Abri a porta e saí para a rua. Estava na hora de iniciar a
minha viagem. Não era apenas uma deambulação, como tantas vezes faço. Era uma
viagem. A comprová-lo, bastaria ver a mala sem rodas que pendia da minha mão.
Mala vazia, claro, porque o peso tiraria todo o prazer e leveza da minha viagem
nocturna, a pé, pela linha escura do horizonte.
Teria que atravessar uma série de campos profusamente
cultivados: milho, morangos, couves, pimentos, etc.. Tudo muito verde e
colorido, embora, no escuro da noite, não se pudesse apreciar devidamente,
claro, nem o verde nem o colorido. E lá seguia eu, no meio das couves, em
direcção ao meu destino, esperando que ele não tivesse mudado de lugar. É este,
aliás, o único inconveniente dos sonhos, nunca se sabe bem o ponto de chegada. Mas
também não interessa. Interessa, isso sim, evitar a luz do dia. A todo o custo!
O dia é o palco da realidade e esta é sempre de evitar. Especialmente
a última moda em realidade. Não sei se acontece só comigo, mas a minha
realidade anda cheia de gente apodrecida, gangrenada. Não vejo ninguém com boas
cores. É só gente meio podre ou completamente podre. E gente muito velha e
triste. E jovens. Mas os jovens também estão apodrecidos, embora não o saibam,
porque se vêem muito ao espelho e o espelho lhes diz que eles são os jovens
mais belos de sempre. E eles acreditam. Interrupção. Um momento.
Só os morangos negros claros, do campo cultivado da minha noite de viagem,
conseguem afastar os meus pensamentos da realidade insalubre da luz do dia.
Mais uns passos e cheguei. Está tudo no lugar: árvores
enormes, com candeeiros de luz amarela no meio delas. E uma cerca em torno de
um bosque ali perto. Que beleza! Não pensei que conseguisse vir duas vezes a
este sítio. Mas consegui. Poderia voltar para trás, para casa, fazendo a viagem
de regresso. Mas há um portão aberto na cerca do bosque. Entro. Sinto, então,
que o dia está para amanhecer, juntamente com as pessoas e as suas coisas. Há casas
ao longe. Há fumo a sair das chaminés. Adivinha-se movimento, vozes, bulício:
tudo coisas a evitar! Ainda tento sair do bosque, mas o portão da cerca já está
fechado. Procuro, então, uma árvore grande que me proteja e a minha mala abre-se
para me esconder. É uma mala enorme. Quem diria? É confortável. Toda forrada de
cetim branco. Há até algumas flores em meu redor. Mantenho-me quieta, deitada,
as mãos sobre o peito e os olhos fechados. Descanso.
Sei que à hora do cair da noite, quando os monstros
apodrecidos recolherem às suas casas e desocuparem as ruas, a mala vai abrir-se
novamente, para eu continuar a minha viagem.
(continua, talvez)
https://wall.alphacoders.com/big.php?i=1364036, consultado em 15 de Março, 2026

4 comments:
oh d, fogo. sim, a realidade e as pessoas são mesmo para evitar. nada mais saudável que a solidão e um livro. eu a amo.
ama kem, Ju? Mim? ninguém ama mim...eu sozinha ca minha mala...
Eu gostava que continuasse. Adorei o conforto da tua "malinha"...
O importante é a mala!
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