Monday, August 04, 2014
Comboio nocturno...
Quando acabar isto, esta coisa insana em que me meti, que só me daria prazer, verdadeiramente, se dependesse só de mim, sem mais, vou enfiar-me num comboio, de noite, e fazer uma viagem... juro!
O amor....
O amor causa-me horror; é abandono,
Intimidade...
... Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo [...]
A consciência, o pensamento aberto
Tornando-o impossível.
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar nalguém. Horror eu sinto
A que perscrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber do todo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito de outros homens.
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo —
Horroriza-me: acostumei-me cedo
Nos despimentos do meu ser
A fixar olhos pudicos, conscientes.
Do mais. Pensar em dizer "amo-te"
E "amo-te" só — só isto, me angustia...
(Fernando Pessoa)
Tuesday, July 29, 2014
Saturday, July 26, 2014
Thursday, July 24, 2014
Funniest bit of 'life of brian'
Espero que os conhecimentos magníficos do estimado auditório, lhe tenha permitido perceber que aquele ser de cabelo muito comprido e escassa indumentária esteve enfiado, há dezoito anos, num buraco em pleno deserto, quando foi interrompido pela turba , insuportável. Espero que tenha percebido também que o pobre, embora incomodado pela interrupção - como eu o entendo -, acabou por dizer, quase feliz, pobre tonto que é: «I'm a live! I'm alive».
Pois bem, embora não tenha, infelizmente, estado enfiada num buraco durante 18 anos (chuif), mas apenas há alguns dias, quero juntar a minha voz à dele para, em vosso benefício, caro auditório, dizer, com voz esganiçada, mas vestida: I'm alive! I'm alive!
Friday, April 18, 2014
Gabriel Garcia Marquez
Morreu. Foi esta edição de Cem Anos de Solidão que li: inesquecível!
Gabriel G.M. foi, é o meu escritor favorito. Não é um dos favoritos. É O favorito.
Macondo, a avó morta com que as crianças brincam, o fantasma amarrado à árvore, o gigante que fazia a terra estremecer à sua passada, as vacas a invadirem o palácio do coronel, o patriarca com o seu testículo enorme, o telegrafista apaixonado a espavorir os cães com os seus poemas de amor, o rapaz que vive rodeado de borboletas, o fio de sangue imenso como um rio, o deserto, o calor imenso, as putas tristes... e o médico que cai, subitamente, de uma árvore e morre, sem mais, perante o sofrimento de quem o ama. Um universo mágico, único, povoado de personagens igualmente inesquecíveis.
...
Wednesday, April 16, 2014
Friday, April 11, 2014
Sue Townsend
Morreu a escritora - genial - conhecida por ter criado Adrian Mole, personagem memorável. Um rapaz comum, como todos "nós", a contas com a sua mediania, a sua luta por chegar mais alto, conseguindo, nesse esforço, apenas descer mais um degrau. Escreveu também a Rainha e Eu e um outro igualmente hilariante. Porém, nem só de humor se fez a sua obra. É muito pouco mencionado o romance Crianças Fantasmas, excelentíssimo, que trata de temas como o aborto e a parentalidade.
Agradeço todos os momentos que passei e passarei, ainda, a ler os seus livros.
Sue Townsend tem a sua assinatura própria. Com ela, morre aquela maneira única de escrever, de observar a realidade, de escrever sobre ela e de a metamorfosear.
Ah, espero que ninguém tente recriar Adrian Mole, porque ele morreu também, com a sua criadora. Adeus aos dois!! Chuif chuif.
Monday, April 07, 2014
Saturday, April 05, 2014
José Wilker
Morreu o actor excelentíssimo, genial, incomparável, de voz profunda e sedutora, que preencheu tantos momentos vazios dos meus dias.
Saudade...
Monday, March 31, 2014
A organização do caos
Wednesday, February 19, 2014
Desumanização
«Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a beleza das civilizações antigas e modernas.»
«A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados.»
Frei Bento Domingues, Público de domingo.
«Trata o outro não como tu gostarias de ser tratado, mas como ele deseja sê-lo». Laura Laura, sobre a aprovação da eutanásia a menores, na Bélgica. Público de dia 17 de Fevereiro.
Se Frei Bento e Laura Laura soubessem como tornam mais leve o meu dia...
Wednesday, February 12, 2014
Monday, January 20, 2014
Wednesday, January 01, 2014
Tuesday, December 31, 2013
Monday, December 23, 2013
A coisa..
Outro: E que tal?
Eu: ... nada de nada... indescritível... uma parvoíce... e fomos obrigados!!!!
Outro: Alguma coisa aprendeste certamente. Muito gostam vocês de desgostar de tudo, francamente.
Eu: Aprendi, sim, sobre virilhas...
Outro: Virilhas?
Eu: Virilhas de gente gorda... parece que ficam assadas...
Outro: O que vocês se divertem...
Eu: E, depois, o tratamento faz crescer o bicho...
Outro: Qual bicho?
Eu: Sei lá... eu não tenho problemas nas virilhas...
Outro: E sobre indisciplina?
Eu: Nada!
Outro: Nada? Mas não era o tema?
Eu: Seria... se o palhaço se tivesse dado ao trabalho de se preparar.
Outro: Mas nem um bocadinho?
Eu: Pelo menos que eu tenha ouvido, não. O sujeito bamboleou-se, contou umas peripécias, disse palavrões ... para mostrar que é moderno... penso eu... insultou toda a gente e tratou-se a si próprio repetidamente por doutor...
Outro: ihihihihihih eheheheheheh
Eu: chuif chuif
Sunday, November 24, 2013
Monday, November 04, 2013
Poema dum funcionário cansado
A noite
trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me
os amigos
tenho o
coração confundido e a rua é estreita
estreita em
cada passo
as casas
engolem-nos
sumimo-nos
estou num
quarto só num quarto só
com os
sonhos trocados
com toda a
vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma
não acompanha a minha mão
Débito e
Crédito Débito e Crédito
a minha alma
não dança com os números
tento
escondê-la envergonhado
o chefe
apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me
na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia
exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter
cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente
perdido no meu cansaço
Soletro
velhas palavras generosas
Flor
rapariga amigo menino
irmão beijo
namorada
mãe estrela
música
São as
palavras cruzadas do meu sonho
palavras
soterradas na prisão da minha vida
isto todas
as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto
só
António
Ramos Rosa
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