Monday, April 23, 2018

La vie



Os meus monos avariados (máquina de lavar e micro-ondas), depois de terem dormido 6ª feira, sábado e domingo em frente ao elevador, foram finalmente levados. Não pelo aldrabão que disse que os levava. Aliás, fez questão de dizer que os levava. Mais, ele até queria ir à Rádio Popular buscar a máquina de lavar (livrei-me de boa). Quem os levou foi o meu vizinho de cima, que tratou do trabalhinho em menos de 30min após eu lhe ter relatado o acontecido. Claro que a parva ainda agarrou no telemóvel para telefonar ao aldrabão, a dizer-lhe que não se preocupasse, pois o trabalhinho que ele estava mortinho por fazer já tinha sido feito. Mas como eu vinha de neura da cadeia - parece que um aluno disse que eu parecia um peixe morto, entre outras coisas desagradáveis -, resolvi telefonar da escola, pois pelo menos teria apoio moral. Chamei então um táxi para me transportar, porque eu não tenho vontade de me mexer (para não dizer que me doem os ossos todos, devido ao arredar de coisas em casa, incluindo a máquina de lavar, pesada com'ó raio), e reportei os acontecimentos ao taxista (abstive-me de contar os factos relativos à minha parecença com um peixe morto) e este deu-me uma boa ideia: «não lhe diga nada! Se ele lá aparecer, diga-lhe "o quê? Levaram a tralha? Mas não foi o senhor? Então quem terá sido? 'tá a brincar comigo!?" Ande goze com ele. Dar explicações!!!!!». Olha que boa ideia, pensei eu. E assim farei. Claro que a besta não deve cá voltar, o que é bom. Por outro lado, a pintura da minha casa já estava mais ou menos apalavrada com ele. Ou seja, vou ter de farejar (salvo seja e o mantenha bem longe do meu nariz) um novo pintor. Ou seja, tarde me verei livre de fungos, melgas e outras javardices pespegadas nas putas das paredes e tectos. A minha vida é cheia de aventuras vetustas e há quem tenha a ousadia de dizer que eu pareço um peixe morto! Espera, se eu fosse um peixe vivo, se calhar tinha a casa em condições ainda antes do término do passado milénio... hummmmmmm. Hein? 

Saturday, April 07, 2018

«O dia em que eu nasci...


moura e pereça...» etc. , como dizia o outro.

«The Remains of the Day», inesquecível!

Saturday, March 24, 2018

Noite de Vento


Fevereiro tinha apenas começado. Eu tinha tanto calor naquela sala sufocante. Abri um pouco a janela. Lá fora a noite era de chuva e de vento. Muito vento. Tirei uma fotografia e pensei que pelas dez horas, quando o dia acabasse, aquela noite, cheia de luzes ao longe, me faria bem. Iria ajudar-me, tirar-me o cansaço imenso, animar-me. Depois sentei-me e fui trabalhando devagar em frente ao computador. Por vezes tudo desaparecia da minha frente. Fechava, então, os olhos e colocava-me junto à fresta da janela aberta, para apanhar o vento na cara.
As dez horas aproximavam-se e ia ficando insegura. Se calhar, era melhor chamar um táxi. Se calhar não. Àquelas horas, estaria insuportavelmente quente e com um cheiro saturado de fim de dia. Iria a pé, pela noite ventosa. E saí. O primeiro impacto com o frio gélido fez-me sentir bem. Tentei caminhar depressa, tentando não cambalear. A meio do caminho, dei-me conta de como o chão estava incerto, torto, cheio de altos e baixos. Tive medo de cair. E o medo foi crescendo. Quando deixei os prédios para trás e fiquei sozinha no passeio torto, o vento quase me derrubou. Parei. Procurei um sítio a que me pudesse agarrar. Nada. Os candeeiros tinham as lâmpadas apagadas. Era uma escuridão completa. E o chão sempre incerto e o vento sempre forte. Pareceu-me que eu respirava de forma estranha. Mas podia ser o barulho da noite de tempestade. Aos poucos, a minha casa estava mais perto. Mas tinha de descer uma escada. Não sabia como fazê-lo. Mas depois lembrei-me e fui descendo degrau a degrau, devagar. Já via a minha casa e fiquei quase feliz. Mas ainda faltava mais caminho para andar. Este mais iluminado e liso. Nisto, sai um casal com dois cães. Havia pessoas, portanto, que viviam o dia, a noite, com normalidade. Eu não. Estava em viagem, a caminho de casa, na direcção certa, mas completamente perdida. Sentia que tinha ainda quilómetros para andar e agora com mais pessoas e cães. Atravessei uma estrada e depois outra e tinha apenas uns metros, poucos, à minha frente. Quando finalmente abri a porta do prédio, a ideia das rotinas que me esperavam em casa não me deixaram sentir o alívio da chegada. Quando entrei no elevador, vi alguém com os olhos muito abertos e com dificuldade em respirar. Era eu. Entrei finalmente em casa. Não me olhei ao espelho, não levantei sequer a cabeça. Eram dias em que sentia muita pena de mim, me ia abaixo, sucumbia a toda a hora, encostada às paredes, ao frigorífico, às portas.
Depois deitei-me. Lá fora o vento continuava. Outrora, essa fúria contra os vidros ter-me-ia embalado e feito dormir. Mas não nesse dia. Nesse dia, procurava na minha mente, algures, uma imagem que me fizesse sossegar, uma imagem tirada dos meus sonhos. Em vão. Aquela não foi uma noite de sossego. Foi uma noite - de muitas - de grande inquietação. Foi uma noite de ter pena de mim, encostada à almofada, às almofadas, de encobrir a cabeça sob as mantas e ter pena de mim...

Wednesday, March 07, 2018

Poeira


O lugar mágico, que já não existe. Aliás, só existia verdadeiramente de noite, naquelas noites em que conseguia ficar nele, sozinha, sentada numa das cadeiras a beber café e a fumar. A luz apagada, claro. Não havia medo nem do isolamento nem do escuro. Mas havia escorpiões e aranhas grandes... Não fazia mal, só o prazer de ter conseguido ficar só eu, a noite inteira, fazia esquecer todos os medos. Até do pio das corujas, que sempre me deprimia um pouquinho. Mas não. Pelas imensas janelas de vidro entrava a claridade da lua. E eu fumava e fumava e fumava e bebia café e o que fosse e ouvia  - baixinho, para não desassossegar os espíritos malignos da noite - Santa Esmeralda uma e outra vez. Ao longe, em Espanha, os montes erguiam colunas compactas de escuridão, mas havia sempre uma luz de um carro, talvez, qualquer coisa que emitia luz elétrica, um pontinho, quase uma estrela, uma coisa bela e surreal. Por vezes adormecia naquela cadeira, cigarro na mão, a cabeça enevoada por qualquer bebida mais forte - não muito. Afinal a alegria de nada acontecer, de estar como que parada na noite, também inebria e embriaga. Adormecia, como estava a dizer, com os olhos postos nas colunas de escuridão à espera de ver aparecer os focos longínquos de luz. E os Santa Esmeralda rodavam no gira-discos uma e outra vez. Eram a única coisa viva na noite calma do sítio mágico. Que já não existe.


Sunday, February 25, 2018

Stay with me





A música de Clint Mansell tem sido uma descoberta bela  e inesperada. Mais, os comentários daqueles que, como eu, gostam da sua música são igualmente fantásticos, uma companhia. Quando os leio, é como se estivesse na presença daquela gente, a trocar impressões.

Há imensas frases inspiradoras, deixo estas:







Tuesday, February 06, 2018

O abraço dos amigos...



Obrigada!

Imagem: http://psicoativo.com/2016/04/jung-do-mesmo-modo-que-aquele-que-fere-ao-outro-fere-si-proprio-aquele-que-cura-cura-si-mesmo.html, consultado 6 Fevereiro, 2018

Monday, January 29, 2018

Reason With Me





Tentei animar alguém que não conheço, através das redes sociais, e enviei-lhe esta canção. Claro que também lhe enderecei algumas palavras, penso que de desconsolo. Não saberia, de momento, dizer outro tipo de palavras... Espero que não se atire pela janela...

Diz o roto ao nu.

Monday, January 08, 2018

Monday, January 01, 2018

Kazuo Ishiguro

O romance The Remains of the Day foi, para mim, o melhor de 2017. Li muita ficção, procurei encontrar-me em muitas personagens, e fui encontrando vestígios aqui, vestígios ali. Finalmente, porém, sinto que sou ou que me tornei o mordomo Mr Stevens. Pior: quando um  dia fizer uma viagem - que não farei - não terei sequer quem esteja à minha espera para se despedir de mim, e com emoção. O que é que Mr Stevens fez para se afastar de todos? Concentrou-se na sua profissão, que lhe trouxe pouco mais que humilhações abertas ou mal disfarçadas. Eu não. Afasto as pessoas porque é da minha natureza. Acontece.  

Saturday, December 30, 2017

"Nightwalking" by Boris Groh



«É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fim da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar

(...)»

Ruy Belo

Saturday, December 16, 2017

Fugiram de Casa de Seus Pais - Episódio 2

Fugiram de Casa de Seus Pais - Episódio 2 - RTP Play - RTP



Agradeço ao MEC, ao Bruno e ao Markl por terem trazido um bocadinho de riso e de esquecimento a este dia tenebroso...

Friday, December 15, 2017

BarlowGirl - Carol of the Bells/Sing We Now of Christmas




Carol Of The Bells





Procurei esta cântico durante séculos! E agora encontrei-o em múltiplas versões, cada uma mais bela do que a outra. Lindo!

Sunday, December 10, 2017

A Queda de um Anjo





Dustin Hoffman era um dos meus actores favoritos. Não é mais. E tenho pena, porque não conseguirei tornar a ver esta cena do filme O Perfume com o mesmo encantamento. DH afinal não aprendeu nada com o seu papel em Tootsie. Era afinal um boçal, um grosseiro, que dizia coisas horríveis, como ele próprio admitiu, a mulheres. Na altura era aceitável. E era. Aliás, continua a ser... Tentei perdoá-lo. Mas afinal não eram só palavras as armas de arremesso contra mulheres. Eram também as mãos imundas.

Haverá alguma mulher que não tenha lindas histórias do género para contar? Eu tenho. A última, já eu era cinquentona! O que é que fiz? Fiz de conta que não aconteceu, dado o ridículo, o insólito e a personagem. Mas está, de facto, na altura de não fazer de conta. Aliás, os homens com excesso de testosterona causam-me sempre alguma indisfarçável repugnância! 

Friday, December 08, 2017

Fugiram de Casa de Seus Pais





Adorei. Senti como se estivesse também nesta casa linda e acolhedora do MEC. Penso que não faria falta o convidado. O Bruno N e o MEC dão conta do recado. Foi uma espécie de regresso ao nonsense da revista K.

Lindo!

Monday, December 04, 2017

Companheiros da noite


Até amanhã, ainda há uma noite para passar. São poucas horas, mas estarei sozinha, com os companheiros de sempre. Os meus melhores amigos.

Friday, December 01, 2017

Tardio



“agora passo ao de leve pelas coisas
 e tudo é transparente
 sou um fantasma sou um anjo
 nem sequer de cócoras posso estar
 o mundo é cada vez menos inconsistente
 escrevo tudo como se fossem cartas
 trespasso objectos com um olhar diáfano
 posso agora assistir melhor
 ver como cai o pó
 essa preocupação inverosímil
 um pouco tonta
 quando tudo se esboroa
 sei agora como cai
 não sei como é estar vivo”

 Rosa Oliveira, tardio


Imagem: https://www.facebook.com/zdzislawbeksinski/photos/a.410569045757276.1073741828.403676586446522/700296513451193/?type=3&theater, consultado em 1 de Dezembro, 2017


Thursday, November 30, 2017

Mais um dia...




... e menos um dia também. Dia inenarrável.

«A boa educação consiste em tornar mais confortável e agradável a existência dos outros: bem cultivada, é uma forma de bondade.»

Miguel Esteves Cardoso

Não existe nem  conforto nem bondade na minha vida... 

«Deixem os mortos em paz. Poupem nas litanias. Eles já não vos ouvem. É capaz de ser essa a vantagem de estar morto. Já não vão poder chateá-los mais. A sério: deixem os mortos em paz, pá.»

Carlos Vaz Marques

É uma vantagem, sim, dos mortos: já ninguém pode chateá-los. Ninguém!

Imagem: https://www.facebook.com/zdzislawbeksinski/photos/a.410569045757276.1073741828.403676586446522/950417721772403/?type=3&theater, consultado em 30 de Novembro, 2017

Friday, November 24, 2017

Pedro Rolo Duarte


...morreu. Eu lia o Independente e a revista Kapa. Via-o no Falatório da RTP2, se não estou em erro. Por vezes, ouvia o programa Hotel Babilónia. Agora partiu. Que pena. Tudo acaba.

Thursday, November 23, 2017

Noite de Chuva



10 da noite. Terminou o dia de trabalho. Vou para casa. Uma colega traz-me no seu carro. Mas ainda tenho que pagar a factura da água. É urgente. Abro o guarda-chuva, com muito prazer, e vou ao multibanco. Para abrir a porta e dirigir-me à máquina, paro para tirar o cartão. Estou carregadíssima: o computador para um lado, o guarda-chuva, a mala caótica, na qual tento chegar ao cartão. Enfim, estou em frente ao banco, tentando equilibrar tudo aquilo. Claro que das profundezas da mala nada sai:

«É preciso ajuda, minha senhora?»

São dois homens da minha faixa etária que passam por mim, cada um debaixo do seu guarda-chuva. Olho para eles, e vejo simpatia pura:

«Obrigaaaada.»

Arrasto as sílabas. É a minha forma de lhes agradecer o terem dado por mim. Eu gosto de ser invisível, mas também gosto quando me vêem.
A noite parece estar a correr bem. Que bom!


Imagem: https://afremov.com/THE-SPECTRUM-FOR-HAPPINESS-PALETTE-KNIFE-Oil-Painting-On-Canvas-By-Leonid-Afremov-Size-40x30.html, consultado em 25 de Agosto, 2017