Thursday, June 16, 2011

Chuva


Eu estava num sítio que era uma mistura de aldeia e de cidade. Na parte da aldeia, que era muito parecida com uma que eu conheço quando não estou a sonhar, havia uma festa de Verão com música, quermesse e baile. Eu via a festa de longe. Era de noite e, àquela distância, tudo parecia um carrocel. As pessoas moviam-se como marionetas felizes. Eu detesto festas mesmo quando estou a dormir! Para onde quer que olhasse, havia um ar de normalidade. Podia ser real, se calhar era. Mas, de repente, a festa foi-se afastando apressada. A noite ficou mais escura. Tomei consciência daquilo que me rodeava. À minha direita, um muro alto terminando em setas servia para rodear uma bela casa, onde tanto podia viver uma princesa encantada como um fantasma desolado e triste. À minha esquerda, deambulavam pessoas muito altas todas vestidas de forma igual: um sobretudo cinzento que os cobria dos pés aos olhos e uns chapéus também cinzentos, sem abas, enfiados até aos olhos. Estes eram anormalmente salientes mas estavam fechados, porém não eram cegos, eram apenas olhos que não viam porque não havia necessidade que o fizessem. Concluí que aquilo era uma rua estranha, com gente estranha e eu andava à procura de uma pessoa normal que queria falar comigo. Fui-me afastando, atravessando várias ruas muito estranhas e belas até entrar num bairro que parecia real. Era ali, naquela estrada ladeada por casas de paredes altas, janelas estreitas, de pintura remotamente branca e escalavrada que queriam falar comigo. Era uma rua deprimente. Entrei na primeira porta que encontrei aberta. Sabia, por instinto, que era ali que estavam à minha espera. Uma voz que não provinha de um corpo, pelo menos que fosse visível, avisou-me de que ainda era cedo e que teria de esperar. Percorri então um corredor muito comprido e estreito em direcção a uma janela. Porém nunca mais alcançava a janela. O corredor alongava-se a cada passo que eu dava e a janela fugia, aflita, à minha frente. Apressei-me, cheguei a correr, estava em pânico, exausta, o chão tinha-se tornado instável e hostil e a janela olhava-me horrorizada. Ouvi então a voz da pessoa invisível dizer-me que já podia entrar, que estavam à minha espera e, mal parei, tudo voltou à normalidade. O chão readquiriu compostura e solidez e a janela, calma, imobilizou-se com um ar inocente. Percorri então o enorme corredor em sentido contrário, abriu-se uma porta e entrei não para uma sala mas para uma varanda gigantesca. Era tudo de uma beleza indiscritível. A pessoa que estava à minha espera não se virou para mim, manteve-se de costas, recostada numa cadeira feita de uma matéria e de uma forma como só se encontra em sonhos. Indizível. Apesar da posição, eu soube logo que também ela pertencia àquela raça de pessoas de olhos enigmáticos. Estava a chover, mas apenas do beiral do telhado que nos cobria. Para lá dos fios de chuva, havia um pomar a perder de vista. Eram árvores de várias espécies, com folhas de diferentes tonalidades de verde, mas todas tinham uma coisa em comum: estavam carregadas de laranjas de cor vermelha. Fiquei muito quieta porque não queria ser mandada embora. Queria ficar ali durante muito tempo a ver a chuvar cair do beiral. E fiquei, até porque a pessoa que queria falar comigo, não só não disse nada, como não se apercebeu sequer de que eu tinha chegado. Para além disso, as portas que davam acesso à casa do corredor comprido e da pessoa invisível tinham desaparecido. Era, portanto, impossível sair. Ainda bem.

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