roupas de marca, casa elegante, nome sonante, berço, as necessidades básicas e as não básicas, as simbólicas, de cultura, por exemplo, satisfeitas, é fácil ter um discurso de complexidade. Embora de complexidade não tenha nada, pelo contrário. É o discurso do costume, a ideia muito complexa do «cada macaco no seu galho»!

Nota:  quem se interessar pelo conceito de pensamento complexo pode ler A Introdução ao pensamento complexo de Edgar Morin

Wednesday, October 10, 2012

Depois das sinistras reuniões...



Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

(Roubado ao Umbigo do Paulo)
Lá estava eu, na reunião, com duas participações de faltas disciplinares. No "no passa nada", que se vive um pouco por todo o lado, na negação das coisas, no ver normalidade em tudo, tudo compreender, a tudo se adaptar, é patético reclamar... dizer eu não acho isto normal, isto não está bem... enfim, não me adapto. E não mesmo!

Imagem do blogue sorriso digital

Friday, October 05, 2012

Margarida Marante


Morreu Margarida Marante!

 
Confesso que não apreciava muito o seu estilo de jornalista. Depois, no entanto, toda a segurança arrogante cedeu lugar a uma fragilidade emocional que coincidiu com uma transformação do seu corpo. De repente, MM tornou-se vulnerável...amável. Vou ter saudade da Margarida Marante que assustava os políticos. E saudade da Margarida dos últimos tempos...tão humana, tão como todos nós em tantos momentos da nossa vida.
 Num país em que as mulheres são supostas obedecer e ficarem no seu lugar, Margarida não só não obedeceu, como fez o seu lugar. É a essa Margarida poderosa, mas também humana e frágil, que envio um abraço de eterna saudade e reconhecimento pela MULHER  que ela foi e...será sempre!

Thursday, October 04, 2012

O Curral das Bestas




O Curral das Bestas é um romance de Magnus Mills, que fala precisamente de um par de bestas que de tão besta acaba por construir um curral e ficar lá dentro. Depois veio a polícia e as bestas foram dentro. Isto porque, de tão bestas, até tinham, sem querer (atente-se na veracidade deste sem querer), por matar alguns sujeitos. Já se sabe que besta que é besta está sempre sujeita a fazer uma série de coisas, quer querendo, quer não. Etc.
Porém, as bestas de que falo são a quelas com que me deparo. Há dias, já largos, começo a presenciar um desfile colossal de bestas. Besta gorda (com celulite, até), besta magra... Enfim! E penso, será que isto é moda, agora? Até porque algumas bestas (digo-o sem maldade) me diziam que não viam nada de anormal. "A coisa é assim mesmo....bestas? Cadê?". Até que leio no jornal que há manadas de bestas à solta na lezíria (?) de Idanha-a-Nova, bestas à solta, que até sobem as escadas de um certo castelo. Ora bem, com a minha capacidadae de raciocínio, vi logo que as bestas se tinham espalhado pelo país. Estava explicado! Mas, repare-se, MAS, falava-se aí de vacas, cavalos, bois, toiros - que tanbém os tenho visto, é certo, muita vaca, muito boi, muito burro, mas, repito, eu tenho visto também muito porco! Porco do tipo suíno. Como se explica isto? De onde vêm os porcos? Será do "Animal Farm"? Não será? Aviso: andam bestas à solta. Precatem-se!!!

(imagem do blogue sorriso virtual)