Tuesday, July 31, 2007

Cemitérios


Nenhum dos meus amigos gosta de cemitérios. Acham-nos sinistros! É para lá que se vai quando se morre. Ninguém parece apreciar a sua última morada. Que ingratidão!
Lembro-me do primeiro enterro a que assisti e me ficou registado na memória. Tinha morrido uma amiga. Depois de acomodada no caixão, com rendas e flores, foi depositada na igreja. O velório durou a noite inteira. Ficámos sentados nos bancos duros a noite inteira, fazendo também algumas incursões pela noite, para espantar o sono. Contaram-se anedotas, claro! Contam-se sempre anedotas nos velórios, se bem que, os novos espaços dedicados à função sejam de tal modo apertados, que se perdeu este venerável hábito da piada à boca da urna. Afinal, não convém rir na cara do defunto. A piada fúnebre deve manter uma certa compostura. Há quem diga que esta é uma forma de canalizar as emoções e atenuar a tensão. De facto, o ser humano parece estar sempre tenso! Por isto ou por aquilo, por tudo ou por nada, o ser humano está sempre a acumular tensão. Continuando, fez-se portanto o velório pela noite dentro. O enterro, no entanto, era no Norte, a uns 400km do lugar onde o corpo se encontrava. Não me lembro se tomámos o pequeno almoço e partímos ou se almoçámos e partímos. Não sei. Foi há muito tempo. Sei é que chegámos ao cemitério quando a noite começou a cair. Chovia também. Uma chuvinha miúda e persistente na escuridão cada vez mais plena do início da noite. Parece que estou a ver: chove, há um muro branco ao fundo, há lápides a escurecer na noite, o caixão ergue-se e depois vai sendo descido para o jazigo, agora vê-se só um triângulo do caixão e tudo fica imóvel. Em redor, as pessoas protegem-se da chuva. São poucas pessoas. Estão incomodadas com a noite e com o cemitério. E lá estou eu também, fascinada e agradecida pelo enterro à noite e à chuva. Torno a ver e continua tudo parado: o caixão ainda não desceu, só é visível um ângulo de madeira castanha e uma pega de metal, a escurecer no fim escuro da tarde.
Descansa em paz, minha amiga!!

Monday, June 25, 2007

Pertencer

Tornei-me membro de um site à minha medida. Ali encontro pessoas e temas que me fascinam. Ali poderei falar daquilo que me apaixona, com pessoas que me entendem. A morte não é um tema lúgubre, sinistro, que só interessa a pessoas perturbadas. A morte é apenas o fim da vida, o seu último capítulo, última cena. Alguns grandes escritores, tão grandes que encaravam a morte com naturalidade, terão feito questão de representar o seu último acto em grande estilo. Oscar Wilde, por exemplo, que depois da prisão passou a viver na miséria, fez questão de beber champanhe no seu leito de morte, após o que, pobre como era, terá dito: "oh não! Estou a morrer acima das minhas possibilidades!"
Agora tenho a minha tribo. Eles entendem-me!

Wednesday, June 20, 2007

Eutanásia

Começa-se a falar da eutanásia em Portugal. Penso que desta vez é a sério. Um médico, a fazer a sua tese de mestrado, recolheu, através de inquérito, a informação de que 40% dos oncologistas são a favor da eutanásia em doentes terminais. Já há quem estejsa aterrorizado com a possibilidade da legalização.
O que é a vida afinal? Porque é que, como dizia um poeta, "temos que viver até morrer?" Parece que da vida só interessa garantir que se nasce - logo, não ao aborto, sob hipótese alguma - e que se morre quando chega a hora para tal - logo não à eutanásia e não ao suicídio, sob hipótese alguma. Depois, entre um extremo e o outro vale tudo: vidas miseráveis, falta de condições, discriminações várias, desemprego, horizontes estreitos, violência, indignidade, doença, sofrimento, dor. Não importa! "A vida por si só já é uma dádiva maravilhosa", dizem alguns! Ridículo!
Eu quero viver apenas enquanto me for humanamente possível. Penso que dificilmente viverei "até morrer". Creio bem, que morrerei antes desse dia...

Saturday, May 26, 2007

Exposição

A morte é vista de várias formas em diferentes épocas. O morto inspira sentimentos diferentes em tempos e culturas diferentes. Às vezes é reverenciado, outras não. Tudo depende. Mas não é dos mortos que quero falar... É daquela exposição grotesca, pseudo-didáctica, que tem corrido mundo.
Corpos de mortos, devidamente tratados, expondo toda a sua anatomia. É educativo, dizem. É cruel, digo eu. São corpos de indigentes chineses, corpos não reclamados. Gente que não foi amada por ninguém, enquanto viveu, gente anónima... gente que não viveu e que não poderá sequer morrer, isto é, habitar o mundo dos mortos. Ficar aconchegada sob a terra por toda a eternidade. Em vez disso, tornaram-se estátuas, figuras mudas, insepultas, suportando o olhar anónimo de quem as observa ora com fascínio, ora com horror.
É às pessoas reais que já foram, que quero dizer: descansem em paz!

Saturday, May 19, 2007

Fazer serão

Eu tinha talvez 4 ou 5 anos. A aldeia era uma como todas as aldeias naquele tempo e naquela geografia, era só natureza: árvores, montes, rios, lindas paisagens e casas modestas. A minha casa tinha alguma cor, digamos assim, mas a minha mãe era uma disciplinadora. A avó não. Por isso, eu ia com ela, de noite, aquelas noites de Inverno, para ficar a dormir na casa dela. A mãe deixava. Porém antes de deitar, íamos fazer serão junto à lareira do senhor e da senhora António/a. Era uma casa escura, apenas iluminada pelas labaredas do lume que nos aquecia. A conversa deles deveria ser interessante, mas eu não a compreendia. Limitava-me a sentir-me bem. Riam todos muito e eu ria também.
O senhor António era o que falava menos, mas ouvia com atenção. A minha avó e a senhora Antónia tinham stocks inesgotáveis de histórias, mas a minha avó era a que falava mais. Eu ficava à espera que o momento de ouvir: "vamos dormir neta, que já são horas" não chegasse.
Estou aqui e estou a ver-nos. Claro que já todos morreram. Do grupo só eu estou viva, ainda. Eu pequenina e loira com os olhos no fogo a sentir-me feliz, o senhor António ora calado, ora a rir. A avó a falar alto cheia de energia e a senhora Antónia atenta e pronta a desatar às gargalhadas, com o abanador de palha na mão, ora abanava o lume, ora abanava no meio das próprias pernas. Não sei se com malícia ou inocência. Que interessa?
Foram os serões da minha infância. Tão banais mas que me faziam tão feliz!

Friday, March 09, 2007

Viver


Ando mais morta que viva...! Vale-me o facto de estar de bem com a morte, senão...! O mal de andar quase morta é a falta de ânimo para escrever todas as histórias que tinha e tenho para contar aqui. Vou outra vez ao Spectrum, buscar uma imagem. Toda aquela calma acalma-me, faz-me viver.

Sunday, January 14, 2007

Outros poemas


Primeiro quero dizer que a imagem que incluí no outro dia, foi tirada de um site brasileiro, Spectrum.
Há poemas de amor e há outros poemas. Não conheço muitos poetas que escrevam sobre os mortos, embora conheça alguns que escrevam sobre a morte. A morte na poesia é uma coisa banal. Há a ideia de ligar o amor, o acto físico do amor à morte. Não o compreendo, mas faço de conta que sim. Claro que sim! Amor e morte têm tudo a ver, digo eu. Mas penso, o amor só tem a ver com a morte se quisermos falar da vontade que temos de morrer, quando algum amor acaba, embora continue intacto no nosso coração. Aí o amor é morte ou vontade de morrer, de não ser, de desistir, de "dexistir".
Mas falo de mortos, do livro de poesia de Fernando Echevarría. Comprei-o devido ao seguinte verso: "A solidão é essa morte imensa/ onde os mortos não cessam de viver". Li este verso numa crítica ao livro. Por isso, aqui deixo mais uns versos, para que aqueles que como eu têm na morte uma referência da sua vida possam saber que este livro existe e é simplesmente belo.

O corpo dos defuntos é enigmático:
não tem além de si nem dentro.
Nada se lê no seu volume. O pacto
substante que sustenta o pensamento
cedeu lugar a um vácuo
a dar somente para estar cedendo.
O corpo dos defuntos é enigmático
porque o enigma, nele, perdeu seu peso.

ECHEVARRÍA, Fernando, Sobre os Mortos, Porto, Afrontamento, 1991, p.63

Sunday, December 31, 2006

2007


2006 morreu. Que pena! Penso que fui feliz em 2006. Por mim, seria uma mulher parada no ano passado.

Tuesday, December 26, 2006

Natal no cemitério

Invejo a paz dos cemitérios na altura do Natal. Na confusão de luzes, de compras, de carros, de pessoas em correria obrigatória para lugar nenhum, de ceias nocturnas que têm imperativamente de se realizar, invejo a paz dos cemitérios. É bom imaginar um sítio sereno onde apenas se agitem arbustos sob a luz do luar.

Wednesday, December 06, 2006

Imagens

Tentei, em vão, introduzir uma imagem. Não consegui. Foi como que a morte de um desejo meu.

Saturday, December 02, 2006

Ao meu pai

Queria ter começado por falar da morte do meu pai, mas ainda não sou capaz. Vou esperar por um outro dia, para recordar todos aqueles dias de pesadelo até a morte redentora ter vindo gentilmente para o salvar.

Monday, November 27, 2006

Mário Cesariny

Morreu Mário Cesariny o poeta do surrealismo português. Que descanse em paz. Não tenho jeito para elogios fúnebres. De algum modo, aqui sentada em frente ao meu computador, penso no poeta agora silencioso e livre de todo o sofrimento. Imagino-o inerte no espaço exíguo que o contém, fruindo o nada num qualquer cemitério, aberto à escuridão da noite. Chove e possivelmente não há sombras em parte nenhuma. É uma paisagem lunar ainda que não haja lua. Já o disse, acho os cemitérios sítios insuportavelmente belos. Cesariny, ao fim dos seus mais de 90 anos, faz parte dessa beleza sombria. Algures, alguém, de certo, lê, neste momento, um poema seu.

Friday, November 03, 2006

Cadáver de Coração Pulsante

Para mim a morte é um assunto sério, mas não muito sério. Gosto de falar da morte, de visitar cemitérios, de ir a enterros, velórios. Tudo o que está ligado à morte me atrai. Mas não gosto de falar de doenças, estas são propiciadoras da morte, mas não são a morte. Não me atrai o sofrimento que envolve a morte, de todo. Quem está morto já não sofre, pelo menos que se saiba... Não sou mórbida, apenas gosto dos temas ligados à morte. Quando chego a um lugar desconhecido o único sítio que me apetece visitar é o cemitério. Um cemitério infunde uma paz absolutamente incomum. Gosto de livros que falam da morte sejam de ficção ou de carácter ensaístico. A expressão "cadáver de coração pulsante" encontrei-a no livro de Mary Roach, A Vida Misteriosa dos Cadáveres.
É um livro excelente que prova que há vida para além da morte. Não essa vida de fantasma ou de espírito ou de assombração. Vida mesmo, no sentido da acção. O livro relata uma série de histórias protagonizadas por cadáveres, essencialmente daqueles que em vida legaram o seu corpo morto à ciência, mas também daqueles que não tendo feito esse legado, eram, em tempos, roubados das suas sepulturas para acabarem sobre uma mesa de dissecação. Há também outras histórias. Muitas são as àreas em que os cadáveres podem ser úteis àqueles que ainda estão vivos. Uma dessas áreas é aquela em que temos um cadáver de coração pulsante, ou seja, alguém cerebralmente morto mas cujo coração ainda bate e por isso está, apesar de morto, em condições de salvar a vida de alguém com os seus órgãos.
A experiências em cadáveres são muito úteis para a investigação, tanto no campo da medicina, como noutros campos. O mais fascinante diz respeito às chamadas quintas de cadáveres. Já tinha lido um romance onde se falava nestas quintas e, por momentos, pensei que elas eram apenas fruto da imaginação do escritor. Mas não, elas existem. São campos onde se colocam os cadáveres, para se registarem as várias etapas da decomposição que ocorrem em diferentes situações. O objectivo de tal é ajudar a polícia e os patologistas a descobrir as condições em que alguém morreu em caso de assassinato. Ou, melhor dizendo, um dos objectivos.
Mary Roach escreve bem, com imenso humor e fornece muita informação sobre os cadáveres que não se limitam a permanecer inertes sob a terra. O livro começa assim: "A meu ver, estar morto não é muito diferente de fazer um cruzeiro. Passamos a maior parte do tempo deitados de barriga para o ar. O cérebro desliga. A carne começa a amolecer. Nada de novo acontece e as expectativas em relação à nossa pessoa são completamente inexistentes."