Friday, June 03, 2011

Do Riso e do Esquecimento


Viagem: enjoo. Vomidrine. Socorro. Estrada fora, estrada ladeada de árvores. Uma boa estrada para viajar, pena a viagem propriamente dita. Companheiros de viagem? Foge!! Eu pratico o mutismo, com os olhos agarrados ao alcatrão. Fala-se, porque é importante que alguém oiça. «Farto-me de chorar». «Eu também choro muito». «Agora mesmo estou à beira das lágrimas». E eu, que nem um rato, calada, com os meus botões: quanto mais choram menos urinam . Semáforo, travagem brusca. Irra! Chiça, bacio! « Estou stressada, mas tão stressada…». «Não me stresses ainda mais». Falam as duas (companheiros de viagem) como se fizessem um treino para o campeonato dos desgraçadinhos. Tss Tss. Rasc, rasc, rasc: coço a cabeça. «Ontem tive um ataque de choro, assim, sabes?», «E as vezes que eu choro quando estou contigo», «E eu contigo», «Mas eu já chorei mais vezes contigo do que tu comigo». Arghhhhh. Estão aqui estão à chapada, para que uma não diga que a outra é que chorou mais. Penso que estão a tentar comover-me. Bem podem esperar. É mais fácil fazerem-me um carrapito no cimo da cabeça do que comoverem-me. «Não estou a conseguir aguentar, estou ansiosa», «E as insónias? Não prego olho», «Ontem às 5 da manhã já estava acordada», «A essa hora ainda eu não tinha adormecido!», «Oh… pá!». Ó pá digo eu! Que estaria eu a dizer se continuasse fraternamente a partilhar a amizade bacoca e trauliteira? Há tanto a dizer sobre insónias. Quase não me tenho de focinho calado. Mas durmo bem melhor agora, depois da desparasitação da minha pessoa, olarila! «Se não fosse a partilha, o desabafo», «Pá, o desabafo é fundamental. Ouve… Eu explodia!». Então porque é que não explode? Sempre era uma coisa divertida! Eu é que explodi. Euzinha, pois intão. Bem me lembro da sonsa e da atabalhoada em frente ao meu nariz. “…coiso…tu é que te ofereceste, não foi, fulana?”, “ …e coiso…eu e tal…e coiso”, “ mas afinal, quem é que se ofereceu?” digo eu, que nem sou sonsa, nem atabalhoada, nem ronhenta, nem burgessa (etc.) , e ela “…coiso… e mais coiso…”. E eu “Ó beltrana, mas quem é que coiso …e mais recoiso? Hein?”. E ela, sonsíssima: “Coiso! Coiso!” e depois sem papas na língua, viperina, quando a atabalhoada tinha virado costas, diz a sonsa: “Viste, como ela ficou toda contente de tu não quereres estar com o grupo dela?” E eu: “Tesc, tesc. Beltrana da silva, não me tornas a comer as papas na cabeça”. E ela de fronha falsíssima: “Uai! Tchiiii”. Nem tchi nem tchu. Vai pregar para outra freguesia. E nisto, voltando à viagem: «Olha aííííííííííííííííí´ o carro de bois!» VvvvvvrrrrrrruuuuuuuiiiiiiiiimmmmmmmmmcccccccraK! «Bolas, pá, se calho a bater, os cornos dos bois davam-me cabo da pintura». Decidi então falar, só para que constasse: «Cuidado na condução. Tanta choradeira, tanta choradeira e quase damos cabo dos cornos do boi e dos nossos». Instala-se o silêncio. Pela janela do carro entra a voz do carroceiro: «cabras de meeeeeeee» Não se ouve o resto: …rda! Se não chorarem agora, as carpideiras, não sei quando o farão. «Estava tudo a correr tão bem», «De que é que estávamos a falar?», «Do stress», «ó pá, que neura,… dââ-se!». Eu é que devo ter provocado a neura às duas sicranas. Fui assim uma espécie de catalisador de desgraça. Tomem lá que já aprenderam. CrrrrraaaaaKK. Chegámos. Saímos com os livros e a mala do computador a dar e dar: somos tão profissionais e tão amigas. Ó pá, que raio de sonho eu tive hoje….fosga-se!

Nota: estou em catarse, em catar-se. A catar-me: fora piolho!
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2 comments:

julio césar said...

simplesmente brilhante. brilhantemente lúcido.

Romi said...

Os piolhos incomodam bués, as lambisgoias também...